Devastação
19 Estrela
Notas iniciais
Kane e eu fomos direto para o meu dormitório, eu sei que homens são proibidos nos espaços femininos dos dormitórios, mas se eu for bem sincera, apenas uma dúzia de graduandas, e me incluo nesse grupo, obedecemos essa regra, e como já mandei para a secretária o pedido de mudança para a fraternidade Ômega, não estou me importando muito com essa regra.
Não sei porque ele me trouxe para cá, mas não vou reclamar, ainda estou muito dopada de feromônios para realmente protestar algo que meu alfa faz.
Kane está sem camisa, de bermuda jeans preta e tênis preto. Seu corpo está coberto de suor e sangue, sem contar os inúmeros machucados de sua luta com outros Alfas.
Seu belo rosto está inchado em vários pontos. Uma de suas sobrancelhas aparenta estar cortada, seu lábio também está cortado, e seu maxilar já está enorme em uma feia coloração roxa e vermelha.
E por mais que seus machucados sejam tão visíveis, seus olhos castanhos estão presos em mim, analisando cada pedaço do meu rosto, ronronando em meu pescoço e beijando minha fronte. Uma de suas mãos está presa em meu quadril, me mantendo abraçada ao seu lado. Enquanto a outra acaricia a pele do meu rosto, pescoço e braços.
Estamos tão focados um no outro que não percebemos ninguém ao nosso redor.
Ao entrar no meu dormitório encontro o lugar mais uma vez vazio, apenas minhas malas meio cheias e minha cama ainda desarrumada nos recebe. A cama de Lisa ainda está intacta, o que me leva a pensar que ela ou está em um novo relacionamento, ou está deliberadamente me evitando.
Mal fecho a porta em nossas costas e já percebo os olhos espertos de Kane em tudo ao nosso redor, ele olha para o meu quadro de avisos vazio e minhas malas meio cheias e seus olhos cheios de perguntas logo param em mim.
— Vou me mudar para a fraternidade Ômega. — Respondo antes que ele tenha a chance de me questionar. — As coisas tem ficado estranhas com minha colega de quarto e ela meio que deixou no ar que não me quer mais aqui.
Observo as narinas de Kane abrirem quando ele inspira o ar a nossa volta.
— Ela tem um cheiro desagradável, com certeza Beta. — Seus olhos caem na cama de Lisa e ele parece particularmente ofendido por algo. — Quer que eu fale com ela?
— Não! — Exclamo sem demora, eu posso lidar com essa situação, não sou tão frágil assim. — Lisa não vale o nosso tempo, e estou aliviada em sair.
— Quando você pretende sair? — Ele me pergunta depois de lançar um último olhar de repúdio para o lado do quarto que pertence a Lisa, e se virar em minha direção.
— Assim que tiver a aprovação da secretária, a fraternidade me mandou o convite e todos os papéis, já encaminhei tudo para a administração. — Por algum motivo, minha resposta não me agrada, e sinto em meus ossos uma necessidade de me explicar. — Isso foi antes do meu calor.
Vejo que a postura de Kane relaxa um pouco, seus olhos se tornam mais quentes.
— Você é meu Ômega, Emma. Quero que fique comigo. — Sua voz ainda está muito grossa devido a luta é a todo barulho que fez, as vezes noto que ele se força a falar, e que está escondendo a dor.
E é claro que com tantos machucados, ele está sentindo dor.
— Eu quero ficar ao seu lado também, Alfa. Mas, podemos conversar sobre isso depois, quero cuidar de você primeiro, também sei que estamos exaustos e precisamos descansar. — Digo ao me aproximar a levar minha mão esquerda para a rosto machucado de Kane.
Sei que sou a culpada por ele estar assim e isso corta o meu coração, quero fazer certo, quero ser boa para o meu Alfa. Todos os instintos mais antigos da minha designação me
comandam nessa direção.
Tenho que cuidar do meu Alfa, ele lutou tão bravamente por mim, me encheu de orgulho ao afirmar para todos aqueles outros homens Alfas que eu pertenço a ele.
O alfa mais forte, mais veloz, esperto e bonito. Vai me dar bebês gordos e fortes. Preciso de um ninho, um bom ninho para nós dois.
Meu pescoço lateja em uma dor pulsante e ardência. A carne onde se encontra a minha glândula de acasalamento, deve estar inflamada de tantas mordidas seguidas, nenhuma sem uma chance de cicatrização real, sem que uma outra mordida fosse feita logo em cima do machucado.
Depois de tantas mordidas, estou mais que acasalada com o alfa em minha frente. Tenho sorte de estar com uma camiseta que esconde o pior das mordidas, Kane não usa camiseta e posso ver a carne de sua própria glândula, vermelha, inchada e provavelmente inflamada das minhas mordidas, não sinto arrependimento de nenhuma delas.
Kane é meu Alfa. E eu sou seu Ômega.
— Quer tomar um banho? Meu andar é relativamente tranquilo e posso guardar a porta para você ter privacidade. — Pergunto ao me aproximar dele. Suas mãos se esticam imediatamente para mim, me puxando para o seu corpo.
O cheiro de Kane está bagunçado com violência, raiva, desespero, e uma miríade de odores dos feromônios dos Alfas que enfrentou, tudo isso misturado em seu próprio perfume natural, é agradável e desagradável ao mesmo tempo.
Faz com que eu me encha de ansiedade.
— Eu agradeço, seria bom tomar banho. — Sua resposta me faz agir imediatamente a procura de uma de minhas toalhas limpas e meus principais produtos de higiene, shampoo e sabonete.
