É uma bela manhã ensolarada em Tokyo.

Kuzuha está andando tranquilamente em uma rua movimentada. Ele está com seu tapa olho de volta. "Hah… Sábado, meu dia favorito. Nada melhor que um dia onde eu não preciso ir pra escola, trabalhar ou… É, eu ainda preciso caçar aqueles bichos. Eu podia ajudar a Tsu a se mudar, mas…" — O delinquente põe a mão em seu tapa olho. "…ser possuído e quase morto não é lá a coisa mais relaxante do mundo." — Para sua surpresa, ele vê Noelle. Kuzuha se aproxima dela, balançando seus braços para chamar a atenção de sua amiga. "Yo, loirinha ! Coincidência, né ? Tudo tranquilo ?"

Noelle o ignora.

"Uh… Tudo legal contigo, loirinha ?" — Kuzuha pergunta, confuso. Ele encosta no ombro de Noelle que se vira assustada.

"N-Não encosta em mim !" — Noelle diz.

"Eu, hein. Esquisita." — Kuzuha diz. "Coincidência que a gente se encontrou aqui, né ?"

A jovem só fica parada, olhando para ele, confusa. Quando ela decide dizer algo, suas palavras cortam diretamente pelo coração de Kuzuha. "…Perdão, mas… quem é você ?"

O delinquente dá um passo para trás, preocupado. "E-Epa ! Calma lá ! Isso é uma brincadeira, né ?"

Noelle se curva, se desculpando. "Se estudamos juntos, eu sinto muito, mas não me lembro do seu rosto."

"Não é brincadeira, né… ?" — Kuzuha pergunta, temendo uma resposta positiva. "Ei ! Draugr, seu arrombado ! Para de mexer com a minha cabeça ! Eu já tô cansado disso !"

"N-Na verdade, olhando para você por esse ângulo, sinto que já vi seu rosto em algum lugar." — Noelle diz, nervosa.

Kuzuha solta um suspiro, aliviado. "Cacete, loirinha. Essa foi boa. Assim você me mata do coração, cara."

"P-Perdão, mas eu realmente não te conheço. Só recordo seu rosto." — Noelle diz.

"Pô, qual é ! Isso é piada, né ?" — Kuzuha pergunta.

A jovem nega lentamente, tentando entender a situação.

"Não lembra de mim ? Sou eu ! Kuzuha ! O Kuzuha ! Como é que alguém se esquece disso aqui ?" — Kuzuha diz, apontando para si.

"Ainda nada." — Noelle diz.

"Só pode ser brincadeira, cara..." — Kuzuha diz, desapontado. "Que droga aconteceu ? É como se a gente nunca tivesse se conhecido…" — Ele tem uma ideia. "É isso ! Eu só preciso levar você em algum lugar que a gente foi e sua memória deve voltar !"

"Você parece genuinamente confuso, mas eu juro que não me lembro de quem é." — Noelle diz. Ela pega seu celular e começa a digitar algo.

"Batendo um papo com a empregada ?" — Kuzuha pergunta. "Ela deve saber quem eu sou !"

"Acabei de perguntar. Ela não faz ideia." — Noelle diz.

"Era só o que me faltava…" — Kuzuha diz. "Estranho, você e a empregada não lembrarem das coisas. A Tsu lembra de mim, falei com ela hoje cedo. Yasumi e o King também lembram."

"Onde nos conhecemos ? Talvez eu realmente me lembre, se me levar lá." — Noelle diz.

"Não precisa. Foi na escola. Não tô afim de entrar lá num sábado. Presidiário nenhum quer voltar pra cadeia, quando foge." — Kuzuha diz. "Você lembra de enfrentar aquelas Bestas do Caos na casa velha atrás da escola ?"

"C-Como sabe sobre as Bestas do Caos !?" — Noelle pergunta, surpresa.

"Porque eu sou do seu time, filha de Deus !" — Kuzuha diz. Ele aponta para seu Vizer. "Não notou o smart watch mega avançado no meu braço ?"

"P-Perdão ! Não tinha visto seu Vizer, agente… ?" — Noelle diz, confusa.

"Joker. Deve tá registrado no seu relógio aí que somos do mesmo time." — Kuzuha diz.

