Notas iniciais
Chegamos ao final de Devastação. Espero que gostem, e por favor leiam as notas finais! =)

EMMA

Me debater e fugir parecia ser minha única escapatória. Fui tomada de tal pânico que mal podia me concentrar em qualquer coisa.

Isso era mais que um simples medo, os braços no meu tronco e a mão na minha boca impediam que eu fizesse mais do que me contorcer.

Eu estava surda para a voz em meus ouvidos e lágrimas grossas escorriam pelo meu rosto, a pessoa que me capturou teve que me prender ainda mais na árvore onde eu estava escondia, seu corpo grande me apertava quase ao ponto do sufocamento.

Era incrivelmente mórbido o quanto eu estava atenta para a voz de Julian ainda a me chamar, e tão surda e incapaz nos braços do meu algoz.

— Calma amor, calma, eu peguei você. — A voz grossa e baixa em um sussurro parece algo tirado dos meus sonhos.

Em um piscar de olhos sinto uma onda passar através do meu corpo, descendo por minha espinha e correndo por meus membros. Fico flácida e mole nos braços do meu Alfa, inspiro profundamente seu cheiro forte e certo.

Tento me agarrar ao corpo quente que me abraça, mas seu aperto em meu tronco me impede de me mover. Minha mão machucada também não me ajuda em nada, meus dedos estão tão grossos pelo inchaço que a única sensação que tenho é uma dor constante e profunda.

Essa sem dúvida é a parte do meu corpo que mais está machucada. Ou a que mais me incomoda.

— Eu te encontrei, você está segura agora. — Kane continua a sussurrar em meus cabelos. Existe uma força em sua voz, um desespero em cada palavra e ao mesmo tempo seu cheiro queima em meu nariz em uma miríade de sentimentos e sensações tão extremas que me deixam tonta.

Alívio, raiva, medo, saudade, proteção, calor e violência, são exemplos do que consigo captar com somente uma inspiração profunda, é tão bagunçado que me dá dor de cabeça, porém a certeza de que fui encontrada cresce em meu peito e explode em meus sentidos.

Sinto Kane enterrar seu rosto na base do meu pescoço, bem entre meus cabelos sujos, seu inspirar é profundo e de certa forma amoroso.

Agora seu abraço não me assusta mais.

Alfa! Meu bom alfa vai me proteger agora. Meus instintos ronronam dentro de minha cabeça, é uma sensação boa, mesmo que tudo ao nosso redor esteja tão fodido.

Tudo parece durar uma eternidade, mas na verdade não se passaram segundos. Existe um silêncio que nos envolve, como se os pássaros e as árvores decidissem silenciar seus pequenos barulhos e todo o ruido importante no mundo fosse a respiração de meu Alfa e nossos corações palpitantes.

É claro que isso não durou nada, não quando a voz insistente de Julian continuava a me chamar. O que me fez arrepiar de medo e Kane rosnar com seu rosto ainda enterrado em meus cabelos.

— Escute bem Emma, preciso que você corra o mais rápido possível para longe daqui, siga em frente e não olhe para trás. — Kane disse em meu ouvido, dessa vez seus feromônios cresciam em violência e raiva.

Com toda a suavidade que conseguiu, Kane afroxou o seu aperto em volta do meu corpo e suavemente me virou para encará-lo. Seus olhos castanhos foram as primeiras coisas que foquei em seu rosto.

Nunca o vi tão feroz quanto nesse momento. Era assustador de ver.

Seus olhos eram rápidos ao passar pelo meu rosto e corpo, mas não tivemos tempo nenhum para qualquer coisa, não quando ouvimos os passos do meu algoz tão perto de onde estávamos agachados.

Minha mente lutou para obedecer o pedido de Kane, enquanto meu coração lutou para permanecer ao seu lado.

No final não tive tempo de decidir nada, pois Kane me empurrou para a ação e tive que me levantar e correr por entre as árvores. Não me lembro de me levantar e nem de começar a andar, apenas notei que estava correndo quando ouvi o grito raivoso de Julian e o rosnado insano de Kane.

Sons altos quebraram o silêncio do meu choque e tudo ao meu redor voltou a se encher de vida. Mal dei alguns passos por entre as árvores quando me forcei a parar e olhar para trás.

A luta entre os dois alfas era algo insano de se ver, essa não era uma briga qualquer, eram dois Alfas disputando o direito a um ômega, uma luta até a morte.

Julian e Kane se socavam e rolavam pelo chão, ambos pareciam animais selvagens prontos para rasgar a garganta um do outro.

Senti medo pelo meu Alfa, meus membros tremiam enquanto eu voltava para a luta, não sei quem atacou quem primeiro, entretanto, por mais que Kane fosse bom, Julian não ficava atrás, seus socos eram tão fortes que produziam um barulho potente enquanto ambos rosnavam um para o outro.

Em minha visão todo o mundo estava gritando em violência.

Meus instintos estavam mais acordados do que nunca e logo me vi correndo de volta para ambos, meu olhar atento não apenas neles, mas ao chão ao meu redor, eu precisava de uma arma, algo para defender meu Alfa. Não demorei a achar o que estava procurando e com minha mão boa peguei a primeira pedra que encontrei.

— Ela é minha! Você a roubou de mim, eu a vi primeiro. — Julian amaldiçoava ao tentar se defender de um soco potente de Kane.

— Meu ômega! Vou te matar por encostar nela. — Kane disse, e ao contrário de Julian que esganiçava maldições, Kane falava as dele com um tom de voz tão frio que me arrepiava a pele.

Eu mal tinha capacidade para entender metade do que eles gritavam um para o outro. E a violência da luta continuou a crescer de modo alarmante.

Sem pensar em qualquer consequência corri para o meio da luta e com mais sorte do que eu podia imaginar, consegui acertar Julian com minha pedra, meu corpo se chocou com o dele, mas ignorei a dor e continuei a atacá-lo. Seu rosto sangrava profundamente do lugar onde eu o bati, porém não tive tempo algum para um segundo ataque, não quando ele se livrou de Kane e desferiu um potente soco em meu rosto.

— Sua cadela ômega! — Ele gritou ao me jogar no chão, o que me fez desequilibrar e cair por cima da minha mão machucada.

O grito que explodiu de meus lábios foi a suficiente para fazer os pássaros se lançar em disparada no céu, enchendo o dia com seus lamentos irritados. Não sei o que aconteceu em seguida, apenas que escutei um som alto como um disparo, um grito e o rosnado mais mortal que vi Kane produzir.

