Devil Slayer Chronicles
30 Esperança
Notas iniciais
Noelle acorda em cima de um tronco, na clareira de uma floresta. Ela vasculha o local com seus olhos. Há peixes, pássaros, cervos, esquilos, dentre outros animais da floresta mortos espalhados pelo chão. Algumas brasas de fogo negro estão rodeando o local.
"Eu... Eu não tô morta ?" — Noelle se pergunta, checando seu corpo. Há alguns cortes leves e sujeira, mas nenhuma ferida grave. "Mas, naquela hora..." — Ela se lembra de Kuzuha a atacando. "Alguém deve ter me salvado. Mas quem ?" — A jovem nota as chamas negras. "Essa não ! Kuzuha ainda deve estar por perto ! Preciso me esconder !" — Ela pisa no chão e vê que pisou em uma das chamas. "Ugh ! Ai ! Isso... dói ?" — Noelle não sente nenhuma dor. Um pouco de calor talvez, mas nenhuma dor. Ela engole seco, respira fundo, cria coragem e põe sua mão diretamente na chama negra. Um pouco da chama gruda em sua mão, mas não a queima, nem sequer machuca. "Eh... ? Esquisito... Eu sinto um calorzinho, mas não dói. Chega até a ser... confortável..."
Algumas moitas começam a se mexer. Noelle imediatamente se encolhe, se protegendo. Kuzuha sai dessas moitas, com alguns peixes em sua boca. Ele cospe os peixes no chão e se vira imediatamente para a jovem, focado nela. Ela entra em pânico, cria um estilhaço de cristal e o aponta para o delinquente. Kuzuha continua caminhando, se aproximando mais e mais, mas para e se vira, como se tivesse perdido completamente o interesse nela. Noelle solta sua respiração, aliviada, e imediatamente cobre sua boca. Mas Kuzuha parece não se preocupar com o som.
"Esquisito..." — Noelle diz, analisando a situação. Ela respira fundo novamente. "Ei ! Olha eu aqui, Kuzuha !"
Kuzuha vira seu rosto para Noelle e a encara por alguns segundos, mas perde o interesse.
"Mas por quê… ?" — Noelle pergunta. Ela vê que a brasa de chama negra saiu da mão dela e foi para o tronco. Ela encosta na chama novamente.
Imediatamente, Kuzuha volta sua atenção para Noelle e começa a caminhar na direção dela. A jovem tira sua mão e o delinquente perde o interesse novamente. Ela faz isso mais algumas vezes, e ele também.
Noelle chega a uma dolorosa conclusão. "Coitadinho... Você ficou cego... Só consegue enxergar as coisas que suas chamas tocam. Foi por isso que espalhou elas por todo canto. Pobre Kuzuha..." — Ela toma coragem novamente e mantém sua mão na chama, deixando Kuzuha se aproximar. A jovem hiperventilando quanto mais próximo ele se aproxima.
O delinquente aproxima seu rosto ao de Noelle. "…M... Ma... tar... No... elle..."
Noelle decide tirar sua mão da chama, mas Kuzuha a impede, segurando a mão dela. Ela cria outro cristal e se prepara para atacar. A jovem para, quando percebe que Kuzuha não está segurando seu braço com força, nem a ferindo.
"…M... Ma... tar... No... elle..." — Kuzuha repete.
Noelle cautelosamente leva sua mão até o rosto de Kuzuha, que, surpreendentemente, se encosta na mão dela, como um animal pedindo carinho. Ela faz carinho nele. "Você tá com tanto medo quanto eu, não é ? Vai ficar tudo bem. Eu vou arranjar um jeito de te curar. É uma promessa." — O estômago dela ronca.
Kuzuha pega os peixes que trouxe e põe perto de Noelle.
"Pra mim ? Você trouxe todos esses animais pra mim ?" — Noelle pergunta.
Kuzuha se senta.
"Parando pra pensar, você quem deve ter me protegido, quando o galpão caiu em cima da gente. Esse tempo todo, você estava tomando conta de mim..." — Noelle diz.
