Devil Slayer Chronicles
31 A floresta amaldiçoada
Notas iniciais
Kuzuha está caminhando em uma floresta escura, com uma lanterna em mãos. Ele dá passos cautelosos, apontando a lanterna para todos os lados nervosamente. O céu foi completamente coberto pela copa das árvores. Não se sabe se é dia ou noite. Uma fraca neblina está no local. Não há barulhos de animais ou insetos, e muito menos do vento. Tudo está quieto. Os passos do delinquente esmagam as folhas e gravetos secos no chão, fazendo um som crocante que ecoa um pouco pelo local. Kuzuha se lembra de uma conversa que teve com King, pelo seu Vizer.
"Agente Joker, preciso de você." — King diz.
"Manda, cabeça de lâmpada." — Kuzuha responde.
"Já falei para não me chamar assim." — King reclama, calmo. Ele limpa sua garganta. "Tenho uma missão para você. Três crianças estavam brincando de esconde-esconde em uma floresta e desapareceram misteriosamente. Os pais dela reportaram para a polícia, mas ainda não se passaram vinte e quatro horas, logo, pediram meu socorro."
"Achei que a gente só trampava com coisas de Azeroth." — Kuzuha diz.
"É provável que seja um caso de Bestas do Caos. Além disso, problemas sobrenaturais ou não, não podemos simplesmente ignorar um pedido de socorro." — King diz.
"Certo. Beleza, chefia. Tô indo." — Kuzuha diz.
Agora, Kuzuha se lembra de uma conversa que teve com os pais: um casal e um pai solteiro.
"P-P-Por favor, moço ! Meu Haruno é minha vida ! Traz ele de volta pra mim !" — A mãe implora, em prantos.
O marido, já abraçado nela, continua a acalmando. "Calma, amor. Vai ficar tudo bem. Haruno é bem responsável, e sabe se cuidar. O moço vai achar as crianças."
O pai solteiro se aproxima de Kuzuha e mostra uma foto com três crianças: um garoto um pouco mais alto que as outras crianças de cabelo curto preto, olhos também pretos, vestindo uma camiseta azul, com uma logo qualquer vermelha e shorts pretos; E gêmeos, uma garotinha de cabelo loiro, amarrado em um rabo de cavalo, olhos verdes, vestindo um vestido simples rosa claro, com coelhinhos brancos, e um garotinho de cabelo loiro bagunçado, olhos verdes, vestindo uma camisa preta e um shorts vermelho.
"Esse garoto do meio é meu Haruno. Ele tem doze anos, é super responsável e sabe sobreviver na natureza porque nós costumamos acampar." — O marido diz.
"Os dois são meus gêmeos, Shiroko e Shū." — O pai solteiro diz. "Por favor, ache eles. Eu pago qualquer quantia que for preciso." — Ele aparenta ser o mais calmo, mas está claramente abalado.
"Não vai precisar. Saber que vocês vão poder viver em família novamente já é pagamento o suficiente." — Kuzuha diz.
"Mais uma coisa. Tome cuidado com a bruxa." — O pai solteiro diz.
"Bruxa ?" — Kuzuha pergunta.
"Existe a lenda de uma bruxa que habita na floresta. Todos que vão para aquela floresta começam a se perder e ouvir vozes. Se voltarem, conseguem sair. Mas se persistirem em continuar, nunca mais voltam. Além disso, tem uma casa abandonada lá, que dizem ser onde ela mora." — O pai solteiro diz. "Provavelmente as crianças vão estar lá."
De volta ao presente.
Kuzuha engole seco. "E-Eu sei que falei que ia vir aqui, mas, cacete, que lugarzinho macabro..." — Ele continua caminhando. Conforme caminha, a névoa vai ficando mais densa, até não conseguir ver mais do que uma ou duas árvores na sua frente. Um calafrio corre pelo corpo do delinquente. "É-É... Acho melhor eu marcar nas árvores por onde eu tô passando, pra poder voltar." — Kuzuha cobre um dos seus dedos com suas chamas vermelhas e faz uma marcação na árvore. "Prontinho~" — Ele volta a andar.
Um sussurro ecoa pelo local. "…lte..."
O delinquente imediatamente para, assustado. "Uh... Q-Quem tá aí !?"
"…Volte..." — A voz sussurra.
"D-Devolve as crianças, coisa esquisita !" — Kuzuha diz.
Passos rápidos podem ser ouvidos, correndo em volta dele. Uma risada infantil ecoa pelo local.