Logo, não demora nada é estou encostada na porta do banheiro, antes verifiquei se não havia nenhuma das outras moradoras desse andar usando o espaço, depois que confirmei minhas preocupações, deixei Kane usar o banheiro sozinho. Seus olhos pidões quase me levaram a entrar lá com ele, mas isso não seria uma atitude responsável. Não em um espaço público, por isso me mantive sendo sua segurança, esperando do lado de fora.
Para minha extrema consternação nenhuma das minhas colegas de andar saiu de seus quartos, nem para dar uma espiada na novidade. E Kane não me deixou esperando muito tempo. Parece que a nossa distância o incomoda mais do que a mim, pois depois de poucos minutos logo ele estava de volta ao meu lado. O cheiro desagradável da luta sumiu, só restando o seu próprio perfume Alfa misturado com o cheiro do meu shampoo de morango e sabonete de baunilha.
Ele teve que usar sua roupa, afinal não tenho nada masculino nas minhas coisas, mas seu rosto não demonstrou nenhum desagrado.
Foi muito bom sentir seus braços em minha volta. Seu abraço é quente e reconfortante.
Ao voltar para o quarto, logo trato de guardar meu kit de higiene que emprestei, em seguida corro para uma de minhas gavetas e procuro a minha caixa médica, onde guardo meu kit de primeiros socorros.
Fiz Kane sentar em minha cama e comecei a cuidar dos seus machucados. Apliquei pomada para cortes em seus machucados mais profundos, graças a Deus nenhum deles foi tão grave ao ponto de ser costurado.
Suas contusões não eram severas, mas pareciam muito incômodas. Por isso, tentei manter minhas mãos leves cada vez que o tocava, meu kit médico não possuía muitas coisas, mas tinha o suficiente atender às necessidades atuais. Noto que sua barba está crescendo, os fios claros já são aparentes em seu maxilar.
Depois que finalizei, foi a vez de Kane de me ajudar, eu não queria, mas ele insistiu em limpar o meu ferimento no pescoço, onde seus dentes foram cravados em minha carne.
Seus ronronados suaves me fazem relaxar, principalmente quando sinto seus dedos acariciando a minha pele. A ardência da limpeza e pomada quase não foi um aborrecimento.
Ter um alfa tão perto de mim me fez sentir especial e cuidada. O que leva o meu cérebro ômega a uma sensação de tranquilidade, afinal cuidei do meu alfa. Cumpri o meu papel na demanda do pior dos meus instintos.
É claro que para acessar meu machucado tive que afastar meu cabelo rebelde e Kane muito cuidadosamente afastou a gola já rasgada da minha camiseta. Seu toque sempre gentil em minha pele, mesmo que o assunto mais importante o grande elefante branco na sala, nunca tenha sido tocado.
Eu sei que precisaremos conversar sobre o meu calor, nosso acasalamento e toda as consequências do que fizemos.
Ou do que o obriguei a fazer.
Mas por enquanto, fechar a persiana da janela, trancar a porta do quarto e me apertar em minha cana de solteiro ao lado de Kane, era tudo o que nós dois precisávamos.
Tomo todo o cuidado para não piorar qualquer machucado de Kane, por isso evito tocá-lo. É claro que não dá certo, não por muito tempo, já que meu Alfa não aceita meu distanciamento e sem demora me puxa para os seus braços.
Meu ninho é muito pequeno, apenas uma cama de solteiro cheia de cobertores, mas meu cheiro nas cobertas faz Kane suspirar, meus feromônios são acolhedores e tranquilos enquanto seus braços tatuados abraçam o meu tronco e cintura, me mantendo presa ao calor de seu corpo.
Estamos abraçados lado-a-lado, ambos suspirando e respirando o cheiro um do outro, seu toque é respeitoso, porém firme e possessivo. Eu deveria contar que minha irmã está viajando metade do país para encontrá-lo, e se eu puder evitar, não chutar a bunda alfa dele.
Devo alertá-lo, eu sei que devo. Todavia, nesse precioso momento quero adormecer nos braços do meu Alfa.
Posso resolver toda a bagunça depois. Ou pelo menos tentar.
Sinto o peito de Kane tremer em um ronronando contente. Sem nem perceber noto que estou acariciando sua pele.
Meu peito estremece ao pensar em como a minha vida mudou tão drasticamente.
Uma semana atrás eu estava andando tranquilamente, solteira e fugindo de qualquer interação com o Alfa nos meus braços, agora estou acasalada e presa a esse homem.
Espero que Kane não me force a desistir da Universidade, ou que me tranque em alguma casa, descalça e grávida de seus filhos.
Mesmo que isso seja tudo o que minha designação deseja, eu não desejo essa vida. Quero terminar meus estudos, quero conseguir um trabalho, quero ser útil para a sociedade e construir uma vida sem estar constantemente presa no nó de um Alfa.
Não acho que Kane seria esse tipo de alfa, mas se ele for vai estar respaldado pelas leis, e eu não terei nada para lutar.
Meu coração se enche de gelo ao pensar nisso.
Alfa não é assim. Alfa protege, dá um bom nó e filhotes gordos.
Me irrito com meus pensamentos vindos do instinto. Sou mais do que minha biologia, eu nasci para mais do que ficar ajoelhada em calor, implorando pelo gozo de um Alfa.
— Alfa, por favor, não me tire da Universidade, eu quero me formar e trabalhar. — Sussurro as palavras em seu peito, minha voz suave, implorando enquanto mantenho meus olhos fechados, rezando por sua resposta. — Vou ser boa, prometo, mas não tire isso de mim.
Imediatamente após minha súplica, sinto o corpo de Kane congelar embaixo do meu. Ele praticamente me vira para estar sobre o meu corpo, e a estranheza do movimento faz com meus olhos se abram de surpresa.
Odeio ter que implorar por algo, suplicar e mendigar por uma coisa que está no meu direito. Mas se é isso que tenho que fazer para manter a minha posição, então farei.
