Parece que hoje o mundo sofre um colapso maior do que eu imaginava. E agora que tenho um conhecimento e potencial muito grande, já não posso mais ajudar as pessoas ou lutar ao lado do meu filho. Pobre alma, jamais imaginaria que eu teria sido pego em uma reviravolta divina e sacrifiquei-me para que ele continuasse em frente.

Orgulho-me de ter mantido meu segredo tão bem guardado de tanta gente, inclusive da própria ordem dos Templários. Eles me deram um título sem saber que eu o merecia mais do que qualquer outra pessoa na época. Eu era o Deus Dragão, aquele que não podia ser atingido por lâmina alguma, graças a minha estratégia e habilidade, era como ter escamas de dragão cobrindo meu corpo, e a magia correndo em minhas veias.

Voltemos ao meu pensamento passado. Depois de ter a missão realizada era hora de voltar para minha casa em Geffen, onde minha esposa me esperava. Passei por uma região de floresta densa a partir da Vila dos Orcs, encontrei em meu caminho um riacho que dava no grande rio, circundando toda a cidade. Ainda tive a oportunidade de passar pelo feudo onde antigamente as várias famílias nobres habitavam, mas agora serviam como abrigos de clãs que travavam lutas no esporte conhecido como Guerra do Emperium.

Tão logo cheguei à cidade notei um pequeno tumulto que se estendia até a torre no centro de Geffen. Muitos murmúrios sobre algo ou alguém perambulando pelas ruínas de Glast Heim e aquilo me interessou muito. Eu estudava há anos a época de glória da antiga capital provisória de Rune-Midgard, onde um rei tirano governava escoltado por guerreiros de um poder imenso. Infelizmente nunca consegui vestígio algum desses guerreiros, mas eu obtive certo conhecimento sobre eles, afinal eu só usava aquela armadura de Templário para mostrar minha humildade, mesmo já não sendo mais limitado àquela classe.

Ao chegar em casa eu fui muito bem recebido pela minha adorável Eliza, o meu raio de sol de todos os dias. Uma sacerdotisa linda, morena dos olhos claros e dona de uma ternura absolutamente infinita. Dediquei anos de minha vida por ela, e era minha razão de viver. Ela e o meu futuro filho. Eliza estava grávida de dois meses e havia parado de freqüentar a igreja de Prontera para que tivesse mais tempo para mim e para o nosso filho.

Ao abrir a porta, beijou-me como de costume e foi para a sala terminar alguns de seus afazeres, enquanto eu iria para minha escrivaninha verificar alguma carta ou um livro. Tinha muitos livros a respeito da história e da linhagem dos templários e ficava lendo os dias.

- Amor, chegou uma carta para você hoje. – Eliza vinha da sala de estar para o pequeno cômodo onde eu estava. Estava com um vestido de linho com algumas presilhas penduradas na cintura, que possuía um cinto fino. Como ela era linda.

- Mais alguma missão perdida por aí? – Como era de costume, eu era tido como um guerreiro excepcional, e modéstia parte eu era mesmo. Era normal receber visitas de pessoas com problemas ou cartas da Ordem para que eu cumprisse meu dever.

- Não. É uma carta direta do Sir Lavaine.

Aquilo me deixou um pouco intrigado. Meu líder era um homem de coração bondoso, uma mente brilhante. Mas não costumava mandar cartas ou sequer contatar diretamente alguém de hierarquia menor.

- Deixe-me ver amor. – Pedi para ela. Enquanto ela ia até a sala para pegar a carta, eu estava envolto por livros, pergaminhos e documentos antigos. Alguém chamado Heirich, um historiador que há muito vinha me mandando esses artigos, estaria, também, interessado nos mesmos vestígios que eu procurava e constantemente me mandava relato e documentos novos. E obviamente eu não lhe entregava nada. Não por que não tivesse mais informações que ele, mas por simples segurança. Eliza voltava com uma carta branca e o selo real grudando a aba com o corpo da carta.

A carta estava impecavelmente cuidada, transcrita com os símbolos do líder e com as marcas da Ordem. Código de emergência era o que significava aqueles símbolos. Abri a carta com cuidado para não rasgar a preciosa informação que me fora mandada. Corri meus olhos pelas letras bem escritas e suspirei de emoção. Enfim havia algo que realmente valesse a pena arriscar. Dobrei novamente a carta e guardei dentro do envelope, colocando em minha escrivaninha. Fui me levantar quando a mão de Eliza pousou sobre meu ombro.