Eu ainda estava fraca demais para me virar e tentar lutar, acredito que vomitei enquanto uma nova dor aguda e profunda se alojava em todo o meu corpo, um zumbido persistente cresceu em meus ouvidos, me deixando quase surda para o mundo.

Tentei muito ficar de pé, mas somente tive força para rastejar pela lama e folhas úmidas. Eu continuava a escutar sons de corpos de chocando.

— Kane, não! — Ouvi alguém gritar não tão distante, enquanto barulhos crescentes de passos em disparada cresciam por entre a floresta. — Você vai matá-lo. Pare!

—Polícia, pare! Parem a luta agora! — Mais e mais gritos surgiam de diferentes pontos.

Eu estava impossibilitada de me virar e olhar para o que estava acontecendo, entrei em um estranho lugar onde meu corpo não me obedecia, existia muita dor e em todo lugar para que pudesse me concentrar em apenas um.

Um frio persistente começou a crescer em volta de meu corpo, eu podia me sentir tremer, mas não conseguia me mover. E a zoada cada vez crescia mais, parecia muitas vozes gritando e falando ao mesmo tempo, alguma luta continuava a acontecer enquanto eu estava caída e esquecida.

— Me soltem, porra me soltem. — Mais vozes entravam na balança já disputada. Essa parecia familiar, algo que me fazia meu coração esquentar. — Ômega, eu quero o meu ômega.

Alfa, alfa está aqui. Senti meus instintos tão fracos sussurrarem dentro de mim. Era reconfortante em meio a tanta dor sentir esse pequeno prazer.

— Emma, ômega. — Senti mãos quentes tocarem as minhas costas. Logo braços fortes envolveram o meu tronco e fui puxada para um abraço apertado. — Ele atirou nela, porra, ele atirou nela!

Mesmo com meus olhos abertos tudo ao meu redor estava envolto em uma névoa grossa e esbranquiçada. Eu não conseguia falar, mesmo que tentasse muito, minha boca estava cheia de algodão, me impedindo de balbuciar qualquer coisa.

Senti que fui suspensa, quase como se alguém tivesse me pegado no colo e logo estava chacoalhando muito rapidamente, o que fez minha dor dobrar em questão de segundos.

— Temos que tirá-la daqui...

— Precisamos de um médico...

— Ela ainda está viva?...

— Kane, alguém precisa examiná-la...

— Não me deixe, Emma. Não vou viver sem você...

Eram muitas vozes ao mesmo tempo, muita conversa e gritos. Eu quase podia distinguir a voz de Dylan, Kane rosnava e chorava, algo me embalava enquanto eu continuava a chacoalhar em rápida sucessão, senti mãos em meu corpo, ouvi tecido sendo rasgado e logo mais dor, um grito estridente quase me fez ficar lúcida, mas logo entendi que era eu que estava gritando, braços me prendiam e apertavam.

Me senti em um liquidificador, onde eu estava sendo triturada e lançada de um lado para o outro. Alguma coisa espetava o meu braço, e minha barriga doía sem parar.

Alguém mais estava gritando, nova luta surgiu em algum lugar e eram tantas vozes.

Minha paz surgiu quando a escuridão veio me engolir e a abracei com um último pensamento em Kane.

***

KANE

Não posso dizer que já senti tanto medo em minha vida.

Desde o momento em que comecei a notar que Emma estava muito estranha, seus bonitos olhos azuis que sempre foram tão fortes e ágeis em me enfrentar, agora fugiam dos meus de modo tão fugaz.

Eu sentia que ela estava me escondendo algo, minha pele arrepiava com a certeza de nosso vinculo tão recente, me dizendo que algo não estava certo, seu cheiro estava estranho, mais agridoce e cheio de confusão.

Acreditei que tinha algo a ver com a vinda da irmã de Emma. Mas era algo muito mais sombrio.

Também notei que Dylan estava estranho, seu olhar estava mais afiado, quase como se ele estivesse procurando alguém. Suas piadas inexistentes e sua seriedade nunca foram bons sinais.

Então, quando comecei a receber as ligações de Valerie perguntando onde estava sua irmã, que ela tinha esperado por Emma e não conseguia falar com ela, meu peito foi se enchendo de uma angústia que não conseguia controlar.

Algo estava errado e eu sabia. O celular de Emma fazia as ligações, mas nunca era atendido, depois apenas saiu de área e a operadora não conseguia sinal para finalizar a chamada.

Logo fui atrás de Dylan, primeiro em nosso apartamento, onde ela não estava, depois o encontrei na fraternidade Alfa do campus, ele discutia friamente com vários outros Alfas, seu celular em mãos enquanto bravejava sem parar, o cheiro azedo de sua raiva manchava todos os outros odores no ar.

— Onde está Emma? — Questionei seriamente. Algo me disse que ele estava envolvido em toda essa bagunça.

As suas próximas palavras quase tiraram o inferno de dentro de mim. Soube que me descontrolei quando vi meu irmão no chão, seu rosto torcido em dor e raiva, seu olho esquerdo já inchando do meu soco.

Ele me escondeu muitas coisas, Emma me escondeu muitas coisas e agora estava desaparecida.

Porra, inferno, filho da puta. Xinguei e esbravejei até me sentir ficar rouco.

Julian Stuart, aquele merdinha de um Alfa tem perseguido o meu ômega. Não só perseguindo como a agrediu.

— Emma não quis te dizer, estava preocupada que você perdesse o controle. Ela me disse que ia denunciá-lo. E eu estava de olho no filho da puta. — A explicação de Dylan era tão rasa e fraca que quase me fez avançar nele mais uma vez.

Que porra de bagunça do caralho. Onde está meu ômega? E Valerie, a irmã de Emma surtaria quando descobrisse que a irmã estava desaparecida.

Porra!Porra! Continuei a xingar.

— E tem mais uma coisa...- Dylan me mostrou seu celular, na tele brilhava uma única palavra, recebida quase meia hora atrás, de Emma.

A palavra socorro nunca foi tão marcante para mim, ou aterrorizante.

Depois vinha uma série de mensagens de Dylan, todas perguntando onde ela estava, nenhuma com resposta.

Acredito que perdi meu controle naquele momento. Senti braços me segurando enquanto eu tentava avançar em meu irmão e quebrar aquele rosto tão parecido ao meu.

As próximas horas foram uma bagunça gigantesca.

Os alfas da fraternidade, incluindo o líder Josh Tuner estavam todos correndo e tentando localizar Julian, Emma ou qualquer pessoa que os tenham visto. A polícia do campus foi acionada, e por se tratar de um desaparecimento ômega, logo a polícia da cidade também apareceu.

