Devora-me
38 Para onde ele foi?
Notas iniciais

Era difícil dizer em quantos pedaços o coração de Skyller havia sido partido. Era difícil mensurar em palavras o tamanho de sua dor, que chegava a lhe sufocar o peito latejante. Ela fechou em um baque a porta atrás de si deixando para trás e para sempre os olhos de ônix que tinham tanto efeito em si. Suas pernas bambearam e ela não conseguiu sequer dar mais um passo. Skyller escorou na parede buscando algum apoio e sentiu aos poucos suas costas escorregando a levando direto para o chão. As lagrimas caíram como blocos de gelo que cortavam a face e ela chorou como a muito não chorava, como uma criança que havia perdido tudo. Ela continuou ali encolhida em meio a lagrimas, não se importando mais se a pegariam, não se importando com a massa de pessoas que passavam lhe encarando. Ela estava entregue, fraca e não via motivos mais para lutar.
— Ei, o que está fazendo ai Sky? Ficou louca?
Skyller levantou a cabeça tentando visualizar com os olhos rasos quem estava lhe chamando, tentado levantar-lhe. Ela visualizou um rosto amável e preocupado quase escondido pelos cabelos ruivos que bailavam ali.
— O que foi que houve? – Ela sussurrou como se temesse ser vista, — Precisamos sair daqui Sky, ou seremos pegas!
Skyller nada conseguiu responder, era como se sua voz tivesse sido engolida, sugada para dentro de um abismo sem fim. Amparada por Gina elas seguiram cautelosas até a entrada da AD, sumindo por entre a multidão para não mais serem vistas.
“Ele disse que tinha medo de me perder... E veja só, quem havia me deixado!”
***
Naquele dia Snape não dormiu. As últimas palavras ditas ainda ressoavam em sua memória vividas, como ecos de um lugar sem fim. A bebida já não mais lhe agradava, já não mais sanava as dores de um peito destroçado. Olhando pela janela ele se amaldiçoou, amaldiçoou essa guerra e tudo que o impedia de estar com a única que o fazia sentir-se vivo. O tempo havia parado e nada parecia acontecer. Ele não mais a viu nos arredores do castelo e nem mais sentiu o aroma que sempre lhe desarmava, ela havia partido, havia o deixado para sempre como ele pediu. Ele não mais a sentia. Severo fechou os olhos tentando acalmar-se e respirar novamente, ela havia partido. E tudo que fez foi esperar. Esperou pelo sinal que Dumbledore havia prometido lhe dar, e então o sinal veio.
As batidas na porta soaram apressadas, desesperadas.
— O que foi? – Disse Snape seco.
O homem de nariz odunco parecia nervoso. Sua pele coberta por grossas espinhas quase não podia ser vista pela longa capa preta que usava.
— Se- nhor, ele foi visto! Harry Potter foi visto nos arredores do castelo!
Os olhos negros de ônix tornaram-se mortais, e ele soube naquele momento que a hora finalmente havia chegado.
— Comunique isso aos Dementadores! – Respondeu, — Reforce as proteções do castelo! Se o acharem, quero que o traga para mim, vivo! Você entendeu?
O homem balançou a cabeça afirmando e saiu às pressas, emaranhando na escuridão do castelo. Snape respirou fundo, precisava mais do que nunca usar sua mascara de indiferença e frieza. A hora estava chegando, e ele precisava mais uma vez realizar seu papel. Caminhou sem olhar para trás rumo ao grande salão. Atrás de si, sua longa capa preta esvoaçava de uma forma diferente, parecia acompanhar os batimentos acelerados de seu coração, parecia entender que o momento final estava chegando. Os passos pesados caíram sobre o chão duro do castelo, como se cada passada tivesse se tornado penoso e dolorido, mas era preciso continuar e terminar. Era preciso.
“De todas as maneiras que importavam, eu estava morto. Dentro de mim, em algum lugar, talvez eu estivesse gritando, chorando e uivando como um animal, mas, aquela era outra pessoa, lá dentro, outra pessoa que não tinha acesso ao rosto, lábios, bocas, e cobiça, portanto, na superfície eu apenas dava de ombros, sorria e continuava em movimento”.
***
O céu estava escuro e pesaroso. A neve a muito havia cessado e todos esperavam pela chuva que teimava em não cair. O velho frio gélido percorria pela espinha dos alunos que caminhavam em uma fila única rumo ao grande salão. O som de seus passos no chão assemelhava-se ao som de seus medos, arrastando-se a cada centímetro daquele castelo, todos pareciam hipnotizados andando como soldados caminhando para a morte. O silencio era mortal, fatal, suas cabeças se mantiveram baixas, com seus rostos tristes e seus olhos rasos. O tempo estava se esgotando, eles sabiam.
O som cessou assim que chegaram ao salão, ele estava lotado de alunos que se mantiveram eretos com seus olhos vazios. Um homem de capa preta esvoaçante caminhou por eles, sua presença causava calafrios em todos ali, o frio que emanava dele, era maior do que qualquer nevasca que tinham presenciado. Os irmãos Carrow se uniram acima da escada, o sorriso de deboche e escárnio havia sido costurado em seus rostos. Severo subiu a pequena escadaria calmamente, silenciosamente como se quisesse ganhar tempo para pensar em algo, ou para que algo acontecesse. Ele se virou impassivo, suas mãos nuas e pálidas continuaram em seus bolsos expressando certo tédio da situação. Ele olhou com seus olhos de ônix para cada rosto repleto de hematomas ali. Todos tinham a mesma expressão, como robôs, mas ela não estava ali, ele suspirou, de certa forma aliviado.
