Diário De Um Sobrevivente

20 O vírus e o reservatório de peixes


Notas iniciais
Um capítulo bem difícil de fazer, dados os assuntos científicos.. então espero que apreciem e comentem XD

— Sabe George, não te conheço há muito tempo, mas tinha quase certeza de que você não aceitaria participar de um plano tão retardado feito por psicopatas desse nível — o homem que eu chamava de Helsin falou, mexendo inutilmente as mãos presas em uma algema.

Nós estávamos sentados lado a lado no banco de uma cela construída aparentemente para pessoas detidas temporariamente.

— E eu achava que você era esperto, coronel Jack Johnson — retorqui meio debochado.

— Você quer dizer que isso foi um plano seu?

— Claro seu idiota, você acha que eu me envolveria em um plano imundo desses? Que causou a morte do meu pai...

Eu não consegui continuar falando, me levantei e fui até a grade.

— Desculpe — ouvi-o pedir. Como não respondi, depois de um minuto ele voltou à impaciência monótona. — Quanto tempo você acha que vão nos deixar aqui?

— Não faço ideia.

— Bom já que vamos passar um bom tempo aqui, acho que você merece ouvir uma história — ele falou depois de um tempo, acomodando-se deitado no banco.

— Que tipo de história?

— Uma história sobre meu tempo no exército.

Eu fiquei meio pasmo, um pouco incrédulo. Por que aquele homem resolveu de repente me contar alguma história do exército?

— Fique à vontade — respondi.

Ele demorou um bom tempo para começar, talvez tomando coragem.

— Há seis anos fui enviado com alguns subordinados para uma missão em Cabo Verde, na África, onde, segundo nos foi informado, algumas pessoas estavam praticando atos de canibalismo nas ruas, como se fosse natural. No entanto, ao chegarmos à primeira das ilhas que investigaríamos, descobrimos algo completamente diferente do que esperávamos. Encontramos nas ruas pessoas que andavam lentamente e tinham partes do corpo ou pedaços de membros faltando, como se tivessem lepra. Os olhos daquelas pessoas estavam secos e suas bocas sujas de sangue, sua pele cinzenta lhes dava a aparência de mortos, o que, viemos a descobrir, era exatamente o que eles eram.

Ele fez uma pausa.

— Nós apontávamos as armas para eles, mas eles não se rendiam, não paravam, não recuavam. Nossa única saída foi atirar neles, principalmente depois que um dos nossos foi atacado e mordido no braço. A “criatura” tirou um pedaço do braço dele e mastigou como se fosse um pedaço de carne qualquer. Depois de “limparmos” aquela cidade, algumas equipes de resgate levaram os cidadãos feridos junto com nosso companheiro. Estava tudo bem até terminarmos a missão eliminando todos os canibais e voltarmos para casa.

Mais uma vez Jack se perdeu em seus pensamentos e ficou encarando o teto até juntar as forças para terminar seus relatos.

— O problema foi quando voltamos, descobrimos que as pessoas contaminadas incluindo nosso amigo estavam sendo mantidas em quarentena, mas não estavam sendo tratados, estavam sendo examinados para que o exército pudesse descobrir mais sobre o vírus que havia tornado as pessoas em marionetes comedoras de carne. Depois de recebermos uma condecoração e de eu negar minha promoção, acabei descobrindo que o vírus estava sendo conservado em laboratório e as pessoas contaminadas foram descritas como casos terminais sem nenhuma cura ou tratamento existente e depois de mortas foram descartadas em sacos brancos de lixo tóxico sem cerimônia. Eu fiquei completamente desnorteado. Minha revolta foi tanta ao ver meu companheiro ser dispensado sem que sua família... meu Deus, sem que seus dois filhos e sua mulher pudessem se despedir.

Lágrimas começaram a descer pelo rosto do coronel.

— Jack, você não precisa — mas ele me interrompeu com um gesto.

