Devastação
11 Panqueca
Notas iniciais
Acordei com o sol em meu rosto, não era uma sensação desagradável, muito pelo contrário, o calor do sol esquentava a minha pele e me fazia sentir segura.
Ao meu lado Kane ainda estava dormindo, nós não estávamos tão próximos um do outro, ainda assim, nossos corpos eram próximos o suficiente, o braço do alfa ainda estava segurando a minha cintura, enquanto seu rosto descansava muito perto do meu.
A nossa situação me levou a despertar completamente. E sem conseguir ficar deitada, fiz o meu melhor para levantar. Tudo isso sem acordar Kane. Com muito cuidado consegui afastar o seu braço da minha cintura e vagarosamente me estendi pela cama, driblando os diversos cobertores do meu ninho bagunçado e pisando em chão frio.
Meus movimentos não acordam o Alfa adormecido, pelo visto não sou considerada uma ameaça para ele.
Na ponta dos pés me afastei da cama. Não me permito admirar o belo alfa no sono. Essa é uma tentação que dificilmente ignoraria, minha vontade seria voltar exatamente para onde estava adormecida, talvez me inclinar sobre Kane e acordá-lo com beijos em suas glândulas de feromônios.
Tenho que segurar um suspiro de vontade quando me imagino agindo conforme o meu cérebro Ômega demanda.
Por um milagre consigo abrir a porta e sair para o banheiro sem acordar Kane.
Ainda espero alguns segundos para ter certeza que ele está plenamente adormecido.
Em seguida, e ainda na ponta dos pés, vou até o banheiro, trancando a porta atrás de mim.
Depois de esvaziar minha bexiga, não posso conter o meu desejo de escovar os dentes.
Agora sei que Kane não se importa. Então, fica mais fácil agir.
Não fico surpresa ao notar o meu cabelo rebelde, todos os meus cachos estão eriçados, estou com o dobro de volume. Mas, não sei onde deixei o elástico de cabelo, muito menos tenho algo para fazer. O jeito é ignorar minha aparência desgrenhada.
Meu corpo está muito relaxado, ainda sinto com mais força um coçar em minhas glândulas de feromônios, nos pulsos e no pescoço, todavia sei que posso ignorar esse desconforto.
Quando tomo coragem, volto para o corredor. Toda a casa está iluminada pelos raios de sol. A porta do quarto de Dylan continua fechada, igual na noite anterior, não sei se ele voltou para casa, então me mantenho afastada desse quarto.
O que ele deve pensar de mim? Os pensamentos malignos começam a pulsar em minha mente. O que todos vão pensar de mim?
Um ataque desses será impossível de esconder, as pessoas vão me julgar pela minha tolice, vão me culpar pelo ataque. É sempre assim.
Confesso que não estou preparada para enfrentar essa realidade. Prefiro lidar com o que tenho agora.
Silenciosamente sigo para a pequena cozinha dos gêmeos. Um pensamento esperto começa a desabrochar em minha mente.
Talvez, se eu fizer um delicioso café da manhã, os gêmeos podem esquecer do papelão que fiz na noite anterior. Talvez, eles possam esquecer da minha idiotice.
Não é uma boa ideia, mas tenho que tentar, me manter ociosa não é algo que quero.
Com minhas mãos limpas e um objetivo em mente me lanço nos armários e na geladeira.
Kane e Dylan, estão com a dispensa cheia. Provável fizeram uma compra no mercado nos últimos dias. Entre seus mantimentos, existem muitos pacotes de comida industrializada. Alimentos de fácil preparo.
Depois de procurar por alguns minutos, encontro tudo o que preciso para fazer biscoitos e panquecas doces. A receita de ambos não é complicada e não demanda uma quantidade grande de ingredientes.
Começo o meu trabalho e logo estou envolvida em cozinhar, misturar os ingredientes e transformar as receitas que tenho gravadas em memória, em uma realidade.
Com uma boa margem de tempo consigo finalizar algumas coisas. Graças a minha sorte, não tive problemas com o barulho.
Os biscoitos estão quase prontos no forno, enquanto termino de fazer as últimas panquecas.
