Devastação
10 Escova de dentes
Notas iniciais
Entramos juntos em um restaurante italiano. Kane manteve uma de suas mãos em minhas costas.
O local era pequeno e muito aconchegante ao olhar, não posso mentir e dizer que não fiquei encantada com a quantidade de casais mais velhos.
Idosos e amigos, era um local tão família que em um primeiro momento estranhei Kane me trazer aqui.
Ele não faz o tipo que frequenta esses locais, então essa é mais uma surpresa para acrescentar nas coisas que descubro sobre ele.
Uma garçonete mais velha vem nos receber, e sem demora nos encaminha para uma mesa pequena.
Kane pediu por um lugar mais reservado e é isso que a gentil senhora nos oferece.
Uma mesa redonda, com cadeiras de madeira, toalha branca e com uma bela vista da janela. Nosso local ficava mais afastado da área central, mas ainda assim tinhamos uma vista privilegiada de todo ambiente.
É claro que para encontrar um local desses, Kane me tirou do campus estudantil e me levou para a cidade.
Desde o nosso envolvimento no carro tenho dito muito pouco, ainda estou me sentindo anestesiada pelas coisas que fiz e que o forcei a fazer.
Mas nada disso se compara com o meu terror ao lembrar do ataque que sofri.
Por isso, a gentileza de Kane, me faz sentir além de segura, me sinto o mais calma que posso, dada a situação que me foi imposta.
Ao olhar em volta, posso dizer que o local não parece ser muito caro, não o tipo chique de filmes e que eu não ousaria entrar.
Esse é o tipo de local que eu escolheria para fazer uma refeição e me sentir a vontade.
Kane, por sua vez, continua me encarando com seus olhos espertos. Hoje, mais do que nunca, posso notar a intensidade desse olhar. O modo austero de sua postura, a curva de seus lábios.
Pela primeira vez noto suas roupas, ele veste uma camiseta preta e jeans escuros. Sua jaqueta preta de couro não faz muito para esconder suas diversas tatuagens. Ele é tão bonito que tenho que segurar um suspiro no peito.
Quando olho em seu rosto não posso deixar de pensar no lábios que me beijaram e que provaram a minha pele.
—Eu quero que você me conte tudo o que aconteceu. Mas, primeiro vamos jantar. O que você acha? — Sua pergunta me desconcerta, mas acabo por acenar positivamente com a minha cabeça, para falar a verdade, não tendo comido quase nada durante todo o dia, e depois de tudo o que aconteceu, fico surpresa ao me encontrar com fome.
— Estou sem dinheiro. — Digo para ele. Kane, não parece ser o tipo que vai me exigir isso. Porém, esta além de mim depender de homens para me sustentar.
— Não me insulte, Emma. Eu posso pagar nosso jantar. — Seu resmungo deveria me irritar, mas o encontro sendo adorável.
Devo estar louca. Penso ao encara-lo.
— Não quis te insultar, apenas não sou acostumada que pessoas paguem coisas para mim. — Explico depois de dar um suspiro cansado. — E agradeço a sua gentileza.
— Não é gentileza. Isso é meu dever e meu direito. — Ele me diz ao aproximar sua mão da minha e tocar a minha pele.
— Não sou sua responsabilidade, Kane. Eu agradeço o que você fez e ainda está fazendo por mim. Mas, não quero ser um fardo para você. — Volto a insistir, ao encarar seus dedos longos acariciando a pele da minha mão. Por algum motivo, não consigo encontrar a vontade de me afastar dele. Então, permito o seu carinho.
— Você nunca será um fardo, Emma. Poder te ajudar é uma honra, é o dever mais bonito que tenho. Você não imagina o que prover para você faz comigo. — Suas palavras estão cheias de sentimentos, seu cheiro me cerca, e quase posso me sentir flutuar em contentamento.
Meu cérebro ômega canta feliz em saber que eu agrado o grande Alfa.
Todas essas emoções são apenas desconcertantes. E minha atual fragilidade faz com que eu não queira escapar disso.
Suas palavras fazem minhas bochechas queimarem intensamente, eu abaixo meus olhos e volto e encarar nossas mãos juntas.
Muito lentamente e de modo muito tímido, consigo virar minha mão para a dele, nossas palmas se tocam, enquanto acaricio sua pele na minha.
— Alfa...- As palavras escapam de meus lábios em um suspiro sonhador. E apenas dize-las abertamente é maravilhoso.
Posso ouvir o som de seu ronronar satisfeito e me sinto arrepiar da cabeça aos pés.
O Alfa está satisfeito. Meu cérebro ômega também ronrona em resposta.
