Dez Invernos

5 Entre Sonhos e Pressões


Flashback

A arena esportiva nunca pareceu tão grande.

Chloe estava parada atrás da cortina que separava os competidores da pista principal, observando discretamente a movimentação do outro lado. O som da plateia chegava abafado, misturado aos anúncios dos juízes, ao ruído das lâminas cortando o gelo e ao eco constante de conversas ansiosas. Havia atletas de diversas cidades, treinadores carregando pranchetas, pais nervosos andando de um lado para o outro e olheiros espalhados pelas arquibancadas. Era exatamente o tipo de ambiente com que ela sonhava desde criança. Mesmo assim, naquela manhã, a realização daquele sonho parecia assustadora.

Ela apertou as mãos uma contra a outra, tentando ignorar a sensação desagradável que se instalava em seu estômago. Nos últimos anos havia participado de inúmeras competições, mas aquela era diferente. Pela primeira vez não estava apenas competindo por uma medalha. Estava competindo por oportunidades. Por portas que poderiam se abrir. Por um futuro que, até então, existia apenas na sua imaginação.

— Se continuar andando em círculos desse jeito, vai abrir um buraco no chão.

A voz familiar fez Chloe erguer a cabeça.

Oliver apareceu segurando dois copos de chocolate quente e um sorriso que parecia completamente incompatível com a tensão daquele lugar.

— Você não deveria estar na arquibancada?

— E perder a oportunidade de assistir ao seu colapso emocional de perto?

— Eu não estou tendo um colapso emocional.

— Claro que não.

Oliver entregou um dos copos e se apoiou na parede ao lado dela.

— Você está andando de um lado para o outro há quinze minutos e acabou de conferir os patins pela terceira vez.

— Segunda.

— Quinta.

— Exagerado.

— Ansiosa.

Chloe revirou os olhos, mas aceitou o chocolate mesmo assim. O calor do copo entre as mãos ajudou a diminuir um pouco o nervosismo.

Poucos minutos depois, Noah e Sophia apareceram carregando uma faixa improvisada que haviam feito naquela manhã. As letras tortas e desproporcionais deixavam evidente que nenhum dos dois possuía talento artístico, mas a intenção compensava qualquer falha estética.

— Não acredito que vocês trouxeram isso.

— Eu acredito — respondeu Sophia. — Foi ideia do Oliver.

— Claro que foi.

— E foi uma ótima ideia.

— Está horrível.

— Obrigado.

O grupo começou a rir e, por alguns segundos, Chloe esqueceu completamente a competição. Foi então que Liam apareceu.

Vestindo uma jaqueta do time de hóquei e com os cabelos ainda úmidos do banho, ele atravessou o corredor carregando uma mochila sobre o ombro. Chloe não soube explicar por que seu coração acelerou naquele instante. Talvez porque ele tivesse vindo direto do treino para vê-la competir. Talvez porque, de todos os rostos que encontrara naquela manhã, aquele fosse o único capaz de acalmá-la imediatamente.

Liam parou diante dela e estendeu a mão.

— Me dá aqui.

— O quê?

— Sua ansiedade.

— Que ótimo. Como exatamente eu faço isso?

— Não faço ideia. Mas claramente você está carregando demais.

Ela riu enquanto Liam pegava sua mão e parecia a aquecer entre as suas.

— Muito útil.

— Eu tento.

O sorriso dele surgiu devagar. Aquele sorriso específico que parecia existir apenas quando estava olhando para ela.

— Você vai ficar bem, Chloe.

Era uma frase simples. Talvez simples demais. Mas, por algum motivo, foi a única coisa que realmente funcionou.

Oliver, Noah e Sophia olhavam com ternura aquele momento. Todos viam o que apenas aqueles dois tentavam ao máximo negar em nome da amizade.

— Vamos estar com você. – Noah disse.

Liam soltou sua mão e saiu em direção a porta junto com os demais, mas não sem antes dar uma última olhada para trás e ver Chloe o olhando fixamente. Um olhar terno e cheio de receio.

A apresentação aconteceu pouco depois do meio-dia.

Quando Chloe entrou na pista, o restante do mundo desapareceu. O piano que inicia a música ressoou por toda arena. Ela tinha entrado em consenso com o treinador sobre To Build a Home de The Cinematic Orchestra. Era uma música que amava escutar.

As arquibancadas deixaram de existir. Os juízes desapareceram. Os olheiros desapareceram. Até mesmo o nervosismo desapareceu. Restaram apenas ela e o gelo.

