Diário De Um Sobrevivente
14 A própria tristeza me encara com arrogância
Notas iniciais
A música, vcs entenderão, cantem mentalmente no ritmo que quiserem XD apenas precisa ser um ritmo country um pouco lento..
— Achei que tinha um problema ao descobrir que você era um mentiroso guri — a novata ia falando, enquanto limpava o violão com um pano claramente muito mais sujo do que o próprio, referindo-se ao fato de eu mencionar que tinha um grupo grande —, mas parece que o próprio líder deste grupo oculta o objetivo de vocês. A coisa mais importante em um grupo de sobreviventes é sempre o objetivo, os planos, como sobreviver, para onde ir. Me recuso a acreditar que...
— Carlos sabia! Achei essas pessoas depois! Desde então fiquei sempre preocupado demais com a nossa sobrevivência para lembrar-me de comentar isso! — meu tio gritou da cabine.
Bernard era o único despreocupado, enquanto que eu, minha mãe e a garota aninhada em meus braços encarávamos aquela mulher com um desprezo e uma impaciência que antecedia berros revoltados e talvez até algo mais.
— Ele tenha escondido isso de vocês — terminou Laylor, com uma passada de pano final, sem importar-se com a interrupção.
— Você é livre para ir embora — gritei para ela, me perguntando por que tinha tido coragem de convidá-la e pressioná-la a entrar no grupo.
— Se arrependeu de ter me convidado? — ela perguntou com um olhar torto.
— Sim, você é tão imatura, parece mais criança do que eu — disparei.
Uma tosse seca me interrompeu e minha mãe assumiu a minha parte na discussão. Olhei para Indy preocupado. Eram aproximadamente quatro horas da tarde do dia em que encontramos aquela boçal e decidimos sair daquele condomínio e a garota que havia sido mordida estava mais apática e com a pele tão branca quanto papel.
— Indy? Resista, por favor! — pedi com a voz tremida.
Ela não respondeu, parecia incapaz de falar.
— Vamos parar! — ouvi Eagle anunciar em alto tom da cabine da caminhonete.
Deixei Indy nos braços da minha mãe, segurei firme as mãos de minha mãe e pedi para que ela atirasse se a garota não resistisse mais. Quando saí do veículo fui até a frente ver o que Eagle e meu tio faziam percebi que estávamos no meio da interestadual 75. Nossa caminhonete estava atrás de um grande caminhão de carga debaixo de uma ponte.
Eagle olhava algo de cima da carga do caminhão, procurei a direção em que ele olhava e encontrei um edifício, como um hotel, e ao lado uma parada de caminhões. Mas havia algo estranho, a parada era cercada por veículos, grandes e pequenos, e nos veículos havia estacas de metal e madeira e na frente vários obstáculos estranhos com estacas apontando para todos os lados.
— Eagle, o que é isso? — gritei para o velho esperto.
— Discrição George — meu tio sussurrou atrás de mim, fazendo com que me assustasse. — Esse trecho da avenida está sem zumbis não é mesmo? Sabe o que isso significa?
— Sim... sobreviventes?
— Mais do que isso. Imagine quem seria capaz de fazer algo assim — seu tom receoso me assustava, ainda mais por que ele pedira para eu falar baixo e por que Eagle estava observando o lugar atentamente com um binóculo.
— Um exército? Como o de Érika?
— Sim, talvez pessoas muito bem treinadas e que aprenderam a sobreviver da pior maneira.
— O que vamos fazer? Por que paramos? Vamos tentar entrar lá?
— Acho melhor não, quem sabe quantas pessoas devem estar lá, acho melhor contornarmos sem sermos percebidos.
— Não tem vigias nos muros, estranho — Eagle comentou, descendo do caminhão pelo lado da cabine.
— Não importa, há um condomínio à leste, descendo à direita por ali — meu tio indicou um caminho entre as árvores secas e mortas um pouco antes da ponte.
— Tudo bem então, vamos lá — Eagle concordou.
Voltamos todos para a caminhonete, meu tio fez o retorno enquanto eu constatava que Indy ainda estava viva.
Nós passamos com o veículo por entre as árvores e saímos em um condomínio com casas de paredes amareladas e sujas de sangue e telhados cinzentos com avisos feitos de gesso. Uma verdadeira multidão de zumbis ocupava os pátios e estacionamentos.