Antes que Kane possa dizer qualquer coisa, somos interrompidos pela gentil garçonete, ela entrega os menus e anota os nossos pedidos.
A mão de Kane nunca deixa a minha, seus olhos sempre me procuram e estou levemente tonta por toda a atenção.
Escolho um prato clássico de espaguete com almôndegas e um suco de morango doce.
Kane pede o mesmo com acrescimo de batatas assadas em azeite. E ao invés de um suco de frutas, ele pele um refrigerante.
Aguardamos a comida chegar por alguns minutos. O silêncio que se instala não é de modo algum desconfortável, não com sua mão segurando a minha e nossos olhares de longa duração. Tudo parece tirado de um sonho, ou algum ridículo filme de romance Alfa e Ômega.
E de repente isso é tudo o que consigo pensar. Ao olhar em volta me pergunto quantas pessoas pensam que somos um casal, que estamos apaixonados e curtindo um momento de amor.
Quando a verdade está muito longe disso. Não somos um casal, não estamos apaixonados, e esse definitivamente não é um momento de amor.
Não depois da noite que tive, não depois que meus instintos Ômegas praticamente o obrigaram a estar aqui, e toda a sua gentileza não é nada mais do que isso. Pura biologia agindo entre nós.
Mantendo esses pensamentos, vagarosamente deslizo a minha mão para fora do seu agarre.
E observo Kane voltar a morder internamente seus lábios, um olhar de desagrado estampado em suas feições, mas me seguro para não me submeter tão rapidamente a ele. Prefiro me estapear do que força-lo a algo que ele não quer fazer.
Não posso permitir que minha biologia tome conta de todas as minhas ações, Kane não merece isso e eu não mereço isso.
Quando a comida chega, Kane espera que eu comece a comer para só então começar a sua própria alimentação.
O gosto do macarrão, com o molho de tomate fresco e o sabor das almôndegas é tão prazeroso que não posso evitar que pequenos suspiros de contentamento escapem de mim.
Vejo a expressão fechada de Kane se iluminar com isso. Algo tão bobo, mas que faz esse grande homem sorrir.
E seu ar é tão leve ao colocar algumas batatas assadas no meu prato, que ele me lembra muito de Dylan e seu rosto sempre sorridente.
— Onde está Dylan? — Questiono curiosa.
— Resolvendo alguns assuntos importantes. — Kane me responde ao me olhar intensamente. — Por quê?
— Nenhum motivo forte, vocês estão sempre juntos e fiquei curiosa. — Respondo depois de dar uma aceno desinteressado com meus ombros.
Voltamos ao silencio, dessa vez constrangedor.
— Kane, eu gostaria de agradecer o que você fez por mim. E pedir desculpas pelo modo que agi. — Me forço a dizer. Esse elefante branco não vai embora. Então, decido que é hora de lidar com ele.
— Eu soube que tinha um Ômega na festa, mas nunca pensei que seria você. — Ouço sua voz dizer, pois estou olhando para a vista da janela. Os transeuntes que caminham tranquilamente em uma noite de sábado. — O que você estava fazendo lá, Emma, e sozinha?
— Eu tive que ir, pelos meus amigos. Bry acha que sou muito sozinha, por isso marcou nossa saída, Samuel e ela fazem tanto por mim, não queria desapontar meus amigos. — Explico ao encara-lo.
— O que me irrita não é o fato de você estar em uma festa, querer se divertir igual a qualquer um nessa universidade. E sim, o fato de você estar sozinha e vulnerável. — Kane me explica, seus olhos queimando nos meus. — O modo que você me encontrou, você estava fora de si de medo. Nunca mais quero ver você dessa forma.
— Sinto muito. — Digo ao encara-lo.
— Você não precisa se desculpar, Emma. A culpa não foi sua. O filho da puta que te atacou tem muito a explicar. — Suas palavras queimam em intensidade. — Vem, vamos embora.
Sem demora vejo Kane chamar a garçonete que estava nos atendendo. Depois de pagar pelo jantar, saímos do pequeno restaurante.
— Você confia em mim, Emma? — Sua pergunta estranha, enquanto estamos caminhando até onde seu carro estava estacionado, me pegou de surpresa.
Por alguns instantes me centro em meus sentimentos, e o que sinto ao estar sozinha ao seu lado. Seus feromonios cheiravam a proteção, e afeto. Eram reconfortantes para o meu olfato.
Kane Hunter sempre me deixou desconfortável, mas nunca pelos motivos errados. E sim, pelo modo que meu corpo reage a sua presença Alfa forte. Tudo nele me chamava a atenção, sua aparência, seu cheiro, seu cuidado. Por isso, não me surpreendo em responder com toda sinceridade que possuo.