Dylan deve ter mandado alguém ir atrás da irmã de Emma, pois eu não estava em condições de mais nada. Meus nervos estavam a flor da pele, e minha energia estava concentrada em encontrar meu ômega. Sem Dylan por perto, peguei meu carro e dirigi até o aeroporto, procurei Emma em todos os lugares que conseguia pensar, fui bater na porta da única fraternidade ômega do campus, mas ninguém sabia onde ela estava.

Penny Spike e Christopher Monroe, lideres da fraternidade não sabiam nada sobre onde Emma estava e nem que ela tinha sido atacado por Julian.

Penny ainda relatou que tinha visto Julian nas redondezas, mas não acreditou que era nada grave afinal, muitos alfas passam de frente da fraternidade ômega.

Todos estavam preocupados e logo sem um pedido formal, muitas pessoas se uniram para fazer uma busca pelo campus e na cidade.

Quando voltei para a fraternidade de Josh, a casa estava mais cheia do que nunca.

Mas a primeira pessoa que notei foi a mulher loira e de cabelos cacheados que conversava com os policiais do campus, seu cheiro ômega era floral, com notas cítricas por causa do nervoso. Sua semelhança com Emma era grande, porém era óbvio que a mulher era mais velha.

Muitos alfas, principalmente os calouros mantinham seus olhos cobiçosos na mulher, mas ela se mantinha tão séria e fechada, sua energia quase violenta que os impedia de chegar perto.

Mal entrei na sala cheia quando seus olhos azuis, tão parecidos com os de Emma grudaram em mim, seu nariz se abriu ligeiramente e eu sabia que ela estava me cheirando. Provavelmente sentindo o cheiro de sua irmã em mim.

Caminhei direto para ela e os policiais.

— Você deve ser Valerie. — A cumprimentei com um aceno.

— E você deve ser Kane Hunter, o Alfa que acasalou minha irmã. — Suas palavras eram tão frias quanto as minhas. — Onde ela está Kane Hunter, você não deveria protegê-la?

Suas palavras rasgaram o meu peito. Meus instintos Alfa gritavam dentro de mim.

Encontre o ômega, encontre o ômega, rasgue Julian vivo. Tudo isso era a porra de uma bagunça, mas Valerie estava certa, eu acasalei Emma, era o meu dever protegê-la, e não consegui fazer isso.

— Eu vou encontrá-la, Valerie. Eu juro que farei isso, e a pessoa que a levou vai pagar com a vida. — Rosnei uma resposta.

— É melhor você cumprir essa promessa, Kane, ou não existira lugar no mundo onde você possa se esconder de mim. Eu vou destruir você se algo acontecer com minha irmã. — Valerie retrucou logo em seguida, seus olhos em chamas, enquanto ela rosnava para mim.

Minha Emma é forte, mas nunca vi um ômega mais feroz do que sua irmã mais velha.

As próximas horas foram passadas em um tormento sem igual, enquanto a noite descia sobre nossas cabeças e ninguém conseguia encontrar nenhuma outra informação sobre Julian ou o paradeiro de Emma, mais e mais a fraternidade Alfa se enchia.

Outras fraternidades Alfas queriam ajudar, muitos betas também se dispuseram a procurar. Penny e Christopher aparecem na fraternidade Alfa para ajudar nas buscas e logo se aproximaram de Valerie.

Os três ômegas estavam perdidos em um mar alfa, mas se mostravam cheios de força e não se deixaram intimidar.

Dylan se mantinha afastado de mim, pois sabia que não o queria por perto. Se ele tivesse me contato sobre Julian, nada disso aconteceria. O desaparecimento de Emma era tanto sua responsabilidade quanto minha.

E sim, a principal responsabilidade era minha, Valeria estava certa, eu sou o Alfa e Emma e é meu dever protegê-la e a manter em segurança. Fui contra a minha intuição e não ouvi meus instintos e agora ela pagou por isso.

A todo momento tive que me manter no controle. Meus instintos gritavam para sair e procurar. O silêncio em cada chamada por celular era uma ferida que sangrava em meu peito. Eu sabia que ela estava em perigo, podia sentir isso em meus ossos, e a incapacidade de fazer algo era mais do que assustadora.

A polícia não fazia nada a não ser coletar depoimentos e fazer algumas rondas dentro do campus.

Foi por volta da meia-noite que tivemos a primeira pista do que aconteceu. Duas calouras betas, estavam na entrada sul da universidade, sentadas nos degraus dos grandes portões quando viram minha Emma entrar em um carro prateado, elas disseram que Emma entrou voluntariamente, e que estava mexendo em seu celular quando aconteceu.

— Era um daqueles modelos da Ford Fusion, sabe? — Uma delas disse aos policiais e a quem quisesse ouvir, pois sua voz não era nada silenciosa. — Eu sei porque minha prima Jessica é casada com um Alfa, e ele deu um Ford Fusion prata para ela de presente de Natal.

Parei de ouvir quando ela começou a contar sobre os bancos de couro que a tal prima comprou e como elas foram para a praia naquele carro.

A garota é definitivamente excêntrica, mas sua informação estava cheia de verdade, o cheiro não mente.

Poucos minutos depois, enquanto a polícia do campus continuava a interrogar a garota, senti uma mão suave apertar meu braço.

Não pude evitar um rosnado de sair pelos meus lábios.

— Desculpe. — Ouvi Penny dizer ao me puxar para onde Dylan e Valerie conversavam com Josh Tuner.

— Olha, isso aqui não vai dar em nada. — Penny sussurrou para nós todos. — Até aquela garota parar de falar na prima e no Ford Fusion e a polícia decidir abrir um chamado para busca, Emma já pode estar em um perigo maior ainda. Talvez eu tenha um jeito de encontrá-la mais rápido, vai demorar algumas horas, mas vou conseguir uma localização mais precisa sobre onde ela pode estar.

— Por que você não disse antes? — Questionei ao voltar a rosnar para ela.

O que fez Josh rosnar para mim, seus olhos queimando nos meus.

— Não rosne para ela. — Suas palavras estavam cheias que raiva, enquanto o seu cheiro cresceu em possessividade.

— Abaixem a porcaria dos seus rabos Alfa, é a vida da minha irmã que está em jogo, então parem com essa merda e vamos ouvir o que ela tem a dizer. — Valerie retrucou para nós dois.

— Eu não disse antes porque isso que vou fazer é ilegal, posso me dar muito mal se for pega. Mas, Emma não merece o que aconteceu, então devo arriscar. — Penny continuou ao encarar cada um nos olhos.

Sua expressão era tão doce quanto a de Emma, mas seus intensos cabelos ruivos e seu óculos redondo davam a ela uma expressão ainda mais de menina.

