Devastação
16 Mordida
Notas iniciais
Pov Emma
Quando o meu corpo queima feroz de dentro para fora, não me sinto envergonhada de me despir na frente de Kane.
Meu ninho está pronto e foi constantemente aprovado por meu alfa, isso foi maravilhoso para acalmar o pior dos meus anseios.
A primeira vez que tive um calor, foi na minha apresentação, na época eu estava com dezessete anos e desde os meus quinze estava mostrando sinais da minha designação.
Passei por uma transição segura e esperada. Minhas glândulas já estavam desenvolvidas aos dezesseis, mas ainda não expelia meus feromônios, somente os hormônios adolescentes femininos comuns, mas nada Ômega.
Nessa época, eu morava sozinha com o meu pai, minha irmã estava no último ano da Universidade e já trabalhava em sua área. Ela e meu pai não conversavam à muito tempo, mas todos os dias ela me ligava para saber como eu estava.
Tirando meu pai, Valerie era tudo o que eu tinha de família.
Meu pai sempre foi um porco nojento. E ficou muito pior depois da morte de minha mãe, principalmente depois da morte de minha avó.
Valerie e eu vivíamos em constante estado de alerta e medo. Ele sempre foi um homem grande e sem respeito nenhum pelas mulheres de sua família.
Meu pai foi um Beta por toda a sua vida, e minha mãe um Ômega. A relação deles era inédita e fato de os dois conseguirem filhas que se apresentassem na designação ômega, também era estranho.
Ninguém conseguia entender por que eles estavam juntos. O que sei é que o amor que eles tinham não foi o suficiente para suprimir as dores e transtornos do Calor da minha mãe. Depois que cresci, descobri que um amigo deles chamado Henry Smith, que era um alfa, ajudava minha mãe nos seus períodos de calor.
Ao crescermos, Valerie sempre dizia que éramos mais parecidas fisicamente com o tio Henry do que com nosso papai. Entretanto, nenhum exame de DNA foi realizado e meu pai nós assumiu, minha irmã e eu.
Enquanto crescia, sempre encontrei curioso o fato de meus olhos serem da mesma tonalidade dos olhos do tio Henry, ou que seu cabelo, mesmo cortado curto no estilo masculino, possuía cachos loiros iguais aos meus e o da minha irmã. Que compartilhamos sardas em nossas peles, e que tínhamos gestos parecidos.
Eram tantas semelhanças que um exame de DNA não era necessário. Minha irmã compartilhava das mesmas semelhanças, mas para nós duas, ele sempre foi o tio Henry.
Hoje, posso assumir que odeio os dois, meu pai por ser o sujeito que é, e Henry Smith por deixar suas filhas, mesmo que ilegítimas, nas mãos de um monstro.
É claro que quando era menina, eu não desconfiava disso, meu pai sempre foi meu pai, e tio Henry era somente isso, o tio Henry. As semelhanças eram ignoradas em minha cabeça, e Valerie não discutia isso comigo.
O tio Henry aparecia em visitas anuais, passava alguns dias na minha casa e depois ia embora.
Quando minha mãe morreu, ele veio nos visitar uma última vez. Chorou em seu enterro, virou as costas sem prestar atenção em Valerie e eu, foi embora e não voltou.
Durante toda a minha infância e adolescência, busquei coisas que me aproximasse do meu pai. Mas nada nunca foi suficiente para ele, e após a morte de minha mãe, ele passou a tratar minha irmã e eu de forma bem distinta.
Nos batia e xingava, humilhava a nossa designação e dizia coisas horríveis sobre os Ômegas, em geral.
Eu secretamente rezava para me apresentar Beta, ou Alfa, qualquer coisa menos o Ômega. Ainda criança tinha uma imaginação forte das coisas que ele nos dizia.
Calor, nós, boceta e mordidas, tudo isso era aterrorizante para mim. Um verdadeiro pesadelo.
Ele nos dizia que nenhum alfa nunca nós amaria, que estaríamos presas em casamentos forçados, levando constantemente nós, e grávidas de uma ninhada após a outra. Que minha mãe teve sorte em encontrá-lo.
Nos seus momentos de maior raiva ou bebedeira, gritava que éramos abominações, que serviríamos apenas para foder e que ele não demoraria em arranjar alguém para cuidar do nosso Calor.
Nessa época, minha irmã estava começando a desabrochar sendo um Ômega, ela sempre foi mais forte do que eu, sempre enfrentou tudo de peito aberto, rosnando e xingando qualquer um que ousava cheira-la.
Principalmente os amigos do meu pai. A casa sempre estava cheia de seus amigos, Betas e Alfas que gostavam de olhar para nós duas, e eram companhias tão educadas quanto meu pai.
Durante os meses seguintes, as brigas definitivamente aumentaram, as vezes meu pai batia em Valerie, as vezes me batia.
Lembro-me que meses antes do primeiro calor de Valerie, ele estava particularmente sorridente. Em uma noite quando fui levar uma cerveja para ele, que estava sentado no sofá da sala assistindo a televisão, o bastardo segurou no meu pulso, quase ao ponto de dor, e ao me forçar a encará-lo disse que eu também era uma coisinha bonita, que se eu tivesse um pouco mais de idade ele teria me incluído no pacote.
Eu fiquei com tanto medo de fiz xixi nas calças. Não entendia nada do que ele estava falando, mas a sonoridade em sua voz me dizia que algo sombrio estava para acontecer.
Três meses depois, quando Valerie caiu desfalecida em seu primeiro calor, vários homens entraram em casa, rindo, com seus olhos cheios de expectativa, alguns rosnavam agressivamente. Meu pai me levou até o porão e me trancou lá, fiquei no escuro e chorei por muitas horas, dias se passaram, enquanto eu dormia em um pequeno ninho que fiz com as roupas da lavanderia. Estava tão aterrorizada. Mas incapaz de ouvir qualquer coisa que vinha dos andares superiores.
Uma vez por dia meu pai viria até mim, com pão seco e suco passado. Me dizia para ser uma boa menina e não dar trabalho, que ele é seus amigos estavam cuidando de Valerie, depois me dava as costas e eu voltava a ficar sozinha.
Aqueles foram os piores dias da minha vida. Tudo o que eu queria era minha irmã, alguém para me abraçar e me dizer para não ter medo.
E medo era tudo o que eu sentia.
Quatro dias depois, meu pai abriu a porta do porão uma última vez, me levou para o andar de cima e me disse para não incomodar minha irmã, ela estava cansada do calor e precisava dormir.
A casa estava uma bagunça, cheia de latas de cerveja e garrafas de bebidas, comida estragada em pacotes e um cheiro de podridão no ar.
Depois que ele saiu para o trabalho, fui imediatamente até minha irmã, ela estava dormindo em um ninho no chão de seu quarto, o lugar todo estava impregnado com um odor forte, não era desagradável, mas cheirava a tristeza e dor.