— Emma, meu Ômega. — Suas palavras ainda grossas, arranham nos meus ouvidos, cheios de comando Alfa. Enquanto seus olhos são quentes nos meus, e a seriedade em sua expressão é gritante para mim. Devo prestar total atenção no que ele diz. — Eu nunca farei nada intencional para ferir você. Nunca vou te proibir de estudar, ou te impedir de alcançar seus sonhos e objetivos. Não sou esse tipo de homem e não usarei minha designação para subjugar a sua. Temos muito o que conversar, mas quero que você acalme os seus medos, estou aqui para te proteger, prover e amar, não para exercer um papel de soberania em sua vida.
Não consigo explicar em sentenças o que suas palavras significaram para mim. E no instante em que seus lábios descem para encontrar os meus, não em um beijo lascivo, mas apenas em uma promessa silenciosa de suas palavras anteriores.
Eu posso não conhecer muito do Alfa com quem me acasalei, mas sei que Kane não é o tipo de homem que volta atrás em sua palavra. O que tranquiliza o pior dos meus receios.
E mais uma vez, Kane nos vira em minha pequena cama de solteiro, volto para a minha posição anterior e depois de sentir suas mãos acariciando minhas costas cobertas, paro de brigar com o pior dos meus pensamentos e me rendo ao sono.
Pela primeira vez em anos sonho com a minha mãe. Eu era muito menina quando ela morreu, então minhas memórias a seu respeito não são perfeitas, todavia algumas coisas permanecem intactas em minhas lembranças. A sonoridade suave de sua voz, o brilho expressivo de seus olhos ao me encarar, a aparência de seus cabelos trançados em uma manhã de domingo e às vezes quando tenho sorte, até posso recordar o cheiro dos seus feromônios maternais.
Essa noite fiquei presa em uma das minhas lembranças mais bonitas e aterrorizantes, meu pai estava fora de casa, acredito que tenha ido pescar com os amigos, quando ele ainda seguia alguns passatempos saudáveis, enquanto minha mãe, irmã e eu ficamos sozinhas em minha antiga casa. Essa não era a casa que cresci depois de sua morte e a morte de minha avó. Essa era uma casa luminosa, pintada em tons claros e alegres que enchiam os pequenos cômodos de vida.
Valerie estava lendo um gibi enquanto comia uma torrada amanteigada recém saída do forno, minha mãe estava no fogão preparando minhas panquecas preferidas, receita da minha avó, e que aprendi a fazer muitos anos depois, enquanto eu permanecia sentada em uma cadeira, meus olhos presos na luz da manhã iluminando o seu cabelo preso.
Ela também possuía cabelos loiros, mas mais escuros que os nossos e tão lisos quanto a seda mais suave e macia. E com a luz do sol batendo diretamente neles, os fios pareciam que brilhavam sozinhos, como ouro líquido.
Era lindo, e de onde eu estava podia ver seu pescoço liso, sua marca de acasalamento nunca mordida, já que meu pai é um Beta, e essa designação não possuí os hormônios suficientes para ligar qualquer outro em acasalamento.
A pele tão lisa sempre me intrigou. Mesma em tenra idade, eu já começava a entender como as designações funcionavam, Ômegas casavam com Alfas e Betas casavam com betas. Esse era o natural. Logo, me perguntava, por que minha mãe terminou com meu pai, já que ela era Ômega e meu pai um Beta.
No meu sonho que também era uma lembrança, a coloração vibrante dos cabelos de minha mãe, logo foi substituído pela cor arroxeada de seus olhos inchados de tanto apanhar, e a naturalidade de suas ações para não nos assustar.
Acordei assustada do meu pequeno pesadelo, meus membros tremiam levemente enquanto me abracei ainda mais ao corpo firme em minhas costas.
Kane e eu estávamos inteiramente cobertos, minha posição tinha mudado, já não estava mais deitada em seu peito, agora meu Alfa estava em minhas costas, seu rosto enterrado em meu pescoço, na bagunça dos meus cabelos, respirando suavemente em sono pesado, enquanto seus braços me prendiam pela cintura.
Seu corpo tão grudado ao meu que parecia uma segunda pele. E ao contrário do que muitos dizem, a posição mesmo apertada não era desconfortável.
Nossas pernas entrelaçadas do sono eram incrivelmente reconfortantes. Eu sabia que não poderia estar mais apertada ao meu Alfa, a não ser se estivéssemos ligados pelo ato sexual, quando o seu sexo está dentro do meu, me levando em atos lascivos de paixão.
Não que eu tenha qualquer outra experiência na área, tudo o que sei e experimentei ocorreu no meu Calor e com o Kane.
Evito pensar nisso quando volto a focar no meu sonho. Kane e eu ainda temos muito o que conversar e ficar pensando em sexo apenas levantará meu cheiro para o homem em minha cama, e introduzir sexo não é algo que eu queira nesse momento.
Pensar em memórias dolorosas também não é. Entretanto, me sinto mais segura com aquilo que já conheço, e a dor da perda da minha mãe é algo que estou bastante familiarizada.
Por isso, volto a me aconchegar e tento me lembrar dos detalhes do meu sonho, do rosto machucado de minha mãe, que fez uma péssima escolha em marido e como não sou ela. Minhas escolhas não são iguais, estou acasalada a um Alfa. Um bom homem, que não vai me espancar sempre que algo não ocorra da maneira que ele quer.
Nem percebo que fui puxada para os braços do sono, somente quando volto a despertar é que noto que a persiana do dormitório está toda aberta.
Acordar dessa vez foi ainda mais difícil, então fico navegando entre a terra dos sonhos e a realidade.
