Diário de Um Nelliw - Crônicas da Luz
11 Caminho Tortuoso
Espada e escudo arrumados. Armadura completa, a alma em pedaços. Arrumei minha mochila às pressas, coloquei suprimentos e itens, mas não importava o que eu usaria, pois eu cometi um erro terrível, e nada nesse mundo poderia reverter tal situação. Mas eu não estava a desistir tão fácil. Mizumi colocou suas vestes de sacerdotisa e se equipou. Estava na hora de resgatarmos nosso filho.
O caminho para Umbala era fácil. E com minha esposa me dando suporte, nós avançávamos rapidamente por entre a floresta até a cidade tribal. Não prestei muita atenção, mas pensei ter visto Kem no meio de algumas árvores, meditando. Não iria contar-lhe nada do ocorrido, para que não o prejudicasse. Encontramos um monge na frente da entrada que dava para Yggdrasil, a árvore que sustenta os mundos.- Shen... – Reconheci quando cheguei mais perto. O monge estava com um manto cobrindo o corpo, usava sandálias e calças folgadas. Sua aparência era de um homem com pouco mais que trinta anos, ainda que fosse muito mais velho do que aparentava ser. Graças ao conhecimento proibido, ele vivia durante anos, ainda que sob vigilância dos deuses. - O que lhe trás aqui, Nelliw? – Falou em seu tom grave. Eu não me lembrava de ter lido no diário que meu pai me deu, se ele tinha marcas em seu rosto também, pois ele estava com algumas tatuagens enormes na face.- Eu vou para o reino dos mortos. – Falei incisivo. Shen suspirou e me encarou.- É sobre seu outro filho e a rainha dos mortos, não é?- Como você sabe? – Mizumi perguntou fascinada. Ela estava tão preocupada quanto eu.- Nós, habitantes de Umbala, temos contato direto com o reino dos mortos. – Falou com uma calma irritante. – Somos descendentes dos próprios deuses, ainda que esse povo seja esquecido e seus conhecimentos estejam escondidos até pra eles próprios.- Então vai me deixar passar. – Falei impaciente. - Sabe que ela está certa sobre seus dois filhos não é? – Shen estava testando minha paciência. E conseguia isso com facilidade.- Eu não me importo com os meus erros, mas sim com os que eu possa corrigir. Ele me olhou de cima a baixo. Encarou-me demoradamente, e enfim deixou o corpo de lado, para que eu passasse. Acenei com a cabeça, Mizumi e eu estávamos andando até o grande portal de entrada, mas mais uma vez ele barrou meu caminho com a mão.- Só entenda que não sairá de lá vivo. Entenda que muito está em jogo. – Ele percebeu que eu estava furioso, mas não demonstrou nada, somente tirou a mão da minha frente e permitiu nossa passagem. E assim eu e minha esposa adentramos na grande árvore Yggdrasil.Lá dentro era um caos, pois havia vários caminhos e muitos monstros a minha frente. Com Mizumi me abençoado e jogando suas magias divinas sobre mim, eu conseguia eliminar rapidamente os vários guerreiros Wootan e atiradores. Meu escudo varria cada área e minha espada tirava a vida daqueles seres grotescos. Comecei a ver a luz afunilando para uma entrada negra, na parte mais funda da árvore, enquanto mais monstros apareciam.- Saiam do meu caminho, miseráveis! – Estiquei minha mão e fiz uma luz intensa ofuscar todos, dilacerando sua carne com o calor, enquanto nós passávamos. Quando chegamos até o portal, vislumbramos uma imagem medonha, de um caminho tortuoso e sombrio. Estava repleto de almas e sombras, seres de energia baixa e fria, mas eu não estava me importando com elas.- Eu quero...Aldora! – Meu grito silenciou a noite, trespassando as almas como calafrios em forma de lâmina. Mizumi estava cansada por causa das muitas magias que me pusera, então paramos perto de uma enorme ponte natural, e do outro lado havia o caminho para a cidade do reino dos mortos, Nifflheim.- Querido, não precisa se desgastar desse jeito. – Minha esposa, sempre dócil, tentava me acalmar, sem resposta positiva. – Se você perder o rumo, nunca conseguirá resgatar nosso filho.- Eu sei! – Disse irritado. – Eu sei, mas não podemos perder um minuto sequer.Eu estava apoiado em um dos joelhos, enquanto ela segurava minha ombreira. Firmei-me e minha espada e me levantei. Era hora de cruzar aquela ponte tortuosa e chegar até onde estava meu filho. Mal chegamos ao final do percurso, fomos recebidos por uma enxurrada de esferas azuis. Rapidamente, Mizumi ergueu um escudo de luz verde na minha frente, me protegendo dos projeteis. - Que bom que chegaram! – Uma voz familiar me fez olhar para a paliçada, depois para o grande arco onde se entrava na cidade. O mestre-ferreiro e o lutador estavam nos aguardando. – Estava na hora de um combate apropriado...- Cale sua boca! – Meu movimento foi rápido, certamente. Não o deixei terminar de falar e dei um salto para alcançá-lo. Minha espada apontada para a garganta do mestre-ferreiro, que estava segurando duas barras de ferro, cuja extensão se apoiava no arco e era impossível distinguir o que seria no meio daquelas sombras. Ele largou e sacou um machado gigantesco, girando o braço para contra-atacar. Era hora de dar minha vida pela do meu filho...
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