Os próximos dias foram impactantes. Valerie falava pouco e se mantinha muito tempo dentro do seu quarto. Os amigos do meu pai não o visitaram naquela semana.
Para a minha surpresa infantil, Valerie levou todos os lençóis, edredons e tecidos que usou no seu ninho, recolheu cada peça, levando tudo para o nosso quintal e com segurança colocou fogo nas peças. Depois passou dias limpando o seu quarto, cada pedaço dele.
Mas, todas as noites, ela vinha até o meu quarto e nós duas nos apertávamos em minha pequena cama, dormíamos agarradas uma a outra, e aos sussurros traçávamos planos para o nosso futuro.
Às vezes, no meio da noite eu acordava com ela chorando ao meu lado.
E foi quando consegui que ela me dissesse o que o nosso pai deixou que aqueles homens fizessem com ela. Em seu calor ela estava vulnerável e não tinha forças para dizer não, ainda sim ela lutou até o final para rejeitar seus estupradores.
A partir daquele noite nunca mais olhei para o meu pai do mesmo modo.
E todas as vezes que ele me olhava estranho ou sorria muito para mim, eu me gelava inteira por dentro.
Uma vez pedi que Valerie ligasse para o tio Henry, ele poderia nos ajudar. Mas ela foi enfática de que ele não queria nada conosco.
Meu pai e Valerie tinham longas brigas, pois ele não queria que ela tomasse os supressores. Ele batia mais nela nesses dias, foi por isso que fizemos um esconderijo para os seus supressores dentro da barriga de um dos meus ursos de pelúcia.
Sendo um Beta ele não podia sentir seus feromônios, logo não conseguia dizer se ela estava ou não em supressores. E quando os amigos do meu pai apareciam, Valerie e eu nos escondíamos até que todos fossem embora.
O plano que traçamos era muito simples, daqui a um ano, Valerie iria para a universidade, ela possui as notas suficientes para isso, e sua designação ajudava na bolsa de estudos. Ela conseguiria um emprego, arrumaria um lugar para nós duas e me buscaria.
O único problema em nosso plano era a minha idade.
Para que eu pudesse escapar das garras do meu pai, precisaria ser maior de idade, e no caso das designações Alfa e Ômega, a maioridade inicia quando o indivíduo alcança 17 anos, momento em acontece a apresentação da maioria das pessoas.
Apresentações tardias são quase inexistentes.
Durante os próximos meses ficamos mais próximas e mais cuidadosas.
Valeria trabalhava no cinema local e finalizava o seu último ano no ensino médio, enquanto eu cuidava da casa e estudava ainda no ensino fundamental. Em todas as oportunidades fora dos nossos compromissos estávamos juntas.
Meu pai passou a frequentar cada vez mais os bares da cidade, na maioria das noites voltava tão bêbado que caía no sofá da sala e dormia em seu próprio vômito.
Ele apenas ficou sabendo da ida de Valerie para a Universidade no dia em que ela estava indo embora. O bastardo ficou louco, gritava e xingava, esmurrava as paredes e a acusava.
Ele não queria que ela fosse, porque já tinha planos para o segundo Calor da minha irmã, ele já tinha recebido propostas e estava selecionando seus amigos para uma segunda rodada de estupro e terror.
Foi um dia horrível, mas felizmente, Valerie conseguiu escapar durante a noite, enquanto meu pai estava desmaiado de bêbado no sofá.
Nem preciso dizer o quão chateado ele ficou ao acordar e descobrir que ele tinha ido embora.
Acredito que não foi pior porque eu ainda estava lá, e ele me tinha de garantia. Eu ainda era muito menina para ele me vender, mas estava lá.
Valerie nunca retornou, mas sempre estávamos em contato uma com a outra, ela estava indo muito bem no seu curso de graduação. Enquanto eu estava iniciando o ensino médio.
Nossa comunicação era mantida em segredo, meu pai cego em seu ódio por ela e desconfiado de tudo o que eu fazia, me mantinha em rédeas curtas, tive que abaixar minha cabeça todas as vezes que ele discutia comigo, ao contrário da minha irmã, ele não tinha o costume de me bater tanto, acredito que esse comportamento se devia justamente porque eu não me levantava contra ele.
Seus amigos continuavam a visitar, e conforme eu amadurecia de uma menina desajeitada para uma adolescente cheia de curvas, eles se tornavam cada vez piores.
Principalmente os amigos de designação alfa, e no instante em que minhas glândulas surgiram, eles ficaram cada vez mais presentes.
Eu servia cerveja para eles e cozinhava para o meu pai, limpava a casa e estudava.
Meu pai não permitia que eu trabalhasse fora, me queria sempre debaixo dos seus olhos, então, comecei a fazer as atividades dos meus colegas de classe. Eu vendia o meu tempo de estudo. E juntava cada moeda que recebia, fazer isso as escondidas era difícil, mas não impossível.
Minha adolescência foi cercada de medo, apreensão e ansiedade.
Uma noite soube que tudo estava mais errado do que o normal e que eu tinha que começar a planejar a minha fuga, foi no dia em que um dos amigos do meu pai me abordou.
Esse homem era particularmente nojento, um Alfa que era bem mais velho do que o meu pai, e que sempre estava rosnando para mim.
Eu nunca tinha conseguido sentir o cheiro das suas glândulas de feromônios, não até aquele dia.
Mais uma vez estava designada a servir seus amigos, enquanto todos eles estavam sentados assistindo a mais um estupido jogo de futebol.
Eu tinha passado o dia todo me sentindo péssima, meu corpo estava dolorido e eu estava mais sonolenta do que nunca.
Desconfiei de uma gripe e logo coloquei o assunto de lado. Estava mais preocupada em passar despercebida pela noite de jogo.
Me escondi na cozinha o máximo de tempo que consegui, mas quando fui requisitada aos gritos, não tive como recusar.
Por isso, coloquei a máscara que sempre usava na frente do meu pai e de seus amigos e fui atender ao seu pedido.
Era cerveja, sempre era cerveja, mais e mais cerveja.
Naquela noite eu usava uma calça de moletom cinza e um moletom que tinha pertencido a minha irmã, ele tinha uma gola alta que escondia o rosado das minhas glândulas.
Quando me aproximei do grupo, percebi que algo cheirava muito mal, vinha de tudo ao meu redor e estava particularmente preso no grupo de homens. Tentei ser o mais rápida possível ao entregar as cervejas, evitei olhar nos olhos deles, e me encolhia para parecer menor.
Bruce Jerkins, um dos amigos mais detestáveis do meu pai se aproximou de mim no minuto que estendi a cerveja em sua direção. Ele abertamente me inspirou, o que é considerado um ato de extremo mal gosto, em qualquer situação.
Tratei de soltar a cerveja gelada em sua mão e fugir rapidamente para a cozinha.
