Devora-me
37 Folha seca.
Notas iniciais

Snape a levou cautelosamente até seus aposentos, selando logo em seguida a porta para que não fossem interrompidos e muito menos ouvidos. Ele se virou fazendo com que sua longa capa esvoaçasse dando-lhe uma displicência não planejada. Severo a olhou e sentiu vontade de dizer tantas coisas antes que seu coração explodisse no peito, sentiu vontade também de tirá-la dali ou de afastá-la de si, a protegendo de seu amor sufocante. Era difícil dizer em palavras o misto de sentimentos que lhe afligia naquele momento, ele olhou demoradamente sua expressão triste. Ela trazia no rosto as marcas da guerra, as marcas evidentes de inúmeras noites de insônia, noites em que esperou todos dormirem para chorar. Trazia no corpo inúmeros hematomas, prova de que por nenhum momento ela sequer cogitou escutar o que há tempos ele a pediu.
— Porque está fazendo isso? Porque se arrisca tanto? – Ele perguntou ainda olhando o corte na face dela, sua expressão era de extrema dor.
— Estou me arriscando pelas pessoas que amo, assim como você! – Ela tentou se aproximar, — Todos nós temos papeis importantes nessa guerra Severo, não se martirize pelo seu!
Severo deu um passo para trás, tentando evitar o toque dela.
— O meu papel? – Ele disse dolorido, — Ah sim, Salvar Potter até que ele esteja pronto para finalmente derrotar o Lord das Trevas, juntar informação, espionar para Dumbledore e tudo mais. Estou cansado disso Skyller, as pessoas que eu amo estão sendo feridas e eu nada posso fazer, a não ser contribuir para que se machuquem mais!
Skyller observou o desespero cruzar o rosto dele e uma sensação de impotência lhe atingiu como um tapa, tudo que ela fazia parecia estar caindo em meio ao vão. Ela sabia que seria difícil, mas vê-lo assim tão desolado e desamparado era como cair em um abismo de dor. Ela sentiu como se não pudesse dizer nenhuma palavra para confortá-lo então apenas aproximou-se e segurou forte sua mão implorando para que ele encontrasse seu olhar. Quando ele o fez ela sentiu-se perturbada ao ver a melancolia tomar conta dos olhos negros antes tão expressivos. Eram os olhos de um homem cansado de se doar ao mundo e nada receber, olhos de quem se entregaria facilmente a morte caso ela cruzasse seu caminho.
“Seus olhos ainda guardavam aquela expressão de alguém que fora inesperadamente atingido no estômago e não sabia o porquê, alguém que fora ferido pela própria vida.”
E junto com a dor que lhe consumia o peito em vê-lo assim tão entregue, ela sentiu a necessidade imensa de dizer aquilo que ele já havia dito a ela, sem sombras de duvida, Skyller sabia, ela o amava. Não era uma paixão boba, ou um simples jogo, paixões nasciam da admiração da imagem de uma pessoa e não da realidade. Ela o amava inconstante, porque assim como ele, ela se arriscaria até o fim, mas somente morreria por uma pessoa. Era isso que os mantinha ainda de pé, apesar das dores, era a certeza de que um não existiria sem o outro, e enquanto a guerra não terminasse eles estariam ali, lutando porque acima de todos, quem os guiava eram apenas seus corações.
— Deixe-me ajudá-lo! – Ela disse com a expressão serena, seus olhos não deixavam os dele. — Diga-me o que eu posso fazer para ajudá-lo!
— Não há nada que você possa fazer. – Ele suspirou virando-se e tirando suas mãos das dela, para alcançar o copo de uísque que estava por meio. Ele tomou um generoso gole acrescentando logo após: — Eles destruíram o colar, e já encontraram a outra horcrux! Em breve estarão de volta, e eu partirei novamente, como Dumbledore pediu, como eu sempre fiz, não importa as consequências!