Noelle checa seu Vizer. "Não, nenhuma informação sobre um agente Joker no meu time."

"Pô, tá de sacanagem..." — Kuzuha diz. Ele começa a caminhar embora. "Simbora... Deve ter algum lugar que faça você lembrar da minha carinha bonita…"

Os dois vão embora. Alguns minutos depois. Eles estão em uma barraquinha de crepe.

"Lembra disso ? Essa é aquela barraquinha de crepe que você tanto ama !" — Kuzuha diz.

"Hmm… Me lembro de vir aqui com a Excalibur, mas só lembro de nós duas." — Noelle diz.

"M-Mas eu tava aqui também !" — Kuzuha diz. "Eu tava sentado ali, você tava ali, e a empregada tava ali. Depois, aquele otário do burguês veio e começou a encher nosso saco."

"Como sabe sobre Alucard !?" — Noelle pergunta, surpresa.

"Porque eu literalmente tava lá !" — Kuzuha diz. Ele solta um suspiro de desistência. "Só vamos pra outro lugar..."

Algum tempo depois. Os dois estão em um shopping.

"Você tava sentada ali, o burguês ali, e eu e a empregada estávamos escondidos aqui, até que eu, uh, gentilmente e com elegância levantei." — Kuzuha diz. "Foi quando você me viu e implorou pra podemos passar mais tempo juntos."

A jovem cruza seus braços. "Jura ? Porque eu me lembro muito bem da Excalibur vindo falar comigo."

"Uh… Eu posso ter esquecido ALGUNS detalhes importantes." — Kuzuha diz, constrangido.

"É melhor começar a se lembrar, porque pouco a pouco, sua história está cada vez mais parecida com a de um stalker pervertido." — Noelle diz, desconfiada.

"E-Epa ! Calma lá ! E-Eu não sou esse tipo de gente !" — Kuzuha diz.

"Melhor me provar o contrário, então." — Noelle diz.

"A Tsu tá indo morar na minha casa ! Pra que eu ia ficar perseguindo você, se já moro com uma menina relativamente mais ou menos ?" — Kuzuha pergunta.

"Você tem um ponto." — Noelle diz.

"Hmm… Tá na cara que isso não tá funcionando. Você tem todas as memórias, mas, convenientemente, só eu fui apagado delas…" — Kuzuha diz, pensativo.

A jovem espirra bem forte e quase acaba caindo, mas Kuzuha a segura. "O-Obrigada..."

Os olhos dos dois se encontram. Ambos se envergonham.

O delinquente te uma ideia. "Já sei ! Essa cena clichézassa horrível e desnecessária me deu uma ótima ideia: Não são os lugares que vão fazer sua memória voltar, sou eu ! Essas memórias não são especiais porque estamos juntos. É porque nós estamos juntos que essas memórias são especiais ! Então a gente só precisa passar um tempinho juntos e você vai lembrar de mim rápidinho."

"Heh, pelo jeito eu sou especial pra você." — Noelle diz.

"Bom, eu não te odeio. Mas também não dá pra falar que somos 'AMIGOS' amigos, sabe ? A gente meio que se conhece só há umas semanas." — Kuzuha diz. "Mas eu considero você e a empregada como duas pessoas divertidas de se passar um tempo. Além disso, vocês são uma boa distração dessa coisa no meu olho."

"Coisa no seu olho ?" — Noelle pergunta.

"Basicamente, eu tenho um demônio dentro do meu olho desde nascença que tenta dominar meu corpo toda hora pra destruir o mundo, ou sei lá." — Kuzuha diz.

"Mas, enquanto seu olho ficar fechado, ele não sai, certo ?" — Noelle pergunta.

Kuzuha concorda. "Mas isso não significa que eu não escuto ele falando na minha cabeça toda hora. E ele consegue fazer umas ilusões bem reais das coisas. Tipo, umas paradas são tão iguais a realidade que da até pra sentir a dor, de vez em quando. Eu já vi todo mundo que eu conheço morrer e ser torturado umas cem vezes ou mais, incluindo você, a empregada, e até a Tsu."