Meus instintos Ômega gritavam para fugir e correr, aquele era um alfa ruim, e seu cheiro era ofensivo para o meu.
Estava terminando de lavar a louça do jantar, quando senti alguém entrar na cozinha. Imediatamente estremeci e voltei meus olhos para a entrada.
Bruce Jerkins estava em pé no parapeito, me encarando fortemente, enquanto um rosnado saia de seus lábios.
Foi algo que gelou a minha alma.
— Pequena bonequinha Ômega. — O ouvi dizer ao começar a se aproximar de onde eu estava. — Você cresceu tanto nos últimos anos, está desabrochando em um Ômega perfeito, me diga, já está preparada para receber um nó?
Sua pergunta me corroeu por dentro, puro pavor começou a nadar em minha veias, enquanto encarava seus olhos azuis.
O porte dele era de um homem atarracado que em sua juventude era um bom partido. Agora, sobrou apenas uma pança gorda e músculos inchados, mas nenhuma atratividade para Ômegas.
— Ei, não precisa me responder. Eu sei que não. Você não tem namorados e vive para ajudar a criatura nojenta que é seu pai, ele não consegue enxergar o seu potencial, mas eu consigo. — Com cada palavra, ele se aproximava de onde eu estava, meus pés estavam plantados no chão enquanto colocava meu cérebro para funcionar e encontrar uma maneira de escapar dele. — E para falar a verdade, você é o motivo do bastardo arrogante ainda ter algum amigo. Todos nós queremos ver o seu desabrochar.
Não fiquei surpresa com suas palavras, era óbvio que o filho da puta que se dizia meu pai estava pensando em me vender, igual ele fez com minha irmã.
— Quando vai acontecer? — Me ouvi perguntando.
— Pelo seu cheiro, logo. — Sua resposta foi imediata, seus olhos passeavam pelo meu corpo da maneira mais repulsiva possível. — Mas, não se preocupe, eu paguei muito caro para ser o primeiro, vou ser bonzinho com você, prometo.
— Você será o único? — Voltei a questionar, não sei de onde tirei a coragem para isso. Porém, precisava saber o que meu pai estava tramando pelas minhas costas.
A gargalhada que se seguiu a minha pergunta, respondeu tudo o que eu precisava saber.
— Ser o único com uma coisinha bonita igual a você? Claro que não pequenina. Isso seria egoísmo da minha parte. — O absurdo de conversar sobre o meu estupro, me deixou anestesiada. Eu me sentia traída, sozinha e um lixo Ômega.
Odiei a minha designação naquele dia. Eu queria correr e morrer.
Não fiz nada disso, apenas assenti para ele. Tentei parecer o mais resignada possível, enquanto abaixada a minha cabeça e segurava o choro.
Ao contrário da minha irmã, eu não podia esperar o final do meu colegial, que aconteceria em alguns meses. Se meu calor de fato estava chegando cedo, eu teria que agir antes do que Valerie e eu tínhamos combinado.
Ainda bem que já tinha completado dezessete anos, e pelas leis, já era maior de idade.
— Com licença, eu vou dormir agora. — Pedi ao continuar com a minha cabeça baixa e meus ombros curvados.
Sair da cozinha não foi difícil e quando passei pela sala, olhei para todos os homens lá, incluindo o meu pai. Todos tinham um olhar agressivo e distraído para a televisão.
Subi rapidamente para o meu quarto e tranquei a porta, ainda coloquei uma cadeira contra a maçaneta, apenas para me certificar de que nenhum deles invadiriam meu espaço.
Olhando em volta eu podia ver o quanto era miserável vivendo naquele lugar.
Todas as minhas coisas eram de segunda mão, roupas de brechó, e coisas que minha irmã deixou para trás. A casa sempre vivia imunda, mesmo com o meu esforço diário de limpeza. Se não fosse pela escola, certamente estaria vivendo em um situação de cárcere.
Para minha sorte, tinha o endereço dela escrito em um pedaço de papel que eu guardava debaixo de uma das tábuas do meu assoalho. Em uma pequena bolsa verde estava todo o dinheiro que eu tinha no mundo. Um total de quinhentos dólares, um telefone móvel descartável que usava para me comunicar com minha irmã, e o seu endereço.
Tudo isso era tão pouco, ainda assim era meu bote salva-vida para fora desse pesadelo.
E Bruce estava certo, o meu cheiro estava mudando, porque minha apresentação estava para acontecer, eu já tinha dezessete anos, minhas glândulas já tinham aparecido e nos últimos dias, estava mais propensa a sentir o cheiro dos outros ao meu redor e detectar suas emoções.
Eu sabia que precisava ir embora o mais rápido possível. De acordo com Bruce, meu pai já tinha vendido o meu calor, só estava esperando eu cair sem controle, para poder colocar seu plano em prática.
Ainda dei alguns dias para que meu pai não desconfiadas de nada, inclusive pedi para ele me comprar com cobertor novo, inventei que estava me sentindo estranha e precisava daquilo.
O bastardo achou que eu estava com os primeiros sintomas de aninhar e logo, não demorou para me comprar o tal cobertor, e para que ele não notasse que eu estava fazendo minhas malas, comecei a tirar tudo do meu armário de parede e deixar o chão limpo para um suposto ninho.
Com isso, ele me deixou em paz, me dando mais liberdade. Em uma noite particularmente sombria, onde o céu estava encoberto por grossas nuvens escuras. Esperei para ele cair de bêbado no sofá e peguei minha mochila velha, que tinha arrumado algumas noites antes. Sem olhar para trás, fui embora.
Peguei o ônibus até a rodoviária e ao chegar lá, peguei o primeiro ônibus para a cidade mais próxima com aeroporto.
Levou quase todas as minhas magras economias para comprar uma passagem aérea para onde minha irmã morava.
Ela não sabia que eu estava chegando, não podia arriscar uma ligação, não com o desgraçado do meu pai me vigiando.
Me situar sozinha em uma nova cidade foi um grande desafio. Mas, não tive medo em nenhum momento.
Minha irmã me recebeu muito bem, e não chegou a questionar minha chegada. Nos primeiros dias estávamos dormindo em seu dormitório estudantil, ela não podia ter visitas permanentes, mas, nenhuma das suas novas amigas me denunciou.
Dois dias depois da minha chegada comecei a minha apresentação. Valerie conseguiu permissão para que ambas ficássemos em uma fraternidade Ômega, ela tinha algumas amigas lá, e eles me prepararam um quarto para a duração do meu calor.
Os próximos dias foram os piores da minha vida.
Eu construí um pequeno ninho no chão, mas tudo estava errado, não importa o quanto eu arrumasse e desarrumasse, ainda não parecia certo. O fato de não haver um alfa piorou ainda mais, não existia nada que parar a dor, masturbação não era o suficiente e eu não conseguia ter um verdadeiro orgasmo, tudo o que podia pensar e sentir eram meu corpo pegando fogo e minhas entranhas revirando dentro de mim. Eu estava em um eterno estado febril, mas sem qualquer alívio. Por isso, rolei e chorei em meu ninho, tentei ao máximo não gritar e secretamente rezei para um alfa aparecer.
