Dez Invernos
2 O Verão
Flashback
O verão sempre chegava cedo em Silver Lake.
Talvez fosse apenas uma impressão compartilhada pelos moradores da cidade, mas bastavam alguns dias consecutivos sem neve para que todos começassem a agir como se a estação tivesse se instalado definitivamente. As mesas reapareciam nas calçadas dos cafés, as bicicletas voltavam a ocupar as ruas e as crianças abandonavam os casacos pesados na primeira oportunidade, ignorando completamente o fato de que as manhãs ainda continuavam frias.
Para Chloe, porém, o início do verão significava algo mais.
Significava competição, treinamento. Significava a sensação constante de que estava cada vez mais próxima da vida que desejava construir.
A arena de patinação de Silver Lake era praticamente sua segunda casa desde os oito anos de idade. Havia passado mais horas naquele prédio do que seria capaz de contabilizar. Conhecia cada corredor, cada banco próximo à pista, cada rachadura discreta nas paredes dos vestiários. O cheiro de gelo, metal e café da máquina automática fazia parte de sua rotina há tanto tempo que ela sequer o percebia mais.
Naquela tarde, entretanto, tudo parecia diferente.
Talvez porque a competição estadual aconteceria em apenas dois dias. Talvez porque alguns olheiros estariam presentes. Talvez porque, pela primeira vez, ela sentisse que seu sonho estava perto o suficiente para assustá-la. Mas sentia também que parecia errado que o sonho realmente desse medo, mas ao mesmo tempo, talvez isso fosse o combustível que guia cada pessoa.
Sentada em um dos bancos próximos à entrada da pista, Chloe puxava os cadarços dos patins mais uma vez enquanto observava distraidamente os atletas que ainda treinavam sobre o gelo.
O reflexo das luzes criava pequenos brilhos na superfície da pista. O som das lâminas cortando o gelo ecoava pelo ginásio quase vazio. Seu treinador conversava com outro técnico próximo à grade de proteção, ocasionalmente lançando olhares em sua direção.
Ela sabia exatamente o que ele estava pensando. Que deveria estar treinando. Que deveria estar aproveitando cada minuto disponível. Que provavelmente estava nervosa demais. E ele estaria certo.
— Você sabe que os cadarços não vão ficar mais apertados só porque continua mexendo neles.
A voz surgiu antes que ela percebesse a aproximação.
Chloe ergueu os olhos.
Oliver caminhava pelo corredor carregando duas latas de refrigerante e um sorriso que parecia existir permanentemente em seu rosto.
— Eu não estava mexendo neles.
— Claro que não.
— Estava conferindo.
— Pela quarta vez?
— Talvez.
Oliver entregou uma das latas para ela antes de se sentar ao seu lado. Durante alguns segundos permaneceu observando a pista em silêncio, como se soubesse que Chloe precisava daquele tempo para organizar os próprios pensamentos.
Ela sempre gostou disso nele. Oliver nunca tinha pressa. E sempre parecia desfrutar de cada segundo da vida. Enquanto a maioria das pessoas sentia necessidade de preencher qualquer silêncio com palavras, ele parecia confortável simplesmente estando presente.
— Está nervosa? — perguntou por fim.
Chloe soltou uma risada curta.
— O que me entregou?
— O fato de você estar amarrando os patins pela quarta vez.
— Quinta.
— Isso é pior.
Ela apoiou os cotovelos sobre os joelhos e observou a pista novamente.
— Eu sei que estou preparada. Pelo menos tecnicamente. Mas parece que quanto mais perto chega, mais eu penso em tudo que pode dar errado.
Oliver assentiu.
— Bem-vinda ao clube dos seres humanos.
— Você entende o que quero dizer.
— Entendo.
E entendia mesmo. Era uma das qualidades que faziam as pessoas gravitarem naturalmente ao seu redor. Ele não tentava resolver tudo. Não oferecia discursos perfeitos. E entre olhar para o que pode dar errado e o que pode dar certo, ele escolhia acreditar. Apenas escutava.
— Você vai bem — disse ele depois de alguns segundos.
— Não sabe disso.
— Sei.
— Oliver...
— Chloe.
Ela sorriu apesar de si mesma.
— Você é impossível.
— Eu prefiro otimista.
— Você prefere estar certo.
— Também. Mas já compartilhamos essa vida a um bom tempo para saber que estou certo realmente.
O sorriso dela aumentou. Era impossível permanecer ansiosa por muito tempo perto dele. Talvez porque Oliver tivesse uma capacidade quase irritante de transformar problemas enormes em obstáculos administráveis. Talvez porque ele simplesmente soubesse a importância de respirar antes de agir. Talvez porque a simples presença dele lembrasse que existiam coisas mais importantes do que uma competição. Talvez porque ele fosse seu melhor amigo.
