Diário de 83

1 O Começo de Tudo


Notas iniciais
O-onii-chan? VOLTEI! ♥ Finalmente, depois de vários meses, terminei a minha longfic! Perto de outras longfics que tem por aqui no site, essa aqui é coisinha de criança, mas foi uma tentativa minha de superar meu último recorde, que foi de 22 capítulos e quase 60k de palavras! Agora vos falarei qual foi minha intenção com essa história! Bom, quem se interessou por essa sinopse e não leu Me dê Uma Chance, outra fanfic minha da mesma pegada que tá disponível aqui no site, eu recomendo ler essa também ♥ Vai ser um pouco parecido, mas do ponto de vista do Morten e sem a fantasia, bem mais pé no chão! Vi que uma galerinha gostou e queria continuação de Me dê Uma Chance, mas eu realmente não tinha mais o que fazer com aquela história, então criei uma nova, com situações novas que sustentam capítulos mais longos! Então espero que gostem de vdd ♥ Essa fanfic faz parte de uma série de 5 histórias! Mas eu só vou fazer as outras se vocês gostarem (então é bom gostarem brincadeiraaa kkkk). Não é chantagem, mas eu preciso saber pq esse tipo de história dá um trabalhão :') Esse é aquele tipo de história que às vezes vão ter curiosidades no fim sobre as pesquisas que eu fiz pra fazer o capítulo, então sempre olhem as notas finais ♥ NO MAIS, OBRIGADA PELA ATENÇÃO E BOA LEITURAAA ♥ ♥ ♥

Kongsberg, Noruega – 13:00 hrs

Setembro, 1982

Bom, esse é um daqueles momentos que você para pra pensar em um flashback rodando.

Era um dia refrescante de setembro, e eu estava aproveitando um pouco daquele tempo ameno pra catalogar as minhas orquídeas antes de topar a viagem dos caras. Okay, estou indo um pouco rápido demais, mas eu já vou contar tudo.

Saí do jardim de casa e subi as escadas pra arrumar a mochila. Eu já tinha avisado a toda minha família que ia partir e não sabia quando ia voltar. Eu realmente não queria estar em casa quando o resultado do processo seletivo chegasse: Teologia, dá pra acreditar? Até uns anos atrás, eu queria muito isso, afinal de contas era a única coisa que eu sabia fazer de melhor, mas dois idiotas me mostraram um caminho ainda mais interessante, uma coisa que me fez questionar se eu estava mesmo seguindo o sonho que queria.

Eles são os meus melhores amigos.

Tem que ser, não é? Pra topar essa loucura que estou prestes a fazer, eles precisam ser mesmo. Eu ainda não sei como o Paul me convenceu a viajar pra Londres e forçar o sucesso a nos abraçar. A viagem vai começar agora mesmo, em setembro, então joguei tudo o que achei importante na mochila, peguei umas economias da minha ex-faculdade (esse termo existe?) e saí para ver meus pais e meus irmãos. Estavam todos reunidos na sala, com a maior cara de enterro. Eu mordi os lábios, sem saber como começar.

— Então… é isso.

— Vai nos ligar, não vai?

Foi a primeira indagação da minha mãe. Eu suspirei e assenti. Olhar nos olhos dela me fez pensar em como eu tinha mudado nesses últimos anos. Sair do ensino médio e procurar algo pra se fazer pelo resto da vida mexeu muito com a minha cabeça. E, quanto mais demorava pra começar essa trajetória, mais frustração velada eu sentia no olhar de cada um deles. Sou o segundo filho deles, eu também sinto a pressão da responsabilidade. Mas eu não sinto que sou pastor, como minha mãe queria, ou músico erudito como o meu pai desejava. O meu futuro era incerto demais, até mesmo pra mim.

— Todos os dias. Pelo menos, enquanto eu tiver ficha.

Brinquei, mas ela estava preocupada demais para rir. Me abraçou com tanta força que eu quase achei estar abraçando o meu pai. Engasguei e devolvi o abraço dela, com um pouco menos de todo aquele aprochego.

— Calma, mãe, eu não vou sumir, prometo!