Minha irmã sempre me disse que tenho o talento culinário da nossa avó, já ela herdou a falta de jeito de minha mãe.
Tenho muito orgulho de ter conseguido absorver pelo menos esse ensinamento de minha avó. Eu ainda era uma criança quando ela morreu, mas consegui aprender muitas receitas com ela.
E tudo isso nos ajudou quando minha irmã e eu fomos morar na casa de meu pai.
Alguém tinha que saber cozinhar, ou morreríamos de fome.
Não levo muito tempo em tirar os biscoitos assados do forno, o cheiro quente de comida recém feita toma conta de todo o ambiente, é delicioso e me enche de orgulho.
Meu cérebro ômega insiste em agradar Kane, o alfa tem que estar satisfeito.
Estou beliscando pequenos pedaços de uma panqueca ainda quente, recém cozinhada, quando escuto passos vindos pelo corredor.
Meu coração volta a correr no momento em que percebo a entrada de Kane na cozinha.
Seu cabelo desgrenhado e rosto ainda inchado de sono me fazem suspirar. Ele é adorável quando acorda. Suas tatuagens ficam lindas com o sol nelas.
Me sinto uma tola por suspirar por algo tão simples. Porém, não consigo controlar o ronronar dos meus sentidos Ômega.
Os olhos castanhos de Kane estão presos em mim.
Com total confiança vejo-o caminhar para o meu lado.
Ainda estou com um pequeno pedaço fofo de panqueca em minha mão. Suspenso no ar, por um movimento que não cheguei a concretizar.
Kane para ao meu lado, seus olhos passando pelo meu rosto.
— Ômega, eu acordei e você não estava na cama. — Sua acusação me pega desprevenida, ainda mais por ele não usar o meu nome é sim a minha designação. Sua voz é total alfa, o que me faz acreditar que ele está sendo movido por seus instintos, ainda muito sonolento para pensar racionalmente.
Mantenho os meus olhos nos dele, quero que ele veja a verdade em meu rosto.
— Eu acordei mais cedo, Alfa. Fiz o café da manhã para agradá-lo. — Minha resposta vem inteiramente da minha designação. Algo que diz que tenho que conforta-lo.
— É meu dever prover para você, Emma. — O escuto retrucar ao passar um de seus braços pelos meus ombros, me puxando para o calor do seu peito. — Você não é obrigada a nada disso.
—Não fiz por obrigação, fiz porque quis. — Volto a responder. Levando o olhar para o seu rosto, já que Kane é bem mais alto que eu.
Estamos muito próximos, nossos corpos se tocando se modo sutil, suas mãos passeiam em meus ombros, clavícula e pescoço, quase roçando em minhas glândulas de acasalamento.
Sinto os cabelos dos meus braços arrepiarem com o seu toque. Meu corpo vibra em satisfação por ele estar tão perto.
Seu odor alfa é tão delicioso, que não me importo de ele o esfregar em mim.
Por dentro, sinto que meus sentimentos nadam em uma bagunça de emoções e sensações. Eu sei que não deveria gostar tanto assim de seu toque e do seu cheiro, muito menos do timbre da sua voz. Que a melhor coisa a se fazer seria me afastar e não permitir mais nenhum contato, pois algo cheio de medo dentro do meu peito diz que esse caminho não vai terminar em alegria. Alfas podem ser cruéis.
Ainda assim, suas mãos são um paraíso que não consigo negar. Meus instintos Ômega, estão ligados e satisfeitos.
— O seu cheiro me chama, ômega. É o melhor perfume que já senti. Faz meu corpo queimar de necessidade. — Suas palavras sussurradas quase como um segredo, estão cheias de sentimentos. Me pego, sem fôlego, pois seu cheiro alfa, também queima em mim. — Você é tão linda.
— Não. — Consigo negar depois de uma leve sacudida de cabeça. — Eu não sou.
— Sim. Você é. — Kane insiste ao pegar o meu pulso e levar até o seu rosto. Com seus olhos castanhos presos nos meus, o vejo lamber languidamente a minha glândula de feromônio. O que faz com que um calor estrondoso queime em meu baixo ventre.
