Kuzuha acorda no sofá, vestindo seu pijama. Ele solta um longo bocejo, enquanto se espreguiça. "Soninho gostoso." — O jovem se levanta. "Bom, infelizmente, hoje tem aula-" — Kuzuha tropeça em algo. "Ugh ! Qual é, Tsu ! Eu já não falei…" — Ele vê que tropeçou em uma garota de cabelo curto bagunçado preto, com uma mecha no lado direito do seu rosto rosa se mesclando com verde, coberta apenas por um pouco do seu cobertor, dormindo tranquilamente, no chão.

A garota começa a acordar, mostrando seus olhos verdes. Ela solta um bocejo e vê Kuzuha.

Os dois se encaram. "EEEHHH !?"

Mitsuro chega rapidamente, com uma vassoura em mãos. "O-O que foi !?"

Os três começam a se encarar. "EEEHHH !?"

Minutos depois. Eles estão sentados à mesa. A garota está usando uma camiseta de Kuzuha.

"Então você não se lembra de nada, antes de acordar aqui, nem do seu nome ?" — Mitsuro pergunta.

A garota concorda. "…Isso..."

"Hmm… Vem comigo." — Mitsuro diz. Ela pega a mão da garota e a leva embora.

"Ok…" — Kuzuha diz, confuso.

As duas voltam, poucos minutos depois. A garota está vestindo um vestido de verão azul claro, com alguns girassóis nele, e chinelos.

"Ta-da~ Eu te apresento… Hanako !" — Mitsuro diz, animada.

"Uh… Eh ?" — Kuzuha diz, confuso.

"Gostou ? Gostou ?" — Mitsuro pergunta, ansiosa por uma resposta positiva.

O delinquente respira fundo. "Por que é que você tem uma roupa infantil guardada ?"

A bruxa se envergonha. "B-Bom..." — Ela solta um suspiro de desistência. "Eu confesso… Sempre quis ser mãe... Eu amo crianças, e sempre quis ter uma pra ensinar as coisas."

"Deixa eu refazer minha pergunta." — Kuzuha diz. Ele limpa sua garganta. "Por que é que você tem uma roupa infantil guardada NESSE EXATO MOMENTO ?"

"…N… Nunca se sabe…" — Mitsuro diz, desviando seu olhar nervosamente. "Vai que eu acabo me apaixonando por um menino por um menino com seis letras no nome e a gente acaba se casando e fazendo uma família cedo para aproveitarmos nossa juventude com nossos filhos ?"

"Isso não- Quer saber ? Esquece que eu perguntei." — Kuzuha diz, desistindo. "Enfim. A gente não vai dar um nome, nem adotar essa criança."

"M-Mas por quê ?" — Mitsuro pergunta, triste.

"Você tá se ouvindo ? Isso é uma criança de uns… Sei lá. Parece que tem uns onze/doze anos." — Kuzuha diz. "Ela tá perdida, na casa de um desconhecido, e não se lembra de nada. Isso é praticamente um sequestro ! A família dela deve estar preocupada."

"Isso é uma chance do destino ! Meu sonho está se realizando e você quer me impedir !" — Mitsuro reclama. "Como é que uma criança ia entrar aqui sem nenhum de nós três vermos ou ouvirmos ? Só pode ser o destino !"

"Destino uma ova ! Isso é uma coisa que a gente tem de descobrir !" — Kuzuha diz.

"Você está com inveja porque ela prefere à mim !" — Mitsuro reclama.

"Nós precisamos levar ela pra polícia e ver se tem alguém procurando ! Não é uma questão de quem ela gosta mais ou não !" — Kuzuha reclama. "…E, mesmo que fosse, ela ia gostar mais de mim."

"Mas é claro que não ! Ela ia preferir mil vezes a mamãe carinhosa do que o pai reclamão." — Mitsuro reclama.

"…E… Eu sou um problema… ?" — Hanako pergunta, um pouco confusa e preocupada.

Os dois param de discutir.

"Não, querida. Nós só estávamos, uh…" — Mitsuro diz, tentando achar alguma palavra para continuar.

"A gente só tava jogando conversa fora, coisa boba." — Kuzuha diz. "Você consegue lembrar de onde vem, ou o nome de alguém importante ?"

Hanako nega.

