Diário de 83

10 Não Entendo Sua Luta


Notas iniciais
Oi oi gente ♥ Esse é capítulo seguinte que eu havia prometido! O próximo, se tudo der certo, só vem na sexta agora! Falando no capítulo... Conseguem reparar nas mudanças do nosso protagonista? *u* Até lá, boa leitura ♥

Encino, Califórnia – 19:51 hrs

2 e 3 de março, 1983

Tudo começou na noite do dia 2.

Michael havia passado o mês anterior inteiro trabalhando no que seria o primeiro videoclipe em sequência dele (não mais apenas um fundo verde como os clipes costumavam ser). O filho da mãe nem quis me mostrar, disse que seria surpresa pra todos, mas me prometeu que iria me levar para os bastidores do próximo se repercutisse, e eu estava torcendo para acontecer!

Enquanto o destino não dava sinal, estávamos nos divertindo na sala de estar. Michael e eu empurramos os móveis, ele ia me mostrar alguns passos que estava ensaiando. Basicamente essa era a sala de dança improvisada dele (com uma casa tão grande daquelas, eu jurava que ele tinha uma, mas me enganei). Michael enrolou o grande tapete da senhora Jackson e deixou o chão encerado livre pra suas meias deslizarem sem nenhum problema.

— Você não tinha dito que só treina dança nos domingos?

— É, mas eu fiz um passo enquanto você dormia, você precisa ver!

Michael parecia que tinha tomado quatro latões de energético com café, ele estava pulando mais que criança cheia de doce na veia! Eu ri com aquela agitação.

— Vai me ensinar depois?

— Se eu for te ensinar tudo que eu sei, você vai acabar me ultrapassando!

Ele brincou e eu ri em seguida, eu sabia que ele não tava falando sério; uma coisa que eu havia aprendido com o Michael durante esse tempo de convivência era que ele sempre tentava levantar o astral das pessoas (e às vezes ele exagerava nisso).

— Isso é impossível, cara. Eu tenho ossos, você eu já não sei.

Michael riu e, instantes depois, tentou deslizar os pés pelo piso. Eu adorava as coisas que ele fazia, eram uns movimentos bizarros, como se a gravidade ou a estrutura óssea dele não fossem empecilhos. Michael deslizou para o lado, moveu os tornozelos em passos robotizados; olhei pros seus pés como se só eles estivessem na sala, mas errei ao ignorar todo o movimento que o resto do seu corpo fazia — como os seus ombros, seus cotovelos e todas as articulações do seu corpo se comportavam.

Eu jamais faria um negócio desse, prefiro ficar na cantoria mesmo.

— Prefiro dançar com música.

— Então vamos pôr um som. Sua mãe não deixa?

— Deixa, mas…

— MICHAEEEEL!!!!

Olhamos assustados pra o corredor de onde veio o grito. Janet correu até o sofá e se jogou nele, em seguida buscou o controle remoto e jogou dois travesseiros na gente.

— Ei!

— Saiam da frente, seus dois postes!!

A gente não entendeu nada, mas deixamos ela em paz. Janet sintonizou exatamente no canal da MTV (simplesmente o maior canal de música da galáxia!), e naquele momento eu finalmente entendi a empolgação dela.

Olhei pro Michael, mas ele não me devolveu o gesto. Seus olhos escuros brilhavam com a luz da tela, a vinheta abriu o que seria mais um programa da noite, porém o videoclipe que se iniciou não era um daqueles triviais. A batida inicial, as notas, o ritmo…

— Começou!

Janet anunciou. Aquele era, simplesmente, o hino do pop.

"Ela disse que eu sou o cara…

Com quem ela… vai dançar… na pista de dança"

— Mamãe!

Janet correu pra chamar a senhora Jackson. Quanto ao tal do Joe, mais uma vez ele não estava em casa, e acho até que era bom, aquela era a noite do Michael e eu já havia percebido como a ausência do velho o deixava mais aliviado.