A suavidade molhada da sua língua, o calor erótico do seu carinho. Algo que é incrivelmente pessoal, me faz ofegar enquanto sinto meu rosto esquentar de vergonha virginal.
Não estou acostumada a esses carinhos tão fortes, nunca me permiti nada além de beijos suaves quando estava no colegial, e isso aconteceu muito antes da minha apresentação.
O pior é a forma estrondosa que meu corpo responde ao dele. Eu não sabia que estava tão necessitada de contato romântico com outro ser humano. Então, com meu cérebro Ômega dominando as principais vontades do meu corpo, não sei dizer com precisão, o quanto disso é carência pela abstinência em que me forcei, e o quanto é apenas Kane. Um alfa forte e capaz, que possui o melhor odor em seus feromônios.
— Desde o momento em que coloquei os meus olhos em você, que senti seu cheiro, eu sabia que você iria significar o mundo para mim. — Sua voz arranha em meus ouvidos, é tão grossa e ao mesmo tempo suave, um veludo quente que demanda minha atenção, e sua confissão, tão cheia de certeza e ao mesmo tempo tão carente derrete algo em minhas barreiras.
Não noto que me movi, até o momento em que sinto a língua de Kane provando a minha. Mesmo em minha vergonha virginal, não pude deixar de puxar o alfa perfeito para os meus braços.
Um grunhido de satisfação emana de seu corpo forte, enquanto ele me pressiona na parede da cozinha. Estamos presos um nos braços do outro.
Eu posso sentir um leve sabor dos meus próprios feromônios em seus lábios, e nossos gostos misturados me fazem gemer de prazer.
Beijar Kane me lembra da força de uma avalanche, que é pura calmaria em sua potência adormecida, mas quando se rompe acaba por tomar tudo em seu caminho.
Por dentro me sinto assustada pela demanda gigante que ele me impõe, é um prazer crescente que me cerca de todos os lados. E sou incapaz de negar suas vontades, mesmo quando nunca permiti que nenhum homem tivesse esse grau de liberdade comigo, todavia, quando sinto as mãos de Kane buscarem a minha pele, por debaixo da camiseta que ele me emprestou, não tenho força para afastá-lo.
Sentir a palma de sua mão na pele da minha cintura me enche de prazer, sua mão forte que aperta a minha carne de maneira reverente, é tão deliciosamente pecaminoso que não posso me negar. Não quando o meu corpo canta por ele, sinto meus seios mais pesados, minhas pernas se tornam de gelatina.
Então, no momento que sinto o nosso beijo se tornando mais exigente, acabo por arquear minhas costas, me entregando ao novo prazer, me esfregando quase que de modo indecente no corpo do grande alfa. Permitindo que minhas mãos explorem a amplitude de suas costas largas.
Afasto os avisos gritantes de minha mente pragmática, e todas as mensagens de que estou indo longe demais. O ômega em mim grita para que eu afaste os cabelos do meu pescoço e mostre para o alfa as minhas glândulas de acasalamento.
Talvez mostrá-las depois de tirar as roupas irritantes do meu corpo, me expor e chorar para o alfa me saciar, para cuidar de mim, para me acasalar.
Meu último pensamento faz com que uma bandeira vermelha do tamanho do oceano Atlântico se estenda na minha frente, freiando todo o meu descontrole sexual, mesmo que meu corpo ainda queime e chore por Kane.
Não posso deixar de aproveitar essa brecha limpa em meus pensamentos nublados de necessidade ômega, para voltar aos pensamentos controlados, correndo de volta para ser apenas a Emma de sempre.
Mesmo assim, sofro ao afastar meus lábios dos de Kane, e lentamente o empurrar do meu corpo, abrindo uma pequena passagem de ar entre nos dois.
Meus mamilos estão eriçados de desejo, meu coração bate tão forte no peito que consigo ouvir o correr do meu sangue.
— Não posso fazer isso, Kane. — Sussurro ao tentar voltar ao meu fôlego normal. — Eu não te conheço, eu quero mas, eu não posso...não posso...
Minhas palavras somem no momento que uma enxurrada de pensamentos destrutivos afloram em meus pensamentos.