A caminhonete atropelava e esmagava os zumbis pelo caminho enquanto tentávamos sair na avenida mais abaixo.
— Você vai acabar nos matando! — ouvi Eagle gritar.
— Você conhece outro jeito de fazer isso? Se conhecer, estou disposto a ouvir opções! — foi o berro de Johan em resposta.
Então eu ouvi vários tiros, olhei pela abertura na lona carroceria e vi Eagle atirando nos zumbis com um fuzil. Aquele velho doido errava bastante, mas pelo menos não sacudíamos mais passando por cima de corpos mortos.
Depois de derrubar uma árvore morta saímos para a pista lisa e agradavelmente limpa da avenida. Meu tio pôde então acelerar a toda para finalmente nos levar para o nosso objetivo no litoral do estado.
Porém uma freada me fez sentir irritado, pois Indy estava morrendo e eu queria que ela ao menos pudesse ver o mar.
— Tio, o que houve agora? — saí da caminhonete resmungando. Estaquei ao encontrar mais três pessoas falando com Eagle e Johan.
Meu tio apontava a arma para um homem negro encorpado com uma barbicha rala, enquanto Eagle mirava em duas mulheres, uma mulher negra, meio magra e com cabelos trançados para trás e outra, morena magra com os cabelos lisos presos num rabo de cavalo.
— Vocês podem continuar andando, não lhe faremos nada — meu tio falou com uma voz autoritária e meio zangada.
O homem estranho carregava um martelo ensanguentado e agora o apertava com as duas mãos, a mulher negra tinha uma pá e a outra uma faca de cozinha, eram apenas armas para matar zumbis, talvez fossem pessoas de bem, talvez.
— Tudo bem cara, não precisamos nos unir a vocês. Estamos apenas procurando um lugar seguro para ficar — ele falou, sua voz era grave e calma, apenas a voz de um homem que tenta proteger sua mulher e a amiga.
— Não acho que ainda existam lugares seguros nesse mundo companheiro — Eagle comentou — nós apenas andamos de um lado para o outro tentando sobreviver.
— Eu sei disso cara, mas não temos um veículo. Estamos apenas tentando achar um lugar para passar a noite — o homem retorquiu.
— Tio, por que não os deixamos ficar conosco? Eles precisam de ajuda, lembre-se daquele mercado, aquela mulher nos ajudou. Que tipo de pessoas seríamos se não os ajudássemos agora? — o pressionei e, quando vi que o homem negro me encarava, acrescentei mais baixo. — Se não os ajudarmos eles provavelmente não passarão dessa noite.
Nós tínhamos nos distanciado apenas um quilômetro da parada de caminhões antes de pararmos novamente. Havia uma pequena clareira próxima ao lado leste da avenida no lugar onde estávamos e meu tio a encarava soturno.
— Vocês parecem boas pessoas. Vamos descer a caminhonete até aquela clareira e vamos armar acampamento lá, espero que vocês tenham sacos de dormir ou algo assim — ele falou distanciando-se em direção à nossa caminhonete e depois parou para dar um aviso. — Se vocês me derem motivos para deixar de confiar na sua bondade eu não hesitarei em atirar na cabeça de cada um, assim como qualquer um do meu pessoal não hesitará.
— Mais gente já? —Laylor perguntou debochada quando meu tio nos mandou pegar lenha para acender uma fogueira. — Vocês são muitos amigáveis, daqui a pouco vocês formam o exército que você falou.
Eu dava machadadas fundas e cheias de aborrecimento no tronco de uma árvore enquanto ouvia a mulher irritante falar bobagem em cima de bobagem entre os cortes na árvore que ela visava.
Embora fosse aparentemente uma pessoa folgada e desleixada, Laylor cortou bem a lenha e terminou muito antes de mim. Quando consegui arrumar minha pilha de madeira ela já estava montando a fogueira.
A noite caiu fria como sempre e repleta de histórias em volta da fogueira.