"Isso é horrível… Eu não conseguiria me imaginar vivendo com toda essa tortura psicológica." — Noelle diz, triste. "Você deve sofrer tanto…"

"Nah. Se um coveiro se acostuma a ver defunto toda hora, eu também consigo." — Kuzuha diz. "Vocês meio que ajudam com isso. Antes de conhecer você e a Excalibur, eu não tinha muita gente pra passar o tempo. Não tinha ninguém, na real. Não podia ficar visitando a Yasumi toda hora por causa da condição e dos tratamentos dela. Rinko tem a vida própria dela, não vou ficar me intrometendo. E não trabalho mais pro senhor Namba, ia ser esquisito se eu ficasse me enfiando na vida dele. Eu sou homem o suficiente pra admitir que passar tempo com vocês é uma das partes favoritas do meu dia."

A jovem está chorando.

"P-Pô, loirinha ! Também não precisa chorar !" — Kuzuha diz, sem saber o que fazer.

Noelle enxuga suas lágrimas. "D-Desculpa. Heh, isso foi esquisito. Eu… não sei porque eu estava chorando. As lágrimas só vieram."

"Tão tá, né…" — Kuzuha diz. "Bom, bora fazer alguma coisa pra sua memória voltar."

"Vamos." — Noelle diz, sorrindo.

Horas depois. O sol está começando a se pôr. Os dois estão sentados em um banco.

"Hah… Hah… Não sabia que você jogava vôlei..." — Noelle diz, ofegante.

"E eu… Hah... não sabia que você era tão atlética assim…" — Kuzuha diz, também ofegante.

Eles tomam um tempo para se recuperarem.

"Hah… Hoje foi muito divertido. Jogamos alguns jogos, fizemos alguns exercícios, caçamos Bestas, e eu adorei aquela hambúrgueria que você me levou." — Noelle diz.

"Eu não disse ? Falando nisso, como é que você consegue comer tão rápido ?" — Kuzuha pergunta.

"Charme feminino~♥" — Noelle diz, piscando para seu amigo.

"Comer dois hambúrgueres do tamanho da minha cabeça é 'charme feminino' ?" — Kuzuha pergunta.

A jovem pisca para ele novamente.

"Eu tenho medo de cozinhar pra você..." — Kuzuha diz.

"Bom, hoje realmente foi um dia incrível. Adoraria passar mais tempo com você, no meu próximo dia livre." — Noelle diz.

"Já vai ? O dia nem acabou ainda." — Kuzuha diz.

"Eu tenho que resolver algumas coisas." — Noelle diz.

O delinquente solta um suspiro, decepcionado. "Te vejo amanhã ?"

"Se somos parceiros de trabalho, sim." — Noelle diz. Ela vai embora, acenando para Kuzuha.

Kuzuha acena de volta. Ele para, se relaxa mais no banco e olha para o laranja céu de pôr do sol. "Hah… Tá vendo, otário. Não adianta o que você fizer, nunca vai pegar meu corpo."

"Sua prisão de carne pútrida deplorável ! Isso NÃO É uma de minhas ilusões !" — Draugr diz. "Eu jamais traria felicidade para esse lugar miserável ! Muito menos para um ser inferior desprezível !"

"'Prisão pútrida deplorável' que é forte o suficiente pra aguentar você." — Kuzuha diz, com um sorriso presunçoso em seu rosto.

"Se é tão forte assim, então onde se encontra aquela fêmea patética ? Morta. Por causa de sua inutilidade." — Draugr diz.

O sorriso no rosto do delinquente lentamente desaparece. Ele se levanta, quieto, e vai embora. Algum tempo depois.

Kuzuha ainda está caminhando. Ele solta um suspiro. "Será que o cabeça de lâmpada tem alguma solução pra memória da loirinha ?"

Uma mensagem chega no celular dele. Kuzuha o pega. É de Noelle. Está escrito "socorro ! Alucard voltou !".

"Porra ! Esse cara é um zumbi ?!" — Kuzuha pensa, bravo. "Ela mandou as coordenadas. Esse otário vai se ver comigo !" — Ele começa a correr.

Minutos depois.

O delinquente chega no topo de um prédio. "Morre logo de uma vez, burguês safado !"

Para a surpresa de Kuzuha, no local estão Noelle, Excalibur, Mitsuro, Yasumi e a diretora, todas na frente de uma mesa com decorações festivas, doces e um bolo.