Era uma dor como nenhuma outra, e se não fosse por minha irmã, que permaneceu ao meu lado, vigiando e cuidando para que não morresse de sede ou fome, durante toda a duração do meu Calor, eu provavelmente teria me machucado seriamente.
Quando despertei cinco dias depois, já fora da névoa de necessidade imposta pelo calor, porém dolorida e chorosa, descobri que minha irmã estava ao meu lado, depois daqueles dias sombrios e pela primeira vez em anos fui ao médico ginecologista ômega, e iniciem meus supressores.
Naquele instante percebi o quanto a minha apresentação na designação ômega marcava para sempre a minha vida.
Depois daquela semana, nós duas nos mudamos para uma pequena quitinete. Eu comecei a trabalhar meio período em uma cafeteria e iniciei o final do meu ensino médio em uma escola com aulas noturnas.
Demorei vários meses para conseguir falar com a minha irmã sobre o que tinha acontecido na casa do meu pai, a forma em que ele não pensou duas vezes em me vender para os seus amigos e o modo grotesco que ele me vigiava. Contei sobre Bruce e suas piadas sobre o meu calor e como ele dizia que pagou caro para ser o primeiro no meu estupro. Durante todo o meu tímido relato não pude deixar de chorar sobre o assunto.
Minha irmã estava indignada e cheia de raiva. Ela própria sobreviveu ao destino que meu pai arranjou para o seu primeiro calor. Sofreu dias de estupro de múltiplos parceiros e teve que se calar sobre isso.
Mas, Valerie sempre teve mais espírito do que eu, sempre foi mais corajosa e nunca deixou nada a desanimar, a marca de seu estupro sempre estaria guardado em seu coração, uma sombra do que ela sobreviveu e ainda assim, ela não se permitiu cair em tristeza e depressão.
Duas vezes por ano entro em Calor, e todas as vezes passo com minha irmã.
Quando iniciei minha carreira Universitária, mantive um plano para viajar e encontrá-la.
Menos dessa vez.
Esse seria o meu primeiro Calor longe dela.
Voltando minha mente para o presente, não estou aterrorizada, o cheiro de Kane acalma o pior das minhas inseguranças. E não lembra nenhum Alfa do meu passado, principalmente os amigos do meu pai.
Sei que não quero ser uma virgem para sempre, e no decorrer dos anos tenho estado cada vez mais curiosa sobre o ato sexual, não sou tão ingênua de não saber o que acontece entre um homem e uma mulher. E no escuro do meu dormitório, quando Lisa estava passando a noite fora, já até procurei pornô de designação para assistir.
Os homens eram certamente Alfas, todavia estavam exagerando nos comandos e no autoritarismo, mas estive muito desconfiada das mulheres, elas não aparentavam ser Ômegas, o suposto calor delas era muito exagerado para ser real, as moças eram muito conscientes de seus atos e os ninhos estavam construídos de modo errado, Ômegas reais não são desleixados em seus ninhos. O que me fez refletir que os vídeos eram encenação foram os Alfas, pelo motivo de nunca trancar seus nós nos Ômegas em calor.
Os vídeos eram assustadores e emocionantes, um pouco decepcionantes por todo o teatro de segunda categoria, mas ainda assim, bastante instrutivos.
Então não, ao contrário do que muita gente pensa, eu não sou tão pura assim. E desde que conheci Kane, tenho estado cada vez mais curiosa.
Mesmo sem meu calor batendo na porta dos meus instintos, o perfume delicioso dos feromônios dele sempre acendem algo dentro de mim. Fico cheia de necessidades que não conheço e não sei saciar. É angustiante.
Logo, passar meu calor com ele não será a pior decisão que já tomei, meus instintos gritam que ele é meu par ideal.
Se eu tivesse que escolher alguém entre todos os Alfas dessa Universidade, certamente seria ele.
Desde que Dylan me trouxe para o apartamento deles, e me tranquei no quarto de Kane, tive bastante tempo para pensar e refletir, mesmo com a sensação de minhas entranhas queimando, e o calor crescendo desenfreado pelo meu corpo. Tive que me forçar a pensar em um plano de ação.
Buscar por minha irmã estava fora de cogitação. Ficar no meu quarto no dormitório estudantil, também estava fora de cogitação. Eu poderia pedir asilo na fraternidade Ômega, tenho certeza de que os moradores de lá me aceitariam, mas confiar meu calor a desconhecidos, mesmo eles sendo da mesma designação que a minha, é uma coisa que não alivia as minhas preocupações.
Principalmente porque meus instintos mais profundos já escolheram o que querem nesse calor, por isso, não posso negar a minha necessidade gritante de um bom ninho, com um alfa forte para me servir.
Tenho medo de estar forçando uma situação em Kane. Mais uma, entre as tantas que já impus a ele.
E certamente não posso esquecer que estou com raiva por ele insistir nessa Lua Vermelha.
Minha cabeça rodava com uma centena de coisas para pensar, refletir e colocar em prática.
Dylan foi um perfeito cavalheiro comigo, me comprou um supressor de emergência e me levou para um lugar seguro.
Não tenho nada a reclamar sobre ele, e me recinto por rosnar e reclamar toda vez que ele se aproximava de mim. Por mais que o seu cheiro fosse bom, não era nada comparado a perfeição do seu irmão tatuado.
Depois de um tempo e uma série de rosnados de advertência, ele decidiu me deixar em paz no quarto de Kane.
Ficar sozinha me deu todo o tempo que precisava para pensar e decidir meus próximos movimentos. E quando tudo estava resolvido em minha mente, fiquei no aguardo do único que conseguiria me ajudar.
É apenas um calor, eu já tive vários antes desse. Sei que posso me controlar, não vou fazer nenhuma loucura e Kane, se aceitar, também não vai. Somos adultos e podemos lidar com isso.
Milhões de Ômegas ao redor do mundo passam por isso e tem Alfas para os ajudar, não é uma ciência estranha, apenas biologia.
Minha situação podia ser uma bagunça sangrenta, mas não estava ansiosa, apenas sentindo um desejo urgente de resolver logo essa situação.
E quando Kane apareceu, coberto da cabeça aos pés de suor, com alguns hematomas pelo corpo e com o batimento cardíaco tão alto que eu podia escutar as batidas do seu coração do outro lado de seu quarto, tudo ficou muito claro para mim.
Seus feromônios me envolveram imediatamente, trazendo calma e promessas.
— Emma. — Kane diz, após eu chamar o seu nome. — Dylan me contou o que está acontecendo.
E foi então que senti que tinha que esclarecer algumas coisas, deixar tudo claro.