— Muitos aqui devem estar querendo saber, porque chamei vocês há esta hora! – Sua voz soou cortante em meio a silencio, — Soube que esta tarde, um pouco mais cedo, Harry Potter foi visto em Hogsmeade!
Um pequeno alvoroço surgiu em meio aos alunos, e aqueles que antes se mantiveram intactos agora olhavam espantados não acreditando no que Snape falava.
— Agora, Se alguém, aluno ou funcionário tentar ajudar o senhor Potter será severamente punido! Então, — Ele caminhou por entre os alunos, — Se alguém aqui tem algum conhecimento dos movimentos do senhor Potter, eu peço que dê um passo à frente! – Seus olhos varreram o grande salão, mas ninguém sequer moveu um músculo. Antes mesmo que Snape pudesse sibilar outra frase, alguém em meio aos alunos saiu, ficando frente a frente com ele. O garoto de cicatriz na testa o encarou com olhos firmes, e todos olharam para trás, completamente enlouquecidos com a situação.
— Parece que apesar de sua exaustiva estratégia de defesa, você tem um probleminha com a segurança diretor! – Enquanto Harry falava atrás de si, a porta fora aberta chamando a atenção de todos, e através dela uma massa de pessoas que fazem parte do ministério e da AD passaram por ela. Dumbledore se mantinha a frente, ao seu lado Hermione e Rony com suas varinhas em punho. Do outro lado Remo lupin abraçado com ela. Seus olhos pararam na garota de cabelos prateados e de olhar firme que estava ali.
“Porque ela não partiu? Eu a pedi, eu a magoei, me magoei por isso! Porque ela tem que ser tão insistente? O que prende ela ainda aqui?” – Pensou Snape.
Os olhos tristes dele pararam por alguns segundos nas cordas que viraram o braço de Lupin presos ao redor de Skyller, ele sentiu que, o seu olhar havia dito tanto que até mesmo ela naquela distancia havia conseguido decifra-lo.
“De uma coisa Snape teve certeza. Lupin jamais poderia amá-la como ele a amou. Não poderá adorá-la do mesmo jeito, não será capaz de perceber todos os seus mínimos movimentos, os pequenos trejeitos do rosto dela. É como se só a ele tivesse sido concedido ver, conhecer o verdadeiro sabor de seus beijos, a verdadeira cor de seus olhos. Nenhum homem poderá jamais ver o que ele viu. Não vai saber apreciar seus doces caprichos. Não vai amar sua mão pequena, as unhas roídas, os pés meio gorduchos, a pequena pinta um tanto escondida. Poderá até ver aquele pontinho preto, é verdade, mas jamais amá-lo. Não do mesmo jeito.”
E naquele momento ele sentiu-se desarmado diante aquela visão, mas o olhar firme de Dumbledore o incentivou a continuar. Ele ergueu ainda tremulo a varinha rumo a Harry. Um audível “oh” formou-se no salão, e no mesmo momento Minerva moveu-se mais rápido do que Harry pôde acreditar. Snape hesitou por um breve momento. Ele não podia, não, não ela a quem depois de Dumbledore fora a única em quem confiou. Mais uma de suas coleções de Grifinorios chatos, porem tão corajosos capazes de dar suas vidas a quem se ama, tão amorosos capazes de confiar em um traidor como ele. Ele não podia. Então a varinha dela cortou rapidamente o ar e por meio segundo Harry achou que Snape iria cair subitamente inconsciente, mas velozmente o seu encantamento escudo foi tão forte que McGonagall perdeu o equilíbrio. Ela brandiu sua varinha com o toque contra a parede e ela voou contra as estantes. Harry foi forçado à puxar Luna fora do caminho das flamas descendentes, que se tornaram uma grande bola de fogo que encheu o corredor e voou como um laço até Snape...
E suas chamas tomara a forma de um enorme leão, e ele rugiu imponente e o atacou. Snape o evitou somente usando um contra feitiço não verbal, mas em nenhum momento revidou. Os professores Flitwick e Sprout também ergueram suas varinhas lançando em Snape inúmeros feitiços que também foram evitados, seus olhos por milésimos de segundos encontraram os cinza preocupados de Sky, e naquele instante eles haviam sem que ninguém notasse se despedido para não mais se encontrarem, e tão subitamente quanto se possa imaginar, em um mover de capa, Snape voou enquanto McGonagall, Flitwick e Sprout avançavam sobre ele. Ele atravessou o vidro da enorme janela e estilhaços caíram sobre eles, momentos depois, ele ouviu McGonagall gritar,
— COVARDE! COVARDE!
— Professora! Harry apertou veementemente sua cicatriz em sua testa, o queimor havia aumentado e ele quase não conseguiu se manter em pé. Ele podia ver o lago repleto de Inferi deslizando abaixo dele, e sentiu o fantasmagórico barco verde colidir com a costa logo abaixo e Voldemort deixando-o com ânsia de morte em seu coração... A voz seca soou no castelo invadindo mentes, deixando um rastro de desespero. Ouve um grande silêncio no Salão, o tipo de silêncio que pressiona os tímpanos, que parece muito grande para ser contido pelas paredes.
— Entreguem-me Harry Potter e todos sairão com vida! – Disse Voldemort em meio a uma risada. — Me deem Harry Potter e poderão deixar a escola intocados. Deem-me Harry Potter e serão recompensados! Vocês têm até meia-noite! – Ele continuou invadindo mentes até encontrar quem ele também queria, — Chegou sua hora Skyller, venha até mim, e pouparei seus amigos!
Todos olharam assustados enquanto tapavam seus ouvidos tentando não escutar mais aquela voz. Conseguiram ver o momento exato em que Lupin segurou rapidamente o corpo inerte de Skyller.
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