— Você não pode partir! – Ela disse desesperada, — Para onde você irá? Porque Dumbledore pediu isso? Deve haver algo que eu possa fazer, qualquer coisa! – Ela colocou as mãos nos ombros dele, fazendo-o encara-la. Ele nada respondeu, apenas sustentou seu olhar para o que pareceram séculos. Ela mal se atreveu a piscar enquanto as profundezas impenetráveis dos olhos dele pareciam sugá-la, devora-la, e ela pode sentir o toque suave da respiração dele em sua testa. O único som da sala era o crepitar das chamas na lareira, e um leve prender da respiração quando ela finalmente percebeu o que estava para acontecer. Eles se aproximaram extasiados, seu olhar se desviou dos olhos de Snape para a sua boca e ela se viu umedecendo os lábios inconscientemente. Quando ela encontrou os olhos dele novamente ela pode ver no negror deles, a chama queimando lá fundo. Skyller sentiu quando as mãos dele lhe envolveram a cintura, os aproximando. Ela fechou os olhos e sentiu quando os lábios finos e quentes dele roçaram docilmente os seus. Suspirando ela deslizou as mãos dos ombros dele até a nuca, pressionando levemente ali. Ele a segurou com mais força aprofundando mais o beijo, antes tão casto, enquanto a língua dela passeava faminta por toda a extensão de sua boca.
“Foi um beijo intenso e demorado. Olho no olho, fora do foco. Como se tivéssemos esperado a vida toda por aquilo, como se o tempo que havia nos afastado nos tivesse consumido tanto a ponto de existir só eu e ele. Como se todos os outros beijos que demos antes daquele dia fossem apenas um ensaio, um ensaio para o que estava por vir. Não vou mentir que aquela foi à primeira vez em que meus lábios tocaram os lábios de alguém que eu realmente tinha a certeza de amar. Antes dele, eu ensaiei algumas vezes com outras bocas, bocas que não me roubavam o ar, que não faziam meu coração acelerar ou fazer com que eu sentisse a leve sensação de ter morrido e estar nos braços de um anjo. Percebi que depois dele eu jamais seria a mesma, meu corpo jamais se contentaria com menos.”
No momento em que a língua de Sky tocou a de Snape, ele se afastou como se queimado, e a sensação de perda que ela sentiu, doeu, feriu. Ela o olhou confusa ainda ofegante com os lábios formigando. Tentou tocá-lo novamente, mas ele se esquivou indo parar em frente à lareira, o copo de uísque tomou o lugar que antes estava seus lábios.
"Essa é uma das coisas que as pessoas não nos ensinam quando falam de crescer: como lidar com as dores que não passam com um beijo."
— Você precisa ir, -Ele disse, — o tempo está se esvaindo, fuja para onde ninguém possa lhe encontrar!
Ela se virou assustada, fitando os olhos tão escuros quanto à noite, as orbitas lhe pareciam abismos, no qual ela se perderia a qualquer momento.
— O que você está dizendo? – Ela riu enlouquecida, — Eu não vou a lugar algum sem você!
— Você não entende? – Ele gritou, — Não entende o quanto corre perigo? Não vê o quanto me atrapalha estando aqui, a mercê daqueles idiotas? Olhe para você, eles a tocaram, eles a machucaram... Eu prometi te proteger, e olhe para você, eu –não-pude... Não pude fazer nada! Se continuar aqui eu não conseguirei... Tenho vontade todo santo dia, de pegar cada um que te machucou e torturá-lo até que não possa mais respirar, até que implore por sua morte, lenta e dolorosa! Mas não posso... Sinto-me impotente, e você vive como se tudo fosse uma brincadeira, como se o que fizesse não atingisse os outros! – Ele finalmente respirou como se quisesse ter dito aquilo há muito tempo.
Ela mordeu no lábio sentindo um nó na garganta, o nó que se formava consumia suas palavras e ela quase não acreditava no que ele estava dizendo. Ela pensou se talvez aquele fosse o momento certo para dizer a ele o quanto o amava.
— Eu não posso... – Ela hesitou, — Não posso ir e te deixar aqui, sem saber o que está acontecendo... Peça-me qualquer coisa, mas não me peça para partir, não me peça para te deixar porque eu não o farei! Não vê que não posso mais? Todos esses hematomas – Ela apontou para seu corpo, — Um dia irão sarar e o que sobrará serão apenas mais cicatrizes..., mas as marcas internas... Severo essas marcas não se curam assim... Você não pode dizer que me ama, e depois pedir que eu vá, porque eu não vou a lugar algum sem você!
— Você está sendo idiota Skyller, — Ele disse ainda fitando a lareira, — é apenas uma criança com a vida inteira pela frente, precisa se salvar... Precisa continuar depois que tudo isso acabar! Porque simplesmente não pega suas coisas e vai?
O coração acelerou de uma forma dolorida. Era preciso dizer.