"É esse jogo que você quer jogar ? Pro seu azar, meus ouvidos e nariz ficaram muito melhores." — Kuzuha começa a se concentrar. Ele ouve a direção em que os passos estão vindo e começa a correr nela. "Me devolve as crianças, bruxa !" — O delinquente desvia de árvores, arbustos, galhos, e teias de aranha, perseguindo os passos. Ele imediatamente para, antes que caísse em um barranco, bem na borda. A névoa esconde o fundo. Kuzuha solta um suspiro, aliviado. Ele pega uma pedra e joga. Demora para ela acertar o fundo. "Aqui é bem fundinho, huh. Se eu cair, não volto nem ferrando. Mas o que eu tava perseguindo pulou pro outro lado, então deve dar pra eu pular também." — Ele se prepara para pular o barranco também, quando ouve um rosnado atrás de si. O delinquente não tem tempo para virar. Algo o acerta nas costas e o joga no penhasco. Kuzuha desaparece na névoa.
"…Suma..." — A voz sussurra.
Passos podem ser ouvidos, se distanciando até desaparecerem.
Por sorte, Kuzuha conseguiu se agarrar na raiz de uma árvore. Ela se agarra em pedras e raízes, até conseguir subir e volta. "Ugh... ! Foi por pouco. Esquisito... Eu definitivamente tava ouvindo passos do outro lado do barranco, então, o que me acertou pelas costas ?" — O delinquente dá um sorriso confiante. "Heh, ainda bem que esse otário fez isso. Agora eu consigo rastrear pelo cheiro." — Kuzuha cheira onde foi acertado e começa a farejar. Ele acha um odor e começa a segui-lo. O delinquente caminha por alguns minutos, até chegar em uma casa de madeira com dois andares velha e simples.
O local é decadente, com janelas quebradas, tinta descascando, madeiras rangendo, mofadas e podres.
Kuzuha tampa seu nariz e quase vomita. "Puta que pariu. Que catinga horrível." — Ele se prepara mentalmente e abre a porta.
A cena é horrível. Moscas voando por todos os lados. Larvas rastejando pelo chão e pelas paredes. Pedaços de carne podre, ossos, pele, tripas, olhos, sangue e cabelo jogados por todos os lados. Uma carnificina brutal. Corpos tão horrivelmente mutilados que estão completamente irreconhecíveis. Marcas de garra e objetos destruídos no local indicam uma briga.
O choque faz o delinquente soltar seu nariz. A combinação da cena com o cheiro faz ele vomitar. Kuzuha se recupera e se acalma. "Calma... Calma... Às vezes, são outras vítimas. As crianças podem estar presas ou terem fugido." — Ele começa a vasculhar o lugar, procurando por algum sinal. "S-Se tiver alguém aqui, já se manifeste ! Haruno ! Shiroko ! Shū !"
Nenhuma resposta. Apenas o zumbido contínuo das moscas.
Kuzuha ouve os mesmos passos de antes no andar superior. Ele acha uma escada para o andar acima e começa a subi-la, seus passos, mesmo que cautelosos, fazendo os degraus ranger. Um dos degraus quebra. O delinquente quase cai, mas consegue terminar de subir. "Quase..."
É um corredor com quatro portas.
"Eu tô avisando ! A brincadeira acabou ! Me dá as crianças, bruxa !" — Kuzuha ameaça.
Novamente, o rosnado.
"Pra mim, já deu." — Kuzuha chuta uma das portas. Ela dá para um quarto vazio. Ele entra no local, observando todos os lados. É um local realmente vazio, apenas com uma janela. O delinquente chuta outra porta. Outro quarto vazio. A terceira porta, a mesma coisa. Todos os três com marcas de garra. Ele se prepara mentalmente e chuta a quarta porta. Essa, dá em um quarto com uma cama de madeira sem colchão, uma cadeira de balanço, e uma cômoda com um espelho quebrado em cima. O local também está cheio de marcas de garras. O delinquente entra no quarto já preparado para uma briga, mas o imóvel aparenta estar vazio. Ele nota uma coisa na cama esse aproxima. "N... Não é possível…" — Kuzuha se ajoelha e começa a chorar.
Na cama, estão um pedaço de pano rosa, com um coelhinho branco; um pedaço de pano azul, com uma logo dourada; e um pedaço de pano vermelho. Panos que correspondem exatamente com as roupas que as crianças estavam vestindo, na foto que o pai dos gêmeos mostrou.