O delinquente solta um suspiro. "Isso é um problema… Bom, eu vou lá no meu quarto ver se a Karma já acordou e sabe de alguma coisa." — Ele vai embora.

"Vai ficar tudo bem, filha. Nós vamos resolver isso, e você vai poder viver feliz com a gente." — Mitsuro diz, sorrindo.

"…Tomara…" — Hanako diz.

"Bom… que tal você me chamar de mamãe ? Só uma vezinha." — Mitsuro diz.

"Mamãe ?" — Hanako pergunta, confusa.

"Isso mesmo~♥" — Mitsuro diz, extremamente feliz.

"PUTA MERDA !" — Kuzuha grita. Ele chega correndo, apressado.

"O-O que aconteceu !?" — Mitsuro pergunta, surpresa. "Aconteceu alguma coisa com aquela garota ?"

"Nah, a Karma tá acabada na minha cama. Bebeu demais, ontem." — Kuzuha diz. Ele volta a se desesperar. "O problema aqui é que hoje tem prova ! E a gente vai se atrasar, se não começarmos a correr AGORA !"

"M-M-Mas eu coloquei dois alarmes para isso !" — Mitsuro diz, confusa e desesperada.

Os dois começam a correr desesperadamente par todos os lados. Hanako olha eles correrem, confusa. Segundos depois. Eles estão vestindo seus uniformes.

Kuzuha vai para a cozinha e começa a abrir os armários. "Você viu aquele pacote com torradinhas sabor salame que eu gosto ?"

"…Na gaveta do meio no armário perto do fogão, do lado das de sabor churrasco..." — Hanako diz, como se estivesse em um transe.

O delinquente encontra o que estava procurando no exato lugar que a criança disse. "Como é que você sabia disso ?"

"Uh… Filha ? Tudo bem com você ?" — Mitsuro pergunta, confusa.

"…Eu… Eu não sei… A informação só... apareceu na minha cabeça de repente..." — Hanako diz, também confusa.

"Kuzuha, acho que tem algum coisa errada com a nossa filha." — Mitsuro diz, preocupada.

"Se preocupa com os poderes mentais da nossa filha depois ! Vamos pra escola !" — Kuzuha diz, apressado.

Minutos depois. Kuzuha chega na sala, ofegante. A aula ainda não começou. Ele se senta em seu assento.

Noelle se aproxima, brava. "Kuzuha ! Eu tava tão preocupada com você !"

"Um bom dia pra você também." — Kuzuha diz, revirando seus olhos. "Como tão as pernas ?"

"Agora não é hora disso. Que droga deu em você ontem ?" — Noelle pergunta.

"Uh… Do que você tá falando ?" — Kuzuha pergunta, confuso.

"Grr ! Seu idiot puan ! Você tem o que na cabeça ? Cérebro que não é !" — Noelle diz, furiosa. Ela se acalma. "Tch. Eu morrendo de preocupação, e você brincando comigo."

"O que eu fiz ? Genuinamente não tô lembrado…" — Kuzuha diz.

"Ontem à tarde, você, Mitsuro e Karma saíram pra caçar uma Beta do Caos super perigosa e não deram mais notícias." — Noelle diz. "Tava todo mundo preocupado. Daí, de madrugada, você tentou se comunicar comigo pelo Vizer, mas a conexão foi interrompida. Então, eu fui na sua casa, bati e bati na porta, mas ninguém atendeu. E eu sei que vocês estavam lá, vi uma luz acesa."

"Sendo super honesto com você, eu não lembro de absolutamente nada disso." — Kuzuha diz. "Devo ter bebido junto com a Karma…"

"Tch. Idiot puan irresponsável. Se ficar fazendo essas brincadeiras idiotas, vou parar de falar com você." — Noelle reclama. Ela camisa até sua certeira, irritada, e se senta.

Um professor chega. "Ok, turma. Todos em seus lugares. Sou o senhor Ikutsuki. Não dou aula para essa sala, mas como a senhorita Maiko não pôde vir, vou aplicar a prova no lugar dela."

"Heh, ainda bem que eu consegui aquela dica de que essa prova ia ser de geografia." — Kuzuha pensa.

"E a prova surpresa é de…" — Ikutsuki diz, fazendo uma pausa dramática. -…matemática."

"AH, QUAL É !!!" — Kuzuha berra internamente, em agonia, desespero, e ódio.