"S... S..." — Kuzuha tenta dizer.
"Sapato ? Sábado ? Sacrilégio ?" — Noelle tenta adivinhar.
Kuzuha encosta sua cabeça em Noelle. "…Satsuki..."
"Você deve estar achando que eu sou a Satsuki. Não, não. Eu sou a Noelle." — Noelle diz.
O delinquente esfrega sua cabeça em Noelle de uma maneira afetiva. "…Satsuki..."
"Eu..." — Noelle diz, se interrompendo quando vê um minúsculo sorriso em Kuzuha. Alguma coisa nela desperta e, sem perceber, ela diz "Shh... Eu não vou a lugar nenhum. Não se preocupa." — A jovem percebe o que disse. "O-O que foi que eu acabei de dizer !? Tô fingindo ser uma pessoa que não sou ! B-Bom, ou é isso, ou ele me mata..."
"...Satsuki..." — Kuzuha diz. Ele começa a farejar o ar, procurando mais coisas.
Noelle observa o comportamento do seu amigo. "Huh... Olhando assim, bem que o Kuzuha podia ser sempre caminho desse jeito. Parece até um cachorrinho. Sempre quis ter um." — Ela limpa sua garganta. "Cai na real, Noelle ! Você tá chamando seu amigo de cachorrinho !" — A jovem finalmente se levanta por completo do tronco em que estava e percebe que ainda está usando o vestido de casamento. "Ugh. Se mexer nisso aqui é um saco." — Ela cria uma tesoura com seus cristais e corta algumas partes do vestido, deixando ele menor e mais prático. "Melhorou~" — Noelle também tira os saltos. "Finalmente. Andar nessas coisas dói pra cacete." — A jovem pega um pedaço do pano, cobre ele com as chamas negras e amarra em seu braço. "Prontinho. Assim, você vai poder me ver sempre."
"Por aqui ! Eu vi algumas chamas nesse direção !" — ??? grita. "Vamos pegar aquela coisa !"
"T-Tem gente vindo aqui !" — Noelle pensa. Ela nota que Kuzuha está agitado e se preparando para atacar. A jovem sente pena dele. Mesmo a beira de ser resgatada, Noelle decide pegar a garra de Kuzuha e puxa ele consigo. "Chegou a minha vez e te proteger. Não vou deixar eles te pegarem."
"…Satsuki…" — Kuzuha diz.
"Eu tô aqui, meu rei. Sempre vou estar..." — Noelle diz.
Os dois chegam em um lago.
"Hah... Hah... Conseguimos despistar eles..." — Noelle diz, ofegante. Ela decide beber a água do lago, mas percebe que não é uma boa ideia. "É… Sem ferver antes não dá. Podem ter parasitas aí. Hmm... Já sei !" — A jovem cria uma panela pequena com seus cristais, põe a água nela e dá para Kuzuha segurar. "Segura. Não pode soltar, hein. Se soltar, você vai ser um menino mal."
Kuzuha segura a panela com ambas as suas garras. Em questão de um minuto ou dois, a água ferve.
Noelle cria uma caneca e dá um gole. "Eca ! Ça a un goût de merde ! Mas é melhor do que ficar com a barriga cheia de parasitas." — Ela faz mais carinho na cabeça de Kuzuha. "Bom garoto~" — A jovem percebe o que está fazendo e imediatamente para. "Não, Noelle ! Ele não é um cachorro ! Mas... até que é fofinho assim, todo obediente e quietinho. Só um pouquinho não dói, né ?~ Além disso, eu duvido que ele vai se lembrar de alguma coisa. Não lembra nem o que comeu ontem."
"…Satsuki..." — Kuzuha diz.