O homem desconhecido era Tyreese, dono de uma pequena loja de sapatos e a negra de cabelos trançados era sua irmã, Sasha, que no mundo antigo estava desempregada e havia procurado ficar por alguns dias na casa do irmão. A outra mulher não quis falar sobre sua vida, era vizinha do casal, entre murmúrios dela própria soubemos que seu nome era Alexya e Sasha acabou contando que Tyreese a salvou dos zumbis dentro de sua casa.
Após essas narrativas reais eu ouvi pela primeira vez as histórias de Eagle e Bernard. Eagle era um advogado aposentado que caçava por esporte e estava na floresta caçando com um amigo quando o amigo foi mordido e ele foi salvo por Johan. Ele havia deixado sua mulher em casa, depois de muito insistir, Johan concordou em levá-lo até em casa para procurar sua mulher. O major ficou apenas triste ao assistir ao choro inconsolável de Eagle por encontrar sua mulher morta. Eagle disse ter duas filhas, mas decepcionou-se por não saber onde encontrá-las, então seguiu com o soldado que disse poder ajudá-lo a sobreviver.
Já Bernard era um caminhoneiro que estava no meio de uma entrega quando parou em uma avenida onde havia um engarrafamento. Tarde demais ele percebeu que pessoas aparentemente mortas saíam dos carros em sua direção. Depois de matar alguns zumbis Johan o encontrou seguindo pela estrada em direção à Atlanta. Bernard era um homem solitário, então foi ele que pediu para seguir com o veterano na habilidade de matar.
— Esse homem gosta muito de você, garoto — Bernard comentou ao terminar sua história. —ele mencionava que precisava salvar a família de seu irmão, mas sempre insistia em reafirmar que Johan deveria mantê-lo vivo e que o resto não importava.
Eu encarei meu tio com um sorriso de agradecimento.
Pressionamos Laylor para que ela cotasse sua história completamente desconhecida, mas esta negou veementemente. Depois de um silêncio sem mais assuntos, eu e minha mãe resolvemos contar a nossa história.
Ao chegarmos à parte em que meu pai se sacrificava por mim, lágrimas ameaçaram descer dos meus olhos.
A mulher do violão sem mais nem menos começou a fazer um dedilhado nas cordas de seu instrumento. Ficamos admirando uns aos outros, absorvendo as experiências dolorosas de cada um. Apreendendo os rostos, o comportamento, o jeito de ser daqueles que ainda não conhecíamos tão bem quanto os com que convivíamos. Absorvendo o nada da noite, tentando descansar de olhos abertos.
Então Laylor, parecendo abranger toda a tristeza e ansiedade das pessoas ao redor e colocar tudo nos dedos, deslanchou em um ritmo de country lento com algumas progressões repentinas que poderiam servir para um refrão imaginário.
Ouvindo essa melodia, combinado-a aos sons da natureza, ao cantar dos grilos, às lembranças ruins, à verdade irrefutável sobre o futuro, aos sons que tudo isso produzia ao chocarem-se contra a parede de otimismo e esperança da minha alma, comecei a cantar.
Timidamente, criei uns versos, Deus sabe de onde saíram, apenas emoção, apenas sentimento. Sempre tive o dom de transformar qualquer coisa em música e agora o usava para tentar acalmar os males que abatiam a alma, que nos forçavam contra o chão e esmurravam nossos joelhos.
Apenas usei cem por cento de inspiração para cantar seguindo a melodia tocada por Laylor, que também parecia sair pura e simplesmente do coração.
Corri pelas montanhas, explorei suas entranhas
Tentando encontrar um lugar, vazio quem sabe, para ficar...
Sobre o brilho da lua, cantamos ao vazio,
Esse brilho abre as janelas do coração
Que é tudo que há nessa canção
Andamos muito, forçando o corpo contra as estradas
Lutando contra a morte, vendo nossos amigos de almas armadas
Mesmo assim você é tudo para mim
Mesmo depois da morte você será tudo para mim
Ainda que eu tenha que impedir que você volte você será tudo para mim
Após cantar e chorar a sua morte, você continuará sendo tudo para mim
Não há rio que a correnteza leve essa escuridão
Nem a companhia da morte trouxe tal solidão
Continuo de pé, sem saber porquê
Ainda luto para estar com você
Nossos passados nunca foram tão consoladores
Não há futuro que garanta a fuga dessas dores
Mas eu continuo tentando trazer tudo de volta
Por que você é tudo para mim
Traga de volta minha felicidade, você que é tudo para mim
Nunca te imaginei assim tão longe estando perto, você é tudo para mim
Minha opinião não atrasa o tempo, mas você sempre foi tudo para mim...