— George, depois disso eu pedi aposentadoria. Mas não desisti de descobrir mais sobre o assunto, eu tinha um amigo, um engenheiro biológico, que me passava informações secretas sobre a pesquisa do vírus. Ele fazia parte da equipe de cientistas do exército que descobriu que havia nascido naquela região uma forma desenvolvida do vírus ebola. Sua forma de transmissão ainda era através do contato com secreções ou sangue, mas aparentemente eles estavam lidando com uma forma mais destrutiva do vírus, que além de se reproduzir no sistema linfático, no estágio final de progressão da doença o vírus infectava o cerebelo e após a morte do individuo levava a uma reativação das funções neurais, o que fazia a pessoa contaminada “voltar à vida”.

— Digamos que eu entendi o que você falou, por que esse vírus fazia as pessoas voltarem à vida? Quero dizer, quando a pessoa morre, o vírus também morre não?

— Sim, e esse é o ponto. Os vírus são seres vivos que não possuem enzimas e por isso não podem produzir seu próprio material metabólico, por isso precisam de outro ser vivo que possa a síntese de proteínas por ele. De alguma forma o vírus ebola evoluiu para uma forma capaz de reviver as células de seu hospedeiro. Segundo minha fonte, o exército desenvolveu ainda mais esse vírus, para aumentar a velocidade de atuação após o contágio, no caso para no máximo quarenta e oito horas, e fazer com que ele se transmitisse através do ar.

Aquilo que eu ouvi foi um golpe atordoante, como se alguém tivesse me acertado na cabeça com uma pá.

— Você quer dizer... que estamos todos contaminados?

— Infelizmente sim.

A resposta que recebi foi como um peso sobre meus ombros, agora conseguir a cura naquele lugar era uma questão de vida ou morte. Eu caí sentado contra as grades.

— A boa notícia é que algum tipo de propriedade química ainda não explicada nos mantém num período indeterminado de remissão, o que significa que o vírus é latente e não atua até que entremos em contato direto com o vírus ativo ou que sejamos mortos de alguma outra forma.

Ele me viu abraçando os joelhos e abaixando a cabeça e esperou um momento antes de prosseguir.

— O exército me chamou para participar desse plano, antes de acontecer. Por que supostamente eu minha equipe causamos isso tudo, afinal nós descobrimos o vírus, nós o trouxemos até aqui.

— Não foi culpa sua — falei, sem levantar a cabeça.

— Não, provavelmente não. Foi o que ele me disse também, que eu não tinha culpa.

— Ele quem?

— Meu amigo, o que sabia sobre os planos do exército.

Então num súbito momento de inspiração desvairada, tive vontade de perguntar algo que poderia parecer meio insano, mas tinha alguma possibilidade de ser real.

— Qual o nome desse seu amigo?

— Johan Goodguy, por quê? — ele perguntou, pela primeira vez parecendo perder a tristeza que permeava seus olhos.

— Meu nome é George Goodguy, Johan é meu tio, ele nos salvou, eu e minha mãe dos zumbis.

Trecho acrescido do testemunho de Johan Goodguy

Chegamos ao nosso destino, Amélia chorava no meu peito enquanto avaliávamos Mayport da avenida na entrada de Jacksonville. Á direita uma pista de pouso com milhares de zumbis fazia todos tremer, ainda mais por que dar meia volta também seria difícil dado o número de mortos-vivos que vagavam pela avenida e que podiam estar agora se juntando em manada seguindo o barulho da van.

As ruas do bairro também estavam tomadas e estávamos sem opções, tudo que eu conseguia pensar era que não podíamos ficar muito tempo ali parados.

— Johan, posso falar com você? — Laylor perguntou ao se aproximar de nós.

— Claro, Amélia pode esperar na van?

Ela fungou e assentiu.

— Tem alguma ideia?

— Na verdade sim, acredito que seja melhor que dois de nós exploremos o local, antes de levar nosso veículo e todos pra lá no que pode ser um ato suicida. Se soubermos que não há um local seguro para ficar ali, simplesmente damos meia volta, se descobrirmos que há damos um jeito de entrar.

— É uma boa ideia, eu vou e levo alguém comigo, vou usar o machado para ser silencioso, preciso de mais alguém que tenha uma arma branca, talvez o Tyreese ou a Sasha, ele tem um martelo e ela uma pá.