Ele se sentou no sofá, sem desgrudar os olhos da tela, e eu o acompanhei. Assistimos em silêncio, Janet chegou logo em seguida com a senhora Jackson. Pouco tempo depois, os funcionários da casa também se uniram para acompanhar. O videoclipe era incrível, parecia um trecho de curta-metragem. Embora o Michael não dançasse muito (ou não tanto quanto eu esperava), e embora também ele não atuasse com falas, a sua performance foi completamente entregue para aquela apresentação. Eu fiquei me imaginando no lugar dele, me perguntei como seria a identidade do A-ha, como o A-ha gostaria de ser visto no mundo…

Ter um videoclipe transmitido pela MTV era uma realização profissional, mas aquela era a hora do Michael. Parei os meus devaneios para viver um pouco daquele momento.

"Ela diz que eu sou o cara

(Você sabe o que fez!)

Ela diz que o filho é meu

(Quebrando meu coração, baby!)

Ela diz que sou o cara"

Todos que estavam ali tentaram não cantar para não atrapalhar o momento, mas o esforço era árduo, a tentação era grande. Eu era o único que realmente não estava tão empolgado a esse ponto, até mesmo porque não sabia muito cantar aquela música, o inglês do Michael era cheio de… sei lá! Gíria, regionalismo, ele tinha um jeito único de proferir certos termos (e isso era muito legal!). Havia outra coisa que eu admirava, na verdade: os backing vocals, os harmônicos, as camadas de batidas. Foi a primeira vez que eu prestei atenção no que estava por trás do artista.

Uau… isso que se podia chamar de "colocar as coisas que aprendeu em prática".

— Meu filho…

Murmurou a senhora Jackson, com brilho nos olhos. Janet se jogou por trás do Michael e o abraçou com força.

— Parabéns, irmãozão!

Eu sorri com aquele ambiente de comemoração, mas não conseguia entender o motivo de tanta euforia. Sendo sincero… eu pensava que Michael já estava consolidado a ponto de situações como aquela serem corriqueiras. Ele ainda estava lá, parado, feliz, mas chocado, eu levei a mão ao seu ombro e o chacoalhei com calma.

— Parabéns!

Tentei participar de tudo aquilo, contudo, diferentemente da reação que ele teve com os outros, Michael despertou daquele transe quando olhou pra mim; seu sorriso enfraqueceu, suas expressões relaxaram. Ele lentamente se levantou assim que o videoclipe terminou, em seguida soltou um longo suspiro.

— Ganhamos.

Foi o que ele disse quando virou pra gente. Depois, cada um foi falar com ele. Eu percebi como era um momento muito "da família", então deixei eles em paz. Levei as mãos aos bolsos e voltei para o meu quarto, fui tocar um pouco de violão.

Alguns instantes depois, ele apareceu por lá.

Já eram umas 21h. Michael entrou sem maiores problemas, eu não ia dormir agora mesmo, então deixei a porta destrancada. Ele a fechou e se aproximou em silêncio.

— Parabéns pelo clipe.

Comentei, enquanto tocava algumas notas dispersas. Deixei o violão de lado depois de ter tentado um sustenido e me virei na direção dele.

— Obrigado. Por que não ficou lá com a gente?

— Ah… — eu dei ombros e me levantei — era o momento da família, não é? Eu vi que sua mãe, sua irmã queriam falar contigo. Preferi deixar vocês em paz.

Michael aquiesceu e eu vi um sorriso muito discreto se formar no rosto dele.

— Eu… sabia e não sabia que esse videoclipe ia ao ar pela MTV. Foi uma surpresa, na verdade.

Arqueei a sobrancelha. Ele prosseguiu.

— Não foi fácil convencer eles.

— Como assi… Oh…

Eu finalmente havia entendido.

Michael suspirou. Ele levou a mão ao meu ombro, me chamou para se sentar. Nos acomodamos na beira da cama. Depois de um tempo em silêncio, buscando palavras, ele prosseguiu.

— Morten… Tem muitas pessoas negras no seu país?

Neguei com um balançar de cabeça.

— E o que passou pela sua cabeça quando descobriu que ia passar um tempo com um artista negro?

— Michael… sendo bem sincero, nada. Pra mim, isso não faz diferença alguma.