Horas depois. Já é o horário de saída.

O delinquente está indo embora, completamente derrotado. "Matemática é sacanagem..."

A bruxa se aproxima, feliz, e começa a caminhar com ele. "Oi~ Como foi a prova ?"

"Tinha estudado pra geografia… Eu odeio matemática…" — Kuzuha reclama.

"Não fique preocupado. Eu sei que você é bem esperto, e conseguiu tirar uma boa nota." — Mitsuro diz, tentando animar seu amigo.

"Meu negócio é biologia ou física, não números ! No máximo, química !" — Kuzuha diz.

"Nunca pensei que gostasse dessas matérias." — Mitsuro diz, curiosa.

"Minha mãe era bióloga e meu pai era físico quântico e engenheiro de robótica." — Kuzuha diz. "Não sou idiota, só preguiçoso."

"Whoa… Eu não fazia ideia disso." — Mitsuro diz, surpresa. "Nossa filha tem avós tão inteligentes~"

Kuzuha solta um suspiro. "Chega disso, Tsu. A gente não pode ficar com ela."

"Podemos discutir sobre isso quando chegarmos em casa ? Hanako tem de estar presente em qualquer decisão que fizermos." — Mitsuro diz.

"Beleza. Mas você não vai escapar dessa conversa." — Kuzuha diz. Ele repentinamente para e se vira para trás.

Mitsuro também para, confusa. "Algum problema ?"

Os dois voltam a andar.

"Não sei... Ultimamente, sinto que tô sendo vigiado pelas costas toda hora." — Kuzuha diz. "Além disso, vez ou outra, aparece uma carta ou algumas flores na porta do apartamento, e até no meu quarto. Já perguntei pra alguns vizinhos, se eles virão alguma coisa, mas ninguém viu nada. E eu não vejo ninguém entrando no meu quarto escondido."

"Whoa ! Que coisa esquisita ! Algumas vezes, também sinto que estou sendo vigiada. Mas não é bom. É uma sensação ruim de que algum acidente vai acontecer." — Mitsuro diz. "O que está escrito nas cartas ?"

"Não faço ideia, todas elas tão escritas em inglês. Eu mal falo japonês, imagina inglês." — Kuzuha diz. "Mas todas elas têm uma coisa em comum: um fio rosa. Todas as cartas têm um fio rosa fino nelas."

Um arrepio corre pelo corpo da bruxa. "Q-Que assustador… Acho melhor avisar a polícia."

"Nah, não precisa." — Kuzuha diz. "Se fosse alguma ameaça, não iam perder tempo mandando flores e um monte de cartas."

"Se você diz..." — Mitsuro diz.

Alguns minutos depois. Os dois chegam no apartamento.

"Espero que esteja tudo bem com a Hanako…" — Mitsuro diz, nervosa.

"Relaxa. Ela tá bem." — Kuzuha diz. "Além disso, a Karma já deve ter acordado e tentado ajudar ela."

Eles entram no apartamento. Há barulhos vindo da cozinha.

Kuzuha sente o cheiro de algo. "Hmm… Viu só ? Ela deve estar cozinhando alguma coisa."

Os dois vão até a cozinha. Hanako está sentada à mesa, com três pratos muito bem decorados com lasanha.

"Uh… Cadê a Karma ?" — Kuzuha pergunta, confuso.

"Dormindo… ?" — Hanako diz, também confusa. "Chequei o pulso dela, e está bem. Então deve só estar dormindo."

"Você fez isso tudo para nós, filha ?" — Mitsuro pergunta.

A garota concorda.

"Aw~ Você é um amor, filha~♥" — Mitsuro diz. Ela se senta na mesa e começa a comer.

O delinquente está parado, encarando a situação. "Tem coisa errada aí…"

"Não está com fome ?" — Hanako pergunta.

"Mitsuro, como é que tá sua lasanha ?" — Kuzuha pergunta.

"Perfeita." — Mitsuro diz. "Você deveria provar um pouco."

"E você não acha estranho que tem três pratos, cada com um pedaço de lasanha, perfeitamente colocados na mesa ?" — Kuzuha pergunta, suspeitando da situação.

"Eu cozinhei a lasanha em um tempo perfeito para que vocês chegassem aqui e ela estivesse na temperatura perfeita." — Hanako diz. "Depois disso, limpei tudo e coloquei nos lugares."

