Devil Slayer Chronicles
9 Pesadelos
Kuzuha acorda em um corredor da escola em que estuda. O ar no local é pesado, difícil de se respirar. As janelas estão completamente escuras. Sangue está escorrendo pelas paredes e se acumulando pelo chão. As luzes estão fracas e ocasionalmente piscando, deixando o local completamente escuro por instantes. As portas para as salas estão com várias marcas sangrentas de mãos, como se uma multidão tivesse tentado fugir desesperadamente. E carteiras e cadeiras estão jogadas para todos os lados.
O delinquente não consegue ver o começo ou fim do corredor. "Onde… eu tô !?" — Ele vê Noelle se arrastando pelo chão ensanguentado com seus braços para longe dele, tremendo, chorando, coberta de sangue, e com vários cortes e hematomas pelo corpo.
"…P… Por... favor… chega… ! Por… favor... e… eu… imploro... !" — Noelle suplica, em prantos, aterrorizada. Ela começa a tossir muito e se engasgar com seu próprio sangue.
"E-Ei ! Noelle ! O que foi !? P-P-Por que você tá assim !?" — Kuzuha pergunta, desesperado.
A jovem não o responde. Ela não tem tempo para responder. Tossindo uma última vez, seus olhos se viram para cima e Noelle cai morta, imóvel.
"M-Mas que porra !" — Kuzuha diz, sem saber o que fazer. O delinquente tenta se aproximar do cadáver de sua amiga, mas, de repente, algumas folhas de papel se juntam, formando uma parede viva, e o impedem de se aproximar.
Desenhos de olhos aterrorizantes olhando para ele e palavras horríveis e cruéis são desenhadas nessas folhas de papel.
Kuzuha cai para trás, assustado. "Merda !" — Ele se levanta e tenta usar seu Requiem, mas não consegue. "Era só o que me faltava…"
A voz de uma garotinha pode ser ouvida, sussurrando para si mesma. "…Escuro… Vazio… Ajuda…"
O delinquente reconhece imediatamente essa voz e começa a correr na direção dela. "Não se preocupa ! Eu tô indo !"
As folhas de papel começam a ir atrás dele rapidamente, correndo pelas paredes ensanguentadas.
"Merda ! Essas coisas não dão uma trégua ?!" — Kuzuha pensa, bravo. Depois de muito correr, ele começa a ver algumas escadas. "Pra cima ou pra baixo ? Que se foda !" — O delinquente alcança as escadas e pula na escada que desce. Ele cai por essa escada e chega em outro corredor. Kuzuha rapidamente se recupera e se esconde dentro de uma sala que estava aberta.
As folhas de papel passam pela sala.
Kuzuha solta um suspiro, aliviado. "Essa foi por pouco…"
O barulho de algo pingando pode ser ouvido. O delinquente sente um calafrio terrível. Seu coração vai para a garganta. Lentamente, ele se vira para trás e vê os corpos mutilados de várias pessoas conhecidas e amigos enforcados, com órgãos, carne, e ossos expostos, e pingando sangue no chão. Kuzuha tenta gritar de desespero, mas nenhum barulho sai. Uma gosma negra cobre a boca dele, e a última coisa que ouve é "Shh…"
Kuzuha acorda em sua cama, suado e ofegante. "Hah… Hah… Cacete..." — Ele se levanta, abre a janela e vê que ainda é madrugada. O delinquente respira fundo, se acalmando. "Boa tentativa, Draugr. Vai precisar melhorar nos pesadelos."
"Uma hora vai ceder. Quando acontecer, esse mundo patético cairá aos pés da verdadeira raça dominante." — Draugr diz.
"Blah, blah, blah. Tô ouvindo o mesmo papo tem uns dezessete anos. Não sei como é que não cansa." — Kuzuha diz.
"Se não quisessem ser dominados, não teriam nascido fracos e patéticos." — Draugr diz. "E há uma híbrida patética no seu chão."
O delinquente olha para o chão e vê Mitsuro deitada nele, dormindo profundamente. "Uh… Como é que ela chegou aqui ?"
"Se esgueirou sorrateiramente pela porta, enquanto dormia, e se pôs no local dela, feito o verme que é." — Draugr diz.
Kuzuha solta um suspiro. "Não tô afim de ter uma dor de cabeça." — Ele limpa sua garganta. O delinquente começa a bater seus pés no chão. "Tão invadindo a gente ! É uma guerra !"