Eu brinquei novamente, mas eu sabia que ela não se acalmaria enquanto não digerisse a ideia.

— O que você vai fazer em Londres? Tem um plano?

Indagou o meu pai, e eu assenti novamente.

— Eles já estão lá, só estão esperando por mim. Eu disse que não ia se não tivéssemos um plano, e a gente conversou bastante sobre isso. Vamos nos hospedar na capital e procurar uma gravadora, o Paul já tem várias composições prontas. Nós vamos começar procurando um empresário no meio dessas visitas, mas o nosso objetivo principal é lançar esse álbum.

— Você não vai sair de lá enquanto não lançar esse álbum, não é?

Suspirei. Porra, ele sabe que não, mas parece que faz de propósito, só pra que eu questione o quão merda é o meu plano. Por que os pais fazem isso?

— Não, pai. O negócio não é nem o álbum, e sim fazer isso dar certo. Música, não é? É o seu ofício. Eu também quero que seja o meu.

Eu não sei de onde eu tirei aquelas palavras, mas aquilo fez o meu pai se calar. Ele se aproximou e tirou alguma coisa do bolso, em seguida pôs na minha mão e eu pude sentir a textura inegável de dinheiro.

— Se cuide. Vá com Deus.

Eu deixei um sorriso muito discreto escapar e assenti.

Depois dessa despedida cheia de beijos e abraços, eu pus o meu primeiro pé para fora de casa. Por alguma razão, o ar naturalmente gélido da Noruega estava diferente naquele dia. Era uma sensação estranha, de deixar o seio de casa pra se aventurar lá fora. Eu não podia fazer diferente, era o meu futuro que estava ali, me esperando, e ele era um futuro atípico.

À essa altura, gente da minha idade estaria enfurnada em uma sala de faculdade, estudando todas aquelas coisas lá, e muitas vezes eu quis ser como eles. Eu sou só um cara de quase vinte e três anos que gosta de flores e borboletas (eu tô falando sério, porra), eu realmente nunca pensei muito longe, nunca pensei em viajar e tentar ganhar o mundo.

Mas essa história é sobre isso. É sobre ir contra todas as expectativas. É sobre o cara que tem o apoio dos pais, e sobre o que não tem. É sobre ir atrás de sonhos malucos e impossíveis, e sobre conquistá-los debaixo de críticas e desânimos externos.

E era sobre tudo isso que eu pensava enquanto aguardava o trem para a estação de Londres chegar.

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Ruas de Londres, Inglaterra – 09:12 hrs

Dezembro, 1982

Putz, é nisso que dá viver em bairro pequeno. 30 horas de viagem, cara! Se eu soubesse, tinha pego um avião.

E essa nem era a pior parte. Estamos desde setembro em Londres, e as esperanças já estão esvaindo. Os pais do Paul meio que não querem mais manter a estadia dele por aqui, cortaram a ajuda pra ele se sentir forçado a voltar. Vendo essa situação, percebo como meus pais são bons comigo, e toda vez que eu penso nisso, eu me sinto ainda mais grato.

O problema é que, sem o terceiro auxílio, as coisas vão ficar feias. É inverno, tudo o que está lá fora foi inundado por neve, e o frio está tão desgraçado quanto o do nosso país. Estamos literalmente dividindo um quitinete, e não me pergunte as merdas que já aconteceram por causa disso. Uma coisa é certa: eu, com certeza, prefiro garotas.

Hoje, saímos mais uma vez, como todas as vezes, em busca de tentar realizar a primeira etapa do nosso plano, que ainda não tinha sido feita (ênfase no “ainda”, por favor). Imagina a nossa situação: três noruegueses em um país pouco familiar, sem parentes na capital, tendo que fazer o impossível para sobreviver mais um dia enquanto não conseguissem vender seus talentos para alguma gravadora. Paul estava decidido a não retornar pra casa enquanto não fosse famoso, e Magne foi dando corda pra essas loucuras. Eu confesso que admiro a persistência.

— Aahm, fy faen…

— Morten, xingar em norueguês não adianta, a gente consegue te entender.