"…Fuja..." — A voz sussurra.
O delinquente fecha seus punhos com tanta força que os nós dos seus dedos ficam brancos. "…Eu vou acabar com você…"
Passos começam a correr pelo corredor.
"Dessa vez, não !" — Kuzuha diz, se jogando de uma das janelas. Ele imediatamente se recupera e põe fogo na parte de baixo da casa. "Você não vai escapar, filha e puta ! Eu vou te matar, nem que precise queimar essa floresta inteira !"
De uma das janelas, pula uma criatura bípede de pelo dourado, a cabeça feita de um crânio de bode, com presas afiadas, com dois pontos vermelhos brilhantes para os olhos, uma cauda de raposa, e garras vermelhas nas mãos e nas patas. Essa criatura cai e dá um urro distorcido que ecoa pela floresta. Duas outras criaturas iguais aparecem. Elas começam a rodear o delinquente.
"Sabia que tinha alguma coisa errada. Eram três, não uma." — Kuzuha pensa. Ele cobre suas mãos com suas chamas vermelhas. "Vocês vão pagar por terem destruído a vida daquelas criancinhas !"
As criaturas avançam na direção dele. Uma tenta mordê-lo, mas Kuzuha segura suas mandíbulas com suas mãos. A criatura o derruba e se aproxima do pescoço dele, mas o delinquente força, até conseguir afastá-la e a joga em outra que também estava pulando nele. Ele se levanta com um pulo de dá uma cotovelada em uma criatura atrás de si. As três criaturas pulam para a neblina e começam a correr em volta dele, o brilho dos seus olhos vermelhos deixando rastros por onde passam formando um círculo.
"Podem vir ! Eu vou acabar com vocês !" — Kuzuha exclama. Ele assume uma posição de defesa.
Uma das criaturas pula em Kuzuha, que desvia com um pulo para trás. Ele desvia do avanço de outra, mas a terceira acaba o pegando de surpresa e se agarrando nas costas dele. O delinquente começa a se balançar para tirar a criatura de si. Uma das outras aproveita a oportunidade e morde a perna dele, o fazendo cair em um joelho. As três criaturas abrem suas bocas cheias de dentes e preparam um ataque. Kuzuha também se prepara para atacar.
De repente, um grito interrompe todos. "PAREM !"
Dá neblina sai, para a surpresa de Kuzuha, Haruno. O garoto está com suas roupas rasgadas e com poucos ferimentos leves no corpo. "O-O-O que tá acontecendo aqui !?"
"H-H-Haruno !?" — Kuzuha pergunta, surpreso.
"Por que a casa tá pegando fogo !?" — Haruno pergunta, assustado. Dá para ver que há várias coisas passando na cabeça dele. O garoto rapidamente balança sua cabeça, se focando. "Volo, Sue, Fujin, fiquem calmos. Esse moço é um amigo."
As três criaturas se sentam.
"O-O que tá rolando aqui !?" — Kuzuha pergunta, ainda mais confuso.
"Tio, por favor, a gente precisa da sua ajuda, urgente !" — Haruno exclama, preocupado.
"Eu sei. É isso que vim fazer. Levar vocês de volta." — Kuzuha diz.
"Levar a gente de volta-" — Haruno diz, percebendo a situação. "Oh... Já passou tanto tempo assim ? Não ! Isso fica pra depois ! Vem comigo !"
"Eu, uh..." — Kuzuha tenta dizer algo, mas não consegue pensar em nada. Ele simplesmente se levanta e segue o garoto.
Haruno leva os quatro para um buraco profundo. Não se pode ver o fundo. Shū e Shiroko estão no lugar, também com suas roupas um pouco rasgadas e com alguns machucados leves.
"Você achou alguém, Haruno ?" — Shiroko pergunta.
Haruno concorda. "Passou um tempão, já. Nossos pais chamaram ele."
"J-Já !? Aw... Tomara que a gente não fique de castigo..." — Shū diz, preocupado.
"Dá pra alguém me contar o que tá rolando aqui, por favor !?" — Kuzuha diz, extremamente confuso.
"Moço ! Ajuda a gente, por favor !" — Shū implora.
"A mamãe dos espíritos tá presa ali !" — Shiroko diz.
Isso não esclarece nem um pouco a situação para o delinquente. "Eh !?"
"…Me ajude..." — Uma voz fraca e cansada vinda do buraco geme.