— Não, melhor que eu vá com você, eu sou mais rápida.

— Mas você não tem uma arma.

— Eu não preciso — ela respondeu. — Veja! — Ela mostrou um par de luvas de couro. — Isso é tudo que eu preciso.

Eu fiquei meio pasmo depois de ver a garota calçar as luvas e se preparar para lutar contra mortos-vivos comedores de carne humana. Mas fiquei ainda mais surpreso quando, depois de avisarmos aos outros sobre o plano, ela se negou a deixar o violão na van e seguiu com ele às costas quando entramos na área tomada.

Nós andamos pelas ruas lotadas o mais silenciosamente que pudemos, depois de enfiar o machado em duas cabeças de zumbis eu vi aquela mulher torcer a cabeça de um e arrancá-la do pescoço dele com as mãos vazias, em seguida ela enfiou a mão dentro da boca de outro e arrancou sua mandíbula inferior antes de chutá-lo para longe.

Decepcionamos-nos ao ver alguns barcos destruídos no porto da guarda costeira. Continuamos correndo silenciosamente ao longo da orla, matando os zumbis que se aproximavam demais e encontrando mais portos, estes, no entanto, sem embarcações. Quando chegamos a uma área de terra com alguns carros estacionados, eu não aguentei a emoção e gritei para Laylor.

— Olha lá! — ao ouvir meu berro e procurar para onde eu apontava ela também pareceu alegre, mas essa emoção durou pouco tempo.

Nós ouvimos uma buzina em seguida vários tiros e sons de pneu derrapando. Bernard vinha manobrando a nossa van enquanto no banco do passageiro Eagle acertava os zumbis com o seu querido rifle e Tyreese estava atrás metralhando outros com uma M4 através das portas abertas. A van cantou os pneus mais uma vez para fazer a curva enquanto Bernard gritava.

— Abre a merda daquele lugar! Nós vamos entrar! — ele apontou para um armazém azul.

Vendo Laylor estagnada de espanto peguei seu braço e corri com ela até o outro lado da rua entrando em um estacionando e passando por um caminhão em que havia escrito “sea food” em letras vermelhas, mas naquele momento era apenas um borrão. Chegamos ao portão sobre o qual havia escrito entrada de caminhões tentamos abrir. Nesse momento entrou em outro estacionamento de terra ao lado de um restaurante para poder fazer a volta. Mas nós estávamos empacados com um portão de mais de cem quilos.

Porra abre! De que adianta ser uma merda de um engenheiro do exército agora! — gritei em desespero socando o portão.

— Johan! — Laylor berrou.

Eu ainda não tinha percebido que o portão começara a subir até que Laylor me avisou, imaginei que algum espírito celeste resolvera nos ajudar. Mas não havia tempo para especulações, lá vinha Bernard dirigindo loucamente da melhor maneira que podia enquanto os zumbis invadiam o estacionamento.

— Saiam da frente! — gritei para qualquer ser vivo que estivesse dentro daquele depósito e puxei Laylor para o lado no momento em que a van entrou voando e batendo com a lateral na parede fazendo o retrovisor cair.

— Entrem rápido! — algumas mãos nos puxaram para dentro e outras pessoas fecharam o portão, nos mergulhando na escuridão.

Uma eternidade de sussurros depois uma vela foi acesa próxima a meu rosto e algumas janelas no alto foram abertas.

— Uma manda está vindo pra cá! São milhares, estamos condenados! — uma voz grossa demais para parecer mariquinha com o que falava gritou de algum lugar no alto.

— Cale a boca! — ordenou outra voz, mais aguda, porém incrivelmente mais imponente.

Eu ergui os olhos e percebi que vários fuzis eram apontados para mim e para Laylor, além de outros homens brutos, alguns de fardas e outros de roupas convencionais, apontarem mais armas para a van onde estava o resto do nosso grupo.

— Seja bem vindo ao nosso forte, major Johan Goodguy — saudou um rosto conhecido, com um sorriso que eu esperava que realmente fosse de boas vindas.