Flashback

Chloe passou a manhã inteira tentando agir como se fosse um dia comum.

Tentou ajudar Emily a organizar algumas coisas pela casa. Tentou responder mensagens. Tentou até assistir a um programa qualquer na televisão da sala e nada funcionou. Em algum momento percebeu que estava parada havia quase cinco minutos olhando para a mesma página de uma revista sem conseguir ler uma única linha.

Toda vez que sua mente ficava livre por mais de alguns segundos, ela voltava para o lago. Para o reflexo das estrelas sobre a água, as mãos entrelaçadas, sorriso do Liam, o beijo. E então voltava a sorrir sozinha. Era ridículo. Mas também era impossível evitar.

Por volta do início da tarde, depois de ser questionada por Emily pela terceira vez sobre o motivo de estar andando pela casa com "cara de quem ganhou na loteria", Chloe desistiu de fingir normalidade. Pegou as chaves do carro, avisou que voltaria mais tarde e saiu antes que a irmã pudesse fazer mais perguntas.

Ela sabia exatamente para onde estava indo.

A oficina onde Oliver trabalhava com o pai ficava próxima ao centro de Silver Lake. Era um daqueles lugares que pareciam existir desde sempre. As mesmas paredes de tijolo vermelho. A mesma placa desgastada acima da entrada. O mesmo cheiro de óleo, metal e borracha que se espalhava até o estacionamento.

Quando estacionou, viu uma caminhonete suspensa no elevador hidráulico e dois mecânicos conversando próximos à entrada. O som de ferramentas ecoava pelo galpão aberto.

Oliver estava deitado sob um carro. As pernas apareciam para fora do veículo enquanto ele trabalhava em alguma coisa impossível de identificar.

Chloe se aproximou devagar.

— Oi.

Por alguns segundos, nada aconteceu. Então Oliver deslizou sobre o carrinho mecânico até surgir debaixo do carro. O rosto estava manchado de graxa, os cabelos estavam bagunçados e a expressão era de absoluta confusão.

— Chloe?

Ela cruzou os braços.

— Oi.

Oliver continuou olhando para ela por mais alguns segundos. Encarando-a como algo muito curioso de se ver diante de tamanho desespero. Então estreitou os olhos. Depois sentou-se no chão. E apontou para ela.

— Aconteceu alguma coisa.

Chloe sentiu o sorriso escapar imediatamente.

— Como você sabe?

— Porque você está sorrindo.

— Isso não é crime.

— Nesse nível deveria ser investigado.

Ela balançou a cabeça.

— Você é impossível.

— E você veio até aqui no meio da tarde sem avisar. Então claramente aconteceu alguma coisa.

Chloe observou o movimento da oficina por alguns instantes antes de responder. O curioso era que não sentia nervosismo. Não sentia vergonha. Não sentia necessidade de esconder. Se havia uma pessoa no mundo para quem queria contar aquilo, era Oliver.

Porque ele sempre esteve presente. Seja nos momentos bons, nos ruins, vitórias, derrotas, ele era uma das poucas pessoas que conhecia todas as versões dela. E nunca pareceu gostar menos dela por isso.

— Eu beijei o Liam.

Oliver ficou completamente imóvel. Por dois segundos. E o tempo para Chloe pareceu infinito, como se tivesse parado. Três, quatro.

Então ele fechou os olhos. Levantou o rosto para o teto da oficina. E soltou um suspiro exageradamente dramático.

— Graças a Deus.

Chloe gargalhou.

— Oliver!

— Eu estou falando sério. Chloe, eu estou esperando por isso há anos.

— Anos? – perguntou ela com deboche.

— Anos.

Ela continuava rindo quando ele se levantou e limpou as mãos em um pano próximo.

— Honestamente, eu já estava começando a acreditar que vocês iam chegar aos oitenta anos sem perceber.

— Não foi assim.

— Foi exatamente assim.

— Não foi.

— Chloe.

— Oliver.

Ela tentou manter uma expressão séria e falhou miseravelmente.

Oliver apontou para um banco próximo à parede.

— Senta.

Ela sentou e ele logo depois. E, pela primeira vez desde que ela chegou, a brincadeira desapareceu. Porque Oliver percebeu que havia algo mais ali. Algo que ela ainda estava tentando entender, ainda que pra ele sempre tivesse sido nítido e simples.

— Então?

A pergunta saiu mais suave e sincera.

— Então o quê?

— Como foi?

Chloe demorou alguns segundos para responder. Não porque não soubesse. Mas porque até então não tinha colocado aquilo em palavras. As lembranças eram nítidas. Ela observou as próprias mãos e depois encarou o chão. Tentando encontrar uma explicação.

— Foi estranho.

Oliver ergueu uma sobrancelha.

— Estranho ruim?

— Não. — Ela sorriu. — Estranho bom. Eu achei que ficaria nervosa, que... que tudo ia mudar, que seria desconfortável, ou complicado, ou cheio de pânico...

— Mas não aconteceu nada disso. – ele interrompeu a linha ansiosa de pensamentos pela qual ela seguia.

Chloe apoiou os cotovelos sobre os joelhos. Pensando.