Que tipo de mulher sou que ao acabar de sair de um ataque sexual, cai nos braços de outro homem, praticamente implorando por sexo? Quantas horas se passaram desde o meu ataque na festa, doze, quinze? É isso que estou me transformando, isso é ser um Ômega? Forçando um alfa a me proteger? Me esfregando em um cara que nem conheço direito.
Não percebo que estou chorando até sentir as mãos de Kane no meu rosto, afastando a umidade crescente em minha pele.
— Você está segura, me desculpe, Emma. Não quero que você pense que estou me aproveitando de você, da sua fragilidade e nem do que aconteceu. — As palavras de Kane me deixam surpresa e assustada. É como se ele estivesse lendo os meus pensamentos. Porém, não posso deixar de afirmar que elas funcionam como um bálsamo para meus nervos, me fazendo lentamente sair dos meus pensamentos destrutivos e relaxar em seus braços. Por isso, no instante em que o sinto voltar o seu corpo a encostar no meu, não o afasto.
Nosso abraço é caloroso e calmo. Suas mãos não me tocam mais de modo sexual, apenas fazem um carinho preguiçoso em meus cabelos e na pele coberta dos meus ombros.
— Não quero assustar você, Emma. E juro, que nunca vou te tocar contra a sua vontade. Mas, você tem que saber que sou feroz em minha paixão, amo loucamente, não sei ser de outra forma, não consigo controlar isso em mim. — Sua nova confissão está cheia de certeza e calor. Mesmo sua voz sendo nada mais do que um sussurro em meus ouvidos.
— E prometo que vou manter isso para baixo, por você.
Apenas nos afastamos quando escutamos a fechadura na porta de entrada do apartamento. Sem demora, a porta de abre e um Dylan cheio de olheiras entra no apartamento.
Seu rosto cansado nos encara quase que divertidamente. Mesmo Kane e eu estando afastados alguns passos um do outro, tenho certeza que meu rosto entrega meus sentimentos, se não isso, então o forte odor de feromônios cheios de desejo sexual não realizado devem dar conta de explicar o que o irmão dele e eu estávamos fazendo.
— Baixinha, que prazer te encontrar por aqui. — A voz do gêmeo tranquilo me faz ter uma outra crise de vergonha, meu rosto imediatamente queima enquanto me afasto ainda mais de Kane.
Ao olhá-lo vejo que seus lábios estão mais inchados e vermelhos do que antes, definitivamente algo que apenas um beijo longo faria. Desvio a minha atenção no mesmo segundo e imploro internamente que Dylan não note nada de diferente em seu irmão.
— Bom dia. — Digo ao conseguir encontrar a minha voz.
— Corte o papo furado, Dylan. Você sabia que ela estava aqui. — A mudança súbita na postura e no tom de voz do gêmeo tatuado eram gritantes.
— Sim, eu sabia. Mas, gosto de deixá-la corada, tanto quanto gosto de deixar você irritado. — A risada solta em sua declaração apenas irritou mais ainda Kane. — Você fez o café da manhã, baixinha. Tenho certeza que fez, meu irmão aqui não pode cozinhar nada que já não foi pré-cozido e vendido muito bem embalado em algum supermercado.
Kane o responde com um grunhido irritado, enquanto volta a se aproximar de onde eu estou. Ao sentir sua mão no meu ombro, tenho que voltar a minha atenção para ele.
— Vá se trocar, gatinha. Quando você voltar, nós todos vamos tomar café da manhã. — Novamente suas palavras têm um tom de comando. Algo que não gosto nem um pouco.
Mas, acabo por obedecer. Então, com um último olhar, passo por ele é por Dylan e volto para o seu quarto.
Não demoro em fechar e trancar a porta atrás de mim.
O ambiente tão organizado é agora uma pequena bagunça por causa do meu ninho desfeito. O mais rápido que consigo me dispo das roupas de Kane e depois de vestida com minhas próprias roupas, começo uma rápida arrumação na bagunça na cama.