— O que você precisa? — Dylan questionou.

— Um computador com acesso ao aplicativo da secretária do campus. Mas não pode ser o aplicativo simples, tem que ser o de monitória, igual ao que temos para controle de alunos de cada fraternidade. — Sua resposta não era nada do que esperava, ainda assim era mais do que eu tinha. — Eu sei que Emma tem o aplicativo em seu celular, eu já a vi mexendo para agendar uma aula, acontece que todos o que tem o aplicativo estão sujeitos as normas de restrição municipal e estadual de cada campus, logo, ele serve quase como um sistema de GPS. Se eu conseguir acessar o sistema da Emma, consigo descobrir mais ou menos onde foi seu último acesso do aplicativo dentro da cidade.

— Eu tenho esse sistema em meu computador. Mas, não sabia que se podia haquear o aplicativo para se tornar um GPS. — Josh se apressou em disser, seus olhos pretos focados em Penny, cheios de curiosidade e desejo.

— Me mostre o computador. — Penny respondeu para Josh e depois de virou para me encarar. — Pode demorar um pouco, mas vou te avisar assim que tiver uma resposta.

— Obrigado. — Respondi ao encará-la. Em seguida e sem dizer mais nada, Penny e Josh se afastaram indo em direção aos quartos.

Cheio de adrenalina e agressão, ainda sai mais duas vezes para procurar por Emma, revisitei alguns locais, andei pela cidade com meu carro e parei em alguns postos de gasolina, com a foto de Emma em meu celular, perguntei a todos que pude se alguém a tinha visto.

Minha reposta sempre foi negativa e a cada hora sem meu ômega fui ficando cada vez mais nervoso.

Por volta das duas da manhã. Recebi uma mensagem no celular, era do número de Dylan.

Penny conseguiu uma localização, não era uma posição precisa, mas melhor do que qualquer outra pista.

E essa era toda a notícia boa que consegui dela. O ruim era que a localização ficava a muitos quilômetros de distância do campus, em uma área de mata e reserva florestal.

Meu sangue gelou nas veias. Emma não teria nenhum motivo para estar em um local assim, tinha que ser Julian, ele a atraiu ou a sequestrou para esse lugar.

Sem nem perceber que estava fazendo, comecei a rezar para todas as entidades Alfas e ômegas do céu. Nunca fui religioso, mas o pânico extremo não me deixou com alternativa.

Dylan estava reunindo um grupo de busca dentro da fraternidade para encontrá-la, ele queria que eu o esperasse, todavia não pude aceitar, meu ômega estava em perigo, agora eu sabia mais ou menos onde encontrá-la e nada no mundo me pararia.

Com força pisei no acelerador e tomei o primeiro desvio na estrada para o lugar onde Emma estava.

Me levou quase uma hora para entrar na estrada de terra no início da reserva florestal, a escuridão total do lugar e a aspereza da estrada mal formada me fez diminuir drasticamente minha condução. Fui obrigado a manter meus faróis do carro no máximo, já que a as árvores grossas e abundantes dos dois lados da estrada me impediam de enxergar direito por onde passava.

Não sei por quanto tempo rodei na escuridão e quanto mais o tempo passava mais desesperado eu ficava, meu ômega, minha doce Emma de sorriso meigo e olhos brilhantes estava presa em algum lugar dentro dessa reserva.

Em meus mais loucos desejos, queria que ela tivesse conseguido fugir e tivesse encontrado alguma casa ou cabana para se abrigar e se esconder, o meu maior terror era que ela estivesse na floresta, morta e estrupada, suas curvas femininas violentadas por um monstro, uma escória Alfa que a usou e a deixou apodrecer dentro da reserva.

Com nada mais do que terror e urgência correndo em minhas veias, não conseguia segurar rosnados e um choro apreensivo de escorrer por meus olhos.

Ômega, meu ômega. Tenho que encontrá-la e protegê-la.

Entretanto, algo dentro de mim continuava a dizer que Emma estava em grande perigo, mas também estava viva. Minha gatinha feroz não vai cair sem lutar. Ela é forte e esperta.

Estava em minha segunda volta para estrada quando notei algo curioso e fora do normal em uma árvore. Parecia que algo tinha acontecido naquele trecho na estrada. Então parei o carro e resolvi investigar. Eu possuía uma lanterna no porta-malas e essa foi a minha maior sorte.

Ao sair do carro notei o grande frio que fazia, mas tive que confiar em minha jaqueta. Com cuidado me aproximei do pequeno penhasco e imediatamente fui dominado por esperança e desespero. Ao olhar o chão, mesmo com a pouca luz, notei as marcas inconfundíveis de que um carro saiu da estrada. E lá no fundo da gruta, entre troncos altos e floresta densa estava a forma de um carro.

Com meu coração a milhão dentro do peito, me lancei em uma descida desajeitada até o veículo, o medo de encontrar corpos mortos lá dentro quase me fez recuar, mas a curiosidade e desespero me empurraram para frente.

Pela traseira eu podia notar que o carro se tratava de um Ford Fusion prateado, as portas estavam abertas e não havia ninguém lá dentro.

Porém ao inspirar tive todas as comprovações que precisava. O cheiro doce do meu ômega estrava impregnado no carro e manchado com medo e dor, eu podia sentir o odor de seu sangue no estofamento e no banco dianteiro ao lado do motorista estava sua bolsa. Todas as suas coisas estavam lá, menos o seu celular.

Penny estava certa e agora eu tinha uma dívida com ela.

Ao lado do motorista estava o cheiro de alguém que eu não conhecia, masculino, um pouco amadeirado e manchado com raiva, medo e histeria. O fedor indicava um Beta, o que me confundiu muito.

Julian é um alfa, conheço seu fedor repugnante. Será que esse Beta estava agindo sozinho?

Tive que deixar a bolsa de Emma para trás, isso não me ajudaria em nada. Mas agora sei de algumas coisas, Emma estava viva quando o carro caiu nesse pequeno penhasco, por algum motivo ela deixou a bolsa para trás, provavelmente para fazer uma fuga rápida e pelas marcas que consigo notar nas folhas ao redor da porta traseira, ela saiu andando, cambaleando e se embrenhou na floresta.

As mesmas marcas estão na porta dianteira, mas ao contrário de Emma, os passos e galhos quebrados levam de volta para a estrada. Quem quer se seja deve ter fugido ou foi chamar reforços.

Com meus batimentos cardíacos disparados em meu peito e cheio de certeza de que minha Emma estava em algum lugar dessa reserva, abandonei qualquer receio de esperar por ajuda e decidi fazer minhas próprias buscas.