Então eu falei e ele respondeu.
— Me desculpe. — Me forço a falar, meu corpo parece uma corda de piano ao ser esticada demais até quase arrebentar. — Parece que não existe um limite na ajuda que preciso de você. Estou tão envergonhada por esquecer meus supressores, isso tudo é culpa minha.
Olhar para ele me fazia sentir orgulhosa do Alfa na minha frente, seu corpo perfeitamente esculpido em músculos e coberto de tatuagens, me deixava selvagem.
Meus instintos Ômega cantavam cada vez mais alto em minha cabeça e eu sabia que faltava pouco para eles assumirem completamente os meus pensamentos e atitudes.
Era constrangedor sentir meu sexo latejar e apertar somente com ele perto de mim.
— Você não precisa pedir desculpas, isso pode acontecer com qualquer um. — Ele me responde ao se aproximar de onde estou.
Não tenho escapatória do perfume de Kane, sinto o seu gosto nos meus lábios, na minha língua.
— Dói tanto. — Acabo sussurrando em meio às minhas lágrimas. — Eu posso tocar em você?
Estou uma poça chorosa e melosa, mas não posso deixar de perguntar por algo que sei que vai me trazer conforto.
Para o meu prazer, Kane não demora em me puxar para seu braços fortes. Seu corpo suado não me enoja, muito pelo contrário. No meu estado atual, gostaria de lamber as pequenas gotas salgadas que escorrem pelo seu pescoço.
Para evitar de agir tão impulsivamente, deito o meu rosto em seu peito largo e com alegria sinto suas mãos em minhas costas, isso me conforta e me faz sentir mais lúcida.
— Você está segura, Emma. Prometo cuidar de você e garanto que não vou te forçar a nada. — Mais uma vez, suas palavras são um bálsamo necessário para os meus instintos e medos. Então, aperto meus braços em volta do seu pescoço e o puxo ainda mais para mim.
— Eu não sei quanto tempo vou ter de lucidez, por isso quero que você me faça um favor. — Tenho que afastar a minha cabeça de seu peito, para poder olhar em seus olhos. De tudo o que pode acontecer, não quero enfrentar esse momento morrendo de medo. Tenho que afastar de vez os fantasmas do meu passado. — Durante o meu calor, não deixe que ninguém me veja assim, apenas você, não Dylan ou qualquer outra pessoa, só você, Alfa. Por favor.
— Eu prometo. — Kane responde imediatamente ao meu apelo. Seus olhos castanhos estão abertos e ansiosos.
— Eu sei que pedir isso para você é muita coisa. Mas, quero que aconteça. — Digo ao deixar que minha mão esquerda passeie por seus ombros. Sentir sua pele quente me deixa mais acordada que nunca. Estou ansiosa e com medo, ainda assim me sinto cheia de uma confiança estranha.
— Não tenho certeza que entendi o que você quer dizer. — Sua voz fica mais grossa, enquanto seu rosto se enche de um bonito corado.
Tenho que respirar profundamente e acalmar o pior da minha ansiedade, para ser clara e não deixar nada em branco. Logo, cheia de vergonha, me lanço em uma nova tentativa para me explicar.
— O que eu quero dizer é que meu calor apenas acelerou isso, porém desejo estar com você, me deitar com você...
— Você está falando sobre sexo? — Seu questionamento afiado é uma bala diretamente em meu coração, Kane tem que entender que não tenho muito tempo, mesmo com a sua proximidade, meu corpo queima cada vez mais forte. As câimbras em meu ventre duplicam de quantidade a cada minuto.
Dessa vez, aceno afirmativamente ao trincar os meus dentes para não chorar e gritar. Abrir meu coração e meus medos para ele não é nada fácil.
— Você não pode me pedir isso, Emma. Não no seu calor. O que você está sentindo é hormonal, é uma reação do seu calor, e o fato de eu ser alfa...
— Não, isso não é verdade. — Tomo a palavra ferozmente, seu rosto bonito e anguloso está muito perto do meu, suas pupilas dilatam quando ele entende o meu pedido. — Até você chegar, Dylan estava comigo e mesmo sendo um alfa, o cheiro dele é ofensivo para mim, errado. E não estou confusa pelo calor, ainda não. Eu vejo você Kane, não é apenas porque você é alfa, é por ser você.
Minhas palavras devem o inspirar a agir, pois no instante seguinte, sinto seus lábios nos meus e me entrego ao seu cheiro alfa e seu beijo quente. Suas mãos na pele descoberta dos meus braços, me mantendo presa a ele é delicioso, pouco faz para abaixar a dor em meu ventre e corpo. Até posso dizer que alimenta o meu calor crescente, todavia a sensação é deliciosa demais para ignorar.
Quando nos separamos, meus olhos se abrem para encarar seu rosto bonito, seus olhos estão presos nos meus, brilhantes e atentos, e quando encostamos uma testa na outra nos ligamos ainda mais nos instintos.
— Eu estou tão cansada. Você ficaria comigo até eu adormecer? — A pergunta escapa dos meus lábios imediatamente.
Durante o meu calor, e se aceitar ficar ao meu lado e me servir, vamos estar mais próximos do que nunca. Dividindo um nível de intimidade que nunca experimentei com ninguém.
— Claro, você precisa descansar um pouco, e eu também. — Sua resposta é um acalento para meus nervos irritados.
O alfa ficará ao meu lado. Alfa forte e grande. A voz ômega dominante em meu cérebro já começa a aparecer com mais facilidade.
Sem que ele me comande, volto a me aconchegar no ninho que fiz para nós dois, ele já não está do jeito que gosto, e se eu não estivesse dolorida, provavelmente estaria refazendo tudo mais uma vez. Por hora, ele vai servir para aconchegar meu alfa e eu.
Vejo Kane terminar de tirar seus tênis esportivos e mesmo suado e sujo da luta, se deita ao meu lado. O seu aninhar ao meu redor aumenta a minha necessidade por ele, e ao mesmo tempo acalma minhas piores ansiedades em torno do Calor, sei que não vou estar sozinha e confio em sua palavra o suficiente para acreditar que ele não deixará ninguém se aproximar de mim.
Por isso, não é estranho me aconchegar em seus braços tatuados, nos abraçando firmemente ao corpo do outro.
— Eu preciso que você saiba, que estou consentindo passar esse calor com você. Eu não escolheria ninguém mais. — Sussurro em seu peito depois de um longo bocejo. Estar tão próxima de um alfa no meu momento mais delicado, é algo que pensei que nunca aconteceria.
Logo, não demoro a me entregar ao mundo dos sonhos e mesmo com as promessas de Kane, rezo para que nada de ruim nos aconteça.
E sem demorar muito, acabamos entrelaçados lado a lado em sua cama de casal.
Meu corpo demandava descanso, logo e mesmo com dor, não posso deixar de fechar os meus olhos e adormecer.
