Dez Invernos

4 Sob as estrelas


Flashback

A ideia surgiu numa quarta-feira. O responsável, naturalmente, foi Oliver.

— Vamos acampar.

Foi assim. Sem contexto. Sem explicação. Sem qualquer preocupação em verificar se alguém realmente queria participar.

O grupo estava reunido na lanchonete próxima ao lago quando ele anunciou a decisão como se estivesse comunicando um fato já aprovado por unanimidade.

— Não — respondeu Sophia imediatamente.

— Eu nem terminei de explicar.

— Não precisava.

— Sophia...

— Oliver...

— Você nem sabe qual é o plano.

— Conhecendo você, esse é exatamente o problema.

Noah riu atrás do copo de refrigerante, cuspindo um pouco. Liam apenas balançou a cabeça. Chloe já conhecia aquele roteiro e já se dava por vencida, como sempre.

Sabia exatamente como terminaria. Oliver insistiria, Sophia reclamaria, Noah tentaria mediar e Liam fingiria que não estava prestando atenção. E, de alguma forma inexplicável, todos acabariam fazendo o que Oliver queria.

Três dias depois, os cinco estavam montando barracas às margens do lago.

O sol já começava a descer atrás das montanhas quando Chloe terminou de prender a última estaca no chão. O ar carregava o cheiro das árvores, da água e do verão. Ao redor deles, Silver Lake parecia ter parado no tempo.

A superfície do lago refletia o céu dourado enquanto pequenas ondas quebravam contra o píer de madeira. Era bonito. Ridiculamente bonito.

— Eu odeio admitir isso — disse Sophia, observando a paisagem.

— Mas?

— Mas foi uma boa ideia.

Oliver ergueu os braços.

— Eu sou um visionário incompreendido.

— Você é um problema de segurança pública — respondeu Noah.

— Isso também.

A fogueira foi acesa pouco depois do pôr do sol. Noah havia trazido um violão. Ele tinha uma leve inclinação para ser músico, mas para isso ele diz que teria que saber compor também, e nisso era péssimo, ele mesmo reconhecia. Sophia trouxera comida suficiente para alimentar uma pequena cidade, ou talvez os animais que aparecessem. Oliver apareceu com um saco gigantesco de marshmallows, maior do que o necessário para o grupo, mas ideal para ele. Ninguém perguntou de onde ele tinha tirado aquilo. Provavelmente era melhor não saber.

Durante horas, a conversa fluiu sem direção. Falaram sobre filmes, música, professores insuportáveis e a formatura que se aproximava cada vez mais.

Em algum momento, Noah começou a tocar algumas músicas conhecidas enquanto os outros cantavam versões absolutamente desafinadas. Especialmente Oliver.

— Você canta pior do que eu imaginava.

— Isso é talento.

— Não é.

— Você está limitando minha arte.

— Eu estou protegendo meus ouvidos.

As gargalhadas ecoaram pelo lago. E por alguns minutos, ninguém pensou no futuro, ou nas decisões que se aproximavam, ou nas mudanças inevitáveis. O importante era aquela noite e aquelas pessoas que já eram família a anos.

Foi Oliver quem trouxe o assunto de volta. Naturalmente. Porque Oliver possuía uma capacidade quase sobrenatural de alternar entre piadas idiotas e perguntas existenciais sem qualquer aviso prévio.

— Onde vocês se veem daqui a dez anos?

O silêncio surgiu imediatamente.

— Meu Deus — resmungou Noah. — Você não consegue simplesmente assar marshmallows como uma pessoa normal?

— Responda a pergunta.

— Quero ser biólogo.

— Isso nós sabemos.

— Então por que perguntou?

— Porque é bonito ouvir as pessoas dizerem seus sonhos em voz alta.

Por incrível que parecesse, aquilo fez sentido. Eles compartilharam tantos anos desde a infância, que saber e escutar os sonhos uns dos outros era sonhar junto.

Noah apoiou os braços sobre os joelhos.

— Quero trabalhar com conservação ambiental. Talvez pesquisa. Talvez viajar. Não sei exatamente. Só sei que não quero passar a vida inteira preso atrás de uma mesa. Quem sabe eu não consiga trabalhar com vida marinha?

O animal preferido de Noah era a raia. Desde que visitou o aquário em Nova Iorque quando era pequeno, se encantou com a leveza daquele animal. Era como voar na água.

Sophia foi a próxima.

— Veterinária.

— Choque absoluto — comentou Liam.

— Eu sei. É praticamente um plot twist.

— Você já conversa com os cachorros da cidade inteira.

— E eles me entendem melhor do que algumas pessoas.

— Isso foi direcionado para alguém?

— Se a carapuça servir.

Oliver apontou para si mesmo.

— Eu escolho acreditar que foi para o Liam.

— Claro que escolhe.

Sophia tem inclinação desde a infância, quando aos 11 anos de idade salvou um filhote de gato depois de ter se afogado. É como se fosse a Branca de Neve da vida real. Os animais são atraídos por ela, com tanta simpatia e empatia por vidas tão únicas. E dizem que os animais sentem almas boas. Talvez isso seja verdade.

As respostas continuaram. Até que os olhos acabaram pousando em Liam. Ele demorou alguns segundos antes de responder. A luz da fogueira dançava sobre seu rosto enquanto observava as brasas.

— Conseguir minha bolsa e jogar profissionalmente.

Não havia arrogância na voz dele. Nem presunção. Apenas sinceridade. Aquele sonho não tinha começado com Liam.

Tinha começado com Lito.

O irmão mais velho que passava horas treinando naquela mesma pista, que conseguiu uma bolsa na Universidade de Michigan e que parecia destinado a jogar profissionalmente até que um acidente interrompeu tudo cedo demais.