— Sim. Eu confio em você. — Respondo ao encara-lo.
— Não vou mentir para você, Emma. Depois do que aconteceu, ainda estou muito ligado aos instintos, e não quero que você se afaste de mim. Mas, se você quiser, posso te levar para seu dormitório. — Kane me diz sem medo algum na voz. Seus sentimentos explodem pelos suas glândulas, e seus feromonios cheiram a proteção e alento. A segurança.
Então, entro em guerra sobre o que fazer.
— Eu não estou com a chave do meu dormitório. — Respondo ao encarar o chão. Uma vergonha crescente queima dentro de mim. — E não quero ficar sozinha, não hoje. Mas, não quero te obrigar a mais nada. Você já fez muito por mim.
— Venha, vamos conversar sobre isso em um lugar melhor. — O escuto dizer ao me levar até seu carro. Ele até mesmo abre a porta para mim.
Quando estamos em movimento, tento muito não pensar que estou tomando uma decisão errada. No mais profundo, sinto que posso confiar em Kane, também em Dylan.
Depois de quase me matar com esse carro, é irônico pensar que acabei de carona nesse veiculo mortal.
Kane, não põe nenhuma música para tocar, estamos em completo silêncio mais uma vez.
Todas as minhas coisas estão com Bry, meu celular ficou na bolsa dela, minhas chaves e minha mochila de roupas ficaram em seu apartamento.
Devo ser a maior dor de cabeça que Kane já teve. Mas, ainda não consigo me manter afastada, serei uma grande mentirosa se não admitir meus instintos mais profundos.
Meu cérebro Ômega pode estar melhor do meu surto de medo, mas ainda está fragilizado pelo o que aconteceu.
Sei que Kane e eu estamos presos em nossas biológias, o Alfa nele comanda que me proteja, e o ômega em mim, que eu não me afaste.
Estou evitando pensar em todas as lambidelas, beijos e intimidades que trocamos. Sei que em algum instante terei que enfrentar essa realidade, todavia não me sinto preparada para isso.
Nunca pensei que estaria no apartamento dos gêmeos mais uma vez, ainda mais nas circunstâncias atuais.
Então, quando entro mais uma vez no domínio de Kane e Dylan, me sinto estremecer. Minha timidez gritante faz com que minhas bochechas queimem, e tenho que passar minhas mãos pelas minhas costas, no tecido do meu short vermelho, em uma vã tentativa de enxuga-las.
Kane parece relaxar agora que estou em seu ambiente, sei que são os instintos Alfa nele que estão em ação.
Desconfortavelmente me sento no sofá grande. Coloco minhas mãos em meus joelhos e o espero.
Kane me deixa sozinha e vai pelo corredor, até o seu quarto. Escuto uma série de pequenos barulhos e imediatamente fico curiosa, não posso deixar de me perguntar, em pensamentos, o que ele estaria fazendo lá.
— Emma? — O escuto me chamar, sua voz grossa reverbera nas paredes do pequeno apartamento. — Você pode vir aqui?
Meu corpo responde ao seu pedido. Então, sem demorar me levanto e sigo com passos certos até a porta do quarto dele.
Não sei bem o que esperava encontrar aqui, nunca parei para ficar imaginando como seria o quarto do gêmeo tatuado, nem de seu irmão. Sempre que o pensamento começava a surgir, eu o afastava com rapidez.
Quando parei na porta aberta e espiei o interior do quarto fiquei surpresa por encontrar um local organizado e simples.
No quarto de Kane, havia uma cama Kingsize, um armário embutido na parede e uma escrivaninha cheia de livros acadêmicos. As paredes brancas eram iluminadas por uma grande janela de madeira.
Entretanto, de tudo isso. Meus olhos ficaram presos na grande cama, onde duas cobertas felpudas, um grosso edredom verde musgo e mais alguns lençóis brancos estavam abertos e dispostos sobre a cama. Formando um grande emaranhado de tecidos.
Sem que pudesse controlar, meus olhos foram tomados por emoção.
— Sei que Ômegas quando passam por momentos difíceis, gostam de se aninhar para se sentirem seguros. — As palavras de Kane penetram no meu cérebro, me fazendo uma bolha de sentimentos. — Eu não tenho muitos cobertores e nem tecidos macios, mas espero que um pequeno ninho possa te trazer conforto.
Quando o encarei e pude notar suas bochechas coradas, tive a certeza de que tomei a decisão certa em vir para a casa dele.
Kane Hunter é um grande Alfa, ele pode não demonstrar para todas as pessoas. Mas, ele é um homem bom e sensível.