— Ah, isso é bom! Assim você entende que eu estou aborrecido para um caralho.

Me sentei no primeiro banco de praça que encontrei. Minha cabeça estava começando a girar, eu suava por debaixo daquele casaco quente. Não queria falar para os caras, mas estava com muita fome e já estávamos sem recursos naquele momento.

— Já fomos ali? — apontei para uma gravadora um pouco à frente.

— Já. Na Epic, na Ebony, na Warner…

— Vocês não disseram que tavam com tudo sob controle? Eu falei que era pra gente ter ido atrás de um empresário!

Eles se entreolharam, e na hora eu percebi que não tinham me contado tudo.

— O amigo é seu…

Ouvi o Paul murmurar, enquanto jogava a case da guitarra nas costas e se afastava. Ouvir aquilo me encheu de ânimo pra pegar um punhado daquela neve e jogar naquele cabeção loiro.

Mas então, o Magne sentou do meu lado.

— Escuta, cara… — ele apoiou os cotovelos em cada perna — não esquenta com o Paul. Você sabe como a situação com o pai dele tá.

Eu suspirei e preferi o silêncio. Acho que é a hora perfeita para uma apresentação.

Esse é o Magne. Da linhagem dos Furuholmen (ênfase no “Fu-ru-holmen”), uma família importante de músicos de Oslo. Ele é o responsável por abrandar a minha vontade de dar um chute no traseiro do Paul. Afinal, ele conhece o Paul desde que eram crianças, e ele foi o responsável por me apresentar ao loiro.

— Eu sei…

— Ele não quer voltar pra Noruega. Voltar significa dizer que o pai dele tava certo, entende? Que nós somos três fracassados.

— Querendo ou não, ele está certo. Não fizemos progresso nenhum…

— É, mas… — ele saiu do meu lado e ficou no meu campo de visão — nós temos potencial! Eu sei que você sabe disso. As composições do Paul e… o que eu vi naquele dia que a gente se conheceu… Você canta bem, você sabe disso, mas você precisa de uma canção que valorize isso.

Arqueei a sobrancelha. Magne era meio maluco, acho que já deu pra perceber. Vindo de uma linhagem de músicos, ele enxerga esses detalhes técnicos com mais facilidade (isso sem falar no excesso de otimismo). Eu vi que ele queria me dizer mais alguma coisa, mas o Paul chegou logo em seguida.

— Precisamos comprar comida.

Embora ele falasse baixo, eu ouvi perfeitamente. Suspirei novamente, falar sobre comida fez o meu estômago roncar alto, e eu acho que eles também ouviram isso.

— Eu vou cair duro aqui, eu tô falando sério…

— Morten…

Magne me chamou, e eu notei quando o Paul e eu viramos o rosto no mesmo instante.

Estávamos perto de um pub quase vazio. Era muito cedo para as pessoas virem encher a cara e encontrar conhecidos, o que dava um ar de apocalíptico. Tinha uma atendente limpando alguns copos de vidro, e, pelo jeito que tratava outros funcionários, ela era a chefe do lugar. Tocava uma música ambiente e os clientes daquele momento pareciam depressivamente dispersos.

— Se lembra como a gente se conheceu?

Magne indagou, e é claro que eu já sabia onde ele queria chegar.

Eu estava me apresentando em um lugarzinho bem parecido com esse pub quando o Mags me assistiu. Eu fazia parte de outra banda, mas era tudo uma grande brincadeira. Eu realmente não esperava que, instantes depois, ia ser chamado em um negócio pra valer.

— Eu duvido que ela vai deixar a gente tocar.

Murmurou o Paul, e o Magne olhou pra mim no mesmo instante.

— Joga o seu charme, bonitão de Kongsberg.

Aquilo me deixou sem palavras, porém não pude deixar de rir quando vi os dois gargalharem.

— É, não é? O que seria de vocês se eu não viesse salvá-los com a minha beleza?

Tomei as rédeas da situação. Segui em frente e, bom, já estamos na chuva, não é? O que é mais um pouco de água?

— Vamo lá, então!

Chegou a hora da caça.