— Você parece a porra de uma aberração dormindo com tantos cobertores. — Ouço uma voz feminina reclamar em algum lugar sobre a minha cama, passos pesados seguem, e um pequeno estrondo, como se alguém tivesse chutado algo pesado. — E todas essas malas espalhadas. Cadela de nó...
Ainda estou muito dentro do sono para me importar com quem está reclamando, e nem percebo que os insultos estão sendo dirigidos para mim. Não até Kane rosnar audivelmente em meu pescoço e se afastar muito delicadamente do meu corpo, sinto que ele puxou algumas cobertas, abrindo meu ninho e deixando nossas cabeças livres para o ar de uma nova manhã.
— Você insulta o meu Ômega mais uma vez e não vou me importar que você é mulher ou a porcaria de uma Beta estúpida. Eu te jogo para fora do quarto sem pensar duas vezes. — Sua voz grave está melhor depois de muitas horas de sono, mas ainda é grossa e arranha no ar cheio de rosnados irritados. — Quem você pensa que é para falar assim com minha mulher?
— Kane? — Tento chamar a sua atenção para longe de Lisa, mas seus olhos escuros estão grudados na minha ex colega de quarto com tanta raiva que tenho certeza se Lisa fosse homem, suas palavras grosseiras ao meu respeito ou seus insultos a minha designação não seriam deixados de lado. — Não importa.
— É lógico que importa, essa porcaria Beta acredita que pode te xingar na minha frente. — Suas palavras são dirigidas para mim, mas seus olhos ainda estão presos no local onde Lisa está petrificada. Seu rosto pálido está esverdeado e ela treme visivelmente. — Eu espero nunca mais ouvir você citar o meu Ômega ou farei com que nenhum Alfa dessa Universidade chegue perto do seu cheiro podre.
— Kane, eu não sabia que você estava aqui, eu sinto muito...- Lisa começa a se explicar, seus olhos abertos ao máximo enquanto uma cor avermelhada toma conta de seus traços.
— Não quero ouvir suas mentiras, conheço mulheres iguais a você e sua fama é bem conhecida entre os Alfas, então da próxima vez que você pensar em insultar minha Emma, é melhor parar e refletir quem é a verdadeira cadela de nó. — Kane risca cada palavra do modo mais raivoso possível, impedindo Lisa de ter qualquer chance de se explicar.
Suas afirmações eram duras, mas infelizmente verdadeiras, Lisa realmente tem uma fama de correr atrás de qualquer Alfa que lhe desse bola e sua troca de namorados não a favorece em nenhum ponto.
Normalmente não costumo julgar mulheres por suas escolhas, e a Deusa Ômega sabe todas as noites mal dormidas que tive porque Lisa estava chorando sem parar após mais um de seus términos.
Entretanto, desde que ela passou a me hostilizar sem motivo nenhum, apenas por maldade, hoje tendo a não me incomodar tanto com as palavras fortes de Kane. E algo dentro de mim ronrona em felicidade em alguém colocar Lisa em seu lugar.
Vejo a expressão de Lisa mudar para um tom de vermelho tão forte quanto seus cabelos ruivos. Ela parece indignada e envergonhada tudo ao mesmo tempo, seus olhos se enchem de lágrimas e ela se afasta do quarto o mais rápido possível. Os olhos de Kane ainda queimam na porta que ela bate atrás de si.
Seus braços fortes se enrolam em minha cintura, me puxando para mais perto de seu calor. Não posso deixar de ronronar em desejo genuíno e felicidade.
Fecho os meus olhos e permito que um longo bocejo escape de meus lábios, a manhã não poderia se mais preguiçosa. Então, esqueço a interação que acabou de acontecer e foco no que tenho com meu alfa.
Eu deveria estar em pânico por acordar ao lado de um homem, ou extremamente desconfortável por me encontrar tão próxima de um Alfa. Todavia, meus sentimentos são tão diferentes do que eu deveria estar sentindo, que não sei muito bem o que pensar sobre isso. Deve ser algo relacionado ao nosso acasalamento.
Decido não me machucar em pensamentos confusos, vou aproveitar o que tenho agora.
Kane mergulha o seu rosto no meu pescoço e mesmo com seus braços em minha volta, posso sentir suas mãos acariciando a minha pele.
— Nós precisamos conversar, gatinha. — Escuto a sua voz um pouco abafada.
— Eu sei, mas primeiro você sabe que não pode ameaçar bater em todos que não gostam de mim? — Digo ao levar as minhas mãos as suas costas e acariciar a sua pele nua. Meus dedos traçam seus músculos de modo lento, descobrindo a suavidade e a força escondidos em seus corpo.
Sua risada suave tão perto da minha pele me enchem de arrepios.
— Eu sei, mas sou um Alfa protegendo seu Ômega, posso assustar todos os idiotas que ousarem te machucar. — Sua voz está cheia de sinceridade, e posso sentir em seus feromônios que seu humor está mudando rapidamente de desagrado, com a chegada de Lisa, para algo cheio de calor e humor.
— Chega de brigas, ok? Não quero te ver lutando com ninguém, me encheu de medo de ter brigando. — Respondo o mais verdadeiramente possível.
Escuto Kane suspirar longamente mais algumas vezes antes de me responder.
— Prometer me controlar, mas não garanto que se alguém te ameaçar, eu não vou reagir. Não quero que você tenha medo de mim. — Sua resposta corta algo dentro do meu coração, por isso me movo para uma nova posição, fazendo Kane olhar em meus olhos.
— Não tenho medo de você e nem por você, tenho medo de você matar alguém nessas brigas. Você é assustador quando luta. — Minha resposta parece diverti-lo imensamente. Já que ele gargalha tanto que seus olhos se enchem de umidade.