Levo alguns minutos para ter tudo organizado. Faço o meu serviço o mais rápido possível, não quero deixar nenhum vestígio da noite passada. Mesmo sabendo que meu cheiro ficará durante dias presos nesses tecidos. Não posso deixar de notar que um sentimento de satisfação cresce em meu peito com a perspectiva de Kane não conseguir se afastar do meu odor Ômega. E isso é doentio e possessivo de uma maneira que nunca fui antes.
Não sei o que está acontecendo comigo.
Minhas glândulas de feromônio voltam a coçar, tenho a impressão de que nas últimas horas o incômodo tem aumentado. Talvez seja o momento de marcar uma nova consulta com meu médico de designação. Eu posso estar com alguma alergia, ou descontrole hormonal.
Quando termino de dobrar o último edredom, saio do quarto e volto para a cozinha.
Kane e Dylan conversam intensamente mantendo um tom de voz baixo e param assim que percebem a minha aproximação.
Enquanto caminho até os gêmeos, começo a fazer uma trança embutida no meu cabelo. Tenho habilidade suficiente para não precisar de um espelho. Sei que meu trabalho não será perfeito, mas me sinto melhor sabendo que estou domando o pior dos meus cachos.
Os olhar de Kane voltam a queimar intensamente quando percebe a minha aproximação. E sem esperar um movimento de seu irmão, ele caminha em minha direção, colocando a sua mão em volta da minha cintura, sua atitude possessiva na frente de Dylan me deixa envergonhada, mas não me afasto.
— Venha tomar café da manhã. — O Escuto dizer próximo ao meu ouvido. — Por que prendeu o cabelo?
— Eles estão muito rebeldes, tenho muito volume nos cachos. — Respondo ao encará-lo.
Kane me direciona até uma cadeira de frente a pequena mesa de madeira na cozinha.
Quando estamos todos sentados, começamos a comer o que cozinhei para a café da manhã, ainda bem que fiz uma quantidade significativa de comida, ou não daria para três pessoas.
Kane se senta ao meu lado, puxando a sua cadeira para mais próximo de onde estou sentada. Sua aproximação é tão natural que estou certa de que ele nem percebeu seu movimento.
Os olhos espertos de Dylan nos observam, principalmente as atitudes de seu irmão, ele quase não consegue conter a surpresa em sua expressão quando vê Kane servir duas panquecas no meu prato.
Também estou surpresa, e não posso deixar de dizer que todo esse cuidado é agradável para mim.
Apenas minha avó, e minha irmã já cuidaram tão delicadamente de mim. Kane não é meu familiar, mal posso afirmar que ele é meu amigo, então suas pequenas gentilezas são tocantes e levam prazer ao meu cérebro Ômega.
A expressão séria do gêmeo tatuado nunca deixa o seu rosto, mas existe um calor em suas maneiras, algo que me atrevo a chamar de delicado ao me tratar. É desconcertante.
Conversamos amenidades, enquanto comemos, ambos elogiam a minha comida simples. O que me faz feliz.
Às vezes Kane me toca de maneira muito leve, sua mão vai até meus cabelos presos, seus dedos enrolando um dos meus cachos rebeldes, que insiste em não ficar preso na minha trança. Às vezes, seus dedos passam muito suavemente pela minha perna, ou seguram a minha mão acariciando minhas glândulas de feromônio nos pulsos.
Nunca o afasto, me sinto incapaz de fugir desses pequenas gestos de carinho, mesmo me sentindo mortificada por eles.
Não é nada explícito ou tramado. Chego a pensar que ele não consegue se afastar de mim. Seus instintos Alfa devem ainda estar muito ligados, para o manter em uma necessidade de me tocar.
Por um lado é maravilhoso, já disse que Kane tem um odor alfa perfeito para os meus instintos Ômega, então tê-lo tão atento é sublime. Por outro lado, é horrível, pois sei que ele está agindo pelos instintos, eu o obriguei a assumir um papel de protetor, agora ele não consegue se desligar da posição que o coloquei, então toda a sua atenção não é espontânea, ele ainda não conseguiu se afastar de seus instintos primais. Então, toda essa situação é apenas triste.
Já estávamos terminando de comer quando Dylan me estende as chaves do meu dormitório.
— Peguei ontem com a sua amiga. — Seu sorriso aberto é cheio de covinhas.