"T-Tem alguém preso ali em baixo !?" — Kuzuha pergunta, confuso.
"Foi o que eu falei !" — Shiroko reclama, batendo seu pé no chão.
"Criançada, vocês vão precisar sair de perto." — Kuzuha diz.
As crianças se afastam. Kuzuha respira fundo e começa a se concentrar. Ele se transforma na sua forma bestial com as chamas negras, e joga uma brasa dentro do buraco. Quando a brasa acerta algo, o delinquente entra no buraco. As crianças se assustam, vendo ele se transformar. Alguns segundos se passam, e Kuzuha sai do buraco, com uma mulher de cabelos longos prateados, amarrados em uma única longa trança sobre seu ombro esquerdo, olhos vermelhos, orelhas e uma cauda de raposa, também prateados, presas, unhas vermelhas longas, delineador vermelho em volta dos olhos e batom vermelho, vestindo um kimono amarelo ouro, com pétalas de cerejeira pretas e designs de vento brancos, sandálias zori, e usando uma flor vermelha na cabeça.
O delinquente põe essa mulher cuidadosamente no chão e volta ao normal. "Ugh... Ainda não tô acostumado a usar isso..."
As três criaturas imediatamente se aproximam da mulher e começam a se esfregar nela, carinhosamente.
"Shh… Está tudo bem... Eu estou de volta..." — A mulher diz, ainda fraca. Ela se vira para Kuzuha. "...Jovem... Sei que pedi... demais... mas... poderia mordê-lo… ?"
"Eu, uh... Não… ?" — Kuzuha diz, confuso.
"...Isso... me ajudará... a recuperar..." — A mulher diz.
"Certo..." — Kuzuha diz, ainda um pouco incerto. Ele estende seu braço.
A mulher pega o braço, abre sua boca, puxa Kuzuha mais para perto e morde seu pescoço.
O delinquente se solta dela e se afasta. "Que merda foi essa ?!"
"Perdão. Eu não me alimentava há dias. Os instintos tomaram conta." — A mulher diz, sua vitalidade já começando a voltar. Lentamente, ela se levanta e checa seu corpo. "Devo dizer. Estou impressionada. Suas células são tão potentes que me recuperei em instantes. Nunca havia absorvido tal potência antes."
"Valeu... ?" — Kuzuha diz, não sabendo se isso foi um elogio ou não.
A mulher olha para as três crianças. "Muito obrigada por responderem ao meu chamado e tentarem me ajudar como puderam. Podem não ter me visto, mas ouvi cada tentativa de tentarem me resgatar."
"Não foi nada, moça. Papai sempre disse que pra ajudar quem precisava." — Shū diz.
"Palavras de um homem sábio, eu diria." — A mulher diz.
"É verdade que a senhora é a bruxa que você aqui ?" — Shū pergunta.
"Shū !" — Shiroko repreende seu irmão.
A mulher esconde uma risada com a longa manga do seu kimono. "Está tudo bem. Sim, eu sou chamada de várias coisas. Bruxa é uma delas."
"Mas a senhora não é uma bruxa. É… ?" — Haruno pergunta, incerto.
"Hmm... Talvez~" — A mulher pisca para ele.
"Isso não é justo. A senhora não é uma bruxa. Seus filhos cuidaram da gente e foram legais." — Shiroko diz. "Qual seu nome ?"
"Eu... temo que não tenha um." — A mulher diz.
"Mas todo mundo tem um nome." — Shū diz.
"Hmm... Que tal... Moko ?" — Shiroko sugere.
A mulher inclina sua cabeça, confusa. "Moko ?"
"É. Porque a senhora tem esse rabo e essas orelhas fofinhas que parecem mais fofinhas que meus bichinhos de pelúcia." — Shiroko diz.
"Moko..." — A mulher diz, testando como soa. Ela dá um sorriso sincero. "Achei perfeito. Muito obrigada."
"Beleza… Agora que a situação tá resolvida, criançada, vamos embora. Seus pais tão morrendo de preocupação." — Kuzuha diz.
"Aw... Mas eu queria brincar mais um pouco com os espíritos..." — Shiroko diz, desapontada.
"Tio, a gente pode ficar só mais um pouquinho, por favor ?" — Haruno pergunta.
"Eu, uh..." — Kuzuha diz, incerto.
"Por favorzinho !" — As crianças dizem, fazendo cara de dó.
O delinquente tenta protestar, mas desiste, soltando um longo suspiro. "Tá bom. Só não demorem muito."