"Uma cura, huh ? É mais fácil falar do que fazer. Como é uma nova invenção, não se estudaram todas as possibilidades ainda. Além disso, só meu pai sabia dela. E duvido que aquela maldita tenha deixado ele sequer pensar em fazer uma cura." — Noelle pensa. De repente, ela tem uma ideia. "É isso ! O papai sempre, SEMPRE, guardava todas as anotações dele, caso esquecesse ou precisasse recriar uma coisa igualzinho. Se eu conseguir entrar na mansão e no escritório do laboratório pessoal dele, deve estar lá." — A jovem se vira para Kuzuha. "O problema é que eu não posso deixar você sozinho, mas te levar seria muito perigoso. Bom, é tudo ou nada."
Algumas horas depois.
Noelle chega em uma mansão enorme. "Foi extremamente mais fácil do que parecia... O povo acreditou que você era só um robô." — Ela faz carinho em Kuzuha novamente. "Se comportou muito bem, me obedecendo. Vai ganhar um petisco depois~"
"…M... Ma... tar... No... elle..." — Kuzuha diz.
"Agora que vem a parte difícil. Não posso deixar ninguém me ver entrando. Aquela mulher maldita pode estar aqui." — Noelle diz.
"S-Senhorita Noelle !" — ??? exclama.
Noelle trava imediatamente.
Uma das empregadas se aproxima dela. "É-É realmente você !"
A jovem solta um suspiro, aliviada. "É você, Marie. Que susto..."
"Ficamos sabendo que foi raptada pela Excalibur e que ela tentou te matar." — Marie diz. "Oh, senhorita Noelle ! Todos ficaram tão preocupados quando não acharam seu corpo. Por que a Excalibur faria uma coisa dessas ?"
"Não ! Não foi isso que aconteceu de jeito nenhum ! Foi tudo culpa daquela maldita da Madeleine !" — Noelle diz. Ela balança sua cabeça. "Isso não importa agora. Onde está o Jean ? Preciso da chave do escritório que o papai deixava com ele."
"Estão todos no enterro do senhor Jacques, senhorita Noelle." — Marie diz.
"Todos ? Incluindo Madeleine ?" — Noelle pergunta.
Marie afirma. "Todos. Estou doente, então decidi não ir."
"Perfeito ! Marie, toma conta do meu cachorro novo e não deixa ninguém ver ele, principalmente a Madeleine !" — Noelle entra correndo na mansão.
Kuzuha permanece sentado, olhando intensamente para Marie, que está tremendo de medo e forçando um sorriso.
"…C... Cachorrinho fofinho..." — Marie diz, fingindo não estar apavorada.
Noelle acha a chave imediatamente. Ela corre para dentro de um escritório, aperta alguns botões debaixo da mesa em um ordem específica e uma porta se abre em uma parede. A jovem entra nessa porta, que, na verdade, é um elevador, e desce. Ela sai em um laboratório com as luzes ligadas, cheio de coisas científicas espalhadas por todos os lados e papéis. Noelle corre até uma mesa distante e começa a mexer nas coisas. Ela lê rapidamente alguns papéis, mas não acha o que procura. A jovem usa seus cristais para arrebentar a fechadura de uma gaveta. Dentro, ela acha uma fita cassete. Na fita, está escrito "Para minha pessoa especial ❤️". Ela estranha a fita. "Uma fita cassete ? O papai não era fã dessas coisas..." — A jovem guarda a fita para depois no seu vestido e continua procurando. "Não. Não. Não. E não ! Mas que droga ! Onde será que estão as anotações ?"
O clique dos saltos a faz Noelle congelar. Ela arregala os olhos, quando percebe que só podem ser de uma pessoa.
"Baratas realmente são uma praga difícil e se eliminar. Quando pensa que estão mortas, aparecem novamente." — Madeleine diz.
"M-M-Mas eu pensei que estava no enterro !" — Noelle diz, assustada.
"Suspeitei que alguma coisa podia acontecer, então voltei mais cedo." — Madeleine diz. "E minhas suspeitas nunca estão erradas. Agora-" — Ela nota a gaveta aberta. Sua expressão muda imediatamente para ódio, e até um pouco de medo. "Me devolva a fita imediatamente, sua vadiazinha de merda. Eu vou dizer só uma vez."