Da próxima vez que acordo me sinto queimar de modo febril.
A luz do amanhecer queima em minhas retinas e me incomoda profundamente. Meus membros estremecem de uma necessidade que apenas se acalma quando percebo o Alfa adormecido ao meu lado, seus braços estão em volta da minha cintura e seu rosto está muito perto do meu.
Isso me faz ronronar de satisfação. Alfa grande vai me proteger.
É claro que a satisfação não dura muito quando percebo o lugar onde estamos.
Ninho errado. Calor errado. Alfa ficará desapontado.
Com destreza, me solto de seus braços e rastejo cuidadosamente para fora da cama.
Alfa está adormecido. Tenho tempo de concertar o ninho. Deixar bom para Alfa forte e acasalamento e filhotes gordos.
Ao olhar em volta decido o lugar do novo ninho. Seu guarda-roupa tem um bom espaço para nos dois. É fundo e largo o suficiente para nos aconchegar com certa eficiência.
Também é escuro e tem duas portas de correr. Tropeçando em minhas câimbras internas me lanço para minha atividade, preparar um local ideal para passar meu calor com meu alfa.
Alfa forte ficará satisfeito com o ninho.
Ninho bom para Calor e bebês gordos.
No momento que começo a minha atividade, perco um pouco da razão. Tudo o que consigo pensar é no meu alfa e na dor em meu corpo.
Não posso negar a minha frustração por não ter mais tecidos para aninhar, meu alfa é grande, preciso fazer um ninho que nos caiba com aconchego, e que tenha um bom espaço para o acasalamento e para os bebês.
Os bebês que vou dar para meu Alfa. Somente esse pensamento me faz gemer de alegria.
Minha atividade atual me impede de prestar atenção em minha dor ou nos soluços quando não consigo encontrar material suficiente para deixar o ninho perfeito.
Ninho perfeito traz Alfa forte e bebês gordos. Ninho ruim deixa Ômega sozinha e com dor. Punição merecida.
Conforme vou me frustrando com a montagem do novo ninho, meu calor vai piorando, estou febril e molhada de suor, instintos me comandam em todas as direções, tenho a sensação de que estou estragando um calor perfeito, vou decepcionar meu alfa.
O ninho está errado, preciso de mais tecidos, preciso do meu alfa para acalmar minha dor. Preciso de um nó.
Estou em um estado lastimável entre chorar e arrumar, tentando fazer o impossível com um ninho errado.
Em algum momento noto uma movimentação no quarto, sei que meu Alfa acordou e me desespero ainda mais para fazer o impossível funcionar.
Meus instintos ômega não ficam surpresos quando ele aparece na entrada do meu ninho, seus braços estão cheios de cobertores fofos e macios, lençóis e edredons. Eles faziam parte do meu ninho anterior, e agora o grande alfa me oferece para a construção do novo ninho.
Pego os tecidos com rapidez, voltando sem demora para a construção do ninho.
Com atenção, escolho o melhor edredom para ser o espaço dos bebês, arranjo um lugar perfeito no fundo no ninho, nossos filhotes não podem ter frio, tenho que deixar tudo perfeito para eles. Meu alfa estará feliz quando me ver cuidando dos nossos bebês.
Várias vezes tenho que parar o que estou fazendo para gemer durante uma câimbra particularmente forte, me curvando e soluçando enquanto tento o meu melhor.
— Ninho perfeito. Tem que ser perfeito. Ninho perfeito para bebês grandes. Os bebês não podem ter frio. Proteger os bebês no ninho. – Permito que as palavras escapem dos meus lábios, no momento não tenho o luxo de me permitir parar, não quando o ninho não está perfeito.
Escuto Kane rosnar de satisfação com as minhas palavras, ele está agachado do lado de fora do guarda-roupa, sua postura é de apreciação e proteção. Seus olhos de predador perseguem cada movimento meu.
Ele gosta da ideia de nossos bebês. Alfa vai nos proteger.
Seu cheiro aumenta consideravelmente ao meu redor, o que me faz esfregar minhas glândulas de feromônio em todos os tecidos que consigo por as mãos.
Perco a noção do tempo em que estou nessa atividade. E quando noto que os rosnados de Kane aumentaram, ou sinto que seu cheiro deu um pico maior do que antes. Paro o que estou fazendo e logo minha atenção é desviada para o meu Alfa. Ele é tão bonito, tão forte e grande, e seu perfume é tão delicioso que sinto vontade de me esfregar nele.
Não demora muito para a minha dor se tornar mais do que consigo suportar, estou ficando desesperada e meu ninho nunca está bom o suficiente.
— O ninho é perfeito, Ômega. Você fez muito bem! – Meu Alfa me diz, seus olhos são ferozes em mim, sua respiração esta superficial, dolorosa, quase um comando Alfa. É claro que a sonoridade grave de sua voz vai parar direto na minha designação. — É seguro e aconchegante, para nós dois.
— Sim, alfa. Um ninho bom, para nós dois. – Respondo entre gemidos, e pela primeira vez consigo relaxar.
Alfa gosta no meu ninho, vamos acasalar.
Agora com a certeza de que meu alfa não está bravo comigo e não desgosta do meu ninho, posso continuar a modelar e afofar entre os lençóis com mais tranquilidade, finalizando o meu trabalho.
Estou me inclinando para dobrar um pedaço de tecido quando escuto um grunhido de pura necessidade, acompanhado de um maravilhoso odor de excitação.
Seu rosnar me faz queimar com ainda mais força, sinto meu sexo apertar descontente com a negligência.
Meu alfa me quer, e estou pronta para ele. Minha racionalidade foi totalmente esquecida, sou uma bolo hormonal cheia de necessidade. E o cheiro da excitação de Kane me faz sorrir, sei que não estarei sozinha neste calor, não ficarei abandonada, dias e dias chorando e gemendo, arrumando um ninho que nunca será preenchido, sofrendo de uma dor sem fim e queimando por um alívio que nunca virá.
Não agora que encontrei o meu Alfa.
Kane é o alfa que sem saber estou esperando. Nós temos um ninho bom, logo serei amarrada pelo seu nó, e nada vai nos separar.
Alfa cuida, alfa protege.
Lentamente largo qualquer tecido que estou segurando e levo minhas mãos pelo meu corpo. Estou muito longe pelo calor para sentir alivio em minha carícia. Sei que nada que eu faça vai trazer qualquer sensação de alívio. A partir de agora, a dor vai aumentar, logo serei uma bola chorosa no chão.
Passo minhas mãos por minhas coxas e tenho que trincar meus dentes para não chorar pelo desconforto. Meus olhos se voltam para o Alfa na porta do meu ninho.
— Alfa, por favor...- Começo a implorar, não tenho vergonha disso, para parar minha dor farei qualquer coisa. Principalmente agora que meu corpo queima de dentro para fora.