O vejo rir por alguns segundos antes que ele possa se controlar e me encarar com seus intensos olhos castanhos. Sua diversão está estampada no rosto de modo tão aberto que enchem os meus instintos Ômega de felicidade.
Mas mesmo sua felicidade não pode esconder os machucados estampados em sua pele, seu lábio continua inchado e uma coloração arroxeada está em volta do seu olho. Ele tem sorte de ser tão bom em luta, me admira não estar mais machucado.
— Deus Alfa, Emma. A muito tempo não ria tanto, você coloca uma alta expectativa em minha luta, garanto que tenho um irmão que me põe para baixo em minutos. — Kane me diz ao se aproximar de mim, sua expressão continua divertida, enquanto seu olhar passeia por meu rosto.
— Dylan demorou para te conter. — Respondo o seu comentário, ao lembrar do modo horrível que vi os dois irmãos gêmeos brigando.
— Não é Dylan. Nós temos um irmão mais velho, ele trabalha para a polícia, narcóticos. E mora em outro estado. — Suas palavras são secas no conteúdo, como se Kane não gostasse de falar sobre isso. Porém, não posso deixar que um sentimento de curiosidade cresça em mim. — Dylan e eu não falamos com ele. Thomas é meu meio irmão, de um caso que meu pai teve com uma mulher beta antes de entrar na Universidade. Ele nunca se acasalou com ela, mas assumiu o filho. Anos depois ele conheceu minha mãe. Vi Thomas poucas vezes, e nunca fomos próximos, ele é um bastardo tão grande quanto meu pai, e me coloca para baixo em qualquer luta.
O ressentimento em sua voz é nítido, e seus feromônios comprovam que existe mais nessa história do que ele me conta, todavia decido não insistir, não quero trazer más lembranças para Kane. Temos o suficiente em problemas para não querer acrescentar nenhum mais na lista.
— Eu também tenho uma irmã. Ela também é mais velha e mora em outro estado. Somos apenas nós duas no mundo. — Me vejo desabafando uma parte fundamental da minha vida, agora que somos acasalados não existe motivo algum para esconder isso dele. — Nossa mãe morreu quando eramos meninas e durante algum tempo vivemos com minha avó, depois que ela também faleceu, fomos morar com meu pai, e como ele sempre teve um interesse maior em cerveja, jogos e amigos, logo, minha irma e eu nos criamos sozinhas. Ela é legista, e trabalha para o polícia.
Kane me escuta com toda a atenção, seus olhos escaneiam o meu rosto, enquanto suas mãos ainda me prendem em seus braços.
— Eu tenho que te avisar que ela esta vindo para cá. — Minhas palavras ficam cada vez mais temerosas, não sei a forma que Kane vai reagir ao conhecer minha irmã. Valerie é uma força da natureza. — Eu contei para ela sobre o nosso acasalamento e ela não ficou muito feliz sobre isso, ela é muito protetora e um acasalamento na Universidade não é muito bem o que ela esperava para mim.
— Acredito que um acasalamento na Universidade não é o que nenhum de nós esperávamos. — Sua resposta trava alguma coisa dentro de mim, e meu peito se enche de ressentimento por forçá-lo no meu calor.
Eu sei que errei, que agora estamos ligados por toda uma vida, e mesmo todos os feromônios e hormônios que mexem com toda a composição química dos nossos corpos, não é suficiente para nos fazer esquecer do meu principal erro.
Se eu tivesse tomado todos os meus supressores, não tivesse esquecido de nenhum deles, eu não teria passado por um calor fora de hora e Kane e eu não estaríamos acasalados, ele ainda seria livre para paquerar e dormir com a metade restante da Universidade que ainda não tinha levado para cama e continuaria sua vida de Alfa garanhão, enquanto eu estaria vivendo a minha vidinha de Universitária, monitora de algumas aulas e sem causar qualquer impacto um no outro.
Quer dizer, apenas o que já causávamos normalmente, ficaríamos nos olhares prolongados e encontros desastrosos em momentos inadequados. Meus problemas seriam os de sempre, evitar os encontros com Julian, o alfa mais irritante e grosseiro que já tive o desprazer de encontrar, manter minha gaveta de chocolate cheia para os términos de Lisa, estudar para as provas finais e conseguir aulas suficientes de monitoria para pagar minha passagem para encontrar com Valerie.
Agora todos os meus erros estão batendo em minha cabeça e o pior é saber que empurrei Kane para tudo isso. Ele não queria isso, provavelmente se recente por me acasalar, e não posso culpá-lo, sou um desastre, meu pai estava certo em suas palavras amargas ao meu respeito.
— Ei, Emma. — Sou retirada de meus pensamentos amargos, quando Kane me traz de volta para a terra. Mal percebo que estou chorando até ter meu rosto enxugado pelo meu Alfa, as lágrimas escorrem incessantemente pelos meus olhos. Suas mãos grandes são quentes em minha pele, afastando a umidade em meu rosto, enquanto seus olhos castanhos, sempre tão bonitos estão preocupados e atentos em minha face. — O que aconteceu, o que está errado?
— Eu sinto muito, Kane. — Digo ao me afastar dele, seus braços tentam me parar mas sou mais rápida e logo me esquivo de seu agarro, afasto os cobertores que me prendem no meu pequeno ninho feito em uma cama de solteiro e me sento com meus pés encostando no piso frio do meu quarto estudantil. — Eu sei que não eramos namorados, ou decidimos isso em conjunto. Sei que errei em te forçar nesse acasalamento, eu levo toda a responsabilidade disso e se você quiser me denunciar, vou entender perfeitamente...
— Espere um pouco, do que você esta falando? — Kane me pergunta, sua voz esta mais alta ao se sentar ao meu lado.