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Pub House Our – 09:36 hrs

Assim que abri a porta, senti o olhar de pedra daquela mulher penetrar o profundo da minha alma. Já vi que o desafio seria daqueles…

Quando o sininho da porta tilintou, a garçonete-chefe desviou os seus olhos impacientes para mim no mesmo instante. Eu passei uma das mãos no cabelo, mais para me acalmar do que para realmente jogar charme, em seguida fui em direção a ela, enquanto dava uma boa olhada no perímetro. Não tinha ninguém se apresentando no palco.

Quase não tinha cliente. Tirando as garçonetes bonitinhas, se tivessem cinco pessoas naquela sala, eu estaria sendo bem generoso até. Isso me deixou esperançoso, aquela mulher não colocaria três desconhecidos para tocar em casa cheia, mas talvez teria coragem de arriscar nessa situação.

Assim que olhei pra ela, senti os cantos dos meus lábios discretamente se esticarem. Alta, magra, parecia ter uns 30 anos. Não era uma musa, mas eu podia fingir que era a minha professora gata do ensino médio. Sorri de canto, apertei levemente os olhos, cheguei como quem não queria nada, e então…

— Não vendo fiado.

Droga. Isso sempre funcionou com a minha mãe.

— Hum? Ah, não, não! Não é isso — soltei um risinho envergonhado, buscando retomar o controle da conversa. — Será que a senhorita poderia fazer uma boa ação, hoje? Eu não estou no meu país e está difícil… sabe como é…

— "Senhorita"?

— Claro! Não usa aliança, deve ter uns… vinte e três?

— Tenho trinta e seis anos — disse, com a maior expressão de tédio que conseguiu fazer. Vou me fazer de sonso, vai que ela tem pena de mim.

— Uau, essa me pegou… Então, não tem jeito mesmo, docinho?

— Escuta aqui, de onde você é?

— Olha, eu vou te propor uma coisa. Eu vou te mandar a real. Meus amigos estão lá fora e estamos morrendo de fome — juntei as mãos em forma de reza. Tenha piedade de mim, mulher fria! — A gente pode tocar no seu palco se você quiser, nós só queremos três refeições.

— De que adianta? Só as paredes vão assistir vocês. O público só vem à noite.

Suspirei e mordi os lábios. Eu não queria mandar essa, mas ela não me deu escolha.

— Se a gente encher a sua casa agora, vamos poder comer o que quiser. O que acha?

Ela fez um movimento negativo com a cabeça, e eu já estava achando que ia precisar me prostituir pra essa velha começar a colaborar, porém ela acabou me surpreendendo.

— O palco é de vocês. Eu quero só ver.

O sinal verde estava dado, e eu não podia perder a oportunidade.

No fim, tudo se desdobrou rápido. Eu sei que eu reclamo do Paul, mas ele é muito profissional, parece até que estudou pra esse momento. Subimos no palco e ele nos ajudou a montar os instrumentos, que a gente carregava pra lá e pra cá. Alguns olhares nos encararam, mas isso não nos intimidou.

— Tá, vamos tocar o quê?

Sussurrou Magne, após fazermos uma roda pra deliberar.

— Ei, que tal a música da fruta? A gente tava ensaiando…

— Não, não. Você ainda não alcança os falsetes.

— Você vai mesmo pôr aqueles falsetes? Tem fetiche com a minha voz?

Eu sei que não era hora pra brincadeira, mas eu precisava soltar essa. Paul revirou os olhos e continuou no controle da situação.

— O ambiente pede outra coisa. Algo romântico… casual…

— … mas agitado. Surpreendente — Magne completou, e eu comecei a entender onde eles queriam chegar.

— Tá na hora da caça.

É, Paul leva a música a outro nível.

Acho que agora é a hora perfeita para apresentar ele, não é? Paul Waaktaar, mas se escreve Pål, ok? Vindo de família onde a música não é levada a sério, o pai dele queria que ele ficasse na Noruega e se formasse na academia como todo jovem promissor comum, mas Paul tem fome do mundo. Eu admiro essa persistência dele, embora às vezes seja um pé no saco. Paul é um workaholic, leva a música como um propósito de vida, e é extremamente autodidata.