Ao lançar um último olhar para o carro batido, levo os meus pensamentos para o meu pai, essa será a primeira vez em toda a minha vida que tenho que agradecer ao bastardo sangrento. Todo o treinamento de caça que ele obrigou Dylan e eu a fazer ao longo dos anos e dentro de algumas florestas vão me ajudar agora.

Não estou armado, mas sou um excelente com meus punhos e não tenho medo do escuro. Sei que o melhor seria esperar o dia amanhecer, não vai levar muitas horas até o sol dar o ar de sua graça e iluminar tudo. Entretanto, minha ansiedade e meus instintos não vão permitir que eu fique parado sabendo que meu ômega está em perigo.

Logo, começo a rastrear seus passos, caçando suas marcas pelas folhagens e entre o chão. O seu cheiro é quase inexistente por entre as árvores, já que esse é um ambiente aberto e muito vento já passou por aqui, mas os preciosos locais onde ela teve que se apoiar deixaram marcas inconfundíveis de sua passagem.

No escuro tudo é mais difícil, principalmente quando chego a parte do córrego, aqui seu cheiro desaparece quase que completamente e me perco de seu rastro mais de uma vez.

A todo momento estou atendo ao meu redor, qualquer ruído, mesmo o menor barulho me faz querer investigar.

As coisas melhoram quando o dia amanhece, a claridade da luz apenas me desperta ainda mais para as necessidades do meu corpo, não estou em roupas de caminhada e meu tênis não foi feito para esse tipo de empreitada, mas as bolhas e calos apenas me despertam para a necessidade de encontrar com meu ômega, sei que estou perto, eu somente tenho que me esforçar mais, então empurro a exaustão para o fundo e continuo a andar.

Minha motivação aumento quanto consigo sentir os primeiros odores do fedor de Julian e do sequestrador de Emma, ambos estão juntos e procurando por ela. Pois seu cheiro doce não está com eles, o que indica que ela continua sozinha. Agora com a luz do dia, posso notar as marcas de pegadas masculinas, não sou o único caçando.

Tenho que controlar meus rosnados e até mesmo o peso dos meus passos, não quero que eles saibam que estou aqui. Vou pegar os desgraçados desprevenidos. Mas, primeiro tenho que encontrar Emma e tirá-la do fogo cruzado.

Mais uma hora se passa antes que eu encontre os primeiros sinais de Emma.

Não faço a mínima ideia de como me mantive controlado, não quando pude sentir o forte cheiro de seu medo, e ouvir o som de passos delicados e cambaleantes entre as árvores.

E é claro que fui ao seu encontro, tomando todas as precauções, afinal eu sabia que Julian estava logo atrás. Por isso, não demorei a me lançar sobre meu ômega e o primeiro toque em sua pele, o primeiro cheiro de seus feromônios quase em fizeram morrem um pouco por dentro.

Ômega. Meus instintos cantaram em minha cabeça, fazendo uma onda de alegria escorrer pelos meus membros e se espalhar em meu peito.

O que se passou a seguir foi um borrão de ação e violência. Mesmo quando mandei Emma se afastar, tudo foi tão intenso, eu vi vermelho e queria sangue, minha intenção era destruição, especialmente no instante em que me entreguei completamente aos instintos e a quem sou.

O bastardo estava a poucos metros de mim e correr até ele foi fácil, já se sua atenção foi pega na fuga de Emma.

Quando o Alfa assumiu nada no mundo podia ficar no meu caminho. Julian era um bom lutador, mas não era páreo para mim em nenhum momento. Então, cai sobre ele com toda a minha força e raiva. Eu demorei a perceber que ele estava armado e que tentava a todo custo puxar a arma de sua jaqueta, mas consegui manter suas mãos nojentas longe do seu objetivo.

A cada soco que ele me acertava, eu desferia mais três em seu rosto arrogante.

Todos os meus instintos estavam alertas para a luta e meu oponente. E não percebi quando Emma se lançou sobre nós dois, ela acertou Julian com algo, pois seu rosto rasgou em sangue e dor. É claro que esse foi o meu maior erro, estar tão focado em Julian que não notei mais nada ao meu redor.

Eu tentei pará-lo, não fui rápido o suficiente e quando percebi Julian tinha se virado para Emma e a acertado com força no rosto, ela caiu no chão e gritou. Quando fui me jogar para segurá-la, vi Julian pegar a arma na jaqueta e apontar para onde Emma estava caída.

O barulho do tiro foi algo que gelou a minha alma para sempre. No instante em que agi tinha sido tarde de mais.

A partir desse ponto todo o meu ser foi desligado e uma nuvem preta cobriu minha razão, só me lembro de pessoas me puxando para longe do corpo desaminado de Julian, seu rosto estava tão deformado que tive certeza que o matei.

Muitas pessoas estavam gritando, mas meu olhar foi parar no corpo pequeno e maltratado caído no chão entre nós.

Não sei de que forma consegui me soltar, mas logo estava correndo para ela e a pegando em meus braços.

Seu corpo se encaixa tão perfeito em meu colo, mas seu cheiro estava todo errado. Olhar para todo o sangue vazando de sua barriga foi o momento de maior medo em toda a minha vida.

— Ele atirou nela, porra, ele atirou nela...

Muitas pessoas estavam a minha volta agora, todos falando ao mesmo tempo enquanto meu ômega morria em meus braços.

Eu fui muito lento, demorei em socorrê-la, foi minha culpa, eu deveria ter prestado atenção nela. E agora tinha que vê-la morrer.

— Não me deixe, Emma. Não vou viver sem você...

Seus olhos pálidos olhando para nenhum lugar enquanto seus lábios esbranquiçados tentavam falar, são imagens que sei que me assombrariam por toda uma vida. E foi nesse momento que Dylan a arrancou de meus braços.

O puro terror de tê-la longe de mim me levou a mais um ato de pura selvageria alfa. Comecei a bater em qualquer um que entrasse em meu caminho para o meu ômega. Senti muitos braços me segurando e contendo enquanto eu gritava e chorava de dor, meu Alfa interior estava morrendo junto com minha companheira.

Em algum momento entre minha luta a ouvi gritar mais uma vez e não pude evitar mergulhar ainda mais profundamente na selvageria da minha designação e me entregar a dor profunda de existir em um mundo onde meu ômega não estava mais viva.

Não sei quantas pessoas foram necessárias para me conter, mas no final eu estava preso ao chão, minha boca tinha gosto de sangue e terra, meus ouvidos estavam cheios de zumbidos irritantes e vozes de pessoas que tentavam falar comigo.