— Você está certo, quem quer se acasalar na Universidade? Nós dois nos conhecemos a tão pouco tempo, e nem nos amamos, isso é confuso e realmente nunca pensei que forçaria alguém a compartilhar o meu calor. Você sabe que que eu nunca estive com ninguém, então não tenho experiência nessa área, mas não quero que isso seja uma desculpa para o meu comportamento ruim, e agora que estamos acasalados, minha irmã está voando para cá e acho que ela vai te dar uma surra, e no final é tudo culpa minha. — O meu desabafo é dito rapidamente e quase sem respirar, vejo que Kane me encara com olhos cheios de sentimentos, enquanto os seus feromônios dançam selvagemente ao meu redor.
A verdade é que não sei como consertar tudo isso, estou entrando em desespero porque não sei reparar toda a bagunça que arranjei, e agora empurrei mais uma pessoa no meio disso tudo. Estou com medo do que o futuro me reserva.
O acasalamento é uma decisão para a vida toda, não é algo que alguém escolhe fazer na Universidade, com alguém que nem conhece, é estupides e burrice. Me sinto boba e irresponsável, não é a toa que minha irmã está tão desapontada comigo.
— Emma, olhe para mim. — Meus olhos estão muito embaçados por causa do meu choro incessante, mas ainda assim, respondo ao pedido do meu alfa. Seu rosto machucado, mas ainda incrivelmente bonito me encara de volta, sua feição está cheia de certeza ao prender a minha atenção.
— Eu quero que você preste atenção em tudo o que eu dizer, sei que não nos conhecemos a muito tempo, mas não sou o tipo de homem que mente, e sendo o seu Alfa, te prometo que nunca vou mentir para você, nós não começamos de modo tradicional, mas não sou do tipo que dissimula ou engana. — Suas palavras estão cheias de verdades e até posso notar um principio de comando alfa carregado mais ao fundo em seu timbre, não é nada que me force a fazer algo que não quero, mas que exige a minha atenção.
Ainda levo algum tempo entre suspiros para me acalmar o suficiente para realmente prestar atenção em Kane.
— Emma Carter, você não me forçou em seu calor, dividir esse momento com você, ser permitido em seu ninho foi a coisa mais bonita que já vivi, você me prometeu sua virgindade, e eu a tomei, pois sou seu alfa, estando acasalados ou não, seu calor era meu para conquistar. Eu sei que minhas palavras podem te assustar, mas espero que você entendo que não faço nada pela metade, não é da minha natureza receber menos do que mereço e não estou acostumado a me contentar com pouco. — Me prendo em cada palavra que sai de sua boca, a intensidade escondida em cada sílaba. — Por isso, não me envolvo em relacionamentos longos, por isso nunca me permiti amar ninguém e nunca sonhei em acasalar alguém.
Kane faz uma pausa para respirar profundamente, suas mãos vão encontrar meu rosto e acariciam as minhas bochechas, e é claro que seu toque faz meu corpo arrepiar em resposta.
— Eu amo com loucura, Emma. Meu apego por você sempre será de um homem faminto aproveitando sua primeira refeição em anos. E você está certa, nós não nos amamos, mas posso garantir que sou apaixonado por você. — Meu coração dispara com sua declaração, isso com certeza não é algo que eu esperava ouvir dele. — Você sempre foi muito doce e ingênua para notar meu desejo por você, e tentei esconder, tentei lutar contra porque sei que você merece um alfa melhor, mas durante o seu calor me tornei obsessivo em te fazer minha e sabia que tinha que esperar, mas não pude resistir, fui fraco e me rendi a minha paixão. Sou eu que deveria te pedir desculpas e mesmo agora não consigo ficar triste com a minha decisão, não quando tenho você em meus braços, minha ômega perfeita, doce e corajosa Emma.
Seus lábios descem nos meus em um beijo suave e amoroso, meu perfume alfa está em volta de mim, nossos aromas entrelaçamos para sempre em algo bonito e único. É fácil me perder na macies e calor de sua boca na minha, principalmente quando ele me beija tão intensamente, ou nos seus braços ao meu redor, me enchendo de conforto e carinho.
— Nós ainda temos tanto para resolver, mas não quero que você continue se culpando por algo que não foi sua culpa. Eu acredito que nós dois estávamos destinados a nós encontrar e eu nunca me senti assim por ninguém, você é a estrela mais brilhante do meu céu, e agora que estamos acasalados, prometo ser um alfa melhor, um alfa que você ira se orgulhar de ter ao lado, vamos construir nosso vida juntos, gatinha. Você e eu, então por favor, me dê uma chance de tentar ser e fazer o melhor, de me tornar alguém que você algum dia vai se apaixonar e amar. — Seu pedido me corta por dentro, desmancha as maiores paredes do meu coração e me enchem de sentimentos.
— Eu já sou apaixonada por você, Kane Hunter, e isso também me assusta porque nunca senti nada parecido por nenhuma outra pessoa, mas com você parece inevitável e não quero segurar mais os meus sentimentos. Vamos combinar de sempre ser sinceros um com o outro? — Pergunto mais timidamente, os sentimentos dele não me assustam ou sua promessa de me amar com loucura. A Deusa Ômega sabe que em meu coração isso sempre foi algo que desejei, um homem diferente do meu pai, alguém que não me emprestará ou me dará para nenhum outro homem, que não venderá o meu corpo sem se preocupar com meus sentimentos. Alguém que me quererá acima de qualquer coisa.
Kane Hunter, acredita que sou a estrela mais brilhante de seu céu. O que posso fazer para não me apaixonar por esse alfa. E seu cheiro é forte e intenso ao meu redor, ele não está mentindo, eu saberia se estivesse.
