Devora-me

20 Um natal gélido


Notas iniciais
E ai pessoal? Tá tudo beleza? :D Mais um cap do Sev cuidando da nossa Sky, e logico o velho mago dando aquele empurrãozinho! :*

Snape aparatou com Skyller em seus aposentos, ele não deixaria aquela garota desmiolada sozinha depois de tudo que havia acontecido. Ela estava fraca em seus braços, a maquiagem borrada denunciava o quanto havia chorado e só parou porque as lágrimas secaram. Ele a depositou cuidadosamente na cama de lençóis pretos, os cabelos prateados se espalharam pelo travesseiro, quase que invadindo o outro lado. Skyller se encolheu como uma criança em posição fetal, e ele jamais pensou vê-la assim.

Algo dentro de seu ser se compadeceu algo doía como se tivesse sido ele. Snape jamais imaginou que vê-la naquele estado o afetaria tanto. Ele nunca sentiu tanta falta do maldito sorriso que sempre desenhava o rosto dela. Snape levantou-se com a intenção de deixa-la só, mas um leve toque em seu braço o fez parar.

— P- por favor... Fique.

Ele poderia ter dito tantas coisas naquele momento, mas pela primeira vez ele não sentiu vontade de dizer nada, apenas de fazer. Snape respondeu com um aceno de cabeça, sentindo seu coração acelerar com o pedido inusitado. Ele deitou em seu lado da cama, se achegando a ela, fazendo com que seu pequeno corpo fosse envolvido pelo dele.

“Seu cheiro deveria estar entre as drogas mais pesadas, e eu queria morrer de overdose”.

Ele acariciou por muito tempo os cabelos dela, ainda sentindo o doce cheiro que emanava deles, o cheiro que ele nunca soube definir, mas que sempre o desarmava.

“Se eu pudesse fazer algo... Se eu pudesse fazer com que ela jamais sofresse... Se me fosse permitido tê-la para mim, fazê-la minha, acalmar seus tormentos, beijar sua face e aconchega-la ao meu corpo quando ela tivesse seus pesadelos... Se eu pudesse sequer lhe dar alguma certeza, dizer a ela que ficará tudo bem...”

Uma fina lagrima escorreu pelo rosto dele, amarga.

“Ele a quer... Voldemort lhe tirou tudo, para que ela não tivesse em quem depositar sua fé, para que não tivesse mais quem protegê-la... Ele matou todos que eram importantes para ela.... Mas eu ainda estou aqui, pequena! Eu vou protegê-la e não deixarei que nenhum mal lhe acometa, não mais...”

— Canta pra mim? – Ela disse em meio às lagrimas.

O silencio nunca fora algo que Skyller soube lhe dar. Cada batida do ponteiro daquele maldito relógio doía como o sangue que pulsava em seu hematoma, doía e parecia impossível suportar. Ela queria apenas ouvir naquele momento uma conhecida voz, de tom aveludado que pudesse lhe acalmar, que pudesse fazer com que o tempo passasse de modo inconstante, sanando as guinadas estranhas e calmarias arrastadas, que a afligia.

Ele a olhou sem entender a principio a razão de tal pedido. Então ele entendeu que até mesmo o céu precisava de melodia para se acalmar. Após a tempestade vem à calmaria, e foi acariciando os cabelos dela que de mancinho ele cantou.

In the arms of the Angel

(Nos braços de um anjo)

Fly away from here

(Voar para longe daqui)

From this dark cold hotel room

(Deste escuro e frio quarto de hotel)

And the endlessness that you feel

(E da imensidão que você sente)

You are pulled from the wreckage

(Você é arrancado das ruínas)

Of your silent reverie

(De seu devaneio silencioso)

You're in the arms of the Angel

(Você esta nos braços de um anjo)

May you find some comfort here

(Talvez você encontre conforto aqui)

E ele também adormeceu, sentindo o aroma que a muito lhe tirava a paz.

***

Snape acordou com finos raios de sol invadindo seu quarto. Ele tapou os olhos pelo excesso de claridade, tentando se acostumar aos poucos. Apalpou o outro lado da cama, se deparando com um lado frio e vazio. Ela havia ido embora, era como parte de um sonho, como se ela nunca tivesse estado lá.

Ele se remexeu, olhando o relógio, eram nove horas. Snape franziu o cenho, não entendendo como havia dormido tanto, a muito uma insônia o acometia, ele sempre acordava entre pesadelos de madrugada, e depois não conseguia mais voltar a dormir.

Foi então que ele entendeu que tudo não havia sido um sonho, ela estivera ali, e pela primeira vez em anos, ele dormiu, sem pesadelos, sem interrupções. A garota de cabelos prateados que odiava regras era capaz de acalmar seus demônios, e seu cheiro ainda estava impregnado em cada fresta daquele local, em cada pedaço de seu ser, profundo.