— Me mate, me mate, eu quero ir com ela... — Chorei ao me entregar a dor. Eu não conseguia mais sentir o cheiro de Emma, apenas um resquício fraco permanecia no ar.

— Ela não está morta seu bastardo gigante e você vai dormir um pouco para relaxar. — Uma voz grosseira disse em algum lugar sobre a minha cabeça, mas não pude entender nada. Eu escutei o tiro e vi o sangue, a vida indo embora de seus olhos azuis.

Uma nova onda de agressão e terror atravessam meu peito, enquanto eu me esforçava para levantar e continuar a destruição de antes.

Fui impedido quando senti uma picada em meu braço. E em poucos minutos abracei a escuridão.

***

EMMA

Abrir meus olhos para a luz cegante não foi a melhor ideia que tive e descobrir que não conseguia respirar foi ainda pior.

Mas meu sofrimento não durou muito, lentamente fui rodeada de médicos e enfermeiras e logo meu tubo que oxigênio foi retirado. Todos me aconselhavam e inspirar e expirar muito lentamente e isso ajudou na dor, mas eu estava muito fraca e cansada para prestar tanto atenção as coisas ao meu redor.

Não levo muito tempo para voltar a cair no mundo da inconsciência.

A próxima vez que acordo é melhor que a primeira. A luz cegante continua a machucar meus olhos, mas já não me sinto sufocada por tubos em minha boca e nariz.

Continuo muito cansada para fazer mais do que olhar ao redor, definitivamente estou em um hospital, existem máquinas apitando e monitorando meu corpo que dói em muitos lugares e me mexer logo se torna algo que não quero fazer. Somente virar minha cabeça já me faz ficar tonta e enjoada.

Os cheiros são muito neutros e frios, não consigo identificar quase nada, apenas um odor que se sobrepõe a todos os outros, é quente e me chama, algo que acalma e relaxa, como estar em casa, meu companheiro, meu Alfa.

Meus olhos são puxados para onde Kane está meio deitado e sentado. Sua postura é péssima e sinto angústia quando noto seu rosto machucado, está tão inchado e em tantas partes que me sinto triste. O que aconteceu?

Por que ele está machucado?

Não sei quanto tempo passo analisando seus traços e me acalmando em seu perfume, mas logo o sono me chama mais uma vez e sou puxada de bom grado para um descanso suave.

A terceira vez que acordo, sinto mãos suaves e gentis passando sobre a minha face. Dessa vez abrir meus olhos e encontrar o rosto de Valerie tão pertinho do meu é mais do que posso suportar, as lágrimas escorrem pela minha pele e minha doce irmã as enxuga muito delicadamente.

Rapidamente ela se inclina e beija minhas bochechas e cabeça. Seu carinho é tão bom que até arrisco em falar, mesmo com a minha garganta tão seca e dolorida.

— Valerie, onde estamos? — Minha voz e tão baixa que quase imaginei que a questionei.

— Você está no hospital, não lembra do que aconteceu? Do sequestro e da floresta? — Suas palavras são ainda mais suaves que antes, e agora é ela que chora silenciosamente. — Eu quase perdi você, estrelinha.

Estrelinha. Eu me lembro, é algo que ela me chamava quando éramos meninas. Faz tantos anos que ela não me chama assim.

E o sequestro? Sim, eu me lembro disso, o medo, a dor e toda a luta.

— Kane, onde está Kane? — Mais uma vez me força a falar. As palavras arranham minha garganta e é quase insuportável a dor que sinto, igual a facas cortando profundamente.

— Seu alfa está bem. Eu o forcei a sair e ir comer alguma coisa. — A escuto atentamente. Valerie se senta em uma cadeira e puxa o máximo possível para perto da minha cabeça. Ela inclina seu corpo até estar bem pertinho de mim, o que é ótimo já que seu cheiro sempre me reconfortou.

Tenho que virar meu rosto para continuar a encará-la, dói, mas vale a pena olhar em seus olhos suaves.

— Ele fica ao seu lado dia e noite, sempre é uma briga com as enfermeiras porque ele nunca quer sair. Elas reclamam, mas sei que todas estão um pouquinho apaixonadas por ele, já que é tão difícil ver um homem tão completamente apaixonado e devotado. — Valerie vai me contando, seus olhos sorriem e mais lágrimas escorrem por sua bela face. — E sim, ele está bem, apanhou um pouco, mas nada que o tempo não cure.

— Isso é bom. — Digo ao me inclinar para ela. — Eu senti sua falta Valerie, sinto muito por não poder ir te pegar no aeroporto.

— Você nos deu um susto enorme, Emma. Eu estava lá quando eles te tiraram da floresta, nós quase te perdemos. Ainda bem que tínhamos uma ambulância esperando e sua irmã tem ótimas habilidades médicas. — Aos poucos Valerie leva sua mão aos meus cabelos e tão lentamente quanto um sono ela entrelaça seus dedos nos meus fios e vai me fazendo um carinho.

Esse é um momento cheio de dor e alegria. Quando eu estava caída no chão daquela floresta ou correndo tentando sobreviver, nunca acreditei que teria minha irmã aqui, ao meu lado e que eu sobreviveria para olhar para ela mais uma vez.

É com tristeza que posso notar seus olhos fundos de não dormir e as linhas de cansaço em sua expressão.

— E Julian? — Questiono cheia de medo, não quero imaginar que Kane o tenha matado.

— Aquele cara é um monstro Emma, a polícia conseguiu um mandado de busca e descobriu coisas horríveis, ele estava te perseguindo a mais de ano, tinha cadernetas onde anotava as suas aulas marcadas e todos os seus horários. E pastas cheias de fotos suas. — Suas palavras enchem meu peito de gelo, eu sabia que ele estava me perseguindo, passei o último ano fugindo de suas investidas, mas nunca imaginei algo tão cruel. — O desgraçado escreveu todo o plano do rapto e para onde te levaria. Parece que ele queria atravessar a fronteira para algum lugar sem extradição. Você escapou dele.

— Eu fugi e corri, Kane me salvou. — Respondo para ela. Lentamente volto a sentir sono.

— Sim, ele fez. — Valerie diz ao sorrir. — Eu não estava muito confiante nesse seu acasalamento, mas Emma, ele realmente ama você. Eu nunca pensei que um Alfa podia agir de modo tão suave e preocupado.

— Eu o amo. — Sussurro ao piscar meus olhos, o sono mais uma vez está levando a melhor sobre mim. — Por favor, não vá embora.

— Pode deixar, estrelinha. Vou ficar o tempo que você precisar, já acertei tudo com o trabalho. — Essa foi a última frase que escutei dela antes de mergulhar em mais um sono reparador.