Com aquela resposta, ele assentiu em silêncio.

— Aqui, para algumas pessoas, faz muita diferença. Lembra da história da Rolling Stone? E agora, da MTV… Estou sempre lutando pra ser reconhecido, e eu sei que essa não será a última vez.

Não podia fazer nada senão assentir. Eu nunca entenderia aquilo… eu nunca saberia o que é passar por aquilo, nem nunca entenderia a mente doente de alguém que corrobora aquilo. Eu ainda não estava acostumado com aquela realidade.

— Eu sinto muito. Eu nunca vou entender a sua luta…

— Tudo bem. Eu não preciso que entenda… Eu só quero que fique do meu lado.

Ele sorriu e então se levantou.

— A MTV é extremamente seletiva… pra não dizer outra coisa… Eu darei visibilidade àqueles que não têm. Isso significa…

— … que outros virão — eu me levantei, também sorrindo. — Sabe o que isso pede? Uma comemoração!

— É mesmo? No que você tá pensando?

— Hum… tá com o dia livre amanhã?

Michael me olhou intrigado, e eu apenas arqueei a minha sobrancelha e fiz o meu olhar de cínico, com direito a um sorriso malicioso e tudo mais. Ele iria dormir pensando no que poderia ser, porque eu não tava nada afim de estragar a surpresa.

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10:07 hrs

Dia 3, um dos dias mais perigosos da minha estadia nos States até agora.

Eu tinha blefado pro Michael quando disse pra ele que tinha uma surpresa preparada, mas, naquela madrugada, minha mente começou a fervilhar de ideias. Michael era um cara que saía pra todo tipo de caverna chique que você pudesse imaginar, por isso era fácil impressioná-lo, bastava buscar as atividades mais simples e confortáveis. O problema era que havia um motivo para ele não fazer mais esse tipo de atividade, e esse problema se chamava: fãs.

E sabe de uma coisa? Eu não tava nem aí.

Coloquei minha jaqueta de couro marrom, minha camisa vermelha, usei apenas um cachecol — mas o frio já não era tão violento — pus os meus sapatos de cano médio, peguei a minha Canon e me retirei. Fui até o Michael, que havia dedicado aquele dia livre à minha “surpresa”. Ele vestiu uma jaqueta preta fechada, calças azuis escuras e botas de frio, além dos óculos que não podiam faltar. Fomos para fora de casa e a primeira coisa que ele fez foi se equipar com um fone de ouvido embutido em um rádio portátil vermelho e bonito (esse troço é novidade).

— E então… o que vamos fazer hoje?

Eu estava torcendo pra ele não perguntar isso…

— Vamos improvisar.

Senti quando aquela sobrancelha delineada arqueou na minha direção. Eu relaxei os ombros e fiz a expressão mais tranquila que pude.

— Que foi? Improviso é tranquilo, vamos.

Dei um toque no braço dele e o chamei pra me seguir. Michael me acompanhou com relutância, seguimos para fora do perímetro da mansão e começamos a passear pela calçada branca e arbórea da vizinhança luxuosa. Não precisamos andar muito para nos deparar com outras várias casas enormes e opulentas, uma mais absurda que a outra, e até então as poucas pessoas que estavam fora delas não nos importunaram em momento algum.

— Tá nervoso? O que te preocupa?

— Quando sairmos daqui.

Eu fiquei em silêncio. Não é possível que exista situação pior que a da lojinha, esse cara tá me vendendo susto.

— Relaxa, tá? Já fui pra rolês piores.

— Mesmo?

Não, mas ia ser divertido ver até onde poderíamos ir.

Segurei um sorriso cínico.

— Claro!

— Você está mentindo!

Ele me deu uma cotovelada, e eu soltei a gargalhada que tava segurando — tô deixando esse cara me conhecer demais.

— Desculpa, desculpa!

— Ah, Morten! Você não faz ideia do que a gente vai fazer, não é?

— Cara, vamos fazer a melhor coisa do mundo, ok? Uma coisa que o dinheiro não compra.