Preparei o microfone no suporte e dei uma última olhada no palco antes de suspirar e me concentrar na música. As poucas pessoas que estavam lá sequer olhavam pra mim, com exceção das garçonetes bonitinhas que mordiam os lábios e faziam gracinhas. Eu engoli seco e fechei os olhos por um segundo.

"Aqui estou eu

E ao alcance das minhas mãos

Ela está dormindo profundamente

E ela está mais doce agora do que o sonho mais selvagem

Poderia tê-la visto

E eu a assisto escapar

Mas sei que a caçarei para cima e para baixo

Por toda parte

Não há fim para as distâncias que percorrerei

A caçarei para cima e para baixo

Por toda parte

Não há fim para as distâncias que irei"

Lentamente abri os olhos e tentei espiar pelos cantos para ver se os nossos esforços surtiram algum efeito. Vi alguns olhares curiosos, sobretudo o da carrancuda, que parecia bem surpreendida. Mas isso ainda não foi o bastante, o melhor foi ver o interesse disfarçado de algumas pessoas de fora do pub, espiando pelas vidraças escuras. Um outro público se formava lá fora.

Já tava na hora do agitado. Do surpreendente.

"Estou procurando por toda parte!

E agora ela está me dizendo que

Ela tem que partir!"

Aumentamos o som, potencializamos as notas, saímos do linear e fomos para o dionisíaco! Continuei olhando para o público, já tinha enchido o meu peito de coragem. Muitas pessoas ficaram lá fora, mas algumas entraram para se aventurar. Nós não podíamos perdê-los agora!

"Oh…

Por você, eu caçarei por toda parte!"

Paul finalizou com a guitarra, e, no instante seguinte (é sério, eu não tô brincando!!!!), o público aplaudiu!

Não é como se nós nunca tivéssemos sido aplaudidos, mas tentamos muito a aprovação das gravadoras, e, embora rejeitados, o público tinha algum tipo de admiração por nós. É como conseguir um emprego fixo enquanto se é rejeitado pelas universidades (eu sei que isso foi muito específico), mas, pela primeira vez, eu senti que valeu a pena o desafio de se aventurar em um lugar totalmente novo. Eu me senti recompensado.

Acordei da euforia quando Magne me puxou pelo braço. Aquela mulher estava nos chamando. Agradecemos como pudemos e descemos às pressas.

— Cadê…

— … a…

— … comida?!!

Nós três falamos. Ela revirou os olhos. Aquela maluca sabe o que é estar desde às 21h da noite anterior sem comer nada?!

— Vocês já vão ser servidos. Mas tem alguém que quer falar com vocês.

Ouvir aquilo fez um arrepio estranho e gélido subir pela minha espinha (isso também podia ser minha pressão caindo). Nós três nos viramos ao mesmo tempo, todos com uma expressão boba no rosto, em direção ao canto que ela apontava com a cabeça.

Tinha realmente um homem ali, levantou uma taça de alguma bebida que eu não sei qual era. Sorrimos de nervoso, mas eu já estava suando muito frio.

— U-um…

Eu não lembro de mais nada depois disso. Só sei que apaguei feio.

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13:40 hrs

Ainda no pub, eu terminei de comer minha refeição antes daquele cara começar a falar. Estávamos na mesma mesa que ele, e o salão ainda estava movimentado. Como gratidão, a mulher nos deixou comer mais outra refeição (até que ela tem um bom coração).

— Quantos anos vocês tem?

— Vinte. Vinte e um. Vinte e três.

Disse o Magne, se referindo respectivamente a ele, ao Paul e a mim.

— E vocês são de onde?

Nos entreolhamos. Ele nem perguntou nossos nomes. Se não estivéssemos desesperados, a primeira coisa que eu pensaria é que ele quer vender outro tipo de proposta.

— Noruega.

— Hum, percebi pelo sotaque. Meu nome é Barron, muito prazer — ele apertou a mão do Magne. Paul nem fez o esforço e eu fui ignorado completamente. — Eu sou diretor, não sou assessor. Vi que vocês têm muito potencial, mas são bem amadores. Vieram para Londres atrás dessas gravadoras?