Pelo tempo da música, tudo aconteceu exatamente como havia treinado centenas de vezes. Os saltos. As sequências. As transições. A música preenchendo cada espaço vazio da arena enquanto seu corpo respondia quase por instinto. Quanto mais o piano preenchia a música, mais intensa era a coreografia, os saltos e giros.

Houve pequenos erros. Uma aterrissagem menos limpa do que gostaria. Um detalhe técnico que apenas os especialistas perceberiam. Mas também houve algo maior. Presença, confiança, emoção e liberdade.

"By the cracks of the skin I climbed to the top

I climbed the tree to see the world

When the gusts came around to blow me down

Held on as tightly as you held onto me"

O piano preenche novamente. A emoção toma conta de novo e então ela domina uma leveza e plenitude nos movimentos que emociona. O violino entra e a música vai cessando. Ela sabe que entregou o coração ali e se mostrou mais vulnerável do que nunca.

No fim, apenas algumas voltas singelas na pista antes de encerrar a apresentação. Quando a música terminou e ela parou no centro, a arena inteira levantou-se para aplaudir. E, por um instante, Chloe sentiu que estava exatamente onde deveria estar.

E seu olhar cruzou diretamente na direção de seus amigos. Lágrimas corriam pelos olhos de todos. Tudo bem que Sophia sempre foi muito emotiva, mas as lágrimas faziam jus a emoção que todos viam que Chloe colocou naquela apresentação.

Liam a olhava com um olhar extremamente orgulhoso e cheio de emoção. E tudo que queria era correr até a pista, a levantar e girar.

O resultado saiu quase quarenta minutos depois. Segundo lugar. A diferença para a campeã foi mínima, tão pequena que deu. Por alguns segundos, Chloe apenas observou o placar luminoso tentando convencer a si mesma de que aquilo era suficiente. E era, ao mesmo tempo que não era. Porque quem sonha alto aprende cedo que, às vezes, o segundo lugar pode parecer uma derrota.

Ela ainda processava aquilo quando Oliver praticamente a atropelou em um abraço.

— VOCÊ FOI INCRÍVEL!

— Oliver, eu consigo respirar sozinha.

— Não hoje.

Logo depois vieram Noah, Sophia e Liam. Sophia chorava como se a medalha fosse dela. Noah gravava tudo. Oliver continuava exagerando. E Liam... Liam simplesmente a olhou, secou uma lágrima tímida que quase caiu e a abraçou.

Sem dizer nada. Sem discursos ou piadas.

E, pela primeira vez desde a divulgação do resultado, Chloe sentiu o peso da frustração diminuir. Aquele toque, aquele abraço diziam que ela sempre foi suficiente e que sempre se fez muito mais. Porque talvez o segundo lugar não fosse o fim do mundo. Talvez fosse apenas o começo.

Quando Chloe olhou mais ao canto, viu seu pai e sua irmã. Seguravam um singelo buquê de girassóis, sua flor preferida. Mas o olhar foi o que a derreteu. Ela viu amor e orgulho. E então Emily correu até ela.

— Irmã! – gritou Emily saltando para os braços de Chloe.

— Eu fui bem? – disse Chloe respirando o perfume que emanava dos cabelos de Emily.

— Você voou irmã! – Emily olhava com ternura e uma paixão a cada detalhe de Chloe, incluindo a maquiagem que brilhava de tanto glitter.

— Que bom que gostou minha pequena.

Seu pai se aproximou ainda chorando. Aparentava estar cansado, já que trabalhava desde as 7 da manhã e acabou precisando sair correndo da oficina.

— Eu não tenho palavras para te dizer o que eu vi ali. Só que eu a amo.

— Ah papai. – Chloe se derreteu com tais palavras e o abraçou. Um abraço longo e com o acolhimento de lar e paz. – Eu fiz por vocês.

— Faça sempre por você meu amor. E assim fará por nós.

Ele sempre foi seu maior incentivador. Mesmo depois da separação, Thomas não deixou por um momento sequer que faltasse algo para suas filhas, principalmente naquilo em que ele via que elas depositavam tanto amor. E a apresentação foi prova disso.

Já do lado de fora da arena, a comemoração terminou quando Victoria apareceu.

Elegante como sempre, impecável como sempre, distante como sempre.

Chloe deixou o grupo de amigos e seu pai e irmã e foi até o encontro de Victoria, que observou a medalha pendurada no pescoço da filha por alguns segundos antes de perguntar:

— Quantos olheiros estavam presentes?