"Huh... Então aquela coisa velha realmente era sua. Suspeitei." — Noelle diz. "N-Não vou te devolver nada ! Só quando me disser a cura para o Kuzuha !"
Madeleine nem tenta responder, já correndo na direção de Noelle fumegando de raiva. A jovem levanta uma barreira com seus cristais, mas Madeleine quebra eles como se não fossem nada.
A mulher pega ela pelo pescoço, bate sua cabeça na mesa com força e a encosta contra a parede. "Cadê. A. Fita ?"
Noelle cospe na cara de Madeleine. "Vai pro inferno, sua desgraçada !"
Madeleine se prepara para atacar, mas é interrompida quando Kuzuha entra no local. Suas chamas se espalham por todo o lugar.
"Você veio atrás de mim pra me proteger ? Bom garoto." — Noelle diz.
"…M... Ma... tar... No... elle..." — Kuzuha diz.
"Te proteger ? Ha ! Meu comando ainda está ativo. Ele vai te matar." — Madeleine diz. Ela joga Noelle no chão, na frente de Kuzuha. "Mate Noelle Vermillion, como foi ordenado. Mas tome cuidado com uma fita que possa estar com ela."
"…M... Ma... tar... No... elle..." — Kuzuha diz.
"Isso mesmo. Matar Noelle. Mate Noelle, Kuzuha." — Noelle diz, com um sorriso confiante.
Kuzuha passa por Noelle e avança na direção de Madeleine. Ele se joga com tudo nela, a jogando contra uma parede.
"Ugh ! Criatura imunda ! O que pensa que está fazendo ?! Eu te ordeneo a matar Noelle !" — Madeleine diz, brava.
"E ele está. Meu DNA está bem na sua cara. Então, agora VOCÊ é Noelle ! Kuzuha, mate Noelle !" — Noelle ordena.
Kuzuha dá um rugido alto.
"Eu vou retirar esse comando-" — Madeleine tenta agarrar o rosto de Kuzuha, mas ele quebra seu braço. "Ugh-" — Antes que ela pudesse agonizar, o delinquente pega a mulher pelo rosto e começa a arrastar ela pelo chão e pelas paredes.
Madeleine consegue se recuperar e dá uma cotovelada na garganta de Kuzuha, fazendo ele hesitar. Ela aproveita essa oportunidade, cria uma asa feita com a gosma negra e ataca. O delinquente consegue pegar essa asa. Os dois começam a forçar. Ele vence essa troca, agarra a asa e arranca ela fora, junto de alguns nervos nas costas dela. Kuzuha enfia suas garras na barriga da madame e rasga ela, fazendo as tripas dela caírem para fora. Ele pega as tripas de Madeleine, amarra no corpo dela e começa a balançar a mulher para todos os lados, a batendo contra paredes, chão e teto. O delinquente joga ela contra uma parede e soca, a afundando.
"Que força incrível e horrível…" — Noelle pensa, enojada.
"V... Vocês não vão… sair... daqui... !" — Madeleine diz. Mesmo com tudo isso que aconteceu com ela, a mulher consegue se levantar.
"S-Só pode ser brincadeira !" — Noelle exclama, surpresa e assustada.
Madeleine enfia suas mãos nas paredes. Veias negras começam a aparecer por todo o local. "Eu vou destruir... esse lugar inteiro… se for... preciso !"
A mansão treme intensamente. As coisas começam a se quebrar. Kuzuha corre na direção de Noelle, mas uma das veias negras se amarra na perna dele, o impedindo. O delinquente tenta se soltar, mas um pedaço do teto cai com tudo em cima da sua cabeça e outros esmagam seu corpo. A mansão se desfaz em cima de todos. uma nuvem de poeira enorme se forma. Demoram poucos minutos para ela abaixar, revelando os escombros do que antes era uma bela mansão. Um pedaço do teto se mexe um pouco, até cair.