— Além disso — continuou ele —, você não precisa impressionar ninguém.
— Fala isso porque não é você quem vai competir.
— Não. Falo isso porque metade da cidade inteira já acha você incrível.
— Metade da cidade inteira tem padrões muito baixos.
— E a outra metade é composta pela sua irmã.
Chloe riu.
— Emily me acha incrível porque ainda acredita que eu consigo voar.
— Eu também acredito.
— Oliver.
— Estou falando sério. No sentido literal e no sentido figurado. Não é assim que você entra nessas paranoias de ansiedade? Deixando o pensamento voar?
Ela balançou a cabeça. Naquele instante, a porta principal da arena se abriu. Os dois olharam automaticamente e Chloe sentiu algo estranho acontecer dentro do peito. Liam Carter atravessou o corredor carregando o equipamento de hóquei sobre um dos ombros.
O treino dele aparentemente havia acabado poucos minutos antes. Os cabelos escuros ainda estavam úmidos de suor e algumas mechas caíam sobre a testa. Ele segurava o capacete em uma das mãos enquanto caminhava com a confiança despreocupada de alguém que jamais precisou pensar sobre o próprio lugar no mundo. Oliver observou a reação dela imediatamente. O que era uma péssima notícia.
— Ah.
— O quê?
— Agora entendi.
— Entendeu o quê?
— Nada.
— Oliver.
— Nada mesmo.
— Você é ridículo.
— E você está vermelha.
— Não estou.
— Está sim.
— Não estou.
— Está.
— Oliver.
— Chloe.
— Já te disse várias e várias vezes para finalmente assumirem.
Ela já estava prestes a responder quando Liam finalmente os alcançou.
— Vocês estão brigando de novo?
— Eu não estava brigando — respondeu Chloe.
— Ela estava perdendo — respondeu Oliver.
Liam soltou uma gargalhada. E por algum motivo, naquele exato momento, o verão pareceu ainda mais brilhante. Ele apoiou o equipamento no banco ao lado e passou a mão pelos cabelos ainda úmidos do treino.
— Então, qual é o assunto?
— Chloe está surtando por causa da competição — respondeu Oliver antes que ela pudesse abrir a boca.
— Eu não estou surtando.
— Ela está amarrando os patins pela quinta vez.
— Sexta agora — corrigiu Chloe enquanto se abaixava novamente para alcançar os cadarços.
Liam arqueou uma sobrancelha.
— Isso é definitivamente surtar.
— Obrigada pelo apoio de vocês.
— Estamos apoiando como sempre — respondeu Oliver.
— Exatamente — concordou Liam. — Estamos apenas fazendo isso de uma forma extremamente irritante.
— Vocês dois são insuportáveis.
— E mesmo assim você continua aparecendo aqui todos os dias — observou Oliver.
Chloe abriu a boca para responder, mas acabou rindo. Era difícil permanecer irritada quando os dois estavam por perto. Havia algo naquela amizade que tornava tudo mais leve. Talvez porque se conhecessem havia tanto tempo que já não precisassem fingir nada.
Liam se acomodou no banco e esticou as pernas à frente.
— Você vai arrasar na competição.
— Você nem me viu treinar essa semana.
— Não preciso ver.
— Que argumento convincente.
— Eu conheço você.
A resposta veio simples, quase distraída, mas foi suficiente para que Chloe sentisse o coração tropeçar por um instante. Felizmente, Oliver percebeu.
— Eu também conheço você — disse ele. — E acho que deveria parar de olhar para ele desse jeito.
— Que jeito?
— Como se ele tivesse acabado de descobrir a cura para todas as doenças do mundo.
— Eu não olho para ele desse jeito.
— Claro que não.
— Você está imaginando coisas.
— Eu estou vendo coisas a anos. A minha revolta é vocês não terem aceitado. Logo a faculdade vem e cada um vai para um lado desse mundo enorme. E vão deixar passar a chance?
Liam observava a conversa com um sorriso divertido.
— Eu perdi alguma coisa?
— Nada — responderam os dois ao mesmo tempo.
Oliver soltou uma gargalhada.
— Vocês realmente precisam resolver isso.
— Resolver o quê? — perguntou Liam.
— Exatamente.
Chloe lançou um olhar mortal para o amigo.
— Eu vou te empurrar no lago.
— Você diz isso há três anos.
— Porque ainda não encontrei uma oportunidade adequada.