"E você não acha isso suspeito ?" — Kuzuha pergunta.

"Bom, ela já demonstrou que consegue ler mentes." — Hanako diz. "Além disso, crianças crescem tão rápido."

"Só pode ser brincadeira…" — Kuzuha diz.

A bruxa acaba esbarrando em um copo e derrubando ele. Antes do copo acertar o chão, ele é rodeado por uma brisa e é colocado na mesa novamente, no exato local que estava.

"Viu só !" — Kuzuha diz.

"Whoa… Isso foi incrível, filha ! Como fez isso ?" — Mitsuro pergunta, animada.

"De novo, eu não sei… Só me veio na cabeça e eu fiz…" — Hanako diz, olhando para suas mãos confusamente.

"Coitadinha… Eu sei que toda essa confusão deve estar mexendo com a sua cabeça, filha. Mas não se preocupe. Eu e o papai vamos fazer o máximo possível pra te ajudar." — Mitsuro diz, confortando sua filha. "Não é, papai ?"

O delinquente solta um suspiro. "Tanto faz. Só vamos achar seus parentes logo."

"Sobre isso…" — Hanako diz, cabisbaixa. "Algumas das minhas memórias voltaram, mas ainda estão muito nubladas. Ainda não sei quem eu sou, muito menos de onde vim, mas lembro que tenho pais. Bom, tinha… Não sei como explicar isso direito, mas eu sei que eles não estão mais vivos. Lembro que a mamãe gostava de animais… ou eram flores ? Um dos dois. E o papai era muito inteligente e gostava de sair. Todas as vezes que eu tento me lembrar, a única sensação que me vem é tristeza..."

"Coitada da nossa neném..." — Mitsuro diz. Ela faz carinho na cabeça de Hanako. "Não se preocupa, tá ? Seu novo papai e sua nova mamãe vão fazer questão de te lembrar todo dia que você é amada e querida, não é, papai ?"

Kuzuha percebe algo e fica pensativo. Ele tem uma ideia.

"O que foi ?" — Mitsuro pergunta.

"Nada. Eu só tava pensando na prova de novo." — Kuzuha diz. "Sabe, primero eu não acreditava em você. Mas agora tudo mudou. Depois que você explicou, isso fez sentido. Eu sei muito bem como é essa sensação..."

"Sério ?" — Hanako pergunta.

Mitsuro concorda. "Também sei como é isso. Uma sensação tão ruim que eu não desejariam nem para os meus piores inimigos."

"Você sabe o que vai tirar essa tristeza da cara ? Um parque de diversões !" — Kuzuha diz, tentando animar o humor da situação. "Por coincidência, chegou um aqui recentemente. O que acha de irmos aproveitar ?"

"Isso seria maravilhoso !" — Mitsuro diz, animada. "O que acha, filha ? Quer ir se divertir no parque de diversões com o papai e a mamãe ?"

Hanako concorda.

"Ótimo ! Então, vamos~" — Mitsuro diz, pegando a mão da garota e a puxando.

Kuzuha acompanha as duas. Ele segura a outra mão de Hanako. Alguns minutos depois. Eles chegam no parque de diversões. O local está com várias pessoas, mas não completamente lotado.

"Você se lembra de como se diverte em um parque de diversões ?" — Mitsuro pergunta.

"Não..." — Hanako diz.

"Nós vamos te ensinar de novo." — Mitsuro diz, sorrindo.

"Bora pra montanha russa primeiro ?" — Kuzuha pergunta.

"E-Eu acho melhor não. Me dá muita vertigem." — Mitsuro diz, assustada.

"Relaxa. Eu tô com você." — Kuzuha diz. "E nossa filha também. Né, filha ?"

Hanako concorda.

"B-Bom, se for assim, eu vou." — Mitsuro diz.

Os três esperam alguns minutos na fila e finalmente entram na atração. Mitsuro se desespera, mas consegue se manter firme, enquanto Kuzuha e Hanako aproveitam. O delinquente e a garota saem felizes, enquanto a bruxa sai zonza.

"Qual é ! Nem foi tão ruim assim." — Kuzuha diz.

"Isso foi divertido." — Hanako diz, rindo. "A gente foi beeem rápido pra cima, pra baixo, pra direita, pra esquerda, pra cima e pra baixo."