Noelle criou uma bolha com seus cristais, se protegendo. Ela se arrasta para fora dos escombros, tossindo e balançando a mão na frente do rosto. "Foi quase..." — A jovem se lembra de Kuzuha e começa a cavar desesperadamente. "Essa não ! Aquela pancada foi bem feia, até pra ele. Por favor, esteja bem..." — Ela continua procurando e procurando, tirando pedaços de madeira, pedra, telhado, dentre outras coisas com as próprias mãos, machucando elas, mas não acha nada. "Kuzuha ! Cadê você ?"
Sem resposta. Noelle começa a perder as esperanças. Uma pedrinha cai, chamando a atenção dela. A jovem corre até esse local e começa a cavar. Ela acha Kuzuha. Noelle termina de tirar os escombros de cima do corpo dele. Ela puxa o corpo do delinquente para fora e o arrasta para o gramado. Kuzuha está com seu corpo todo ensanguentado, respirando, mas não respondendo.
"Não… E-Eu preciso fazer alguma coisa. Mas o que eu posso fazer ? Não posso chamar ninguém, as garotas estão provavelmente se recuperando com nanotecnologia, e se a Devil Slayer daqui descobrir que o Kuzuha matou a chefe deles, vão vir atrás da gente sem pensar duas vezes. Eu..." — Noelle percebe a situação que se encontra. "…Eu sou inútil… Nada disso teria acontecido se eu não fosse uma idiota que só fica chorando. Eu só estrago a vida dos outros..."
"Vish... Que deprê pesada." — ??? diz.
A jovem vira sua cabeça para o lado imediatamente, reconhecendo a voz. Esperança volta para os olhos dela. Chase e Harmony chegam no local.
"Yo, maninha." — Chase cumprimenta.
"A gente tava no enterro e decidiu vir pra cá pra checar uma coisa. Ainda bem que fizemos isso." — Harmony diz. "É, pelo jeito a casa deve ter finalmente caido."
"Chase ! Harmony ! Por favor, eu preciso da ajuda de vocês ! Aquela mulher- O Kuzuha- Eu- Casamento- As garota-" — Noelle tenta dizer, se desesperando.
"Relaxa. Respira fundo. A Excaliburzinha já caguetou a situação toda pra gente." — Harmony diz.
"Viemos te pegar e levar de volta pro Japão." — Chase diz.
"Mas vai demorar muito. E, se o Kuzuha acordar, vai tentar matar todo mundo em volta." — Noelle diz.
"Tu acha que a gente vai de quê ?" — Chase pergunta. Ele faz um movimento com sua mão e uma fissura aparece do lado dele.
A jovem olha para ele como se o homem tivesse criado outra cabeça. "Um portal !?"
"A gente tem mais segredos do que Moonlight Sonata tem notas." — Harmony diz.
Chase põe Kuzuha em seus ombros. "Ugh... Ganhou um peso, desde a última vez que eu te vi, huh ?" — Kuzuha começa a acordar. O homem imediatamente soca o rosto dele, fazendo o delinquente voltar a ficar inconsciente. Ele limpa sua garganta, como se nada tivesse acontecido. "Simbora."
Todos entram em um portal, saindo na sala do King.
"Mas o que está havendo aqui !?" — King pergunta, surpreso. "Expliquem-se ! O que é isso nos seus ombros, Chase ?"
"Yo, King~" — Harmony sorri, como se cumprimentasse um amigo de infância.
Chase põe Kuzuha no chão. "Pacote entregue. Tamo vazando."
"Bye, King~" — Harmony sorri novamente.
Antes de ir embora pelo portal, Chase para. "A propósito, chefia. A gente ainda não achou nada sobre 'você sabe quem' envolvendo 'você sabe quem'. Ela ainda tá solta por aí, infelizmente."
"Não ouse ir embora sem uma-" — King diz, se interrompendo quando Harmony e Chase vão embora, deixando apenas um Kuzuha mutante inconsciente no chão e uma Noelle confusa no local. O chefe limpa sua garganta. "Agente Lancelot, explique-se. Por que minhas agentes e duas crianças chegaram feridas aqui, ontem ? O que está acontecendo ? O que uma Besta do Caos faz na minha sala ?"