— Uhm, sim, na verdade. Em termos musicais, Londres é para a Europa o que os Estados Unidos é para a América, não é?

Revirei os olhos, esperando onde essa conversa ia dar. Magne sempre se pôs para falar pela gente (ele sempre foi tagarela) e eu espero que dessa vez dê certo.

— Falando nisso, eu estou indo para lá agora à trabalho. Vocês têm muito potencial, mas eu acho Londres pequena demais para mentes tão ambiciosas.

Fala sério! É a terra dos Beatles!! Como não é tão ambiciosa? Se bem que nem o Paul McCartney ficou somente por aqui…

— Tem alguém que gerencia vocês, mesmo que de maneira informal?

— Er…

Magne ia falar alguma coisa, mas o Paul acabou tomando as rédeas.

— Nós mesmos.

O homem suspirou e aquiesceu. Ele não pareceu muito satisfeito.

— Pensei em levá-los para a América, mas, sem um empresário, não será possível. Ele ficaria responsável por vocês e cuidaria dos custos. Além do mais, um de vocês é menor de idade…

Pelo visto, ele gostou mesmo do Magne, parecia mais chateado em não poder levá-lo do que necessariamente em não poder levar nós três juntos.

— O que acham de tentar a carreira lá? É uma oportunidade que dificilmente irá aparecer de novo. Não prometo nada, mas, se for do interesse de vocês, posso tentar fazer algumas ligações.

Nós três nos engasgamos nas nossas próprias palavras. Se esse cara apadrinhasse a gente, o resto ia ser fácil! Depois disso, um empresário, uma gravadora, um álbum e uma carreira. A decisão era óbvia.

— C-claro.

Paul respondeu. O homem assentiu e pediu licença para se retirar, em seguida saiu do pub e foi até uma cabine telefônica próxima. Nós voltamos a nos encarar.

— Tá, o que vocês acham?

— E se ele tiver mentindo? E se ele quiser vender os nossos órgãos ou nos traficar sexualmente?

Revirei os olhos.

— Mags, se isso fosse verdade, ele não iria atrás de três marmanjos! Ele provavelmente escolheria vítimas mais vulneráveis, ou então escolheria apenas um de nós e daria uma desculpa qualquer. É muito mais fácil sumir com uma só pessoa.

— Mas, se ele realmente quiser só um de nós, quem iria?

— Quer ser o bebê de algum cafetão por aí? Se ele escolher um só, tô fora. Nós somos um trio.

Eu afirmei, quase inconscientemente, mas percebi que o Paul havia gostado da resposta.

— Eu concordo.

— Meninos… — Barron retornou — eu tenho uma proposta, porém é um pouco diferente do que eu estava planejando. Tenho um amigo na Califórnia que aceitou gerenciar um de vocês.

— Perfeito!

— Só um de vocês.

Quando ele reafirmou a última frase, nós nos entreolhamos de novo. Era nítido como a nossa última conversa macabra estava estampada nas nossas caras. Mas, por alguma razão, eu estava decidido a não deixar aquela oportunidade escapar.

— Eu vou — respondi ao mesmo tempo que o Paul, e nós nos olhamos como se um estivesse prestes a degolar o outro.

— E o que os outros fazem enquanto isso? — indagou Magne, olhando para o velho como se não acreditasse naquela proposta.

— Se querem uma dica… se o escolhido convencer a trazer os demais, as coisas serão mais fáceis. O que vocês precisam entender é que os Estados Unidos trabalham com resultados. Quem for para lá precisa mostrar potencial. Ele não pode arriscar ter a despesa dos três e não conseguir construir suas carreiras, o show business é um jogo de aposta e estratégia.

É, isso me convenceu. Eu tinha que ser esse escolhido.

— Eu vou — Paul respondeu novamente.

— Vamos deliberar? — eu indaguei, franzindo o cenho. Ah, que idiota… não tem a mínima possibilidade dele convencer alguém com toda essa forma introvertida de ser.