— Eu prometo ser sincero. — Sua resposta é imediata e sela o que disse sobre o seu cheiro. É verdadeiramente um sacramento, então não posso deixar de prender seus lábios nos meus para mais um beijo intenso e quente.
Antes que eu perceba, estamos deitados novamente em minha cama, seu grande corpo cheio de músculos está em cima do meu mais uma vez, ele está se aconchegando entre as minhas pernas e uma de minha coxas já está presa em seu quadril estreito, o puxando para o meu centro.
Seus lábios devoram os meus com intensa paixão, nossas línguas dançam languidamente uma na outra enquanto nossas respirações se misturam.
Para mim é uma revelação poder compartilhar meu corpo sem medo, e meus instintos sabem que estou nos braços do meu alfa, logo não tenho nada a temer, ainda assim, no momento em que sinto as mãos de Kane subirem para apertar meus seios, me encho de vergonha e congelo em seus braços.
Kane para os seus movimentos e me encara ofegante, seu cheiro é tão incrível que me sinto escorrer entre as pernas. Seus olhos demonstram preocupação e crescente paixão.
— Eu nunca fiz isso antes e aqui não é um bom lugar, não quando Lisa pode entrar a qualquer momento. — Resolvo explicar antes que ele tenha a chance de perguntar.
— Você já fez isso antes, gatinha. — Kane me diz com um sorriso travesso em seus lábios grossos de nossos beijos longos.
— Sexo de calor não conta, estou tomada de dor e de desejo por um nó, agora é diferente. — Respondo também com um sorriso esperto, Kane não vai me vencer tão facilmente. — Não sou exibicionista e não quero ser pega transando.
— Me deixa te devorar então, estou salivando por seu gosto em minha língua. Um orgasmo e eu paro. — Sua tentativa de me ganhar é tentadora, eu posso não estar totalmente ciente dos meus atos nos tempos de calor, mas não sou totalmente ignorante do que aconteceu de fato, e as lembranças da sua boca em meu sexo são muito atraentes. Ainda assim, corremos o risco de Lisa aparecer e isso é tudo o que eu preciso para não cair em sua lábia.
— Pela Deusa Ômega, isso é sedutor, mas não vai rolar. Não agora, pelo menos. — Respondo ao depositar um beijo casto em seus lábios cheios. Seus olhos esperançosos são fofos. — Que tal hoje a noite, no seu apartamento?
Kane deita o seu corpo no meu, descansando a sua cabeça no vale entre os meus seios, seu suspiro é quase infantil ao se agarrar ainda mais ao meu corpo.
— Ok, você vai me matar de tesão, mas tudo bem. — Ele me diz e o absurdo da sua declaração me faz rir.
E um instante depois ambos estamos rindo um para o outro. Nossa mudança de humor é toda causada pelo novo vínculo, parecemos duas pessoas bipolaridade e isso não é agradável, entretanto levará algumas semanas até toda a guerra hormonal abaixar e estabilizar.
Kane é tão grande e quente que me cobre melhor do que meu melhor cobertor. Acredito que a melhor coisa é saber que por enquanto estamos bem. E é um alivio notar isso. Temos uma tempestade de problemas pela frente, mas pelo menos estamos juntos no mesmo barco.
Isso me tranquiliza um pouco.
— Eu vou tomar banho, depois podemos ir tomar café. — Digo ao acariciar seus cabelos curtos. A maciez do fio é relaxante e o melhor é que posso sentir Kane ronronar em meu peito.
Meu alfa gosta do meu carinho. Penso feliz, meus instintos dançando dentro de mim. Alfa bom, grande e forte.
— Eu posso usar seu notebook? Preciso enviar uma mensagem para meus professores, eu ainda não assinei as licenças de Rotina. — Kane me pede ainda confortavelmente deitado sobre o meu corpo, estou começando a ficar sem ar pelo seu peso, mas o conforto é tão grande que não tenho coragem de afastá-lo.
— É claro que pode, não tenho senha, então você pode entrar facilmente na rede da universidade. — Respondo ao me mexer, Kane me deixa ir imediatamente e logo estou em pé, buscando dentro das minhas malas por algo para vestir.
Kane continua deitado, observando os meus movimentos pelo pequeno espaço, seus olhos são selvagens em mim, um predador focado em sua companheira. As primeiras semanas de acasalamento são mais complicadas para o casal, tenho sempre que me lembrar que nossos hormônios ainda estão se acostumando e se mesclando incansavelmente.
Os alfas, homens ou mulheres, não gostam de se afastar de seus ômegas, principalmente logo após o acasalamento, podem ficar selvagens e violentos.
Nós omegas, também não gostamos, passamos mal fisicamente longe de nossos parceiros, enjoo, dor de cabeça e enxaquecas terríveis nos assolam.
Mas, é apenas um banho, sei que vamos sobreviver a esse tempo separados, e vou me apressar na minha higiene, meus instintos brigam em minha mente para não me afastar do alfa. Mas estar suja ao seu lado não é algo que me encante.
Também tenho que limpar e refazer seus curativos, então devo afastar minha mente ômega da minha racionalidade e agir de modo adulto e correto.
Antes me me afastar, Kane se levante rapidamente da minha cama e me puxa para um novo beijo molhado, seus lábios são viciantes ao provar os meus e somente depois que estou levemente tonta de paixão é que ele me solta para que eu possa me dirigir ao banheiro no final do corredor.
Acredito que tomo o banho mais rápido que já tomei em minha vida, tento fazer tudo o que é necessário em um pequeno espaço de tempo, não gosto de deixar Kane sozinho em meu dormitório. Primeiro porque ele nem devia estar lá, e tenho certeza de que Lisa vai me denunciar a gerência dos dormitórios, então temos que sair logo. Segundo, porque não confio em Lisa com Kane, não depois da interação deles, tenho medo de Kane realmente perder a paciência e a jogar para fora do quarto.