Apenas por amizade e consideração as pessoas presentes em volta daquela fogueira, não tão triste quando poderia ser, aplaudiram-me. Vi sorrisos e algumas lágrimas, minha mãe me abraçou e então aquilo que já era previsto para acontecer, mas que eu tentava ignorar com todas as minhas forças aconteceu.
Indy levantou-se para me abraçar com lágrimas nos olhos, mas caiu de cara no chão empoeirado logo em seguida.
Minha mãe, eu e meu tio corremos até ela.
— George chegou a hora — eu sabia exatamente o que aquelas palavras, que saíam da boca do meu instrutor e guia, significavam, mas isso não me impediu de soltar a palavra mais boba de negação.
—Não — falei, sem querer admitir que Indy precisava partir. — Não pode ser! — choraminguei, voltando aos meus tempos de criança que não haviam sido há tanto tempo atrás.
— Ele está certo — falou a voz doce e já rouca que eu não imaginava ouvir dizendo aquilo. — Não sinto mais nada, apenas minha cabeça que parece rachar.
Minhas lágrimas, não pude contê-las, caíram sobre aquele rosto doce, suave e puro, já apático e de quase inexistente consciência.
Meu tio a ergueu em seus braços.
— George, venha comigo! Os outros ficam aqui! — ordenou meu tio com sua voz grave e autoritária habitual. — Precisamos fazer isso Amélia, você não precisa ver, não é algo agradável — meu tio falou quando minha mãe abriu a boca para protestar.
— Mas meu filho, ele vai ver...
— Seu filho ama essa garota — explicou ele num sussurro. — Precisamos garantir que ele seja forte e não se abata em situações semelhantes.
— Você está querendo dizer quando eu for mordida? — perguntou ela vorazmente, me dando interesse pela conversa.
Talvez se tornasse uma discussão, então eu saberia que a culpa de todas as discussões entre ela e meu pai não tinham sido culpa dele e eu tinha ficado com raiva dele todas aquelas vezes erroneamente, o culpado por um crime que ele não havia cometido. O seu único crime era ter casado com uma mulher mentalmente instável e não ter dado o devido interesse à sanidade do filho, que talvez seguisse pelo mesmo caminho.
— Ou eu Amélia. Vivemos em um mundo em que tudo é imprevisível, nada está no nosso controle. Nós podemos nos envolver acidentalmente com situações que nos levem a perder e isso não pode ser completamente prevenido. Temos que aprender a lidar com qualquer tipo de situação, calmos e mantendo as emoções sobre controle.
— Então vão logo, essa garota não vai aguentar mais muito tempo — minha mãe se rendeu ao poder de convencimento do meu tio e se acalmou.
Nós nos embrenhamos entre as árvores seguindo para o sul. Chegamos a uma clareira onde a luz da lua nos permitia ver as partículas se movendo, subindo e subindo, rumo ao desconhecido. Por um momento pedi que Indy pudesse subir também, para um lugar melhor.
Meu tio encostou-a em um pinheiro no centro da clareira. Suas pálpebras pesavam e ela tentava manter-se acordada.
O major do exército da Filadélfia entregou-me um revólver e uma missão impossível. Eu já havia derramado águas demais para ainda ter algum líquido sobrando nos olhos. Ergui a arma com a mão direita que tremia, limpei o rosto e com uma fungada deixei o braço pender do corpo, como um zumbi, como um morto que gostaria de ser para poder ir junto com ela para o tal lugar melhor.
Johan ergueu meu braço e me fez mirar na garota novamente, ela abriu os olhos e olhou para mim com o mais terrível medo.
— Não posso — entreguei a arma nas mãos do meu tio. — Não me peça para fazer isso, não consigo.
Ele me encarou com algum tipo de desgosto que eu ainda não entendia, então se voltou para a garota e mirou na sua cabeça friamente.
— George, eu te amo — ouvi-a dizer antes de escutar em seguida o frio anúncio de uma alma que partia para os braços gloriosos do tão amado Deus.
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