"…Q… Que bom… que gostou… filha…" — Mitsuro diz, cambaleando.

"Onde vamos agora ?" — Hanako pergunta, animada.

"Quer ir no carrossel ?" — Kuzuha pergunta.

"Não faço a mínima ideia do que é, mas quero." — Hanako diz.

Os três continuam se divertindo em várias atrações no parque de diversões por horas, até que começa a anoitecer. Eles estão voltando para o apartamento, caminhando por uma praça. Kuzuha está carregando Hanako em suas costas.

"Você se divertiu hoje ?" — Mitsuro pergunta.

"Eu acho que hoje foi o melhor dia da minha vida !" — Hanako diz, extremamente feliz.

"Eu também. Você é a filha perfeita." — Mitsuro diz. "E você, Kuzuha ?"

"Foi legalzinho." — Kuzuha diz. "Só tem um probleminha: meu quarto tá momentaneamente com a Karma, o sofá tá comigo, e eu duvido que tenha espaço no seu quarto. Onde ela vai dormir ?"

"Eu arranjo um espaço no meu quarto. Qualquer coisa, posso sempre dormir na minha casa." — Mitsuro diz.

"Problema resolvido." — Kuzuha diz. "Mudando de assunto, não é estranho que não tem ninguém nessa praça ?"

"Bom, está tarde. Além disso, as pessoas estão com um pouco de medo de acontecer outra daquelas 'mudanças climáticas' repentinas." — Mitsuro diz.

"Justo. Aquele idiota quase congelou Tokyo inteira." — Kuzuha diz.

"Tem alguma coisa ruim acontecendo com o clima ?" — Hanako pergunta, preocupada.

"Nada que você precise se preocupar, filha." — Mitsuro diz. "Se ficar com medo de alguma coisa, a mamãe vai cantar até você dormir."

"Obrigada." — Hanako diz.

"E-Eu só não sei nenhuma música de ninar." — Mitsuro diz.

"O que foi ?" — Hanako pergunta.

Kuzuha começa a cantarolar uma canção.

A garota começa a chorar. "Eh… ? Por que… Por que isso está acontecendo ?"

"H-Hanako !?" — Mitsuro diz, surpresa. "Kuzuha ! O que foi que você fez ?"

O delinquente para de andar e põe a garota no chão.

"Desculpa, papai. Eu não queria chorar em você-" — Hanako diz, sendo interrompida quando, em um piscar de olhos, Kuzuha pega ela pelo rosto e a joga em um poste, quebrando ele. A garota tosse sangue e cai no chão.

"F-Ficou maluco !? Kuzuha ! O que aconteceu com você ?!" — Mitsuro pergunta, surpresa e brava.

"A única pessoa que sabia dessa música, foi quem fez ela. E ela morreu. Agora que eu juntei as peças, lembrei de tudo." — Kuzuha diz. "A Karma... Nossos Vizers… Noelle… Nada dessas coisas foi coincidência."

"Do que você tá falando ?!" — Mitsuro pergunta.

Hanako continua chorando. Dessa vez, de dor. "Ugh… ! P-Por que fez isso, papai ?"

"Não sou seu pai." — Kuzuha diz, sério. "Karma, isso não é uma criança, é uma Naphista, uma Besta do Caos que copia pessoas, incluindo a memória delas !"

"O quê !? Mas é claro que não !" — Mitsuro diz. "Essa é nossa filha, Hanako !"

"Ontem, eu e a Karma fomos fazer uma missão de classe S pra caçar uma coisa dessas. Só que ela acabou copiando a gente e tomamos uma porrada. Voltei com ela nos braços e você fez uns curativos nos machucados dela. Fui ligar pra loirinha pelo Vizer, mas ele desligou." — Kuzuha diz. "Foi quando percebi que fomos seguidos. Nós dois tentamos fazer alguma coisa, mas esse troço entrou aqui e tentou nos copiar na mesma hora. Isso deve ter fritado o cérebro dela e o nosso."

"I… Isso não é verdade.… Você está enganado... Isso… V-Você só se enganou…" — Mitsuro diz, não querendo acreditar na situação.

