Dez Invernos

3 Apenas Nós Dois


Flashback

Na manhã seguinte, Chloe chegou ao ginásio alguns minutos antes do combinado.

Não porque Liam costumasse se atrasar. Na verdade, ele raramente se atrasava para qualquer coisa. Chegar cedo era apenas uma desculpa conveniente para passar alguns minutos sozinha antes que o restante do mundo começasse a fazer perguntas.

O estacionamento ainda estava quase vazio quando ela desligou o carro. O sol recém havia ultrapassado as montanhas ao redor de Silver Lake, espalhando uma luz dourada sobre os telhados da cidade. Havia algo diferente nas manhãs de verão. Tudo parecia mais lento. Mais silencioso. Como se o dia ainda não tivesse decidido o que faria consigo mesmo.

Chloe pegou a mochila no banco do passageiro e caminhou em direção à entrada do ginásio. Assim que empurrou a porta de vidro, o ar gelado a envolveu imediatamente. Aquilo sempre acontecia. Não importava quantos anos passassem. Toda vez que entrava naquele lugar sentia a mesma sensação. Como voltar para casa.

A arena estava praticamente vazia. Apenas o funcionário responsável pela manutenção do gelo trabalhava próximo à pista. Em algum ponto distante, uma máquina zumbia baixinho.

Ela caminhou até o banco onde costumava se preparar e começou a colocar os patins. Devagar. Sem pressa.

Pela primeira vez em semanas não existia treino. Não existia competição. Não existia treinador observando cada movimento. Era apenas uma manhã livre.

Ela puxava os cadarços quando ouviu a porta principal se abrir. Não precisou levantar os olhos. Sabia quem era. Depois de tantos anos, Liam parecia carregar um som próprio. Um jeito específico de caminhar. Um ritmo que ela reconheceria em qualquer lugar.

— Você chegou cedo.

A voz dele ecoou pelo ginásio. Chloe levantou os olhos.

— Você também.

— Isso destrói completamente minha intenção de dizer que estou pontual.

— Então finja que cheguei atrasada.

— Perfeito.

Liam largou a mochila em um banco próximo e começou a colocar os patins. Por alguns segundos nenhum dos dois falou. E aquilo não parecia estranho. Era uma das coisas que Chloe mais gostava nele. O silêncio nunca precisava ser preenchido.

Liam já estava na pista quando Chloe terminou de amarrar os patins.

Ela o observou por alguns segundos antes de atravessar a grade de proteção. Durante anos assistira aos jogos dele. Sabia que Liam era rápido, forte e parecia se mover sobre o gelo com uma naturalidade irritante. Sempre que entrava em uma partida, dava a impressão de que o rinque havia sido construído para ele.

Por isso foi particularmente satisfatório vê-lo fracassar miseravelmente menos de cinco minutos depois.

— Não estou entendendo — reclamou ele pela terceira vez.

Chloe levou a mão à boca para esconder o sorriso.

— Você está tentando fazer força demais.

— Como alguém faz uma pirueta sem força?

— A questão é exatamente essa. Não é força.

— Isso não faz sentido.

— Faz para qualquer patinador artístico do planeta.

Liam balançou a cabeça e tentou novamente.

O resultado foi ainda pior. A lâmina escapou da trajetória, o peso do corpo foi para o lado errado e ele precisou abrir os braços para recuperar o equilíbrio antes de cair.

Chloe gargalhou. Daquelas gargalhadas verdadeiras que fazem o peito doer.

— Você está gostando muito disso.

— Você não faz ideia.

— Eu jogo hóquei desde criança.

— Eu sei.

— Sou um dos melhores jogadores da equipe.

— Eu sei.

— Então por que isso parece impossível?

— Porque patinação artística não é hóquei.

— Continua sendo gelo.

— E tênis e futebol continuam sendo grama.

Liam apontou um dedo para ela.

— Isso foi desnecessário.

— Foi extremamente necessário.

Ela continuou rindo enquanto ele revirava os olhos.

Era estranho como momentos simples pareciam mais leves quando estavam juntos. Chloe não precisava se preocupar com aparência, desempenho ou expectativas. Liam já a conhecia demais para que qualquer máscara funcionasse. E ela conhecia Liam da mesma forma.