"Eba !" — As crianças vão brincar com os espíritos.
"Sinceramente, como é que eles vão brincar se nem enxergam aqueles três ?" — Kuzuha pensa em voz alta.
"Bom, não vamos mais precisar disso." — Moko diz. Ela faz um movimento com sua mão.
Lentamente, a neblina começa a desaparecer. A visão de Kuzuha começa a borrar e as árvores a retorcer. O jovem esfrega seus olhos e vê que a copa das árvores nunca foi tão densa assim, nem a floresta tão cheia de árvores. Está uma bela tarde. O sol está se pondo.
"Eu crio essa neblina para confundir as pessoas que se aproximam demais da minha casa." — Moko diz.
Kuzuha engole seco. "Vish... Sobre isso..."
"Antes de qualquer coisa, por favor, me acompanhe." — Moko diz, indo embora.
Kuzuha a acompanha. Os dois chegam em um barranco. Moko se senta em uma raiz grande e faz um gesto para Kuzuha sentar ao seu lado, e ele o faz. Os dois permanecem em silêncio. Eles são banhados pela luz dourada do pôr do sol. Uma brisa passa, balançando seus cabelos. A única coisa que pode ser ouvida são os insetos cantando, as folhas balançando com o vento e o som da respiração dos dois. Kuzuha fecha os olhos e deixa o calor do sol poente esquentar seu rosto. Pela primeira vez nesse dia caótico, ele está em paz.
O silêncio finalmente é quebrado por Moko. "Você gosta de ser humano ?"
"É, uh, uma pergunta bem... diferente. Sim... ?" — Kuzuha diz, confuso.
"Por que vocês causam tanta guerra e destruição entre si ?" — Moko pergunta.
"Eu..." — Kuzuha não sabe responder.
"Nós, Bestas do Caos, fomos criadas com o propósito de brigar. Confronto está no nosso sangue. Pelo que eu bem sei, o mesmo não pode ser dito sobre os humanos." — Moko diz. "Vocês são tão frágeis. Vivem vidas miseravelmente curtas. Não nascem com nenhum propósito. Tem uma vida perfeita. Uma vida onde podem moldar qualquer futuro que desejarem. Mesmo assim, decidem usar seu poder de criação para machucar e oprimir."
"Eu não vou ter uma resposta pra você." — Kuzuha diz, um pouco cabisbaixo. "Isso é uma coisa que eu também pergunto."
"Eu sinto inveja." — Moko diz. "Meu sonho é um mundo onde eu possa viver em paz com minhas crianças, tendo momentos como esse todos os dias. Um mundo onde eu não precisa me preocupar todos os dias em ser caçada ou linchada. Se você não tivesse me resgatado, eu teria morrido em algumas horas. Estava presa naquele buraco há quatro dias, com minhas pernas quebradas. Um caçador fez aquilo para me matar."
"Isso é horrível…" — Kuzuha diz, chocado. "…É por isso que eu quero ser rei. No meu reino, ninguém mais vai precisar brigar. Todo mundo ia olhar um pro outro e aceitar as indiferenças."
Moko dá outro sorriso sincero. Ela começa a balançar sua cauda levemente. "Esse seria o tipo de reino que eu gostaria de viver."
"Bom... pode ainda não ser assim, mas acho que consigo fazer alguma coisa pra você." — Kuzuha diz.
A mulher inclina sua cabeça. "Como ?"
"Eu trabalho pra uma organização que lida com casos de Bestas do Caos. Se eu implorar muito, talvez meu chefe faça uma vista grossa pra você e sua família e arranje um lugar para morarem."
"Ele realmente faria uma coisa assim para alguém como eu ?" — Moko pergunta.
"Bom, ele fez uma vez, pra minha filha. Deve conseguir fazer de novo." — Kuzuha diz.
"Isso seria um sonho realizado." — Moko diz. Sua cauda está balançando bem mais forte agora, mostrando sua felicidade.
"Eu vejo com ele o que dá pra fazer, porque ficar nessa casa sua aí, toda quebrada e podre, não dá. Sem ofensas." — Kuzuha diz.
"Muito obrigada. Muito obrigada mesmo." — Moko diz.
Depois disso, Kuzuha voltou para casa com as crianças. King conseguiu um lugar seguro para Moko e sua família morar. E Shū, Shiroko, e Haruno continuaram visitando a família, para brincarem com as crianças.
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