— Bry está bem? — Pergunto ao segurar minhas chaves. Minha preocupação por tê-la abandonado não me deixou em nenhum momento. Ela cresce e diminui conforme os acontecimentos do dia.
— Ela está preocupada com você, mas está bem. Sabe que você estava protegida e me disse que espera por sua ligação. — Sua resposta aperta o meu coração.
Não consigo esconder meu sorriso amarelo, não tenho humor algum nesse momento, meu peito vai se apertando com sentimentos negativos.
Sou interrompida quando escuto Kane rosnar para Dylan, sua expressão fechada demonstra toda a sua insatisfação.
— Não a chateie. — O rosnado de Kane para Dylan apenas me deixa ainda mais confusa.
— Tudo bem, eu pedi para saber. — Digo ao estender a minha mão até a de Kane, sua palma quente aperta a minha no mesmo instante. — Tudo isso é uma bagunça e eu apenas quero que acabe.
— Você está segura, baixinha. — Dylan diz ao me encarar.
— Obrigada, vocês dois. — Respondo ainda segurando a mão de Kane na minha.
Quando me despeço de Dylan, não posso deixar de dar um abraço nele. Seu odor alfa é acolhedor e quente, também tem um bom cheiro para mim. Todavia, não é tão perfeito quanto o de Kane.
Kane não permite que eu vá embora sozinha. A mera menção disso tirou um rosnado feroz dele, por isso, não insisto quando ele diz que vai me levar para o meu dormitório.
Até a metade do caminho ao seu carro, nós dois não nos tocamos. E pelo canto do olho, consigo perceber sua postura tensa ao me encarar. Quando estamos próximos das portas de entrada do complexo de apartamentos onde os irmãos vivem, me permito chegar mais próxima de seu corpo.
E no momento que ele percebe a minha aproximação, Kane passa o seu braço pela minha cintura, roçando as nossas laterais e me mantendo presa a ele.
Seu cheiro continua a queimar no meu olfato, é delicioso, logo, não me afasto. Não sei muito bem o que fazer com os meus braços, se devo abraçá-lo ou não. Sua postura tensa melhora significativamente, o que me deixa relaxada. Toda essa bagunça em que nos metemos é um maldito ciclo vicioso. E não sei o que fazer para sair disso.
Minhas dúvidas não são saciadas em nosso caminho até seu carro, acabo por não ter tempo de decidir o que fazer.
Durante todo o trajeto, vamos em silêncio, Kane deixa sua mão na minha perna. Meu short vermelho não é tão curto, mas ainda permite um longo pedaço de pele para ele tocar.
Quando estamos presos em algum sinal de trânsito, ele muito suavemente puxa minha mão para a sua boca, beijando a minha palma da mão ou roçando seus lábios na minha glândula de feromônio.
O ato de me perfumar deveria me irritar, e em qualquer outro dia, é exatamente isso que aconteceria. Todavia, não consigo me irritar com isso, não hoje e não vindo dele.
Mais rápido do que gostaria, chegamos ao meu complexo estudantil.
Antes que tenha tempo de pensar em qualquer coisa. Vejo Kane tirar sua jaqueta de couro preta e me fazer colocá-la.
Ele usou a desculpa de ainda estar muito frio no período da manhã, mas ainda acredito que ele tem intenções Alfas por trás disso.
Meu cérebro ômega, contente pela atenção do alfa, não permite que eu devolva a jaqueta. Então, me agarro ao tecido, tenho que evitar puxar a gola para o meu rosto e me enterrar no odor dos seus feromônios alfa impregnados na jaqueta.
— Obrigada por ter cuidado de mim, Kane. — Digo depois de colocar a jaqueta dele. Seu cheiro me rodeia e tenho que controlar um gemido satisfeito. — E pela carona.
Os olhos intensos do alfa ao meu lado não se afastam do meu rosto, ficamos nos encarando por pouco tempo e no instante que o vejo se aproximando, mal percebo que também estou me movendo para ele.
Mesmo no lugar apertado que estamos, ainda consigo manobrar meu corpo para ficar o mais próxima dele.