“Fico pensando como e quando eu deixei que tudo isso acontecesse. Quando foi, por Merlin, que essa garota ganhou tanto espaço em minha vida? As missões para a ordem, e essa maldita guerra haviam me deixado frágil? Ou fora as inúmeras investidas dela, sem nenhum juízo? Ela mal havia chegado e havia se tornado a única que me acalmava a ponto de me fazer dormir, tranquilamente a noite inteira. Eu precisava dela, assim como se precisa de ar para respirar, assim como se precisa inexplicavelmente inexoravelmente tocar, ser, tê-la”.

Snape saiu de seus devaneios quando ouviu leves batidas na porta. Um velho de roupas extremamente extravagante adentrou o local.

— Como ela está Severo?

— Não está mais aqui, ela foi embora antes que eu acordasse! – Mas provavelmente está muito fragilizada!

Dumbledore balançou a cabeça em negação.

— São tempos loucos, não há como negar! Dumbledore socou a mesa de leve, — Estamos cada vez mais encurralados! Pitter não merecia isso, nem Skyller!

Dumbledore observou o homem a sua frente, ele mexia incontrolavelmente os dedões da mão, esfregando um ao outro. Para quem não o conhecia era apenas um mero detalhe, mas para ele significava impaciência, indecisão, dor.

— Porque tenho a impressão que a estadia em seus aposentos da Senhorita Skyller, tem a ver com sua impaciência Severo?

Severo encheu um copo de uísque, irritado.

— Porque insiste tanto nessa historia Alvo?

— Porque você ainda insiste em negá-la meu filho! Eu o conheço... E sei que agora nesse instante, você não sabe o que fazer! Está confuso, com os sentimentos bagunçados por uma certa Grifinoria! Você não sabe quais princípios ela conseguiu quebrar primeiro, se foi o de se envolver com uma leoa, ou com uma aluna, ou de tomar o lugar de Lilian!

— Aquela garota não tomou o lugar de Lilian...- Ele disse exacerbado. — Ela não tomou o lugar dela...

— Meu filho, no momento em que paramos para pensar se gostamos de alguém, já deixamos de amá-la há muito tempo! Quantas vezes você se sentou por horas nessa poltrona tentando cobrir a imagem de Skyller com a de Lilian? Quantas vezes você repetiu a promessa que fez a anos de ama-la para sempre, tentando não esquecer?

— Eu não... Eu não sei o que fazer Alvo! – Disse Severo, — Pela primeira vez me sinto um idiota diante isso! Ele a quer Alvo, Voldemort a quer, mas eu não posso permitir isso! – ele se jogou na poltrona exausto, — Eu queria tanto que tudo isso acabasse! E que eu pudesse... – Severo hesitou.

— Ficar com ela? – Dumbledore perguntou em meio a um sorriso, — Acho que a senhorita Skyller iria adorar saber disso! Graças a ela Severo, eu ainda estarei aqui para poder me certificar que tudo ficará bem, e que o seu prometido final feliz realmente se cumpra! Quando a guerra irromper meu filho, nenhum de nós terá tempo de fazer aquilo que não fizemos antes por medo! E ela irá irromper você sabe... É natal, sei que não gosta de comemorações e não pedirei que se junte ao corpo docente esse ano! Mas peço que faça algo por você! – Ele retirou uma garrafa de vinho tinto das vestes, ainda embrulhada com um laço vermelho, — Eu não soube o que comprar pra você meu filho, então pensei que talvez fosse melhor lhe dar algo que você possa compartilhar com alguém... Alguém especial! – Ele piscou.

Severo pegou a garrafa, e não precisou pensar por muito tempo na proposta do amigo. Ele faria desse natal diferente, ele se afogaria no mar gélido daqueles olhos acinzentados.

***

Skyller abriu os olhos em meio à penumbra do seu quarto, a escuridão que lhe atingiu comparou-se ao vazio que sentiu dentro de si, faltava algo. Ela conseguiu sorrir por alguns segundos, ao pensar na noite em que dormira aquecida aos braços de Severo, mas o sorriso logo morreu em seus lábios ao lembrar-se dos motivos que a levaram a aquele aposento. Ela sentou-se na cama, colocando os pés descalços no chão frio, uma lagrima quente queimou seu rosto e ela sentiu-se vazia, oca, incompleta.

“Quando se perde alguém a quem se ama meu anjo, — Dizia Pitter, — com todas as forças, um espaço em branco toma conta do lugar que antes alguém estivera. Esse espaço em branco nunca poderá ser preenchido novamente. Lá existe um estranho frio e uma monotoma dor, que aflige cada pedaço de seu ser a consumindo. Um dia as portas desse lugar se fecharão apenas com as boas lembranças que lhe acometeram, e um dia isso não vai mais doer. Será apenas mais uma cicatriz dentre tantas que você tem pelo corpo, mas essa não poderá ser vista.”

Skyller fechou as mãos em punho, e um novo semblante tomou conta de seu ser.

— Sinto muito papai, mas não vou esperar essa dor passar!

Ela levantou-se bruscamente pegando sua capa vermelha e descendo as escadas, sabendo que o que faria não mais teria volta.