Dez Invernos

6 O que sempre esteve ali


Flashback

O jogo terminou com uma vitória apertada.

Durante os últimos minutos da partida, a arena inteira pareceu respirar no mesmo ritmo que os jogadores em quadra. O placar mostrava uma diferença mínima, e cada ataque arrancava reações nervosas da arquibancada. Chloe assistiu a tudo ao lado de Noah, Sophia e Oliver, embora, em vários momentos, percebesse que estava prestando mais atenção em Liam do que no jogo em si.

Ela conhecia seus movimentos há anos. Sabia quando ele estava confiante, quando estava irritado e quando alguma coisa não saía como planejado. Conhecia a forma como ele cerrava o maxilar antes de uma cobrança importante e o jeito como passava a mão pelos cabelos sempre que precisava reorganizar os pensamentos. Era curioso perceber quantas coisas sabia sobre ele sem nunca ter parado para refletir sobre isso.

Quando o cronômetro finalmente zerou, a explosão da torcida tomou conta do ginásio. O time de Silver Lake havia vencido.

Oliver foi o primeiro a ficar de pé.

— Eu sempre disse que esse time dependia emocionalmente de mim.

— Você nem está no time. — respondeu Sophia.

— Justamente. Imaginem o potencial desperdiçado.

Noah soltou uma gargalhada enquanto Chloe observava Liam cumprimentar os companheiros de equipe no centro da quadra. Mesmo à distância, conseguiu perceber o sorriso que se formava em seu rosto. Aquele sorriso genuíno que aparecia poucas vezes, geralmente quando ele estava verdadeiramente feliz.

E, por algum motivo, vê-lo assim sempre fazia com que ela também sorrisse.

Mais tarde, o grupo acabou em uma pequena lanchonete próxima ao lago. A mesa foi tomada por pratos de batatas fritas, refrigerantes e comentários exagerados sobre o jogo. Oliver descreveu pelo menos três vezes uma jogada que claramente não havia acontecido da forma como ele contava. Noah tentou corrigi-lo nas três oportunidades. Sophia desistiu de discutir depois da segunda tentativa.

O tempo passou depressa. Como sempre acontecia quando os cinco estavam juntos.

Em algum momento, Noah recebeu uma mensagem dos pais avisando que precisava voltar para casa. Sophia aproveitou a oportunidade para ir junto. Oliver anunciou que também iria embora.

— Você mora literalmente duas ruas daqui. — disse Liam.

— Exatamente. É uma jornada longa e perigosa para hoje.

— Ninguém acredita em você.

— A diferença entre um gênio e uma pessoa comum é que o gênio jamais é compreendido em seu tempo.

Antes de sair, porém, Oliver lançou um olhar descaradamente suspeito para Liam e Chloe. Depois outro e mais um. Até Sophia puxá-lo pela jaqueta.

— Anda.

— Estou indo.

— Agora Oliver.

E antes de dar as costas novamente, Oliver olhou para os dois sem que Chloe e Liam percebessem. Mas não era um olhar malicioso, mas de quem sabia que aquele momento teria alguma importância futura ser do modo como iria ser.

Poucos segundos depois, restaram apenas os dois. Liam e Chloe decidiram caminhar antes de voltarem para casa. A noite estava agradável, e as ruas de Silver Lake permaneciam iluminadas pelos postes espalhados ao longo da avenida principal. O lago refletia as luzes da cidade, transformando a superfície da água em um mosaico de brilhos dourados.

Por alguns minutos conversaram sobre o jogo, até que a eletricidade da vitória passou. Depois sobre a escola. Depois sobre absolutamente nada importante. E talvez fosse exatamente isso que tornava aqueles momentos especiais.

Não precisavam impressionar um ao outro ou preencher cada espaço com palavras. A companhia já bastava. Enquanto caminhavam pela calçada próxima ao parque onde costumavam brincar quando crianças, Liam soltou uma risada inesperada.

— O quê? — perguntou Chloe.

— Eu estava lembrando de uma coisa.

— Isso é preocupante.

— Você tinha um casaco amarelo horrível.

Ela demorou alguns segundos para entender.

— Do que você está falando?

— Quando nos conhecemos. – ele tinha um olhar divertido enquanto passava as mãos pelos cachos que seu cabelo fazia.

Chloe franziu a testa.

— Você lembra disso?

— Claro que lembro.

— Liam, nós tínhamos sete anos.

— E?

— Acho que não lembro o que comi ontem. – ela deu uma risada leve enquanto franzia o cenho.

— Eu lembro.