Eu comentei, enquanto ia na frente e chutava o restinho de neve que ainda restava no chão. Michael levou as mãos aos bolsos, algo no semblante relaxado dele me dizia que havia acabado de ser convencido.

— Vamos atrás de momentos. Eu costumo explorar esse pedaço da cidade quando tô sem nada pra fazer, achei uns lugares legais pra jogar na máquina.

Michael sorriu, em seguida soltou um riso curto.

— Legal.

Seguimos até o ponto de ônibus. Fui até o Michael, levantei o capuz dele de propósito e, naquele momento, ele olhou pra mim com seriedade.

— Você é muito doido…

— Correção: eu sou cirúrgico.

Dei uma piscadela e me afastei pra chamar o ônibus que nos levaria ao centro da cidade. Michael segurou um riso e seguiu logo atrás de mim.

Naquela hora o veículo estava movimentado, mas tinha bons lugares. Nos sentamos e seguimos viagem tentando falar o mais baixo possível.

— Só me esclarece uma coisa… Se, por acaso, alguém me reconhecer, o que a gente vai fazer?

— Eu viro seu guarda-costas e te tiro inteiro daqui. Agora, fica tranquilo — tentei mudar de assunto, nem eu mesmo tava seguro do que disse, preferi somente não pensar muito nisso. — Tá ouvindo o quê nesse negócio?

— Nada, só estou passando as rádios…

— Posso tentar?

Michael me passou o fone e a caixinha retangular. Coloquei um dos lados no ouvido e a outra ponta do arco agarrou na minha bochecha. Michael balançou a cabeça, com um sorriso abobado no rosto.

— Hum… escuta essa aqui.

Passei o objeto de volta pra ele. As nuvens já não cobriam o céu com tanta frequência, a neve era menos evidente, já era possível ver a folhagem verde surgindo no fundo de todo aquele branco, o sol estava forte e a primavera dava os seus primeiros passos. Esse cenário perfeito só podia pedir uma música mais agitada, pegajosa e muito irritante.

— "KC e a banda Raio de Sol"?

Murmurou Michael. Com aqueles óculos e aquele capuz, eu quase não conseguia ver os seus olhos, nem as suas sobrancelhas, mas consegui imaginar perfeitamente a expressão engraçada que ele deve ter feito.

— Você conhece?

— Como não conhecer? O refrão é um chiclete. "Nana nana nana nana na na, agora"...

"Baby, se entregue, se entregue… Baby, se entregue!"

Ele gargalhou assim que eu cantei, e eu nunca pensei que precisaria ouvir o Michael cantar aquela música até realmente ouvi-lo. Ele melhorou o refrão em 1000%.

Em compensação, as outras pessoas começaram a nos olhar.

— Vamos!

Pedimos parada e descemos antes que desconfiassem de mais alguma coisa. Já fora do ônibus, nós gargalhamos que nem dois malucos.

— Você tinha que me fazer cantar aquela música, não é? Sabia que eu não ia resistir!

— Foi tudo parte do plano, cara! Você que não tinha entendido…

Seguimos pelas ruas da Califórnia. Não era brincadeira quando eu disse que o sol estava forte, mas Michael parecia tranquilo demais com a temperatura (vai ver eu só era “bicho do frio” mesmo). Tirei o meu casaco e o amarrei na cintura.

— Vamos por aqui.

Entrei na lanchonete de um velho chamado Morty. Acho que já dá pra ver por que eu curti o lugar, né? Não apenas pela decoração pop art bacana, nem pelas máquinas barulhentas e coloridas de atari e pinball, mas sim porque ele simplesmente havia colocado na cabeça que éramos xarás! Eu deixei ele me chamar de Morty, pelo menos é melhor que Morton.

Fomos até a bancada e eu pedi fichas pro fliperama e dois milkshakes com muito chantilly. Michael levou as mãos aos bolsos, parecia muito desconfortável.

— Morten… eles…

— Ninguém vai te reconhecer, relaxa.

Sussurrei. Ele suspirou.

— Eu teria preferido que me reconhecessem.

Arqueei a sobrancelha e então me virei pra ele. Olhei discretamente pro lugar e realmente haviam algumas pessoas incomodadas ali. Michael estava novamente desconfortável, fez uma expressão que me fez lembrar da última conversa séria que tivemos.