— O verão inteiro pela frente.
— Não incentive.
— Estou apenas observando os fatos. – disse Oliver revirando os olhos.
A conversa continuou por mais alguns minutos até que o treinador de Chloe apareceu próximo à entrada da pista e fez um gesto em sua direção.
Era hora de voltar ao gelo.
Ela se levantou, terminou o refrigerante e colocou o capacete.
— Boa sorte — disse Liam.
— Não é uma competição ainda.
— Só respire e curta o gelo.
Por algum motivo, aquilo a fez sorrir.
Minutos depois, Chloe já estava deslizando pela pista.
O gelo sempre parecia diferente quando ela estava sobre ele. Mais silencioso. Mais familiar. Como se o restante do mundo diminuísse de volume. As preocupações permaneciam existindo, mas ficavam distantes. O som das lâminas cortando a superfície congelada substituía os pensamentos ansiosos. O corpo assumia o controle. Os movimentos se tornavam automáticos. Ela sentia o coração pulsar e não havia coreografia que ela não se lembrasse. Mas ao menor sinal de preocupação de esquecer algum passo, seu corpo tratava de dizer mais uma vez que ela sabia e pertencia àquele lugar. Que aquilo era dela. E ninguém poderia tirar.
Ela começou pela sequência mais simples.
Depois outra.
E mais uma.
Seu treinador observava atentamente. Quando chegou ao salto mais difícil da apresentação, Chloe respirou fundo e iniciou a preparação.
Uma curva.
Outra.
Impulso.
Rotação.
A aterrissagem foi limpa.
Perfeita.
Ela ouviu o treinador assobiar em aprovação. E então seus olhos encontraram a arquibancada.
Atrás de Liam e de Oliver, estava o restante do grupo inseparável, Noah e Sophia. "Em que momento chegaram?" pensou ela. Mas não se espantou. Mais que um grupo de amigos, já eram família. E família se apoia. Sempre.
Liam estava assistindo. Não conversando. Não olhando o celular. Assistindo.
Ela sentiu o estômago revirar e no salto seguinte, errou.
A lâmina escapou alguns centímetros. Nada grave. Mas suficiente para arrancar uma gargalhada alta e imediata de Oliver.
Mesmo à distância.
— Não acredito nisso — murmurou Chloe.
Quando a sequência terminou, ela voltou para a grade de proteção. Oliver estava sorrindo.
— Coincidência?
— Cala a boca.
— Nem falei nada.
— Você pensou.
— Pensei.
— Oliver.
— Só estou dizendo que você acertou o salto difícil e errou o fácil justamente quando alguém estava olhando.
— Você está inventando uma narrativa.
— Eu sou um contador de histórias verídicas.
— Você é um problema.
— Também.
O treinador interrompeu antes que a discussão continuasse.
— Chloe.
Ela se virou.
— Sim?
— Mais uma vez.
A próxima tentativa correu melhor. E a seguinte também.
Quando finalmente terminou o treino, o sol já começava a descer atrás das árvores.
Sophia apareceu carregando uma sacola de papel cheia de batatas fritas.
— Estou salvando a vida de vocês.
— Você é uma heroína — declarou Oliver.
— Eu sei.
— Uma heroína muito bonita. Esse cabelo rosa ficou show.
— Eu também sei disso.
— Isso foi assustadoramente rápido — comentou Noah.
— Ela pratica em casa — respondeu Oliver.
Poucos minutos depois, todos caminhavam em direção à lanchonete que frequentavam desde a infância. O lugar não tinha nada de especial. Mesas antigas. Cabines vermelhas. Milk-shakes enormes. Mas era deles. E isso bastava.
A conversa se espalhou naturalmente entre hambúrgueres, refrigerantes e planos para o futuro.
— Daqui a dez anos eu vou estar rico — declarou Oliver.
— Você diz isso desde os doze.
— E continuo comprometido com o plano.
— Que plano? — perguntou Sophia.
— Ainda estou desenvolvendo detalhes.
— Não existe plano nenhum.
— Existe ambição, e isso basta.
As risadas preencheram a mesa.
— E você, Chloe? — perguntou Shopia.
Ela pensou por alguns segundos. A resposta deveria ser simples. Patinação, competições, profissional, viajar, talvez descobrir até onde conseguiria chegar. Mas, quando todos a observavam, as palavras pareciam maiores. Mais difíceis.
— Eu só quero continuar fazendo o que amo.
Oliver sorriu e assentiu. Como se aquela resposta fosse suficiente. Talvez fosse.