Pela primeira vez meu sono é cheio de sonhos, não são violentos ou cruéis. Eu sonho com minha mãe e minha avó, ambas estão ao meu redor, Valerie também está lá, vestida em seu macacão jeans e uma blusa florida, seu rosto está cheio de marcas de tinta, uma dezena de pontos coloridos que enfeitam a sua expressão de moleca.

Eu sou tão pequena, que mal posso alcançar a mesa da cozinha, onde sei que os bolos e doces estão. Pela janela sinto o sol esquentar a minha pele e tudo é tão bom e reconfortante, enche meu peito de alegria estar nos braços da minha família, as pessoas que mais amo no mundo.

Na próxima vez que abro meus olhos estou mais desperta do que nunca. Uma discussão está acontecendo quase que ao meu lado.

Dois homens estão conversando. Suas costas largas estão rígidas e ambos mantém uma postura forte. Sei que é importante, mas os dois estão de costas para mim, então não posso ver suas expressões.

— Você errou Dylan, Emma tem sua parcela de erro, mas você a colocou nessa posição. — Ouço Kane dizer, suas palavras são fortes e arranhadas nas pontas. — Vocês mentiram para mim, e me esconderam coisas que quase custaram a vida de Emma.

— Eu sei Kane, eu mereço a culpa. — Acredito que nunca ouvi a voz de Dylan tão devastada como agora. E isso é um erro, ele é sempre feliz e animado, carregar tanto peso não é bom para ninguém.

Um silêncio muito forte se instala no lugar e estou prestes e falar quando noto que Dylan vai se afastar, mas é impedido por Kane.

— Espere. — Sua voz e potente e forte, um comando Alfa inegável. — Vocês dois erraram, eu também errei, eu sentia que tinha algo errado com aquele homem, mas não agi, também tenho a minha parcela nisso tudo. Entretanto, o principal é que você salvou a vida dela.

— Kane, eu não fiz isso, eu...

— Sim, você fez! — Kane retrucou rispidamente e sinto meus olhos queimarem enquanto lágrimas se formavam. — Eu me descontrolei, entrei em um estado alfa destrutivo e fiquei incapaz de agir com sabedoria. Então, você fez os primeiros socorros, pegou ela no colo e correu de volta para a estrada sem parar nenhuma vez e porque fez isso, Emma não morreu. Eu devo a vida do meu ômega a você.

— Você não me deve nada Kane. — Dylan disse e até pude ouvir um soluço escapar de seus lábios.

— Sim, eu devo. Você é meu irmão, a outra parte de mim e eu te amo. Obrigado por salvá-la. — Kane retruca já puxando Dylan para um abraço.

E esse é um momento tão bonito que eu gostaria de estar forte o bastante para me levantar e ir abraçar cada um deles. E é nesse instante que entendo que a família que tive uma vez, aquela que perdi com a morte de minha mãe e avó, restando apenas um laço com Valerie, e também toda a solidão que tive que suportar ao longo dos anos, sempre desejando algo que acreditei que não poderia ter jamais, que não era digna de possuir, agora estava aqui, na minha frente.

Os irmãos problemas. Os alfas que me tiravam do sério em cada encontro. Agora eram o meu sonho virando realidade.

Eu sou amada, eu tenho uma família. Kane, Dylan e Valerie são minha família.

— Vocês são tão fofos. — As palavras escapam de meus lábios antes que eu consiga controlar.

Kane e Dylan dão um pulo e se afastam rapidamente para me olhar assombrados.

— Baixinha! — Dylan exclama ao enxugar algumas lágrimas do rosto, imediatamente noto seu olho roxo. Ele estava se curando de alguma surra. — Você acordou.

— Olá, sujeito castrado. — Digo ao sorrir para ele. Imediatamente noto os olhares confusos quase idênticos nos rostos dos gêmeos.

— O quê? — Perguntou Dylan ao se aproximar de mim, sua mão indo para o meu braço desnudo.

— Eu te disse para não me chamar de baixinha, ou eu encontraria um apelido bem humilhante para você. — Respondo ao sorrir de modo carinhoso.

Dylan leva um tempo para lembrar, mas logo lança sua cabeça para trás em uma longa gargalhada, novas lágrimas escorrem por seu rosto. Ainda rindo ele se inclina na minha cama e beija a minha testa.

— Você é terrível, Emma. Deixe os apelidos comigo, por favor. — Ele me diz ao voltar a uma posição quase sentada em minha cama de hospital. Ficamos um rindo para o outro por alguns segundos. Os olhos de Dylan também tão incrivelmente castanhos me olham cheios de carinho. — É tão bom ver você acordada e bem.

— É bom estar acordada, vocês me salvaram. — Afirmo ao sorrir. — Obrigada.

Dylan sorri mais uma vez ao voltar a se inclinar e beijar mais uma vez minha testa.

— Eu vou deixar vocês dois sozinhos agora. Quem sabe vou procurar uma daquelas enfermeiras bonitas e cheirosas que vi mais cedo. Sabe, eu comecei a sentir uma dor terrível, estou certo que uma delas pode me ajudar a curar. — Seu discurso é quase teatral, o que me faz rir.

Esse sim é o Dylan que conheço.

— Mulherengo. — Digo ao vê-lo se afastar.

— Romântico, Emma, sou um romântico! — Ele retruca todo faceiro ao sair do meu quarto, fechando a porta atrás de si.

Quando volto a minha atenção para Kane, mal posso controlar as lágrimas que escapam de meus olhos.

— Kane, Alfa? — Chamo ao tentar controlar meus soluços. Mesmo com dor, estico meus braços e tento me levantar para chegar até ele.

Kane me encontra no meio do caminho, ele me mantém deitada enquanto seus braços fortes passam por mim e me apertam em seu peito. Nossas bocas se encontram e estamos nos beijando e chorando, tudo ao mesmo tempo.

Meu peito é tomado por tanta emoção que mal noto o quanto estou dolorida.

— Eu estava com tanto medo, tanto Alfa, tudo o que queria era estar com você mais uma vez. — Sussurro entre um beijo e outro, mal tenho vergonha dos meus muitos dias sem escovar os dentes. — E você me encontrou, Kane.

Ainda cheia de dor, uso toda a minha força para me afastar na cama e abrir espaço para meu Alfa.

— Não posso, amor, vou te machucar. — Ele diz para tentar me convencer, mas posso ver em seus olhos a necessidade de contato.

— Eu preciso de você, Alfa. Por favor. — Falo para ele, e não é nenhum exagero da minha parte, meu corpo treme com a vontade que estou de contato, da sua pele na minha, seu perfume ao meu redor, seus lábios nos meus. Nada é mais importante do que isso.