Mal percebo que minha mão está por dentro da calça de moletom que uso, levo meus dedos para meu sexo ensopado com minha lubrificação, vou tentar qualquer coisa para aliviar as fortes cólicas que sinto.
No instante em que me acaricio languidamente, percebo que Kane abandonou seu lugar vigilante do lado de fora do ninho e se lança para onde estou, seus braços me alcançam no instante em que seus lábios pairam sobre o meu pescoço. Seus barulhos apenas aumentam o meu desejo por ele.
— O seu prazer é meu, ômega. – Sua voz de trovão arranha a minha audição sensível. — O ninho está perfeito, agora me deixe cuidar de você.
— Sim, alfa, dói tanto. — As palavras escapam de minha boca, sei que voltei a chorar quando me dobro em meu próprio corpo.
Não demoro em achar uma solução, estou me sentindo tão crua e suando tanto que o simples toque do tecido em minha pele me faz doer de uma maneira ruim, me sinto sufocada envolta em tantas peças de roupa.
Sem vergonha, afinal meu lado ômega está no controle, começo a me despir. Levo alguns minutos para conseguir tirar todas as peças do meu corpo.
A todo instante sinto o toque de Kane em mim, o que não é desagradável, afinal seu cheiro me cerca.
Alfa vai me acasalar agora, vai cuidar do meu calor.
Sei que Kane está encarando meus seios expostos. Em qualquer outro momento eu estaria mortificada e envergonhada, agora estou aliviada por tirar o peso da malha da minha pele sensível. É muito bom sentir minha pele livre, mesmo que ainda me sinta pinicar e coçar. Minhas glândulas de feromônios estão vermelhas, inchadas e inflamadas pelo Calor.
Elas coçam e ardem ao mesmo tempo, é tão desconfortável que não consigo controlar minhas lágrimas.
Assim que me livro das peças superiores da minhas roupas, parto para as peças inferiores. Com um único puxão consigo tirar minha calça de moletom e minha calcinha, me livrando das peças desnecessárias.
Estou pegando fogo e desconfortável, preciso de ajuda, preciso que meu alfa faça algo por mim.
Meus instintos me mandam deitar entre os lençóis e me oferecer para ele.
Estou pronta, Alfa. Penso ao encarar o seu rosto e muito lentamente abrir minhas pernas, apenas o suficiente para ele ter um olhar do meu sexo dolorido.
Kane está selvagem ao me encarar, seus olhos estão presos na minha apresentação, enquanto sua língua passa por seus lábios cheios.
Ele também está coberto de suor, enquanto seu cheiro transmite uma rotina crescente.
Para mim, isso é o ideal. Preciso disso. Necessito que ele me queira tanto quanto eu o quero.
— Alfa, por favor. Vou ser boa. – Prometo enquanto me estico entre os lençóis.
Quando Kane coloca suas mãos em mim, estou pegando fogo, meu sexo pulsa por não ser devidamente preenchido, e as câimbras e cólicas me fazem soluçar abertamente.
Suas mãos grandes passeiam entre as minhas coxas, acariciando e apertando a pele molhada pelo meu calor.
Sua boca desce para o vale entre os meus seios, e ele começa a lamber as gotas de suor lá. Seus ronronados satisfeitos são uma doce melodia para os meus ouvidos.
Em um primeiro momento ele evita beijar meus seios, indo direto para os meus lábios.
Estamos em um emaranhado de pernas e braços, gemidos e saliva.
Kane devora meus lábios, suas mãos passeiam por minha pele escaldante.
E posso garantir que nunca fui beijada assim, com tanto ímpeto e devoção. O seu gosto é um vício na minha boca, e sei que não importa o que vai acontecer durante o meu Calor, tudo o que preciso está nos braços desse homem.
É surreal sequer pensar em me afastar. Não acredito que eu sobreviveria, o alfa em meus braços é minha âncora em uma tempestade de dor.
Sinto suas mãos passearem por lugares em meu corpo que nunca permiti que ninguém tocasse, é emocionante sentir suas mãos tocando meus seios e apertando meus mamilos.
Quando paramos para respirar, levo minhas mãos para o seus braços e o aperto.
— Alfa, dói. — Reclamo quando um pico de dor me dilacera por dentro. Mal percebo que estou soluçando.
— Estou te tocando com muita força...
— Não, dói aqui. — Tenho que interromper suas palavras, ou meu alfa poderia pensar que estava fazendo algo errado. Ligeiramente seguro em sua mão e a levo para o meu sexo ensopado.
Kane não hesitou em me tocar lá, seus olhos surpresos e cheios de fome por alguns segundos me observam espantados, depois ele leva seus lábios novamente para o meu pescoço, lambendo meu suor e indo direto para minhas glândulas de feromônio, sua mão me massageia no meu lugar mais íntimo, seus dedos dentro dos meus lábios, espalhando minha umidade por todo lado, circulando meu clitóris suavemente.
Seus beijos longos e seus dedos espertos me fazem gemer entregue em seus braços.
Me transformo em argila para ele moldar, massa quente em suas mãos, enquanto sinto as primeiras notas de prazer crescerem em meu corpo.
A dor ainda é massacrante, mas um tipo diferente de calor começa a crescer para igualar e transformar dor em prazer.
Sem perceber acabo abrindo minhas pernas, dando mais espaço para meu Alfa explorar, quando Kane retorna seus beijos aos meus lábios, o recebo com pressa, nossas línguas dançam seu balé erótico.
Os olhos castanhos de Kane estão negros de desejo, sua expressão é de concentração e deslumbramento.
Fome.
Tudo se transforma em um borrão em minha cabeça, existindo apenas dor e necessidade, as mãos do meu Alfa em mim e os barulhos de satisfação que ele faz, uma melodia erótica que me encanta para um estágio de profunda submissão.
Quando o primeiro orgasmo atinge meu corpo, ele nada faz para diminuir minha dor, é uma distração, beliscão que dura alguns segundos. Conhecendo o meu corpo e os meus calores, sei que esse tipo de orgasmo não fará nada para aliviar meu Calor.
Estou implorando para Kane, gemendo e chorando por alívio.
E seus olhos em mim se tornam ainda mais famintos, o seu cheiro também cresce para acompanhar o meu e sei que ele esta segurando uma rotina.
Por que o Alfa não se solta? Por que não me ajuda? Preciso de um nó, e pela potência das minhas dores, preciso disso para ontem.
Mesmo não tendo experimentado um nó antes, ou qualquer tipo de ato sexual, meus instintos demandam que Kane suba em cima de mim e me tome com força. O pulsar do meu sexo é um lembrete do quanto me sinto vazia e desleixada.
— Alfa, vou ser boa. Me dê um nó, por favor. Eu promete ser boa. — As palavras escapam de meus lábios e não posso me controlar em relação a isso. Nenhum Calor que eu já tenha tido foi tão doloroso quanto esse. Tão cheio de necessidade e dor.