Noelle volta a realidade. "King ! Por favor ! Eu preciso da sua ajuda imediatamente ! Esse é o Kuzuha ! Madeleine colocou uma Singularidade das Trevas nele !"
Pela primeira vez na vida de Noelle, ela vê a compostura de King falhar um pouco. Por um breve momento, ele fecha seus punhos e parece até frustrado e decepcionado com algo, ou melhor, consigo mesmo. Mas rapidamente recupera sua postura séria e profissional. "Eu... temo que não há o que possa fazer."
Kuzuha começa a acordar.
Noelle imediatamente segura ele. "Como assim ? Não tem nada que a sua nanotecnologia possa fazer ?"
"A Singularidade das Trevas foi um projeto cancelado há quase duas décadas. Assim que Madeleine sugeriu a ideia, foi imediatamente rejeitada por todos os líderes mundiais e proibida pela própria Organização das Nações Unidas de sequer mencionar no assunto. Se isso fosse à mídia, ela seria executada, se fosse encontrada. Esse é o quão sério a situação foi." — King diz.
"…M... Ma... tar... No... elle..." — Kuzuha diz.
"O que isso significa ?" — Noelle pergunta.
"Que qualquer coisa sobre o assunto foi proibido. Ao mesmo tempo que não se podia sequer pensar em criar uma Singularidade das Trevas, também não se podia pensar em criar uma cura." — King diz. "Em outras palavras, não existe uma cura. E nunca vai existir."
Noelle cai de joelhos, chocada. "S... Só pode ser brincadeira... D... Deve existir alguma coisa..."
"Agente Lancelot, deixe-me ser bem claro. Se existisse uma cura, posso te garantir que teria a conseguido a qualquer custo. Nem que eu precisasse ir contra a própria ONU e ser declarado inimigo mundial." — King diz, num tom um pouco mais pessoal. "Mas, infelizmente, não há. E demoraria anos para fazer uma, assumindo que o governo não descubra. Se for pego revivendo esse projeto de qualquer jeito ou forma, não vou só ser considerado inimigo do planeta inteiro, como todos relacionados a mim também. Isso inclui vocês. E a segurança dos meus Slayers vem acima da minha."
A jovem não sabe o que dizer. Ela fecha o seu punho forte o suficiente para ficar os nós dos dedos ficarem brancos e soca o chão. "É tudo minha culpa... Eu sou uma inútil. Aquela confusão com o Alucard não teria acontecido, se eu não fosse inútil. Ninguém teria de ir para a França, se eu não fosse inútil. Nada teria acontecido com o pessoal do orfanato, se eu não fosse inútil. O papai não teria de ficar concertando minha Singularidade, se eu não fosse inútil. Eu..." — De repente, a esperança começa a voltar aos olhos dela. "É isso !"
"O que tem em mente, agente ?" — King pergunta, surpreso com a mudança repentina no humor da jovem.
"King, é isso !" — Noelle diz, se levantando. "Ahahaha. agora faz todo sentido. Agora eu entendo o porquê daquela maldita mulher me querer fora do caminho dela tanto assim. Eu sou a cura das Singularidades das Trevas !"
"Está tirando uma conclusão muito precipitada, agente Lancelot." — King diz.
"Não, não estou !" — Noelle diz. "Uma vez, perguntei para o papai como é que eu podia andar, e ele me respondeu que tirou pequenas lascas da Singularidade e colocou uma em cada vértebra. Então, a Singularidade no meu pescoço controla as menores na minha vértebra para fazerem eu me mover. E minha Singularidade é a base para as Singularidades das Trevas. Isso significa que se eu conectar meu DNA diretamente com o de alguém com uma Singularidade das Trevas, posso fazer ela sobrecarregar e se destruir, como consigo fazer com a minha, ou até ordenar ela a parar de funcionar."