Mitsuro acorda, desesperada. "Socorro !" — Ela percebe a situação em que está. "E-E-Eu juro que não-"
"Antes de dar um chilique, pode ficar tranquila. Não tô bravo. Tô confuso. Mas não tô bravo." — Kuzuha diz.
"T-Tudo bem…" — Mitsuro diz.
"Agora, por que você tava dormindo no chão do meu quarto ?" — Kuzuha pergunta.
"É-É que…" — Mitsuro diz, desviando seu olhar.
"Tsu, tá tudo legal. Somos amigos, você não precisa mentir pra mim." — Kuzuha diz.
A bruxa respira fundo. "É-É que eu tenho m-medo de dormir s-sozinha… aqui."
"'Aqui' ?" — Kuzuha pergunta. Ele tem uma ideia. "Saquei ! Você tá tão acostumada a dormir naquele lugar 100% seguro, que acha que alguma coisa vai te egr aqui, né ?"
Mitsuro concorda, envergonhada.
"Tá tranquilo, Tsu. É normal sentir medo e ansiedade do desconhecido." — Kuzuha diz. "Mas você tem que lembrar que isso faz parte da vida. Ninguém tá seguro o tempo todo. Claro, isso não significa que você não pode se proteger. Você é forte e consegue cuidar de si mesma."
"F-Foi um lindo discurso, m-mas eu vou estar dormindo…" — Mitsuro diz.
O delinquente limpa sua garganta. "E-Então eu protejo você."
"…Promete… ?" — Mitsuro pergunta, com um pouco de esperança em seus olhos.
"Prometo." — Kuzuha diz. "Eu não vou sair do seu lado, até você dormir tranquilamente."
"M-Muito obrigada !" — Mitsuro diz, sorrindo. Ela vai embora.
"Na última vez que disse essas palavras, uma garota incompetente morreu. Vejamos se isso se repete novamente." — Draugr diz.
"Você fala demais, pra alguém que morre se eu arrancar meu olho fora." — Kuzuha diz, fingindo não estar incomodado.
"Se me libertar dessa prisão de carne pútrida inútil, eu destruirei esse mundo e irei torturar todos." — Draugr diz. "Esse mundo não gosta de você, tirou tudo que mais prezava. Sucumba e destrua tudo."
"Libertar você não significa me deixar mais forte, significa assumir minha fraqueza." — Kuzuha diz. "E não, eu não perdi tudo. Ainda tenho minha humanidade. E isso já é muito melhor do que ser você."
"Seu desgraçado convencido ! Eu vou destruir tudo que gosta !" — Draugr diz, furioso.
"Nenhuma novidade." — Kuzuha diz. "Você já falou demais, cara. Acabaram seus diálogos." — Ele se troca e vai embora. "Bom, já que não vou dormir, vou dar uma passada na Devil Slayer pra tomar um café, fazer uma missão rápida, ou encher o saco do cabeça de lâmpada. O que vier primeiro."
Algum tempo depois, na sede.
Kuzuha está sentado à mesa, olhando seu Vizer. "Por enquanto, nada. Pô, tu estragou meu sono, Draugr !" — Ele se levanta. "Hora de encher o saco do cabeça de lâmpada." — O delinquente caminha até um elevador e entra nele. "Qual o andar da sala dele mesmo ?" — Ele vê uma opção de sala de treino. "'Sala de treino' ? Huh, essa é nova. Primeira vez que eu vejo isso." — Kuzuha escolhe essa opção.
"Será que é tipo uma academia ? Nah. Deve ser um lugar cheio de bonecos de treino, tipo um RPG." — Kuzuha diz. "Como é que se treina esses poderes, pra começo de conversa ?"
O elevador chega no destino.
O delinquente sai dele, entrando em uma sala branca. "Huh, não é tão diferente daquela sala do cabeça de lâmpada."
A sala começa a falar. "Vizer reconhecido. Bem-vindo à sala de treinamentos, agente Joker."
"Uh… Sala que fala é novidade…" — Kuzuha diz, confuso. "Quem é você ?"
"Sou uma inteligência artificial que analisa todas as informações de combate necessárias para criar um treinamento perfeito para você." — A sala diz.
"Cara, como é que o cabeça de lâmpada inventa essas coisa ? O maluco é um gênio." — Kuzuha pensa. "Pode me analisar. Manda a parada mais forte que tiver !"
"Certo. Analisando informações genéticas." — A sala diz.
"Perai… Se meu Vizer tá quebrado, como é que esse troço vai analisar ?" — Kuzuha se pergunta.