Alfa não me quer. Alfa tem que querer.
Sem que eu perceba, estou puxando e rasgando as roupas para fora do corpo de Kane, preciso sentir o calor se sua pele na minha, a sensação dura de seus músculos e seu suor me banhando da cabeça aos pés.
Alfa tem que dar um nó gordo. Me prender e acasalar.
— Me dê um nó. Me dê um nó. Me dê um nó...
Estou arranhando e mordendo qualquer pedaço de pele que alcanço, é de urgência que meu Alfa entenda o que estou pedindo e enfie em mim o seu nó.
— Porra, Emma. Não faça isso. Fique quieta para que eu posso cuidar de você. — Suas palavras demoram para atravessar a neblina de Calor e hormônios do meu cérebro.
Mesmo com sua palavras, não consigo ficar imóvel, menos ainda me acalmar. Meu coração é uma locomotiva em alta velocidade, enquanto um vulcão de dor volta a explodir em meu ventre.
— Ômega, fique quieta. — Seu comando alfa é tão potente que rasga a névoa em meu cérebro e consegue a submissão dos meus instintos. Logo, não demoro a obedecer. Com poucas palavras estou deitada calmamente no ninho, permaneço com dor e frustrada, meus olhos presos no Alfa meio deitado em cima de mim. — Boa, garota. Agora abra suas pernas, e deixe o seu Alfa cuidar de você.
Meu corpo obedece antes que eu tenha tempo de pensar. Essa é a magia do calor, nenhum pensamento racional.
Mais rápido do que posso pensar, vejo Kane descer pelo meu corpo, deixando um caminho de beijos e lambidelas.
Quando ele se instala entre as minhas coxas, o seu rosto a poucos centímetros do meu centro molhado e seu olhar preso em meu sexo exposto. Minhas coxas tremem em antecipação e uma emoção feroz cresce em meu peito.
— Eu penso nisso desde o momento em que coloquei meus olhos em você. — Sua voz está tão grossa pelo calor que tenho dificuldade em saber se ele realmente disse isso, ou estou delirando de dor. — Você lembra, Emma? Daquela noite? Tudo o que eu conseguia pensar nos dias seguintes foi em te curvar e devorar a sua buceta...
Em qualquer outra ocasião estaria mortificada pelas suas palavras, agora estou queimando e chorando.
— Por favor, Alfa...por favor...dói...
Meus pedidos parecem que chegaram no alfa.
O primeiro toque de sua língua em meu sexo, me deixa eufórica. O prazer atravessa o meu corpo, mas não chega a um ápice. Sua boca me devora e explora com maestria.
Me transformo em gelatina em suas mãos e lábios.
Minhas mãos correm pelo seu couro cabeludo, mantendo sua cabeça entre as minhas pernas, por alguns instantes sinto o calor se diluir em prazer. E é tanto prazer que não consigo controlar meus gemidos entregues. Estou me descontrolando e implorando por liberação.
Preciso do meu Alfa, e quando ele presta uma atenção especial no meu clitóris, explodo em um orgasmo potente.
Estou sobrecarregada por informações, Kane tem que passar seus braços em volta do meu quadril, para me manter quieta.
Mas, o que deveria ser um orgasmo brilhante cheio de satisfação, se transforma quase que imediatamente em um pesadelo hormonal.
Mal voltei do meu prazer, quando sinto uma dor lancinante explodir em meu ventre, é tanta dor que deixo de respirar por alguns segundos e apenas me remexo sem fôlego.
É como se meu útero dissesse que não será enganado por nada menos do que um gordo nó dentro de mim, me mantendo presa e cheia do gozo do meu Alfa.
Não percebo que estou me debatendo e chorando até sentir os braços fortes de Kane ao meu redor. Ele tenta de toda forma se conter, mas estou com dor demais para permanecer parada.
Quando ele enfim consegue que eu passe minhas penas pelo seu quadril, me colocando em seu colo, e apertando o meu rosto em seu pescoço, perto de suas glândulas de feromônios, é que consigo parar de me debater e começo a prestar atenção no meu Alfa.
Meus instintos gritam acelerados dentro de mim. Me obrigando a me esfregar no Alfa em meus braços. Misturando nossos cheiros ao esfregar minhas glândulas nele.
Saindo da névoa de necessidade dolorida, volto a ouvir Kane falar comigo, sua voz grossa atravessa o pior do meu calor.
— Bom ômega, minha gatinha é um ótimo ômega, você é perfeita, meu ômega. — E é quando noto que sim, sou um bom ômega e meu alfa, o alfa que escolhi, não pode me negar, eu quero um nó e vou conseguir o que preciso.
Quando Kane me aperta mais forte em seus braços, lanço minha cabeça e lábios para adorar suas glândulas de feromônio.
Meu alfa geme com as ministracões da minha língua em sua pele mais sensível, sinto suas mãos acariciando minhas costas, entregue ao prazer que lhe dou.
E beijo e lambo qualquer pedaço de pele que alcanço, seu gosto explodindo na minha língua, manchando o céu da minha boca com sua rotina.
Meu alfa está se segurando, com medo de me machucar, ele não precisa ter medo.
A mancha entre minhas pernas aumenta, escorrendo por minha coxas e se espalhando no baixo ventre do meu Alfa.
Deixo que milhares de anos de instintos incrustados no meu DNA me guiem.
E no momento que levo meus lábios para as glândulas de acasalamento localizadas na base direita de seu pescoço, começo a beijar e lamber a pele avermelhada e irritada.
Seu gosto é como chegar ao lar, estar protegida e amada em um ninho aconchegante, é igual a beijo longo, intimidade e carinhos preguiçosos, é como ser amada.
Bom Alfa, forte Alfa para proteger e prover. Alfa dará bebês saudáveis, e um nó gordo.
Por isso, no instante que meus instintos me comandam a morder eu não êxito em nenhum momento.
Escuto Kane gemer e me apertar em seu colo, ele gosta dos meus lábios nele.
Logo, acho o lugar perfeito em sua glândula de acasalamento, abro a minha boca o mais largo que posso e afundo meus dentes em sua carne quente, quebrando a superfície inflamada é o marcando para sempre.
Um prazer ancestral explode pelo meu corpo, enquanto é impossível não notar meu Alfa rugindo ferozmente ao me segurar ainda mais apertado.
No instante em que o solto de minha mordida, lambo os meus lábios sangrentos e o encaro com adoração.
Seu rosto é tenso e sua expressão selvagem me faz acreditar que agora sim ele se entregou totalmente a sua Rotina.
Eu deveria estar aterrorizada, todavia a única coisa que consigo estar é aliviada. É impossível não ter pensamentos ferozes na loucura exigente do meu calor.
Alfa vai me acasalar agora. Alfa vai me dar um grande nó e fazer a dor ir embora.
Alfa é meu.
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