Ele era um homem negro com capuz e óculos. Eles o estavam discriminando.

Suspirei, eu daria o troco naqueles filhos da puta.

— Morty! Como você está?

O velho Morty apareceu bem a tempo das nossas bebidas chegarem. Dei uma delas ao Michael e tomei um gole da minha.

— Ei, senhor Morty! Esse é um amigo, o…

— Joseph. Prazer conhecê-lo, senhor Morty.

Michael estendeu a mão e logo foi cumprimentado pelo velho. Ele era um velho bem velho, então as chances dele reconhecer a voz aguda do Michael — ou pelo menos se importar com isso — eram ínfimas, o que me deixava aliviado.

— Senhor Morty, será que podia liberar o karaokê pra gente? — assim que eu perguntei, Michael me lançou aquele olhar de “tá chapado??” Eu simplesmente segurei o riso e ignorei. — Vamos jogar um pouco nas máquinas, depois vamos pra lá.

— Está certo, rapaz! Você mostrou que canta bem na última vez que esteve aqui.

Eu ri e concordei. Nos afastamos e fomos até o fliperama, tomei mais um gole do meu milkshake antes de deixar o copo no canto e tirar uma ficha do bolso.

— Morten, você tá maluco?? — Michael sussurrou.

— Relaxa, aproveita o seu anonimato.

Ele cruzou os braços e me encarou como se fosse minha mãe.

— Vai, me fala… Qual é o seu plano?

Suspirei, nem ferrando que eu ia falar pro Michael que aquela situação havia me deixado puto, não quero que ele pense que eu o estava defendendo, ele ia se sentir idiota — e eu sei bem como é a sensação de se sentir um mané.

— O plano é a gente transformar esse lugar numa putaria generalizada.

— Morten… não fala essas coisas, é feio.

— Desculpa… — o flíper fez um barulho, eu havia acabado de fazer 1000 pontos. Assim que o jogo deu uma parada, voltei a olhar pra ele — tem certeza que não quer passar o meu recorde?

Ofereci uma ficha a ele, que, depois de encará-la por um tempo, acabou aceitando em silêncio. Michael começou a jogar, eu segurei minha câmera pra tirar uma foto da situação, em seguida fiquei o observando enquanto terminava a minha bebida e jogava o copo de plástico fora.

— Aperta esse botão aqui que é melhor…

— Ham?

Movi a mão do Michael de propósito, e ele acabou errando o comando. Eu soltei um riso baixo e me afastei, porém não consegui escapar da cotovelada que ele me deu (doeu, mas eu mereci).

— Trapaceiro! — disse, rindo em seguida. — Vai, me dá outra ficha, essa não valeu.

Eu entreguei e esperei ele terminar o jogo. Mesmo com uma segunda chance, Michael não conseguiu passar a minha pontuação. Desistimos do flíper e fomos direto pro karaokê.

— Quem vai cantar?

— Quem perdeu no fliperama.

Michael ficou estático por alguns segundos, e, se ele não estivesse com óculos escuros, eu podia jurar que os seus olhos estavam arregalados naquele momento.

— Você não deixou isso claro na hora do jogo…

— Mesmo? Eu até já sei a música que você pode cantar.

Sorri com malícia, esperando que ele me acompanhasse na brincadeira. Michael umedeceu os lábios, ele estava tenso e não era pouco, mas então levei as duas mãos aos seus ombros e olhei naqueles olhos pretos.

— Confia em mim?

Ele custou a responder, mas aquiesceu em silêncio. Eu assenti e o acompanhei até o aparelho, Michael pegou o microfone, me viu escolher a música…

… e, por alguma razão, eu sentia que ele já sabia qual era.

O instrumental agitado começou, a melodia te fazia imaginar uma pista de dança colorida e psicodélica, a canção era grudenta como chiclete na calçada e o refrão era simples como 2 mais 2. Michael não segurou uma risada, se lembrando da nossa última brincadeira com aquela música. Ele começou a cantar.