De repente, a sala começa a ter problemas.
"…Eu tinha que abrir minha boca…" — Kuzuha diz.
Uma luz forte ofusca o local.
O delinquente cobre seus olhos. Quando os abre novamente, ele está em uma cidade destruída, com cadáveres, chamas, e destroços espalhados por todos os lados. Kuzuha fica paralisado de medo, com essa visão. "…P-Porra... ! E-Eu sei perfeitamente o que é isso !"
O barulho de algo pesado caindo no chão, como uma pisada enorme, seguido de um leve tremor, pode ser ouvido.
Kuzuha se vira para trás. "…M… Merda… !"
Há uma besta colossal parecida com um lagarto coberta por roxas negras, com veios de lava por todos os lados, dois olhos amarelos imponentes, e com vulcões em suas pernas e costas. A criatura dá um rugido estrondoso.
Os olhos, ouvidos, nariz, e boca do delinquente começam a sangrar. "Gah !" — Ele cai no chão, imóvel. "Ugh… ! …N… Não consigo… me mexer… Tudo dói..."
A criatura se aproxima.
"…De novo… não... ! Eu não quero… ver aquilo... de novo…" — Kuzuha diz, sofrendo com cada palavra.
O colosso levanta sua pata, posicionando ela acima dele. Kuzuha não consegue se mexer, não importa quanto tente. Ele acaba desmaiando. O delinquente acorda em um céu noturno estrelado. Ele está em pé, assim como também está flutuando. Deitado, assim como boiando. Não há nada que não seja céu, em cima ou em baixo, e não se pode ouvir nenhum barulho. O silêncio é tanto, que Kuzuha consegue sentir seu sangue correndo por suas veias e cada batida de seu coração.
O delinquente tenta abrir sua boca para dizer algo, mas não consegue. "Que merda é essa !? Por que eu não consigo falar nada !?" — Ele sente algo e, por instinto, consegue se virar para trás.
Há uma pessoa completamente coberta por um manto atrás dele. Essa pessoa aponta para cima. No céu, há uma estrela brilhando mais do que as outras.
"…Esquisito… Por que eu… sinto alguma coisa, quando olho pra isso ?" — Kuzuha pensa.
A pessoa nega.
"Não o quê ? Dá pra me explicar as coisas ?" — Kuzuha pensa.
Diversas vozes ecoam na mente de Kuzuha. "…Bapto estas neevitebla... La Reĝo revenos..."
"Ugh ! O quê ?" — Kuzuha pensa.
A pessoa desaparece.
Kuzuha acorda, em sua cama. "Uh... Beleza..." — Ele se levanta e vê que está sem camiseta. Seu torso e braços estão cobertos por ataduras. "Ugh… Que merda rolou comigo ? Eu fui atropelado ?" — O delinquente se levanta e sente dor em sua cabeça. "Não fui, mas parece…" — Ele tropeça em algo. "Ugh ! Mas que-" — Kuzuha vê que tropeçou em Mitsuro. "Pô ! De novo, cara ?" — O delinquente solta um suspiro, se levanta, e acorda a bruxa. "Ô Tsu. Eu não falei pra você que não precisa ter medo de dormir sozinha umas horas atrás ?"
Mitsuro começa a acordar. Seus olhos estão com olheiras. Ela solta um longo suspiro e se espreguiça. "…Ugh… Eu juro que não..." — No exato segundo que vê seu amigo, a bruxa começa a chorar descontroladamente.
"E-Epa ! Calma lá ! O que foi, Tsu !?" — Kuzuha pergunta, preocupado e confuso.
A bruxa continua chorando. Minutos depois. Os dois estão sentados à mesa. A situação está mais calma.
"Melhorou ?" — Kuzuha pergunta.
Mitsuro concorda, secando suas lágrimas.
"Deu esse chilique todo pra quê ? Eu não acabei de te falar que não ligo pra você dormir no meu quarto ?" — Kuzuha pergunta.
"Essa não..." — Mitsuro diz, preocupada. "Kuzuha, qual é o meu nome ?"
"Uh... Tsu, cê tá passando bem ?" — Kuzuha pergunta, confuso.
"Suas feridas foram tão graves, que você deve ter perdido a memória." — Mitsuro diz, pensativa.
"Tsu ! Do que você tá falando ?" — Kuzuha pergunta.
A bruxa olha profundamente nos olhos dele. "A última vez que nos falamos não foi hoje cedo, foi há um mês."
O delinquente fica em choque. "B-Boa pegadinha, Tsu. Falando sério, o que rolou comigo ?"