— Porque o amo! – Ela disse sem rodeios fazendo com que ele perdesse instantaneamente o interesse nas chamas e fitasse os olhos marejados dela, — Porque cada minuto distante de você é um martírio e eu não posso mais! Eu não ligo para quantos castigos eles me dão, não ligo se Voldemort me quer, mas você precisa entender que não posso enfrentar nada disso se você não estiver comigo.
"Até aquele instante, não havia compreendido que aquela era uma história de pessoas solitárias, de ausências e de perdas, e que, por esse motivo, havia me refugiado nela até confundi-la com minha própria vida, como quem escapa pelas páginas de um romance porque aqueles que precisa amar são apenas sombras que moram na alma de um estranho."
Ele fitou os olhos dela cheios de amor e marejados de lagrimas. Não havia no mundo alguém que quisesse mais do que ele, abraçá-la para sempre e fugir dali, deitar na cama depois de um dia chuvoso e lhe fazer carinho. Ele não queria sexo. Ele deitaria com ela da forma mais inocente, a abraçaria forte e a faria dormir, sabendo que no outro dia, tudo estaria bem, ele seria dela e ela seria dele. Mas isso não era possível, como tudo que ele sempre almejou e teve que abrir mão porque era o melhor a fazer. Ele sabia que naquele momento ele precisava dizer algo do qual jamais se perdoaria depois. Ele precisava mentir da forma mais descarada possível, ou ela não partiria. Nada que ele dissesse que não a magoasse a faria se salvar, porque ela era Sky, e como todos os dias o céu estaria ali por ele, iluminando seus dias.·. Ele respirou voltando a atenção para a lareira, como se não importasse com o que ela havia dito, ou como se cada palavra que estava prestes a dizer o consumisse pouco a pouco o definhando a morte.
— Eu não quero que fique! – ele tomou sua pose de comensal, — Entenda que, o que vivemos antes foi bom, mas não único! A diversão acabou Senhorita Skyller, o que houve entre nós não passou de sexo casual e nada mais! Quando disse que eu não sabia o que significava a palavra amor, você estava certa!
— Mas... Você disse que me amava! – A voz quase falhou.
— Não se sinta especial querida, todos já ouviram isso! – Ele respondeu seco.
A cor estava se escoando da face de Skyller como se ela tivesse sofrido uma ferida mortal. E se ele tivesse olhado para ela sequer uma vez talvez não tivesse tido coragem para dizer aquilo. Ela sentiu como se todo o seu corpo estivesse desfalecendo, a deixando pouco a pouco como folha seca, leve sendo carregada pelo vento.
“Somos programados para cair quando as feridas do coração são demasiadas profundas.”
— Apenas me diga o que você quer de mim. Por que… quero dizer, você quer que eu vá embora? – Ela custou a dizer como se não acreditasse no que havia escutado, ela precisava escutar dos lábios dele, olhando naqueles olhos que lhe enganaram que ele realmente queria que ela fosse embora, que ele não a amava e que tudo não passou de um jogo.
Ele se virou a olhando pela última vez. Uma nuvem escura tapavam seus olhos negros impedindo que ela sentisse sua própria dor.
— Está perdendo tempo, já deveria ter partido – ele respondeu, e naquele momento ela sentiu-se enjoada, mas não como nas outras vezes, suas pernas bambearam e ela soube que mesmo ainda estando de poucos meses o bebe que ela carregava no ventre soube de alguma forma que metade de sua mãe havia morrido. — Esse sempre foi um de seus problemas, se entusiasmar demais! Não pode se apaixonar por mim, Lannyester – Disse com os olhos enuviados e frios – Podemos ser amigos… mas você não pode me amar...
Ela segurou-se firme na mesa repleta de pergaminhos tentando recuperar suas forças. Seus olhos agora também já não eram mais os mesmos, e dentro de si chovia uma tempestade que não teria fim.
— De uma coisa você tem razão Snape, — Ela praticamente cuspiu o nome dele, — Eu realmente deveria ter partido – mas não agora, digo antes... Antes de certas coisas não terem mais volta! – Ele a olhou sem entender que Sky se referia ao bebe. Ela deu uma última olhadela para trás enquanto se encaminhava para a porta, — Só quero fazer uma correção: não estou entusiasmada. Estou apaixonada por você. É algo com o que ambos teremos que lidar.
E saiu, deixando nada mais do que escuridão para trás. Ele fitou por um longo tempo a porta onde ela passara, e soube que ele havia a matado como folhas mortas que caem no chão, e que ela havia partido, para sempre.
“A sensação de ir embora, mesmo quando você não quer. A sensação de que às vezes as coisas não podem ser consertadas.”
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