Para a minha alegria Kane decidi tentar e de modo mais delicado que consegue, ele se deita ao meu lado. Escuto o som dos seus sapatos caindo no chão e sei que ele os tirou.

Ainda levamos alguns minutos para verdadeiramente nos aconchegarmos um no outro em uma posição que não vai me machucar. Tenho tantos fios presos em meu corpo, que temos que fazer um malabarismo para não danificar nenhum.

Kane leva um tempo cheirando e beijando meu pescoço, me perfumando com seus feromônios, o que não reclamo nenhuma vez. Os médicos tiveram que enfaixar minha mão machucada, então não consigo entrelaçar nosso dedos, mas seus carinhos são capazes de me deixar em paz, é quase como se a dor diminuísse para um incomodo irritante.

— O quão ruim estou? — Pergunto após alguns minutos. Meus olhos nos seus são iguais a ímãs e não paramos de nos tocar em nenhum momento.

— Você teve uma costela quebrada, concussão, teve seus dedos deslocados, apanhou e levou um tiro no abdômen. — Kane rosna ao citar cada um dos meus machucados. — A costela foi remendada, a concussão está passando aos poucos, seus dedos foram colocados no lugar, mas você vai precisar de fisioterapia, e o tiro passou por sua barriga e não acertou nenhum órgão interno.

— E você está bem? — Questiono ao beijar seu queixo. Seu cheiro é amargo ao meu redor.

— Eu apenas apanhei bastante, Emma. Você levou o pior. — Suas palavras são sussurradas, ele permite que seus braços esteja em volta de mim, mas não coloca nenhum peso em meus tronco. — Nunca mais faça isso, Emma, nunca mais minta para mim, isso quase tirou você de mim, eu quase perdi você para sempre.

Posso notar tanta dor em seus olhos que acho difícil conter minhas emoções.

— Eu nunca pensei que ele seria capaz disso, Kane. Me desculpe, eu deveria ter contato que ele continuava me perseguindo. — Respondo ao encarar seus olhos. — A culpa foi minha.

— A culpa não foi sua, Emma. Julian é um bastardo monstruoso que te usaria para algo horrível. — Kane me diz ao colocar as suas mãos sobre o meu rosto. — Eu deveria ter te protegido melhor.

— Você também não tem culpa nisso, Kane. — Retruco fortemente. — Valerie me contou sobre os planos que ele tinha para mim, e isso começou muito antes de Dylan e você chegarem aqui na Universidade, se vocês não tivessem aparecido, ele conseguiria aquilo que planejou ou me mataria tentando. Vocês mudaram o meu destino.

— Você mudou o meu! — Kane afirmou ao me abraçar, seu rosto estava tão machucado que quase não queria ver o estado do meu.

— Não, Kane, eu...

— Não, ômega, escute! — A firmeza em sua voz imediatamente me faz prestar atenção em suas palavras. — Você lembra daquela noite, a noite que nos conhecemos?

Aceno positivamente com minha cabeça, mas me mantive calada.

— Dylan e eu estávamos apenas conhecendo o campus, não tínhamos a intenção de pedir transferência. Mas então sua bicicleta azul apareceu na frente do meu carro e quase te matei, eu senti tanto medo e fiquei com raiva do acidente. Mas isso foi até eu correr para você e sentir seu perfume, apenas te olhar fez uma devastação em tudo o que acreditei que queria da vida. — Kane vai me contanto a sua versão do nosso primeiro encontra e é tão diferente da minha que fico surpresa com suas palavras. — E naquele momento eu sabia, Emma. Não importa o quanto tempo viveria, eu sempre seria seu e você sempre seria minha.

— Eu acho que também sabia, fiquei tão assustada naquela noite, mas eu sentia dentro do meu peito algo me chamando para você. — Falo ao aproximar meus lábios do dele.

— Na manhã seguinte me matriculei no campus e mesmo lutando contra meus sentimentos, não conseguia me manter afastado de você. Mas, eu tentei, pois sei que não sou o melhor para você, Emma. Porém, você me faz querer ser melhor, me faz querer te merecer. Eu amo você. — Suas palavras são tão doces, acredito que nunca fomos tão sinceros um com o outro e esse momento é um alívio gigantesco em meu peito.

— Você é o melhor para mim, Kane. — Afirmo ao me aproximar ainda mais dele. — Você é meu Alfa, é doce, me faz sentir amada, cuida de mim, me protege e acredita em mim. Eu nunca pensei que encontraria alguém para me amar e respeitar, então você apareceu e mudou tudo, redefiniu meus desejos e esperança para o futuro. Eu também te amo e não me preocupo com o que o futuro me reserva, pois sei que estarei ao seu lado e isso é mais do que posso pedir.

Levamos um longo tempo nos beijando e acariciando delicadamente, sua proximidade me faz bem, relaxa o meu corpo e mesmo com dor sei que estou mais confortável em seus braços do que sem ele ao meu lado.

— Estou confiante de que seremos felizes daqui para a frente. — Digo assim que nos separamos.

— Eu sei que seremos, você está ao meu lado, Emma. Nada pode me trazer mais felicidade do que isso! — Kane sussurra ao sorrir.

O vejo deitar sua cabeça no travesseiro que compartilhamos e logo me aconchego também.

Adormecer com a promessa de amor e de dias melhores é o maior tesouro que tenho.

FIM

Notas finais
Obrigada, obrigada e obrigada! Cada comentário e cada pequeno gesto de apoio foram essenciais para a minha escrita. Vocês embarcaram nessa loucura, abraçaram o meu mundo ALFA/BETA/ÔMEGA, e nunca criticaram as minhas ideias malucas. Escrever sobre a Emma e o Kane foi uma aventura. E poder dividir isso com vocês é algo especial e cheio de luz. A primeira ideia dessa história surgiu quando eu ouvia a música Can't Look Away da banda Seafret. Eu imaginei essa cara, amargurado e danificado por motivos familiares, encontrando essa garota bonita e forte que também tinha sua bagagem emocional. Os dois eram fogo e gasolina, mas faziam bem um ao outro. Foi dai que nasceu Devastação. E adorei escrever, me emocionei, chorei, ri, tive momentos enormes de bloqueio. Lutei contra minha depressão e minhas crises de ansiedade. E tudo isso porque vocês acreditaram em mim e nesse projeto. E eu quero tanto ouvir vocês, saber suas opiniões. Não esqueçam de me deixar amor!! E já deixo avisado que tenho uma surpresa para o Epílogo. Um grande abraço, DiandraByDi