Meu cabelo é o que mais demora para ficar limpo, manter meus cachos hidratados e bonitos requer tempo, ainda mais por eu ter um cabelo longo, então os nós nos fios são um desafio que tenho pouca paciência para lidar, especialmente hoje.
Todavia, consigo lavar, hidratar e pentear em um tempo recorde. Visto um vestido vermelho florido simples, com pequenos babados e um decote médio. As alças são finas e ele deixa o meu corpo bem definido, mesmo não sendo justo. O dia está quente, então esse é um vestido perfeito para passar o dia, sem contar que bem lá dentro, quero que meu alfa goste do que visto.
Deixo para colocar meu tênis no quarto, e prendo o meu cabelo em um rabo de cavalo alto, os cachos vão passar pelo meu pescoço, mas minha mordida de acasalamento ainda estará bem visível para todos.
E por mais que esteja resolvendo minha situação com Kane, tenho que ter orgulho do que somos agora, um casal acasalado.
Por último escovo os dentes e passo uma leve pomada sobre a minha marca de mordida. Não quero que inflame e não cicatrize direito. Após, aplico minha maquiagem de sempre, e quando me sinto eu mesma novamente, recolho tudo o que me pertence e volto para o quarto.
Assim que entro encontro Kane sentado em minha cama, seus olhos estão presos no meu notebook, enquanto ele digita rapidamente nas teclas. Logo que ele nota a minha presença, seus olhos correm da tela iluminada e se prendem onde estou parada.
Sua expressão é iluminada em desejo e calor, meus instintos correm dentro do meu peito, enquanto meu coração dispara para ele.
Kane suspira profundamente ao colocar o notebook de volta em minha antiga mesinha de estudos e se voltar para mim. Não sei dizer quem se move primeiro, ele ou eu, talvez nós dois fomos no encontro um do outro, o que importa é que ele me pega ferozmente em seus braços, minhas pernas se levantam para abraçar seu tronco enquanto ele passa os seus braços pelo meu quadril, segurando firmemente minhas coxas em sua volta. Nossas bocas se encontram em um choque de desejo.
Mesmo após o beijo Kane não me põe no chão, minha testa está encostada na dele enquanto seguramos um ao outro, os instintos são muito fortes para combater, é bom poder me render a eles.
— Você estava pesquisando a documentação para selar o nosso acasalamento perante a justiça. — Sua voz grossa canta para mim, e nem mesmo ela consegue me afastar da centelha de vergonha que esquenta o meu rosto.
Eu deveria ter esperado, esse tipo de decisão é feita em casal, não sozinha e assustada em meu quarto. Eu devo ter deixado as abas da minha pesquisa abertas, então quando Kane entrou para resolver sua própria documentação de Rotina, para enviar para os professores, ele deve ter se deparado com minha pesquisa sobre os documentos necessários para nós dois firmarmos o nosso acasalamento em um cartório.
— Quando você quer fazer isso, gatinha, hoje, amanhã? — Sua pergunta me enche de nervoso.
— Não tão cedo Kane, talvez quando a minha irmã estiver presente, e Dylan também. Nós vamos precisar de padrinhos. — Eu digo ao desviar meu olhar. Meu cérebro Ômega vibra de emoção.
— Eu quero isso, Emma. Quero selar nosso acasalamento no cartório, e posso encontrar padrinhos para hoje mesmo. — Sua risada animada me faz rir também, Kane estava certo quando disse que não faz nada pela metade. Seu cheiro é sério ao me encarar é isso é outra coisa que deveria ser assustadora, mas não é.
— Podemos esperar minha irmã? — Pergunto quando desço de seus braços, ainda me mantenho em seu abraço, porém agora tenho os pés no chão.
— Claro que sim, podemos fazer nesse final de semana. O cartório no centro da cidade não fecha aos sábados. — Sua voz grossa está cheia de animação, ele é como um menino animado com os presentes de natal.
— Você tem certeza que quer fazer isso tão cedo? Se você quiser esperar, eu entendo. — Digo ao levemente encostar minhas mãos em seu peito largo, traçando com as pontas dos meus dedos o desenho intrincado de suas várias tatuagens.
— Eu quero que você esteja confortável com isso, Emma...
— Eu estou. — Acabo por interromper o que ele dizia. — Vamos primeiro resolver nossa situação na secretária do campus, conseguir nossa reposição de aulas perdidas, e talvez, sarar os seus machucados. Quando minha irmã chegar e com Dylan ao nosso lado, podemos marcar uma data. Que tal?
Kane me responde com um beijo surpresa. E em seguida o seu sorriso aberto é tão bonito que me esquenta toda por dentro. Quem sabe tudo se resolva mais fácil do que eu espero. Não quero criar esperança tão rapidamente, ou me iludir, mas quando meu Alfa me olha assim, cheio de bons sentimentos, sinto que podemos atravessar o que quer que seja jogado em nós. Essa avalanche de sentimentos e trocas de emoções são tão rápidas e intensas que mexem com a minha cabeça e instintos.
Mas, é claro que nem tudo é tão simples e é nesse exato momento que me lembro que não tomei nenhum anticoncepcional depois do meu calor e que nesse exato momento algo pode estar crescendo em meu ventre.
O terror em minha expressão e feromônios devem ser mais que nítidos para Kane, pois logo sua expressão feliz se torna tensa e preocupada.
— Emma, o que aconteceu? — A tensão em sua voz e em seus braços ao meu redor é quase esmagadora, mas o pior filme de terror está passando dentro da minha mente.
— Alfa, você precisa me levar imediatamente para o hospital. — Minhas palavras são um sussurro cheio de medo, enquanto começo a hiperventilar.
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