Nossos lábios se encontram quase que suavemente. Não posso negar nosso beijo, não quando sinto que vou morrer se não sentir o calor da sua língua na minha, o roçar dos seus lábios carnudos nos meus e o gosto de sua saliva.
As mãos de Kane são respeitosas no meu corpo, mas firmes ao me segurar. O seu peito vibra de satisfação o que me faz tremer de necessidade.
Eu sei que não deveria me entregar assim. Ficar tão próxima de um alfa só vai me trazer tristeza. Kane é um alfa mulherengo, e não quero me relacionar com ninguém. Não enquanto estou na Universidade. E certamente, não com Alfas.
Tentar me manter presa a razão, é quase impossível, principalmente quando tudo em mim, todos os instintos mais profundos da minha designação Ômega, me dizem o contrário, então mergulho na emoção e desejo, me entrego ao alfa em meus braços.
Quando Kane me tem assim, não sinto as minhas glândulas de feromônio coçar, e nem queimar em uma irritação constante.
Todo o meu corpo vibra por ele. Canta por ele.
Seus braços ao meu redor, seu cheiro Alfa se agarrando a minha pele, sua língua me provando, os pequenos grunhidos de satisfação que escapam de Kane.
— Temos que parar, gatinha. Ou vou transar com você dentro desse carro. — Suas palavras quando nos separamos ofegantes, fazem meu rosto queimar de vergonha. Principalmente quando noto que estou quase montada em seu corpo forte.
Entretanto, no momento que tento me afastar e voltar para uma posição mais casta. Kane me para, ao apertar seus braços em torno da minha cintura. — Promete que vamos nos ver mais tarde, ainda hoje, não vou conseguir esperar até amanhã.
— Eu prometo. — É tudo o que consigo dizer.
Quando nos separemos, ainda levo alguns instantes para sair de seu carro. Parece bobo, mas continuamos a nos encarar, seus olhos castanhos queimando nos meus, cheios de uma certeza que não posso explicar.
Sair do carro foi mais difícil do que eu imaginava. Minha cabeça girava intensamente com sentimentos conflitantes. Meus instintos Ômega gritavam que eu não devia me afastar do Alfa foge.
O Alfa forte protege, cuida, acaricia.
Pela primeira vez em minha vida, estava em guerra com a minha designação, nunca conheci um alfa que me levasse a esse estágio de conflito interno.
Mais uma vez minha razão venceu.
Eu sei que me manter afastada será doloroso para os meus instintos ômega mais básicos, todavia, tenho que me lembrar que não sou escrava da minha designação.
Kane e eu não estamos predestinados por nenhuma força do destino, tudo o que acontece conosco vem da biologia da nossa designação. Os sentimentos que tenho por ele são feromônios fortes, que me impulsionam a acasalar e reproduzir.
Biologia, simples biologia.
Hoje à noite, quando for me encontrar com ele, vou deixar isso claro. Nossa biologia é compatível, mas nós dois temos interesses diferentes na vida. Logo, é mais saudável ficarmos separados, pelo bem da razão.
Enquanto entro no quarto que divido com Lisa, começo a fazer uma lista de prioridades em minha vida e mesmo quando volto a sentir um incômodo em minhas glândulas no pescoço, me forço a ignora-las.
Com tudo o que aconteceu nas últimas vinte e quatro horas, tenho que ligar para a minha irmã e pedir ajuda, seus conselhos sempre foram úteis, ela é a pessoa que mais amo na vida e confio inteiramente em seu julgamento.
Meu celular continua com a Bry, por isso, decido tomar um banho e ir encontrar a minha amiga, depois de recolher o meu celular com ela, juntamente com os meus pertences que ficaram no apartamento dela, vou voltar para o dormitório, ligar para a minha irmã e descobrir o que faço com toda essa bagunça que criei.
Tenho que me forçar a agir com passos pequenos. O ataque que sofri não vai me fazer baixar a cabeça. Não sei muito bem que repercussões terá, porém, nada vai me fazer sentir vergonha de ser quem sou. Um ômega, e minha designação deve ser respeitada.
No fundo quero que tudo volte a ser como antes, e espero de verdade que meu modo de vida anônimo continue o mesmo.
Isso não é pedir muito. Ou é?
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