— Pareceu certo.

A resposta saiu simples. Honesta e sem enfeites.

Oliver assentiu lentamente. Como alguém ouvindo exatamente o que esperava ouvir.

— É porque você está olhando para o beijo.

— Como assim?

— Como se ele fosse o começo da história. Chloe, você e Liam não começaram ontem. Vocês passaram anos construindo isso. Nós 5 passamos anos e anos nos construindo como somos hoje, amigos, unidos e parceiros, uma família mesmo. Mas desde o início vocês dois construíam algo inconscientemente. Então pra vocês é quase como anos dobrados. Anos aprendendo quem o outro é, confiando, aparecendo quando nem mesmo um de nós aparecia, anos escolhendo um ao outro sem perceber. E não é que eu, Sophia e Noah também não tenhamos construído nada assim uns com os outros e com vocês dois, mas os amores são diferentes. – Ele deu um pequeno sorriso — O beijo não criou nada. Só deu representação para uma coisa que já existia.

Ela sentiu algo apertar dentro do peito. Porque, de repente, todas as peças pareciam se encaixar. Conversas, verões, jogos, treinos, ligações, abraços, preocupações, escolhas e sensações.

Talvez Oliver estivesse certo. Talvez não, ele estava certo. Uma conexão construída dia a dia, ano após ano, cheia de dois amores.

— Você sabe uma coisa engraçada? — ela perguntou.

— Sempre.

— Eu nunca tive medo dele.

Oliver sorriu.

— Eu sei.

— Nunca precisei impressionar ou... fingir ou pensar demais antes de falar.

— Eu sei.

— E agora parece exatamente igual.

Oliver soltou uma pequena risada.

— Porque a melhor parte continua sendo a mesma.

Chloe o encarou.

— Qual?

— Vocês ainda são vocês.

A resposta ficou ecoando na mente dela. Porque era verdade. Liam ainda era Liam. O garoto que aparecia sem avisar, que fazia piadas ruins, que sempre esteve lá nos treinos. Que se soubesse patinação artística, teria ensaiado cada pirueta com ela.

A diferença era que agora ela finalmente entendia por que a presença dele sempre significou tanto.

Oliver observou o sorriso surgir lentamente em seu rosto. Então balançou a cabeça com um sorriso genuinamente feliz e simplório.

— Você está feliz.

Não era uma pergunta. Era uma constatação tão clara quanto o sol da tarde que iluminava parte da rua.

Pensou no lago, no beijo, em Liam. E sorriu novamente, um sorriso tranquilo, profundo, daqueles que vêm de um lugar muito sincero e que agora tem 100% de encaixe nas peças da vida.

— Estou.

Oliver devolveu o sorriso. Porque, acima de qualquer brincadeira, era isso que importava.

Ver Chloe feliz.

— E por que raios tá aqui comigo agora então?

— Eu queria te contar, eu só sabia que precisava vir pra cá.

— Já me contou. Por que não vai até ele? – ele olhou para a entrada da oficina e viu Liam encostado na pilastra – na verdade, só não fiquem de pegação aqui na oficina, eu tô trabalhando ainda.

Chloe olhou confusa para Oliver, até que direcionou seu olhar para o mesmo rumo para onde ele olhava. Seus olhos encontraram o de Liam e sentiu seu coração batendo como se quisesse rasgar a pele e sair voando até ele.

Liam veio em direção aos dois com um sorriso descontraído.

— Tivemos os dois a mesma ideia então.

Chloe sentiu o calor subir pelo rosto imediatamente.

Não porque Liam tivesse dito algo particularmente romântico, mas porque, pela primeira vez desde a noite anterior, estava vendo tudo aquilo à luz do dia. Sem o silêncio do lago. Sem a proteção da escuridão. Sem a desculpa das estrelas ou do momento.

A sensação de que algo havia mudado sem que nenhum dos dois precisasse dizer uma única palavra.

— Parece que sim — respondeu ela, tentando soar muito mais tranquila do que realmente estava.

Oliver observou os dois por alguns segundos e soltou um suspiro dramático.

— Certo. Vocês estão me deixando desconfortável.

— Você literalmente acabou de me perguntar por que eu não estava com ele — rebateu Chloe.

— Sim, mas uma coisa era teoria. Outra é assistir ao experimento acontecendo na minha frente. Vocês dois estão desconcertados.

Oliver apontou uma chave inglesa para os dois como se fosse um professor prestes a dar uma lição importante.

— Agora, se me dão licença, algumas pessoas precisam trabalhar para sustentar esta amizade.

— Você trabalha há cinco minutos — disse Liam.

— E já estou exausto.

— Claro que está.

— Vão embora.

— Estamos indo.

— E levem esse clima de filme romântico adolescente junto. Amo vocês, mas vão.

Chloe pegou um pano qualquer que estava sobre a bancada e jogou na direção dele.

Oliver desviou teatralmente.

— Violência. Estou cercado por violência.

Os três riram.

Mas, quando Chloe e Liam começaram a caminhar para fora da oficina, ela percebeu que Oliver continuava sorrindo enquanto os observava partir. Um sorriso discreto. Daqueles que pertenciam a alguém que estava feliz simplesmente por vê-los felizes.