"Uh… Tem certeza que você não tá mexendo com a minha cabeça, Draugr ?" — Kuzuha pergunta, confuso.

"Qual é ! Você não é tão idiota assim de acreditar que a loira esqueceu de você, né ?" — Excalibur pergunta.

Noelle dá uma leve risada. "Quem diria que as aulas de atuação que a Harmony me deu iriam servir para alguma coisa."

"Rapaziada, eu tô perdido…" — Kuzuha diz.

"Meu irmãozão é um cabeça dura mesmo. Feliz aniversário, idiota !" — Yasumi diz.

"F-Feliz aniversário, Kuzuha !" — Mitsuro diz, batendo palmas.

"Mas, uh… Hoje não é meu aniversário..." — Kuzuha diz. "É daqui uns três dias."

"Bom, sobre isso…" — Noelle diz, desviando seu olhar.

"A gente vai voltar pra casa por uma semana, uma semana e meia." — Excalibur diz. "A loira precisa fazer um checkup, e eu só tô indo de companhia mesmo. Então não vamos estar aqui pra te dar uns cascudos de aniversário."

"Por que não me avisaram antes ?" — Kuzuha pergunta.

"Você presta atenção em alguma coisa que falamos ?" — Noelle pergunta.

O delinquente tenta dizer algo, mas não consegue achar palavras. "Me pegou." — Ele se vira para a diretora. "O que VOCÊ tá fazendo aqui, Rinko ?"

"Elas me pediram ajuda para saber as coisas que você gosta." — Rinko diz. "Além disso, faz literalmente uma década desde a última vez que você teve uma festa de aniversário. Não podia deixar de participar dessa."

Kuzuha solta um suspiro. "Tch. Vocês me enganaram legal. Então toda essa parada de esquecer de mim, querer se divertir, e até me tirar de casa foi só um plano pra me fazer uma festa surpresa."

"Nem tudo. Eu… genuinamente queria passar um tempo a sós com você." — Noelle diz, um pouco envergonhada. "É o mínimo que posso fazer, depois de tudo que fez pela gente."

"N-Na verdade, eu fiquei sabendo d-de última hora. Perdão. N-Não tive tempo de a-arranjar um presente." — Mitsuro diz.

Yasumi levanta sua mão. "Eu sou pobre demais pra comprar um presente."

"Nem olha pra mim." — Excalibur diz.

"Que isso, gente. Não precisava trazer nada. Não precisava nem ter feito isso. Só de saber que vocês se importam já é o suficiente." — Kuzuha diz. "Chega dessa melação toda ! Bora comer !"

Todos começam a comer. Algum tempo depois. Kuzuha e Rinko estão com fogos de artifício em mãos.

A jovem se aproxima deles. "Eu nem vi a senhora trazendo isso. Se soubesse, tinha trago alguns também."

"Esses são especiais." — Kuzuha diz.

Noelle inclina sua cabeça, confusa. "Como assim ?"

"Eram os favoritos da Satsuki-" — Rinko diz, sendo abruptamente interrompida por Kuzuha.

"Eles são especiais por nenhum motivo. Só porque eu gosto deles." — Kuzuha diz, sério.

Os dois acendem. Os fogos de artifício sobem ao céu e explodem em diversas cores e formas coloridas.

"Eu entendo o porquê de você gostar deles, são tão lindos…" — Noelle diz, encarando o show de cores maravilhada.

"Né ?" — Kuzuha diz.

De repente, a jovem põe a mão em sua cabeça, como se sentisse uma dor agonizante, e se ajoelha. Ela põe sua outra mão no peito.

"T-Tudo legal, loirinha !?" — Kuzuha pergunta, surpreso e preocupado.

A empregada ajuda Noelle a se levantar. "Isso é uma parada mais ou menos normal de se acontecer, de mês em mês. É por isso que a gente tá indo pra casa. Envolve uma certa coisa que a gente só pode falar no privado."

"Estou bem. Obrigada." — Noelle diz.

"Huh, dor de cabeça é nova. Sempre foi só dor no peito." — Excalibur diz.

Noelle sorri. "Juro que estou bem. Não precisam se preocupar comigo."

"Se você diz…" — Kuzuha diz. "Só não se esforça, beleza ?"

"Certo." — Noelle diz.

Todos voltam a comemorar, felizes.