- Você vai sair novamente? – Ela tinha um olhar tão belo que me deixava sem fôlego. Mas agora um ar de tristeza pairava por sobre seus olhos e não tive coragem de mentir. Encarei a lareira a minha frente, sem nenhuma chama viva no meio daquele emaranhado de cinzas, mas imaginei a chama de minha alma nela. Vi-me sóbrio de corpo, mas embriagado na alma com a possibilidade.

- Eliza, eles me mandaram investigar a abadia de Glast Heim. – Respondi sincero, sem sequer encarar minha esposa.

- Mas você vai atrás das pistas não é?

- Sim. – Não pude mentir. Eliza me acompanhou desde o dia em que nos conhecemos e sempre me apoiou na minha busca pelo conhecimento absoluto, e ela era a pessoa a quem eu mais confiava. – Creio que com os dados que consegui em conjunto aos documentos daquele historiador esquisito, acho que encontrarei uma resposta mais concreta.

- Mas precisa sair tão cedo? – Ela havia me dito quando eu levantei da cadeira e me dirigia até o hall de entrada. – Você não tem parado em casa ultimamente. Eu sinto sua falta sabia? Não gosto de ficar sozinha.

Era tão triste vê-la daquele jeito, se abraçando por não ter em quem se apoiar na hora. Seu rosto era brindado com pequenas gotas que escorriam dos olhos e ela ficou corada. Eu fui até ela e a abracei forte. Eu não queria, mas era uma coisa na qual eu havia prometido a meu pai há muito tempo, e infelizmente teria de ser assim. “Pelo menos por mais um dia”, eu pensei.

- Não se preocupe amor. Eu vou voltar muito antes que sinta minha falta. – Tentei consolá-la. Ela sorriu e me beijou. Eu adorava quando ela sorria, pois era tão linda que me achava o homem de maior sorte no mundo. Bons tempos aqueles.

Saí porta a fora enquanto Eliza ficava parada entre o arco, me olhando partir. Eu agora estava obstinado a encontrar a verdade das verdades e desvendar a história. Uma vez prometi ao meu pai que eu iria ser mais forte que ele. Nunca me esqueço do soco que ele me deu quando eu havia lhe dito isso, aos doze anos de idade. Ele sempre dizia que eu tinha que ser mais forte que os verdadeiros heróis de sua era, e só mais tarde é que fui saber que ele se referia ao meu pai biológico. Então fiz uma nova promessa, dizendo a ele que iria superar o lendário Seyren e ser mais conhecido que Uriu. E para isso treinei por muito tempo para ajudar aqueles que mais precisavam, para obter o mesmo reconhecimento pelo meu nome, e principalmente para proteger Eliza.

Nesses momentos de devaneio, havia perdido meu tempo e já estava na base do monte Mjolnir, subindo até onde o caminho ficava tortuoso e se abria para uma pequena área onde uma muralha gigantesca impedia qualquer um de enxergar o seu interior. No caminho havia vários kobolds e petites voadores que não eram páreo para minha espada, e então entrei pelo portão principal. Havia chegado à Glast Heim.

Rapidamente, ao entrar na fortaleza me adiantei e corri em direção à abadia, que uma vez era o local de culto dos poucos habitantes do lugar. As construções eram magníficas e bem construídas, mas elas estavam caindo em ruínas e poeira, castigadas pela força do tempo e pela distorção que emanava de seu interior. Depois da queda de Glast Heim, uma energia maligna tomou posse da fortaleza e a transformou em um lar de seres demoníacos e sombras.

Cada vez que eu mudava a direção do meu passo, ouvia um som estranho, semelhante a uma criança chorando. “As almas dos antigos deviam estar tristes” eu tinha pensado, mas quanto mais eu me aproximava da abadia, mais alto era o som. Aquilo estava intrigando minha cabeça, mas quando eu finalmente havia chegado à frente da igreja em ruínas, notei algo absurdo.

Um recém nascido envolto em panos e trapos estava jogado no chão, e logo a sua frente um homem segurava trêmulo uma adaga ritualística. Aquele homem chorava e batia os dentes repetidamente, e o bebê chorava ainda mais alto. Quando o homem de cabelos esverdeados e bagunçados ameaçou abaixar violentamente o instrumento de morte, eu também havia arremessado meu escudo, sem saber se haveria tempo para impedir a morte da criança.