De repente, as lágrimas de Hanako começam a virar gosmas negras, como piche. "E… Eu… Eu me lembro… Agora eu me lembro…" — A pele dela começa a derreter e seu corpo começa a se deformar. A garota começa a se transformar em uma criatura completamente feita de matéria negra com uma máscara branca sem emoção nenhuma, com dois buracos para os olhos escorrendo mais do piche, formando uma linha debaixo deles como lágrimas, um longo pescoço, um corpo esguio com as costelas expostas e abertas, braços longos com garras, pernas também longas no formato de lâminas e com os ossos da coluna também expostos. "…Eu sou um monstro…"

A bruxa se ajoelha, em completo choque, sem saber o que fazer. Ela começa a chorar.

"Tch. A culpa é minha por não ter acabado com você antes." — Kuzuha diz.

Naphista também está assustada. A criatura cruza seus braços, se defendendo de um soco de Kuzuha. Ela o joga para trás e corre na direção dele, arrastando suas garras pelo chão. O delinquente pula para trás, desviando do ataque. Naphista acaba fincando suas garras no chão.

Kuzuha aproveita essa oportunidade, cobre seu punho com chamas e soca o peito dela. Seu punho acaba atravessando. "E-Eh !?" — Uma das costelas de Naphista se enfia no braço dele. "Ugh ! M-Merda !" — Ele arranca a costela à força com sua outra mão, cria uma explosão, soltando seu punho, e pula para trás.

A explosão estoura um pedaço de Naphista, mas a gosma começa a reconstrui-lo.

"Tch. Agora eu lembro o quão irritante é lutar contra você." — Kuzuha diz.

A criatura corre na direção dele. Kuzuha faz o mesmo. Os dois se socam, se empurrando para trás. Naphista entra no chão. O delinquente fica em alerta. A criatura forma uma mandíbula com presas afiadas debaixo dele.

Kuzuha se joga para a frente e consegue desviar, mas uma das presas consegue fazer um corte em sua perna. "Ugh ! Droga de mudança de forma."

Naphista sai do chão, se jogando para cima, transforma seus braços em asas e avança na direção de Kuzuha. O delinquente desvia do ataque, e a criatura acaba fincando uma de suas pernas no chão. Ele tenta atacar Naphista, mas ela se defende com sua outra perna. Kuzuha pega essa perna, puxa a criatura para perto e soca o peito dela novamente, causando outra explosão que a joga para trás. Naphista se transforma em sua forma normal, estica um dos seus braços, pega o delinquente e o puxa consigo. Os dois caem no chão, cansados. Eles se levantam e correm na direção um do outro novamente. Kuzuha soca o chão, criando uma cortina de chamas. Naphista facilmente corta essa chamas com suas garras. O delinquente não está mais no local. A criatura olha para cima e ele cai em cima dela e agarra sua máscara. Kuzuha começa a puxar a máscara de Naphista. O corpo inteiro da criatura começa a tremer, até que se desestabiliza e vira uma poça de gosma negra e ossos quando ele a arranca.

"Hah… Hah… Lembrei da sua fraqueza." — Kuzuha diz, ofegante. "A criatura de verdade é a máscara, não o corpo. É por isso que você consegue mudar de forma fácil assim."

"…Desisto… Termine sua missão..." — Naphista diz, num tom triste.

O delinquente respira fundo. Ele segura a máscara com força e… gentilmente a coloca de volta na gosma.

Naphista se reconstrói. "…Mas… Mas eu tentei matar outras pessoas, e você e seus amigos…"

"E eu não te culpo nem um pouco por isso. Você é uma Besta do Caos, uma criatura que foi literalmente criada pra matar outras coisas. Eu não posso culpar um animal por seguir seus instintos. Você não tem culpa de ter nascido como é." — Kuzuha diz. "Desde antes de sairmos, eu lembrei das coisas. Por isso disse pra irmos pro parque de diversões. Queria testar pra ver se você só tava fingindo. Pelo jeito, não fazia mesmo ideia do que tava acontecendo. Bom, é isso."

"'É isso' ? Como assim ?" — Naphista pergunta, confusa. "Vai simplesmente me deixar ir embora ?"

"Os dois fardos mais pesados que existem são o fardo de ter uma vida nas suas mãos e o fardo de ter uma consciência." — Kuzuha diz. "Não existe castigo pior do que poder fazer escolhas e sofrer as consequências delas."

"O… O que eu faço agora... ?" — Naphista pergunta.