A alegria de Chloe sofreu um pequeno abalo. Não houve qualquer felicitação ou palavra de conforto.

— Bastantes. – disse Chloe já frustrada e com a voz baixa.

— Algum conversou com você?

— Ainda não.

— Mas demonstraram interesse?

Chloe desviou o olhar. Toda energia boa do momento se dissipou naquelas perguntas diretas.

Victoria assentiu lentamente. Como alguém avaliando números, resultados, possibilidades. Não vendo uma pessoa, não vendo sua filha.

— Quero que dê uma olhada nisso aqui. – disse Victória entregando um envelope para Chloe. Um envelope pesado e grande.

— O que é isso?

— Você vai ver. – disse Victoria enquanto abria a porta do carro e se preparava para entrar. – Está na hora de crescer Chloe.

Ela então entrou no carro e ele saiu, deixando Chloe com decepção e um peso que não deveria lhe ter sido dado, principalmente naquele momento.

Quando chegou em casa, a noite já havia se instalado completamente sobre Silver Lake.

A animação da competição parecia ter ficado para trás junto com as luzes da arena, os aplausos e os abraços. O silêncio da casa contrastava com a intensidade do dia. Emily já estava no quarto. Seu pai havia ficado mais um pouco na oficina para resolver um serviço atrasado. Pela primeira vez desde o anúncio do resultado, Chloe teve alguns minutos verdadeiramente sozinha.

Subiu as escadas devagar, ainda usando a jaqueta da competição. A medalha permanecia pendurada em seu pescoço, balançando levemente a cada degrau. Quando entrou no quarto, largou a mochila ao lado da cama e finalmente retirou a medalha. Ficou alguns segundos observando o metal prateado refletir a luz do abajur.

Segundo lugar. Durante anos aquela posição teria parecido um sonho. Naquele momento, porém, ela não sabia exatamente o que sentia. Orgulho. Frustração. Gratidão. Desejo de conquistar mais. Tudo parecia misturado dentro dela.

Seu olhar acabou encontrando o envelope que Victoria havia lhe entregado. Pesado, grande e incômodo. Permaneceu alguns instantes encarando-o sobre a escrivaninha, como se ignorá-lo pudesse fazê-lo desaparecer. Mas não desapareceu.

Com um suspiro cansado, sentou-se na cadeira e rompeu o lacre e o conteúdo se espalhou diante dela em poucos segundos. Folhetos, cartilhas e informações sobre programas acadêmicos, bolsas de estudo. Mas uma palavra em todos. Medicina.

Chloe passou os olhos pelos papéis sem realmente absorver o que estava lendo. Havia fotografias de laboratórios modernos, estudantes usando jalecos impecáveis, prédios enormes e promessas de carreiras brilhantes. Em outra circunstância, talvez tivesse ficado impressionada. Mas tudo aquilo parecia pertencer à vida de outra pessoa.

Ela puxou um dos panfletos para mais perto. No centro da página havia a fotografia de uma estudante sorrindo diante de um hospital universitário.

Tentou se imaginar naquele lugar. Tentou se imaginar usando um jaleco. Não conseguiu.

Quando fechava os olhos, não via corredores de hospitais. Via gelo. Via música. Via luzes refletidas sobre uma pista. Via a sensação de liberdade que experimentava toda vez que seus patins tocavam a superfície congelada.

Chloe apoiou os cotovelos sobre a mesa e esfregou o rosto com as mãos. Sabia que Victoria acreditava estar ajudando. Sabia que sua mãe enxergava riscos onde ela enxergava sonhos. Mas, pela primeira vez, sentiu medo de que aquele assunto não fosse desaparecer tão facilmente.

Seu celular vibrou sobre a cama. Ela demorou alguns segundos para pegá-lo. E então sorriu. Liam.

Apenas o nome dele na tela já foi suficiente para aliviar parte da pressão que apertava seu peito. Abriu a conversa.

"Ainda estou revoltado."

"Você é parcial Liam."

"Completamente."

Outro sorriso surgiu em seus lábios.

"Foi só uma competição"

A bolha indicando que ele estava digitando apareceu por alguns segundos. Depois desapareceu. Depois apareceu novamente. Até que a resposta finalmente chegou.

"Não. Foi você fazendo aquilo que ama. E eu amei te ver voar."

Chloe permaneceu olhando para a tela. Quando a mensagem apareceu, seu coração pareceu desacelerar por um instante.

"E eu nunca vi ninguém brilhar daquele jeito."