"Por mais que sua ideia seja plausível, não existem provas concretas ou estudos científicos para confirmar que o resultado desejado aconteça." — King diz. "O que te garante que a Singularidade das Trevas não vai tomar controle da sua e corrompê-la ? Não pode arriscar sua vida assim."
"Absolutamente nada." — Noelle diz. "Mas o senhor sempre diz que nós Slayers temos de tomar conta um dos outros. Que somos uma família. Se eu vejo um membro da minha família sofrendo, eu faço o que for preciso para ajudar a melhorar."
"Eu... Certo. Que homem eu seria, se fosse contra minha própria palavra ? Continue como achar necessário, agente Lancelot." — King diz.
Noelle engole seco e respira fundo, sentindo um frio na barriga. Ela fica de frente para Kuzuha. "Escuta... Eu não sei se isso vai funcionar de verdade. Mas, mesmo se não funcionar, todos nós ainda te amamos Kuzuha. Nunca vamos te abandonar." — A jovem pega o rosto de Kuzuha, vira para ela, fecha seus olhos e beija sua boca rasgada do melhor jeito que consegue.
King vira seu rosto. Alguns segundos se passam e nada. Mais alguns segundos. Nada. Então, de repente, as chamas negras lentamente começam a se apagar, e Kuzuha começa a voltar ao normal. O chefe solta um suspiro, aliviado.
Kuzuha abre seus olhos e vê a situação que se encontra. Ela para o beijo, envergonhado. "O-O-O que tá rolando aqui !? O que a gente tá fazendo na sala do cabeça de lâmpada !? Por que minhas roupas tão rasgadas- Ugh... Minha cabeça tá martelando... E isso aqui é meu sangue… ?" — O delinquente vê os dois sorrindo para ele. "Uh... Isso é programa de pegadinha ? Uma piada ? Eu tô sendo gravado ?"
Noelle abraça ele, com um enorme sorriso no rosto e lágrimas quase caindo dos olhos.
"Uh... Eu bebi pra cacete e fiz alguma coisa ?" — Kuzuha pergunta, ainda mais confuso.
A jovem nega. "Só tô muito feliz de te ver. Só isso."
King caminha até Kuzuha e põe a mão no ombro dele. "Você fez bem, agente Joker. Me orgulho de poder dizer que somos colegas de trabalho."
"Beleza..." — Kuzuha diz, claramente forçando um sorriso. "Uh... Loira ? Dá pra fazer o favor de me soltar ? Eu tô fedendo pra cacete, cheio de sangue e-" — Ele quase vomita. "Puta merda... Meu bafo tá fedendo a bicho morto !" — O delinquente se solta de Noelle e vai embora.
Noelle solta um suspiro, aliviada em ter seu amigo de volta e que nada aconteceu consigo.
"Vá descansar, agente Lancelot. Tem muita coisa para me explicar." — King diz.
"Certo." — Noelle diz. Ela se lembra da fita cassete que pegou. "Por acaso, o senhor não teria um aparelho para fita cassete ?"
"Não." — King diz. Ele estreita seus olhos, estranhamente desconfiando da jovem. "Você não teria achado uma fita na mansão de Madeleine, não é ? Porque se tiver achado, vou ter de confiscá-la imediatamente."
"N-Não ! Eu só queria assistir um filme que vi em um cassete lá na França. Não achei em nenhuma plataforma de streaming." — Noelle diz.
O chefe desconfia, mas deixa passar. "Sora costuma gostar de antiguidades e essas coisas 'vintage'. Fale com ela."
"Certo. Muito obrigada, senhor. Até." — Noelle se curva e vai embora.
Minutos depois.
Noelle chega em sua casa e se joga no sofá. "Finalmente..." — Ela solta um suspiro. "Uma pena a senhorita Sora não ter nada. Pelo jeito, vou ter de comprar um na internet." — A jovem pega a fita e encara o objeto como se fosse místico. "O que será que tem de tão importante aqui que aquela mulher e o King ficaram tão sérios assim... ?"
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