O delinquente dá de ombros. "Boa pergunta. Só você sabe. Bom, boa sorte com o que quiser." — Ele vai até Mitsuro. "Você tá legal ?"

A bruxa está um pouco menos abalada. "Um pouco…" — Ela limpa suas lágrimas. "Não acredito que a Hanako era uma Besta do Caos. Eu…" — Ela solta um longo e triste suspiro. "Ter uma criança sempre foi meu sonho..."

"Não é o fim do mundo. Você ainda vai achar um cara decente e ter uma família." — Kuzuha diz, confortando sua amiga.

O humor de Mitsuro melhora um pouco. "Talvez..."

Naphista se aproxima. "…Eu fiz uma decisão. Minha primeira decisão. Eu… Eu quero ser sua filha novamente. Isso é, se vocês aceitarem."

"Eh… ?" — Mitsuro diz, confusa.

"Eu descobri diversas coisas hoje, mas sinto que não descobri nada, ao mesmo tempo. Provei diversos sabores… Senti diversos aromas e texturas… Vi diversas cores e formas… E senti diversas emoções... Mas parece que não foi uma fração do que a vida tem a oferecer." — Naphista diz. "Por isso, decidi que quero viver nesse mundo não como um Naphista, mas sim, como Hanako, sua filha. E explorar todas as outras coisas que a vida tem a oferecer."

"Não precisa ser filha de ninguém, pra isso. Pode só ser uma pessoa." — Kuzuha diz.

"Entendo sua decisão de não me querer por perto. É que… Bom, acabei me apegando a vocês. E me sinto confortável na sua presença." — Naphista diz.

O delinquente solta um suspiro. "Eu nunca disse que você não pode ficar."

"Jura ?" — Naphista pergunta. Ela se transforma em Hanako e abraça Kuzuha. "Muito obrigada, papai !"

"Ugh ! Ainda é esquisito ouvir isso." — Kuzuha diz. "Nah. Nada que eu não me acostume."

Hanako abraça Mitsuro. "Você também, mamãe. Por me amar tanto e ser uma mamãe incrível."

A bruxa volta a chorar. "Eu estou bem. Dessa vez, são lágrimas de felicidade."

"Então... Alguém tá afim de, uh… É, tá tarde. Só vamos voltar pra casa e dormir." — Kuzuha diz.

"É uma boa ideia." — Hanako diz. Ela solta um bocejo. "Eu tô bem cansada…"

"Que bocejo fofinho~♥" — Mitsuro diz.

"Uh… Acho que você gosta até demais dela…" — Kuzuha diz.

Os três vão embora.

"Eu tenho uma pergunta." — Hanako diz.

"Qual ?" — Kuzuha pergunta.

"Agora que me considero humana, posso beber água ?" — Hanako pergunta.

"Uh… Não vejo problema nisso, filha." — Mitsuro diz, confusa.

"Bom, minhas memórias dizem que humanos são, pelo menos, 70% de água. Isso é 20% a mais do que metade. Logo, humanos são mais água do que corpo." — Hanako diz. "Se mais de você é uma coisa do que outra, isso significa que você pode ser considerados sendo feito de tal coisa. Se humano são feitos de água, logo água é a coisa mais perto de um ser humano. Então, tomar água pode ser considerado como canibalismo."

"Não é assim que as coisas funcionam." — Kuzuha diz.

"Por quê ?" — Hanako pergunta.

"Porque…" — Kuzuha diz, não achando uma resposta. Ele limpa sua garganta. "Pergunta pra sua mãe."

"E-Eu !?" — Mitsuro diz.

"Você é a mais inteligente." — Kuzuha diz.

"Mamãe. Nadar é a mesma coisa que voar, só que na água ?" — Hanako pergunta. "Se eu considerar uma coisa como nada, logo, ela é alguma coisa: nada. Então o que ela é ? Se eu disser que estou mentindo, então eu estou falando a verdade ou mentindo ? Se eu adoro odiar uma coisa então eu adoro uma coisa ou odeio ela ? Se esse planeta está girando constantemente, não existe um lado específico, já que, tecnicamente, todos os lados mudam de lugar. Então, como eu sei onde é direita e esquerda ?"

Mitsuro simplesmente não consegue pensar em nenhuma resposta. "E-E-Eu… E-Eu…"