Ela observou o sorriso dele.

— Então me conta. – olhou em um tom desafiador.

Liam colocou as mãos nos bolsos da jaqueta enquanto continuavam andando.

— Você estava no parquinho perto da escola. Tinha acabado de chegar na cidade. – ele fingia ter que lembrar algum detalhe, sendo que tudo era tão nítido quanto os minutos anteriores — Você estava usando aquele casaco amarelo horrível e uma mochila maior do que você cheia de glitter. Você olhou para mim como se eu fosse um problema administrativo.

— Isso não aconteceu. — Chloe gargalhou alto antes de responder. – falando assim parece que eu era metida.

— Aconteceu exatamente assim.

Ela continuou rindo enquanto balançava a cabeça.

Mas então percebeu uma coisa.

Ele lembrava mesmo. Cada detalhe. Como se aquela memória tivesse permanecido guardada durante todos aqueles anos pronta pra ser contada no melhor momento, e este momento era agora.

— Você realmente lembra disso.

— Lembro.

— Por quê?

Liam demorou um instante para responder.

— Não sei.

Mas os dois sabiam que aquilo não era verdade. Ele sabia e ela também.

Chloe desviou os olhos para o lago.

— Eu também lembro.

— Da primeira vez que me viu?

— Sim.

Agora foi a vez de Liam parecer surpreso.

— Sério?

— Você estava correndo atrás do Oliver. – ela se divertiu com a lembrança.

— Isso não reduz muito as possibilidades.

— Vocês tinham roubado uma bola de futebol de alguém. – ela gargalhou novamente antes de continuar — E você caiu de cara na lama.

Liam levou a mão ao peito.

— Isso foi cruel. – fingiu ter se envergonhado — Eu achei que ninguém tivesse visto.

— Eu vi.

— Faz sentido você lembrar. Foi o momento mais humilhante da minha vida.

— Não foi.

— Foi sim.

— Não foi.

— Como você sabe?

Ela sorriu.

— Porque eu continuei te observando depois disso.

A frase saiu antes que pudesse ser filtrada. Sem planejamento ou cuidado. Assim que terminou de falar, Chloe percebeu o peso daquilo. Porque não estava falando apenas daquele dia. Não estava falando apenas do garoto coberto de lama que corria atrás de Oliver pelo gramado da escola.

Estava falando de todos os anos que vieram depois. Dos jogos que assistiu, dos treinos que acompanhou, das conversas intermináveis no banco da caminhonete de Oliver, .De todas as versões de Liam Carter que conheceu ao longo da vida.

Ela continuou observando-o. E talvez sempre tivesse continuado.

O silêncio que veio em seguida foi diferente. Mais lento e mais atento. Nenhum dos dois desviou o olhar imediatamente. O mundo ao redor pareceu diminuir de tamanho e desacelerar.

Liam foi o primeiro a sorrir. Um sorriso pequeno, daqueles que raramente mostrava para outras pessoas. Até que ele o desmanchou.

— Uma hora a gente vai precisar parar de fingir que não percebe.

O coração de Chloe disparou. Porque ela sabia exatamente do que ele estava falando. Não era sobre aquela noite ou sobre os olhares, ou os comentários exagerados e diretos de Oliver.

Era sobre anos. Anos de sentimentos crescendo silenciosamente entre eles. Anos de momentos que nenhum dos dois teve coragem de nomear.

Ela sabia que precisava e podia admitir. Ela respirou fundo e então sorriu.

— Eu sei.

O silêncio entre eles era preenchido apenas pelo som distante da água batendo contra o píer e pelo vento suave que atravessava as árvores.

— Eu acho que você sempre esteve lá. – Ele pareceu distante e triste por um lapso de momento. — Nas minhas lembranças. – Ele passou a mão pela nuca antes de continuar. — Eu lembro da primeira vez que te vi. Lembro de você aprendendo a patinar. Lembro de você quebrando o braço aos onze anos porque decidiu que era uma ótima ideia pular da arquibancada.

— Eu tinha um plano.

— Era um plano péssimo. – ele riu de um modo muito divertido antes de continuar — Lembro de você chorando escondida quando perdeu aquela competição em Minnesota.

O sorriso dela desapareceu. Porque aquela memória era específica demais. Achou que estivesse sozinha naquele dia e momento.

— Você viu aquilo? – e ao olhar para ele, ele apenas concordou com um aceno de cabeça. — Por que nunca falou nada?

Liam deu de ombros.