O barulho das ferramentas e dos motores foi ficando distante. A tarde estava agradável. O sol iluminava as ruas de Silver Lake e uma brisa leve balançava as folhas das árvores que cercavam a oficina.

Por alguns instantes, nenhum dos dois falou. E, estranhamente, aquele silêncio sim parecia novo. Não desconfortável, só diferente e consciente. Como se ambos estivessem reaprendendo a caminhar lado a lado.

— Então... — começou Chloe.

— Então... — repetiu Liam.

Os dois falaram ao mesmo tempo. E imediatamente riram.

— Você primeiro — disse ela.

— Não, você.

— Covarde.

— Muito. – ele colocou as mãos no bolso da calça.

Ela balançou a cabeça, divertindo-se.

Durante alguns segundos observou a calçada à frente, tentando organizar os próprios pensamentos. Porque, de repente, tudo parecia simples e complicado ao mesmo tempo. Agora existia algo mais. Algo que ainda estavam aprendendo a enxergar.

— Eu fiquei pensando nisso o dia inteiro — admitiu ela.

Liam diminuiu um pouco o ritmo dos passos.

— No quê?

Ela lançou um olhar rápido para ele.

— Em nós.

A resposta fez o sorriso dele surgir imediatamente.

— Eu também.

O coração dela acelerou. Porque havia algo diferente em escutar aquilo em voz alta. Algo que tornava tudo mais real.

Eles caminharam mais alguns metros em silêncio, até que Liam soltou uma risada baixa.

— Sabe o que é engraçado? Eu passei anos achando que estava escondendo muito bem.

Chloe virou o rosto para ele.

— Escondendo o quê?

— Isso. — Ele respondeu de forma simples sem desviar o olhar ou transformar aquilo em piada. — E você?

Ela arqueou uma sobrancelha.

— O que tem eu?

— Vai fingir que eu era o único?

Chloe abriu a boca para responder como se tivesse sido insultada de um modo divertido. Fechou e acabou rindo.

Porque não tinha argumento. Talvez ele estivesse certo. Talvez ambos tivessem passado anos carregando algo que já estava ali muito antes de qualquer um deles perceber. E talvez o mais estranho não fosse descobrir aquilo. Talvez o mais estranho fosse perceber o quanto parecia natural agora, já que pela primeira vez estavam, ainda que de um modo bom, desconcertados em estar perto um do outro.

Quando essa percepção atravessou seu pensamento, Chloe sentiu a mão de Liam encontrar a sua. Naturalmente, sem hesitação ou pedido.

Os dedos se entrelaçaram enquanto continuavam caminhando pela rua iluminada pelo sol da tarde. E, naquele instante, ela teve a sensação de que não precisava ter todas as respostas.

Não precisava entender exatamente quando aquilo tinha começado, nem como ou por quê. Porque, pela primeira vez em muito tempo, não sentia necessidade de procurar explicações. Sentia apenas vontade de continuar caminhando do lado dele.

E, naquele momento, isso parecia mais do que suficiente.

— Eu acho que a melhor parte é que nada mudou — disse Chloe baixinho.

— Como assim?

— Continua sendo você. — Ela sorriu. — Ainda é a pessoa que me irrita desde os oito anos.

— Desde os sete.

— Não me corrija.

— Estou apenas preservando a precisão histórica.

— Eu gosto de você, Liam.

A voz dela saiu quase em um sussurro.

— Eu sei.

Ela riu imediatamente.

— Nossa, que resposta horrível.

— Espera. — Ele também começou a rir desconcertado. — Não foi isso que eu quis dizer.

— Espero que não.

— O que eu quis dizer é...

Ele hesitou. Pela primeira vez desde que ela o conhecia.

Ele parou de andar e se virou de frente para ela.

— Eu sei por que eu também gosto de você.

O sorriso dela cresceu. E o dele também.

Por alguns segundos nenhum dos dois falou. As palavras importantes já tinham sido ditas. O resto estava nos olhares e na proximidade. Na sensação absurda de alívio que tomava conta dos dois. Como se estivessem finalmente parando de correr de algo que sempre os alcançaria.

Liam ergueu uma das mãos e afastou delicadamente uma mecha de cabelo do rosto dela. E então acariciou sua bochecha com o polegar.

O gesto foi lento e cuidadoso. Como se ainda estivesse se acostumando à ideia de poder fazer aquilo naquele tom.

Chloe sentiu a respiração prender. Não por nervosismo, mas porque agora se fazia real, simples e certo.

Ela inclinou levemente o rosto e Liam tratou de diminuir a distância restante.

O beijo veio devagar, sem pressa. Sem urgência ou necessidade de prova. Porque não era o começo de alguma coisa.

Era o reconhecimento dela. De algo que já existia há anos. Algo que havia crescido silenciosamente entre jogos de hóquei, competições de patinação, noites no lago, acampamentos e verões inteiros compartilhados.

Quando os lábios se encontraram, Chloe teve a estranha sensação de estar chegando em casa.

E, pela primeira vez, nenhum dos dois precisou fingir que não percebia ou que não desejava aquilo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.