"Eu ia adorar que fosse uma brincadeira, mas não é…" — Mitsuro diz, triste.
"E-Eu… Eu não posso ter apagado por um mês inteiro…" — Kuzuha diz, não conseguindo processar a informação é acabou de receber. "Não tem como…"
"Você não só desmaiou, seu coração literalmente parou de bater." — Mitsuro diz. Os olhos dela começam a lacrimejar. "Foi horrível… Todos nós estávamos começando a pensar que não tinha mais solução…"
"Tsu, calma. Respira fundo. Não precisa chorar, eu tô aqui, e tô bem." — Kuzuha diz.
"Por um milagre." — Mitsuro diz.
"Me conta exatamente o que aconteceu." — Kuzuha diz.
"O King encontrou você todo machucado em uma sala de treinamento quebrada. Tinha sangue pra todo lado." — Mitsuro diz. "Seu coração não estava batendo, mas todos os seus órgãos funcionavam perfeitamente bem. King tentou usar a nanotecnologia dele de todas as formas possíveis para te curar, mas nenhuma funcionou. Então, enquanto as meninas foram procurar alguma solução para o seu problema, eu trouxe você para casa e estou cuidando do seu corpo desde então."
"…Eu morri…" — Kuzuha murmura para si mesmo. "Como é que a Yasumi tá ?"
"Ela disse que está bem, e não ficou preocupada." — Mitsuro diz.
"Isso é o jeito dela de dizer que tá sofrendo..." — Kuzuha diz. Ele dá um soco na mesa, frustrado. "Droga ! Que merda eu tenho na cabeça ?! Fiz a Yasumi e todo mundo se preocupar comigo."
"Não é sua culpa !" — Mitsuro diz. Ela acaba deixando um bocejo escapar.
Kuzuha nota a ação de sua amiga. Ele solta um suspiro e bagunça o cabelo dela. "Desculpa, Tsu. Você tá acabada e eu tô aqui reclamando por nada."
"E-Eu só fiz meu dever como amiga." — Mitsuro diz. "Passo todas as noites acordada, cuidando de você. De manhã, vou para a escola. À tarde, vou pro meu trabalho. E, de noite, volto para cuidar de você."
"Trabalho ?" — Kuzuha pergunta.
A bruxa se anima. "Eu consegui um trabalho de meio período numa cafeteria temática de empregada ! Eu ponho um vestido fofinho e sirvo café para as pessoas !"
"Olha só pra você. Já tá se acostumando com as coisas aqui." — Kuzuha diz. Ele faz carinho na cabeça de sua amiga. "Tô orgulhoso de você, Tsu."
"Eu fiquei conversando com você todo esse tempo, te contando as notícias e coisas que aconteceram no meu dia-a-dia. Gostava de imaginar que você estava me respondendo e me dando conselhos, como você sempre faz." — Mitsuro diz. Ela se envergonha. "…P-Por acaso, você se lembra de TUDO que eu disse ?"
"Pra ser honesto, Tsu, eu não ouvi absolutamente nada que você falou." — Kuzuha diz.
A bruxa solta um suspiro, aliviada. "B-Bom, é uma pena. Mas vamos deixar isso de lado."
O delinquente solta um bocejo. "Cara, pra quem acabou de acordar, eu tô com mó sono." — O estômago dele ronca. "Parando pra pensar, faz sentido. Fiquei um mês sem comer."
"Quer que eu cozinhe alguma coisa ? Tenho ingredientes para fazer uma lasanha." — Mitsuro diz.
"Uma lasanha cairia bem agora. Valeu, Tsu." — Kuzuha diz.
"É o mínimo que eu posso fazer…" — Mitsuro diz.
"Você já fez mais que o suficiente, Tsu." — Kuzuha diz. Ele vai embora. "Tô indo tomar um banho."
"Certo. Vou chamar as garotas. Elas vão ficar aliviadas em saber que você está bem." — Mitsuro diz.
"Boa ideia." — Kuzuha diz. "Te vejo daqui uns minutos."
"Até~" — Mitsuro diz.
Alguns minutos depois.
O delinquente está debaixo do chuveiro, olhando seu punho. Ele o cobre com chamas. As gotas caem nas chamas, evaporando. Kuzuha se lembra da criatura colossal que viu, no treino, e do que a pessoa encapuzada diz. Ele fecha seu punho, angustiado. "Eu não vou deixar aquilo acontecer de novo... Nunca mais…"
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