— Porque você não queria que ninguém visse. — A resposta atingiu Chloe de uma forma inesperada. Liam respirou fundo e continuou. — É disso que estou falando. — Ela permaneceu em silêncio, esperando que ele completasse. — Eu conheço você há tanto tempo que às vezes nem percebo. E eu percebo que você está em todas as minhas lembranças favoritas.

O mundo pareceu desacelerar e Chloe sentiu o peito apertar. Porque havia passado anos acreditando que era a única pessoa guardando aquelas memórias com tanto cuidado.

Mas não era. Liam também carregava tudo consigo.

— Você é a primeira pessoa para quem eu quero contar qualquer coisa.

O coração dela tropeçou dentro do peito.

— Liam...

— Não, espera. — Ele passou a mão pelos cabelos, visivelmente nervoso e talvez mais nervoso do que ela jamais o tivesse visto. — Eu estou tentando organizar isso. Quando alguma coisa boa acontece, eu quero te contar. Quando alguma coisa ruim acontece, eu também quero te contar. — O sorriso dela que estava estampado no rosto enfraqueceu. — Quando eu estou feliz, procuro você. Quando estou perdido, procuro você.

O silêncio voltou a se instalar, só que agora parecia impossível fugir dele. Porque Chloe percebeu que fazia exatamente o mesmo. Sempre fez.

— Acho que eu faço isso também.

Liam sorriu. Um sorriso pequeno, quase e ligeiramente incrédulo. Como se estivesse descobrindo aquilo ao mesmo tempo que ela.

— É, eu acho que faz.

O coração dela acelerou. Porque, de repente, aquela conversa já não parecia sobre amizade, mas também não parecia sobre paixão. Parecia sobre pertencimento e reconhecimento.

A resposta saiu quase como um sussurro. Mas foi suficiente para o impulso que precisava ser tomado.

Chloe desviou os olhos para o lago por alguns segundos, tentando organizar os próprios pensamentos. O problema era que não havia nada para organizar. Tudo parecia simples demais e complexo demais ao mesmo tempo. Liam sempre esteve ali. Em todas as lembranças importantes. Em todos os verões. Em todas as versões dela mesma que conseguia recordar. Era impossível pensar na própria história sem encontrá-lo em algum lugar dela. Talvez fosse justamente isso que a deixava sem palavras.

Porque não existia um começo. Não existia um momento exato para apontar e dizer: foi aqui. Havia apenas uma sucessão de dias, anos e memórias que, sem que percebessem, tinham construído algo muito maior do que qualquer um dos dois ousava admitir.

Quando voltou a olhar para ele, encontrou Liam já observando-a. Não havia intensidade exagerada naquele olhar. Não havia urgência, apenas atenção. Daquela forma que ele sempre fazia. Como se, no meio de uma multidão inteira, ainda conseguisse enxergar apenas ela.

O silêncio se instalou novamente. Mas já não parecia vazio. Parecia cheio de coisas que nenhum dos dois sabia como dizer.

Liam abaixou os olhos por um segundo e quando ele voltou a erguer o rosto, havia algo diferente. Uma vulnerabilidade rara sua, como se estivesse deixando de lado todas as versões de si mesmo que costumava mostrar para o resto do mundo.

— Eu gosto desses momentos. — A voz dele saiu quase num murmúrio enquanto ele fez um pequeno gesto ao redor. — Quando é só você e eu.

O ar pareceu desaparecer dos pulmões dela. Porque a frase era simples, mas carregava uma honestidade que a atingiu em cheio.

O vento movimentou algumas mechas do cabelo de Chloe, que acabaram caindo diante do seu rosto. Antes que pudesse afastá-las, Liam ergueu a mão livre.

O gesto foi lento e cuidadoso, como sempre. Mas como se perguntasse permissão sem usar palavras. Os dedos dele tocaram seus cabelos apenas o suficiente para colocá-los atrás da sua orelha.

Mas o toque pareceu percorrer todo o seu corpo, como arrepio, como eletricidade.

Os olhos deles se encontraram novamente. Chloe sentiu o coração acelerar tanto que chegou a ficar consciente da própria respiração e Liam parecia estar passando exatamente pela mesma coisa. Porque havia um nervosismo quase imperceptível nele.

E, estranhamente, aquilo a tranquilizou, porque significava que não estava sozinha. Eles estavam descobrindo aquilo juntos.

A distância entre eles parecia menor agora. Não porque algum dos dois tivesse se aproximado. Mas porque algo invisível havia desaparecido. Uma barreira antiga. Uma linha que existira durante anos.