Quando saíram da lanchonete, o céu já estava pintado de tons dourados e alaranjados, e sem que ninguém precisasse sugerir, o grupo seguiu para o lago. Como sempre acontecia. Silver Lake parecia diferente ao entardecer. Mais silencioso e bonito.
— Eu amo essa aleatoriedade que ele exala. — disse Liam, observando Oliver desaparecer pela trilha.
— Eu acho que ele nasceu com trinta anos de experiência em viver.
Liam riu.
— Isso é estranhamente específico.
— E errado?
— Nem um pouco.
Os dois permaneceram observando a direção para onde Oliver havia ido até que ele desaparecesse completamente atrás das árvores.
Mais à frente, Noah e Sophia discutiam alguma coisa enquanto tentavam enquadrar uma foto. Mesmo de longe, era possível perceber que Noah defendia um ponto de vista com toda a convicção do mundo enquanto Sophia parecia determinada a provar que ele estava errado.
— Cinco dólares que eles estão discutindo por causa de uma planta. — comentou Liam.
— Dez que é por causa do melhor ângulo para a foto.
— Você os conhece bem demais.
— Nós crescemos juntos.
O silêncio voltou a se acomodar entre eles. Não era desconfortável. Nunca era. Era paz e calor.
Chloe apoiou as mãos na grama atrás do corpo e inclinou o rosto para o céu. As primeiras estrelas começavam a aparecer conforme o sol desaparecia atrás das montanhas.
— Lembra daquela vez que você tentou me ensinar hóquei?
A gargalhada de Liam foi imediata.
— Você não tentou nem por cinco minutos.
— Porque é um esporte violento.
— Não é violento.
— Liam, vocês literalmente se jogam contra as paredes.
— Isso se chama estratégia.
— Isso se chama problema de comportamento.
— Você caiu sozinha.
— Porque alguém me empurrou.
— Eu encostei em você.
— Eu fui parar no gelo.
— Detalhes.
Ela balançou a cabeça, rindo.
— Eu fiquei com um hematoma por uma semana.
— Você mostrou para todo mundo.
— Porque ninguém acreditava.
— Eu lembro.
Chloe virou o rosto na direção dele.
— Você lembra de tudo.
A frase saiu antes que ela pudesse pensar.
Por um instante, Liam pareceu surpreso.
— Nem tudo.
— Lembra sim.
— Não lembro.
— Lembra do meu primeiro campeonato?
— Você usou um vestido azul.
— Isso era fácil.
— Você esqueceu metade da coreografia porque estava olhando para a arquibancada procurando seu pai. – ele olhou firmemente pra ela antes de dar um sorriso travesso – e você pode não ser boa no hóquei, mas eu também não sou na patinação artística.
— É um bom argumento. – ela riu se divertindo com a fala.
— Você sempre estava lá, não é? – ela respondeu após uma pequena pausa.
A pergunta saiu quase num sussurro.
Desta vez, Liam demorou um pouco para responder.
— Acho que sim.
O vento passou entre eles, movimentando as folhas das árvores. Mais à frente, Noah comemorava alguma coisa enquanto Sophia claramente ainda discordava. Os dois nem olharam.
Ela riu baixinho vendo a cena dos dois. Os olhos dele permaneceram nela por alguns segundos a mais do que deveriam. E pelo canto do olho ela percebeu isso. E, pela primeira vez, Chloe sentiu vontade de não desviar o olhar.
Mas desviou.
Porque era Liam. Seu melhor amigo. O garoto que fazia parte de praticamente todas as suas lembranças importantes. E justamente por isso, às vezes, parecia perigoso pensar muito sobre ele.
— O que foi? — perguntou ele.
— Nada.
— Você fez aquela cara.
— Que cara?
— A cara de quem está pensando demais.
— Você inventou essa cara.
— Não inventei.
— Inventou sim.
— Chloe.
— Liam.
Ele sorriu. Ela também. E, por um instante, tudo pareceu exatamente como deveria ser. O lago. O verão. Os amigos logo ali na frente. E aquela sensação silenciosa de que, acontecesse o que acontecesse no futuro, aquele momento encontraria uma maneira de permanecer com eles.
Liam também apoiou as mãos atrás na grama, e seus dedos roçaram os de Chloe. E ele não os afastou, assim como ela.
— Amanhã eu não tenho treino e se lembro bem você também não.
— O que quer dizer? – Chloe perguntou confusa.
— Vamos patinar por diversão, eu e você.
— Mas...
— Sem mais. Eu e você.
E assim Chloe apenas concordou, se divertindo com essa situação, e voltou a aproveitar a paz e o vento.
Fale com o autor