Eu sou uma peça importante na banda. Eu componho, eu entendo os termos técnicos, eu sei como o processo de produção funciona.

É, mas, no fim das contas, eles querem uma carinha bonita que saiba cantar. Você sabe como os americanos são vazios pra cacete, se eu for lançado de isca, eles vão querer puxar o restante.

Começamos a falar em norueguês pra esse suposto diretor não entender o conteúdo da conversa. Era bizarro como estávamos brigando por um cara que podia muito bem nos vender pra qualquer mercado negro da vida, mas, por algum motivo, eu sentia que ele estava falando a verdade. E eu não podia perder essa chance.

— O meu voo vai sair daqui a alguns minutos, eu preciso que decidam logo.

— Gente, para com isso, tô ficando com vergonha — murmurou Magne, e eu acabei suspirando de frustração. Não íamos chegar a lugar algum.

— Vamos fazer o seguinte. Quem compõe?

— Eu.

— E quem canta?

Levantei a mão com certo desdém, sem dizer uma palavra, ainda furioso com o loiro.

— Se vocês confiam muito um no outro, eu levo o cantor comigo e o compositor envia as letras por mensagem.

O problema era esse: nós não confiávamos muito não.

— Paul, eu concordo — perfeito, Mags, continua falando. — Se o Morten for, dado o jeito descolado dele, os americanos vão simpatizar mais depressa. E é mais fácil mandar as composições por correspondência do que transferir uma voz ou uma performance, não é?

Pronto, agora que “a namorada” do Paul o convenceu, enfim as coisas vão se desenrolar.

— Vamos, não quero chegar atrasado. Qual o seu nome mesmo, rapaz?

O velho finalmente indagou, enquanto me guiava para o carro. Aos poucos eu entrei em euforia, mas me segurei como pude. Antes de entrar naquele veículo, já na frente do pub, me virei e olhei para os caras uma última vez.

— Eu vou manter contato toda semana. Não falem pros meus pais que a gente se separou, ok?

— Você não vai sumir mesmo, não é? — indagou Magne, e eu confesso que aquilo me ofendeu, mas tentei levar na esportiva.

— Claro que não, idiota. Nós somos um trio, isso não vai mudar.

— E qual é o plano? — indagou Paul.

— Eu sei lá… — dei ombros. Eu realmente não sabia, era tudo muito novo — eu vou chegar lá e ver como as coisas funcionam. Enquanto forem me dando oportunidade, eu vou apresentando o nosso trabalho.

Ele aquiesceu em silêncio.

— Vai lá…

Fiz um aceno com a cabeça e saí sem dizer mais nada. Entrei no carro e os vi, da janela, se distanciando pouco a pouco. Ia passar onde estava hospedado e, depois de pegar minhas coisas, novos ares me aguardavam!

Okay, eu sei que eles me liberaram com aquele pequeno receio de que eu me deslumbre com a fama e siga carreira solo (o que não é uma má ideia), mas eu não sou esse tipo de pessoa. Embora as nossas desavenças, eu reconheço que nós estamos juntos nessa. Nós dividimos um quarto, nós passamos fome. O que eu fizer vai ser, também, para o bem deles.

Eu estava muito ansioso! Até que aquele cara começou a falar naqueles telefones móveis.

— Sim, eu estou com o seu menino!

Droga… Onde eu me meti?

Notas finais
Próximo capítulo: Me olhei no espelho uma última vez e saí em busca do meu assessor. [...] Desci as escadas em passos cuidadosos e me esgueirei pelos corredores à medida que chegava mais perto do salão de refeições. [...] Não tinha quase ninguém no salão e eu precisei tomar o dobro de atenção até enfim me deparar com o homem, em uma daquelas mesas, fazendo uma ligação [...] — Vai ser uma surpresa, Barron. É, eu sei… muito obrigado por ter me ajudado com isso. Hum… falando com o velho de Londres, não é? O que será que esse tal de Branca tá tramando? — Sim, é arriscado, mas ele ficará feliz. Ele está muito solitário. Estou começando a achar que a teoria do Mags é muito verdadeira, e pensar nisso me deixa desconfortável de muitas formas.