Sabia identificar quando ele estava frustrado. Quando estava fingindo confiança. Quando estava preocupado. Quando estava feliz de verdade. Talvez por isso os silêncios entre eles nunca fossem desconfortáveis. Não existia necessidade de preencher cada espaço com palavras. A presença já bastava.

Depois de mais algumas tentativas fracassadas, Liam acabou encostando na grade, ofegante.

— Eu desisto.

— Mentiroso.

— Estou falando sério.

— Não está.

— Por que você sempre acha que me conhece tão bem?

A pergunta saiu em tom de brincadeira. Mas, por algum motivo, Chloe demorou um pouco para responder.

Ela apoiou os braços na proteção ao lado dele e observou a superfície brilhante da pista antes de sorrir.

— Porque eu conheço.

O silêncio que veio depois não foi estranho, só diferente. Mais lento e atento. Liam permaneceu olhando para ela por alguns segundos. Tempo suficiente para que Chloe sentisse a mudança. Tempo suficiente para perceber que, pela primeira vez naquela manhã, nenhum dos dois estava brincando.

— Acho que você conhece mesmo — disse ele.

A voz saiu mais baixa. Mais sincera.

Ela virou o rosto. E encontrou os olhos dele. Não havia piada ou provocação. Só aquela honestidade simples que Liam raramente mostrava para outras pessoas, mesmo dentro do grupo de amigos.

Ela percebeu, naquele instante, que talvez aquilo não fosse uma coisa comum. Porque conhecia Liam. Não de um jeito superficial. Não como alguém conhece um colega de escola ou um amigo ocasional.

Conhecia o jeito que ele franzia a testa quando tentava resolver algum problema sozinho. Conhecia o silêncio específico que surgia quando ele sentia falta do irmão. Conhecia a música que ele sempre colocava para tocar antes dos jogos importantes e a forma como fingia estar tranquilo quando, na verdade, estava prestes a explodir de nervosismo.

Quando Lito morreu, ela não precisou que Liam explicasse nada. Não precisou de palavras. Meses inteiros se passaram vendo aquele vazio atravessar o olhar dele de tempos em tempos, como uma sombra que aparecia sem aviso. E mesmo quando ele tentava sorrir para os outros, Chloe conseguia perceber. Talvez porque estivesse observando há anos. Talvez porque ele também a observasse da mesma forma.

O ginásio pareceu mais silencioso de repente. Ou talvez ela simplesmente tivesse parado de prestar atenção em todo o resto. As luzes refletiam sobre o gelo. A máquina de refrigeração continuava funcionando em algum lugar distante.

Mas tudo parecia longe. Muito longe. Ele ainda a observava, sem pressa e com o olhar firme.

E foi então que Chloe percebeu uma coisa que nunca havia parado para pensar antes. Ela não conseguia se lembrar de um momento importante da própria vida em que Liam não estivesse presente. Como se, de alguma forma, ele tivesse encontrado um jeito de ocupar todos os lugares importantes das suas lembranças. A arquibancada das competições. As tardes de verão no lago. As noites em volta de fogueiras improvisadas. As risadas. As perdas. Os dias bons. Os ruins também.

Por um instante, ela teve a estranha sensação de estar diante de alguma coisa que sempre existiu. Algo que não surgiu naquele dia. Nem naquela semana. Talvez nem naquele ano. Algo que vinha crescendo silenciosamente havia tanto tempo que já fazia parte dela.

E aquilo a assustou um pouco. Porque, pela primeira vez, ela não tinha certeza se queria fugir da sensação.

Nem Liam nem Chloe se moveram. A distância entre eles parecia menor do que alguns segundos antes. E, por uma fração de segundo, ela acreditou que alguma coisa pudesse acontecer.

Mas a porta principal do ginásio se abriu ao longe. O som ecoou pelo prédio. Os dois desviaram os olhos quase ao mesmo tempo. E o momento desapareceu. Ou pelo menos fingiu desaparecer.



Notas finais
Música para acompanhar: https://www.youtube.com/watch?v=EPf1723s5xQ&list=RDEPf1723s5xQ