Chloe observou os olhos dele e a forma como o luar desenhava os contornos do seu rosto. E sentiu uma certeza tranquila se instalar dentro dela. Não era uma explosão. Não era um arrebatamento. Era paz. Como se finalmente tivesse encontrado uma resposta para uma pergunta que nunca soube formular.

Liam respirou fundo. Os olhos dele desceram brevemente para os lábios dela. E voltaram. Mas dessa vez nenhum dos dois fingiu não perceber.

Nenhum dos dois recuou. O mundo inteiro pareceu desacelerar novamente e veio a sensação inevitável de que estavam prestes a atravessar juntos uma porta que permanecera fechada por tempo demais.

Devagar, quase sem perceber, Chloe inclinou ligeiramente o rosto enquanto desviou o olhar até a boca de Liam. E Liam fez o mesmo.

Não havia pressa, medo ou receio. Só a confiança, o carinho e a vontade silenciosa de permanecer um pouco mais perto.

E quando a distância entre eles se tornou mínima, tão pequena que ela conseguia sentir a respiração dele misturando-se à sua, seus olhares se encontraram e ambos sorriram. Um sorriso nervoso, incrédulo, porém doce. Como quem finalmente entende algo importante.

Os olhos de Liam permaneceram nos dela até o último segundo. Sem pressa ou hesitação ou com necessidade de transformar aquilo em algo maior do que era, porque já era enorme.

Quando os lábios finalmente se tocaram, o beijo começou suave. Tão suave que Chloe sentiu quando Liam sorriu.

Havia algo de surpreendentemente familiar naquilo. Como se não estivesse descobrindo uma pessoa nova, mas redescobrindo alguém que sempre esteve ali.

O primeiro toque durou apenas alguns segundos. Tempo suficiente para que ambos sentissem a realidade do que estava acontecendo. Tempo suficiente para que Chloe percebesse que todas as vezes em que imaginou aquele momento, nenhuma delas tinha chegado perto da sensação real. Era terno e quente. A boca de Liam era mais macia do que Chloe poderia imaginar. E para Liam, Chloe parecia agora algo tão frágil que estava com medo de quebrá-la.

Quando se afastaram minimamente, nenhum dos dois abriu os olhos de imediato. Suas testas encostaram uma na outra e Liam soltou uma pequena risada pelo nariz, nervosa e incrédula. E aquilo fez Chloe rir também.

Porque era tão a cara dele. Transformar até o momento mais importante da vida deles em algo leve. Quando voltaram a se olhar, havia um brilho diferente nos olhos dos dois. Não era surpresa ou choque, era reconhecimento e liberdade.

A mão de Liam segurou a de Chloe firme e quente, sem qualquer intenção de soltá-la. Então Liam ergueu a outra mão e tocou de leve o rosto dela, afastando uma mecha de cabelo que o vento insistia em mover.

O gesto era tão simples e cuidadoso que fez o coração dela apertar. Não era apenas o beijo. Era o cuidado. A forma de olhar, a maneira de escutar, a forma como aparecia quando ela precisava.

O beijo não era o começo daquilo. Era apenas o momento em que ambos finalmente pararam de fingir que não existia.

Os olhos de Liam percorreram o rosto dela lentamente, como se estivesse decorando cada detalhe. E talvez estivesse.

— Oi — ele disse baixinho.

Chloe soltou uma risada.

— Oi.

— Isso foi...

Ele começou a falar, mas parou no meio da frase.

Não porque não soubesse completar. Mas porque parecia impossível encontrar palavras adequadas.

Ela sorriu.

— Eu sei.

E realmente sabia. Sabia exatamente o que ele estava tentando dizer. Porque sentia a mesma coisa. A sensação estranha e maravilhosa de que algo havia mudado ao mesmo tempo que nada havia mudado também.

Liam ainda era Liam, seu melhor amigo, o garoto que fazia piadas ruins, que aparecia sem avisar, que a fazia rir quando estava nervosa e que ocupava suas melhores memórias.

A diferença era que agora ela já não precisava fingir que seu coração reagia a isso como reagia a qualquer outra pessoa.

O sorriso dele cresceu devagar. Então, sem qualquer pressa, inclinou-se novamente. Dessa vez não havia surpresa ou descoberta, só a vontade tranquila de permanecer ali.

E quando os lábios se encontraram outra vez, sob o céu estrelado de Silver Lake, Chloe teve a sensação de que algumas histórias não começam com um beijo.

Algumas histórias apenas encontram nele o momento exato em que finalmente passam a ser contadas firmemente.


Notas finais
Música: https://www.youtube.com/watch?v=M7ySK0keirY