Dez Invernos
1 O nome no quadro
Chloe nunca acreditou em presságios.
Mesmo assim, quando a placa de boas-vindas da cidade apareceu pela janela do carro, seu estômago se contraiu.
Bem-vinda a Silver Lake.
As mesmas letras brancas, o mesmo fundo azul. Como se dez anos não tivessem passado. A cidade foi congelada no tempo.
Ela diminuiu a velocidade. À direita, a lanchonete ainda estava lá. À esquerda, a floricultura também. Até a banca de jornal parecia exatamente igual. Era injusto. O mundo deveria mudar quando alguém passava uma década longe dele. Por um momento, parecia que Silver Lake tinha aguardado sua permissão para seguir em frente. E ela nunca a concedeu.
Chloe apertou o volante.
— Foi uma péssima ideia.
Falou sozinha, como vinha fazendo desde que aceitou a vaga no hospital. O GPS anunciou a próxima curva, mas ela ignorou. Conhecia aquelas ruas melhor do que gostaria. Cada esquina, cada atalho. O vento carregava lembrança junto das folhas das árvores.
Na curva seguinte, tendo visto que a cidade parecia ter congelado no tempo, ela sabia que o ginásio de patinação estaria do mesmo modo, então passou sem olhar. Mas ela sabia e sentia. E foi o bastante. O prédio estava ali, com as paredes de vidro, a entrada iluminada. Chloe voltou a olhar para a estrada.
O aperto no peito aumentou. Dez anos. Dez anos desde a última vez que esteve ali de verdade, sem falar com as pessoas que tinha sido sua família, carregando despedidas que nunca aconteceram e que nem deveriam ter sido cogitadas. O celular vibrou no banco do passageiro. Era sua irmã, Emily.
"Onde está?"
Chloe sorriu pela primeira vez. Quando ela deixou a cidade, Emily era pequena, tinha apenas 9 anos. Apesar da pouca idade e da dor de ter acordado no dia seguinte e não encontrar a irmã no quarto, Emily não teve ressentimento. Parecia, apesar da diferença de idade entre as duas, ter uma conexão tão surreal que sabia que a irmã achava ter feito o melhor, ou que precisava fazer aquilo. Guardou uma certa mágoa, mas tratou de proibir Chloe de não manter contato diário com ela. Então cresceram mantendo aquela mesma conexão.
"Acabei de estacionar na porta."
Chloe mal teve tempo de desligar o motor. A porta da frente se abriu. Emily surgiu correndo. E, por um segundo, Chloe enxergou a menina de nove anos que tinha deixado para trás. Não deu tempo nem de fechar a porta do carro.
— Ainda não caiu a ficha que você voltou. Que acabaram as vídeos chamadas.
E então durante o abraço, o sorriso desapareceu.
— E o papai?
— Está na oficina, ele chega à noite. Disse que lamenta não estar aqui pra te ver, mas disse pra você ir ao hospital tranquila e que mais tarde quer te dar um enorme abraço.
— Tudo bem. Eu imaginei. Eu tenho uma pergunta bem importante.
— Pode falar.
— Eu ainda tenho meu quarto?
Emily abriu um enorme sorriso.
— Obviamente não o mesmo quarto. O seu era bem maior, então...
E rindo, as duas pegaram as malas e foram para dentro de casa.
O hospital ficava no alto de uma colina. Silver Lake Memorial Hospital surgia na colina em um letreiro grande e moderno, assim como o restante do prédio. Moderno. Maior do que ela lembrava.
Ao entrar, mais do esperado para um hospital. Enfermeiros entrando e saindo, ambulância estacionando, médicos apressados pelos corredores, sem sequer prestar atenção nos enfermeiros.
Chloe se aproximou da bancada na enfermaria.
— Com licença.
A enfermeira atrás do balcão ergueu os olhos do computador.
— Posso ajudar?
— Meu nome é Chloe Bennett. Sou a nova pediatra.
— Ah, claro. A coordenadora está te esperando.
A enfermeira pegou o telefone.
— Emma? A doutora Bennett acabou de chegar.
Poucos segundos depois, uma mulher apareceu no corredor. Alta. Elegante. Cabelos escuros caíam pelas costas até a cintura. Usava um sapato de salto alto, assim como o terno azul escuro que vestia. Apesar do ambiente hospitalar, havia algo naturalmente refinado nela.
— Dra. Chloe Bennett?
— Sim.
— Emma Willow. Coordenadora da pediatria.
O sorriso que Emma ofereceu era acolhedor o suficiente para aliviar parte da tensão que Chloe carregava desde que atravessara a placa de entrada da cidade.
— Seja bem-vinda ao Silver Lake Memorial Hospital.
Finalizando o tour, Emma se aproximou do balcão.
— E esta é Madison Graham.
A enfermeira levantou os olhos de um prontuário e sorriu.
— Então você é a famosa nova pediatra.
— Famosa?
— Faz três semanas que escuto falar da sua chegada.
Chloe riu.
— Espero não decepcionar.
— Sem pressão nenhuma — respondeu Madison. — Só estamos precisando desesperadamente de ajuda.
Chloe sorriu em retorno ao enorme sorriso de Madison, até que Emma apontou para uma sala no fim do corredor.
— Lá dentro fica o painel geral de internações. Consulte sempre que precisar, mas faremos a migração para os tablets novos em breve também. Mas este painel sempre estará aqui. Se tem uma coisa que não podemos fazer aqui é ser refém da tecnologia, não é? – ela se virou e deu um sorriso tenro. – Chloe, eu tenho uma reunião agora, mas sinta-se à vontade para dar uma olhada no sistema, se ambientar ou desbravar mais o hospital se quiser. Amanhã vamos iniciar as rondas com os residentes e depois já te deixarei livre para seus pacientes, ok?
Chloe concordou, agradeceu e entrou na sala do painel. Estava vazia. Computadores, armários e mesas. Um painel escrito a mão que era notoriamente atualizado com constância absoluta. Os nomes se organizavam por setor do bloco hospitalar.
Pediatria, cardiologia, neurologia. Ela passou os olhos distraidamente sem realmente prestar atenção, a não ser para o setor de pediatria, o qual ela teria que sempre verificar. Então ela passou os olhos pela oncologia.
Um frio subiu cheio de dor começando pela espinha, disparando o coração e já acelerando a respiração. Os olhos voltaram para o nome. Ela leu não uma, mas duas, três vezes. Como se tentasse se convencer que fez a leitura errada ou alguém tivesse feito um erro terrível de ortografia. Mas o nome continuava lá, imóvel, inconfundível.
Oliver Nathan, quarto 312.
Chloe esqueceu como respirar. Porque, de repente, não estava mais naquela sala. Não estava mais naquele hospital. Não tinha mais trinta anos. Ela estava sentada no banco de trás da caminhonete de Oliver, enquanto o cheiro de gasolina enchia o ar, rindo de alguma piada idiota com Liam ao lado dela irrompendo uma das maiores gargalhadas já vistas. E o verão inteiro pela frente.
Ela leu mais uma vez. Oliver Nathan. Quarto 312.
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