"Todos querem você, todos querem seu amor

Eu queria apenas que você fosse minha, oh, somente minha"

Eu fiz um sinal pra que ele abaixasse aquele capuz. Ele entendeu que a gente ia fazer uma merda fodida, mas enfim também entendeu que tudo aquilo era pra ser divertido. Aos risos, seu capuz veio abaixo e os óculos foram removidos. Eu puxei o refrão com ele na mesma hora.

"Nana nana nana nana na na, agora!

Baby, se entregue, se entregue… Baby, se entregue!"

As pessoas começaram a despertar pro que estavam vendo. Aos poucos se aproximaram (e também aqueles cretinos que precisaram reconhecer o Michael pra deixar as suas ideias toscas de lado), voltei a olhar pra ele e vi que qualquer tipo de investida violenta já não importava mais, Michael estava se divertindo e fazendo o que gostava, isso já era o bastante.

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12:12 hrs

Corremos que nem dois filhos da puta por um quarteirão inteiro! Michael corria bastante, e eu preciso parabenizar o cara por isso, mas eu consegui deixá-lo pra trás várias vezes, estava difícil fazê-lo me acompanhar.

— Aqui, aqui!

Viramos uma esquina e nos deparamos com uma fila de carros.

Drittsekk!

— Ali!

Michael agarrou o meu pulso e me puxou para um daqueles veículos. Não entendi absolutamente nada, mas eu é que não ia reclamar, abrimos a porta e nos jogamos de qualquer jeito nos bancos do carona.

— Ai, ai!!

— Janet??

— Toya, tira a gente daqui, por favor.

Assim que parei pra me recompor, a La Toya pisou no acelerador de um jeito que eu quase estampei meu rosto no vidro dela. Assim que o carro tomou uma velocidade linear, coloquei o cinto de segurança e percebi que eu estava sentado em um monte de sacola de compras. Tinha uma tampinha olhando pra mim com a fúria de um pinscher e um Michael do lado dela tentando acertar o encaixe do cinto de segurança dele.

La Toya estava no banco da frente, com mais uma pilha de compras do lado.

— Então… “dia das garotas”?

— É! E vocês estragaram tudo! Vocês não conseguem ficar um dia sem arrumar confusão??

Olhamos um pro outro, em seguida rimos alto. Michael me ajudou a jogar aquelas sacolas pra parte de trás dos bancos, enquanto tentávamos não apanhar da morena entre a gente.

— Junta isso com cuidado, tenta não quebrar nada!

— Isso é roupa, não é? Como é que se quebra roupa?

— Michael, o que você foi fazer andando por aí como se fosse um desconhecido de novo?

Perguntou La Toya. Eu vi quando ele olhou pra mim e segurou uma risada.

— Você sabe que eu sou teimoso.

— Hurum, sei… da próxima vez, não vou te salvar.

Seguimos viagem brincando com as meninas e tratando daquele assunto com leveza. Eu sinceramente queria ter aproveitado mais, era pra ter sido uma comemoração digna, porém, dado o tanto de vezes que o Michael havia caído na risada, acho que acabou valendo a pena.

Notas finais
Próximo capítulo: [...] Michael estava sentado defronte de um espelho enorme, do lado dele tinha uma loira com alguns itens de maquiagem, parecia retocar alguma coisa. — Estou quase terminando! Ele falou. Em silêncio, levei as mãos aos bolsos e encostei minhas costas na parede, enquanto o observava. A mulher saiu depois de alguns instantes, agora eram só nós dois. Michael sorria um sorriso falso. — Demorei muito? Peters deve estar louco, eu preciso passar os passos com os outros caras… — Michael… Ele finalmente parou. Olhei os seus olhos por alguns instantes, busquei o que havia nele que eu não reconhecia, o que a minha intuição dizia que estava errado. Levei uma mão ao seu rosto e ele recuou instantaneamente, o que me deixou intrigado. Então… percebi o que tanto eu havia estranhado. — Suas bochechas estavam bem vermelhas… — É, eu sei. Passou, uma hora o rubor passa, não é? Eu aquiesci em silêncio. — O que é que você me esconde…?