Foi Lito quem ensinou tudo que Liam sabia. Deslizar na pista era carregar Lito junto, era honrá-lo.

— E vai conseguir — disse Noah.

— Espero que sim.

— Você vai.

Liam sorriu. Mas Chloe percebeu. Percebeu a insegurança escondida atrás daquele sorriso. Porque ela sempre percebia. Então Oliver voltou-se para ela.

— E você?

Chloe observou o lago. As estrelas já começavam a surgir acima das montanhas.

— Patinação.

A resposta saiu sem hesitação. Porque era verdade. Porque sempre tinha sido verdade.

— Quero competir.

Quero continuar patinando. Quero viver disso. Ali eu sou livre. Foram todas respostas que passaram pela cabeça de Chloe, mas ela não ousou falar.

Por alguns segundos, ninguém falou. Apenas assentiram. Como se aquela resposta fosse tão óbvia quanto o céu acima deles. Porque era. Naquele momento, ninguém conseguia imaginar Chloe Bennett fazendo qualquer outra coisa. Muito menos ela.

A conversa continuou por mais algum tempo. Até que, pouco a pouco, o cansaço começou a vencer.

Noah foi o primeiro a desaparecer para dentro da barraca. Queria acordar cedo e praticar seu Yoga ao nascer do sol. Sophia resistiu por mais alguns minutos antes de declarar que precisava dormir para preservar sua sanidade mental.

Oliver permaneceu mais um pouco. Tempo suficiente para lançar um olhar descaradamente suspeito entre Liam e Chloe.

— Boa noite, crianças.

— Você é literalmente da nossa idade — respondeu Liam.

— E mesmo assim sou claramente o mais maduro.

— Vai dormir.

— Com prazer.

Mas o sorriso que Oliver carregava ao se afastar deixava evidente que ele não acreditava em uma única palavra que acabara de dizer.

Quando finalmente desapareceram, restaram apenas os dois.

A fogueira já havia diminuído. As chamas altas haviam cedido espaço para brasas brilhantes que iluminavam a margem do lago com uma luz suave. O silêncio que surgiu não era desconfortável. Nunca era.

Chloe observava a água. Liam observava as estrelas. Nenhum deles parecia ter pressa de encerrar a noite.

— Eu não queria que acabasse.

A voz dele quebrou o silêncio.

Chloe virou o rosto.

— O acampamento?

— Acho que tudo isso. — Liam demorou alguns segundos para responder.

Ela entendeu imediatamente. A escola, os verões, a facilidade de estarem juntos, a sensação de que o mundo ainda era pequeno. O aperto no peito veio antes que pudesse impedir. Assumir que o mundo era enorme demais era assumir que a distância entre os cinco ia acontecer em algum momento. Que havia muita coisa desconhecida pra se ver e que ninguém saberia o impacto que isso teria em cada um.

— Eu também.

Por alguns instantes, apenas o som da água preenchia o espaço entre eles. Então Liam voltou a falar.

— Você vai conseguir.

— O quê?

— Seu sonho.

Ela sorriu.

— Você também.

— Talvez.

— Não talvez.

Liam soltou uma pequena risada.

— Você acredita mais em mim do que eu.

— Alguém precisa fazer isso.

O sorriso dele se suavizou. E foi nesse momento que aconteceu. Sem planejamento ou intenção. Sem coragem suficiente para transformar aquilo em alguma coisa maior.

As mãos deles estavam apoiadas sobre a madeira do píer. Próximas. Muito próximas. Primeiro os dedos se tocaram. Depois permaneceram ali. Nenhum dos dois se afastou ou comentou.

O toque era leve. Quase imperceptível. Mas, para Chloe, parecia impossível ignorá-lo. Seu coração acelerou. Porque aquilo era novo. E porque, no fundo, não era.

Havia anos que Liam fazia parte da sua vida, desde que se entendia por gente na verdade. Anos que ele ocupava todos os lugares importantes das suas lembranças. Então talvez fosse inevitável. Talvez sempre estivesse caminhando naquela direção.

Devagar e silenciosamente, como a água do lago diante deles.

Ela não soube dizer quem foi o primeiro a fechar completamente a distância. Só percebeu que, em algum momento, suas mãos estavam juntas, os dedos entrelaçados. Como se aquele fosse exatamente o lugar onde deveriam estar. E, estranhamente, nenhum dos dois pareceu assustado. Apenas ficaram ali, observando as estrelas e o lago.

Depois de alguns minutos, Chloe apoiou a cabeça no ombro dele. E Liam inclinou levemente a própria cabeça até encostar nos cabelos dela, mas sem que as mãos se soltassem.

Nenhuma palavra foi necessária. Porque algumas coisas importantes demais não precisam ser ditas.

Naquela noite, sentados diante de uma fogueira quase apagada, parecia impossível imaginar um futuro em que não estivessem lado a lado. Parecia impossível imaginar que a vida pudesse levá-los para caminhos diferentes. Parecia impossível imaginar dez anos de distância.

Algum tempo depois, quando finalmente se levantou para ir dormir, Chloe caminhou até a barraca e abriu o zíper da entrada.

Mas antes de entrar, olhou para trás. Liam havia ficado, sozinho. Agachado diante da fogueira, mexendo nas últimas brasas para apagar o fogo com segurança.

A luz alaranjada iluminava parte do seu rosto enquanto o restante permanecia escondido pela escuridão.

E, observando aquela cena, Chloe sentiu uma certeza simples e absoluta.

Se existia um lugar no mundo onde ela se sentia segura e queria permanecer, era ali, com ele.



Notas finais
Música: https://www.youtube.com/watch?v=Jto2peh2Xhk&list=RDJto2peh2Xhk