Qual outro alfa faria isso por um Ômega em apuros?
Meu próprio pai me rejeitava pela minha designação. O maldito bastardo.
De todos os cômodos desse apartamento, o quarto de Kane era o que tinha o melhor odor. Tudo cheirava a ele. Seus feromônios eram potentes no pequeno quarto. Todavia, não senti nenhum cheiro de mulher, de qualquer designação, também não sentia qualquer produto químico capaz de mascarar esses odores.
Lentamente, entrei no quarto e caminhei até onde meu Alfa estava.
Na explosão das minhas emoções, senti meu cérebro Ômega assumir.
Kane me recebeu de braços abertos e sem questionar.
E foi nesse momento que comecei a chorar. Todo o horror que vivi no ataque, todo o medo e desesperança de lutar sozinha, de ninguém me notar em um ambiente lotado, de ter que fugir e impor a minha presença em um Alfa, implorar por ajuda. Tudo isso desceu sobre mim, igual a uma avalanche.
— Eu estava com tanto medo, Kane. Ninguém estava lá para me ajudar, eu estava em um corredor lotado e ninguém percebeu o que aquele homem tentou fazer comigo. — Me ouvi confessar para ele. As mãos de Kane passavam lentamente pelas minhas costas, meu rosto estava enterrado em seu peito.
Durante vários minutos, ficamos agarrados, Kane não disse nada. Apenas me deixou falar e desabafar.
O seu cheiro me dizia tudo sobre ele. O quanto era difícil ouvir meu relato, o quanto ele se encheu de violência quando mencionei as coisas horríveis que o Alfa desconhecido me disse.
Em algum momento, sentamos lado a lado em sua cama, Kane ainda com seus braços em minha volta.
Sua gentileza imensurável foi o que me fez abrir meu coração e contar para ele tudo o que aconteceu naquela festa, que o que passei nesta noite sempre foi o meu pior pesadelo.
A única vez que Kane disse algo, foi quando contei que quebrei o nariz do alfa para fugir.
O senti sorrir em meu cabelo, enquanto sua voz grossa sussurrou.
— Essa é minha gatinha.
Sua declaração aqueceu meu peito, e logo comecei a voltar ao normal. Sem perceber a quanto tempo estava fazendo aquilo, notei que meus dedos traçaram os contornos das tatuagens em suas maos, a delicadeza e calor da pele tingida de arte fazia meu coração disparar no peito. E entendi que gostava delas, que todas as tatuagens dele eram bonitas e mostravam quem ele era.
— Nada disso foi sua culpa, Emma. Um Alfa nunca deve se forçar em um Ômega, e nenhum homem deve obrigar uma mulher a fazer algo que ela não quer. Você teve uma força enorme para fugir e escapar de alguém descontrolado que queria te estuprar e forçar você em um acasalamento. Isso é nojento, e o bastardo vai pagar por isso. — Suas palavras de apoio são poesia em meus ouvidos. Se fechar meus olhos quase posso ignorar que não o obriguei a assumir esse papel de protetor.
— Eu preciso de um banho, posso toma-lo aqui? — Pergunto, quando consigo acalmar o pior do meu choro.
Eu ainda conseguia sentir o cheiro do alfa que me abordou, impregnado em minhas roupas. Mesmo o cheiro de Kane sendo mais forte, não afogava inteiramente o odor do meu agressor, logo eu conseguia sentir as notas sujas do perfume anterior.
Isso me enojava, e eu apenas sabia que não conseguiria descansar até tirar totalmente o odor daquele alfa de mim.
Sem demora, Kane me soltou e para a minha surpresa me entregou algumas peças de roupa dobrada.
Enquanto estava sozinho no quarto ele preparou tudo o que eu precisava para estar bem e confortável em seu ambiente, pensando antecipadamente em tudo o que eu poderia querer.
Como eu já sabia onde ficava o banheiro, rapidamente me encaminhei até ele, trancando a porta atrás de mim e começando a me despir. Em nenhum momento pude evitar que uma pouco de constrangimento escapasse pelo meu rosto. Então, cheia de vergonha, tomei o banho mais rápido que pude. Até mesmo lavei meus cabelos, pois queria tirar qualquer vestígio do meu atacante, logicamente evitei usar qualquer produto de banho dos gêmeos.
Quando me senti satisfeita, sai e me enxuguei com a toalha limpa que Kane havia me entregado. O tecido felpudo e macio, com cheiro de limpeza foi um alívio para os meus sentidos.
Tentei ao máximo enxugar o meu cabelo, tirando toda a humidade que escorria pelas minhas costas. Sei que meus cabelos amanheceriam rebeldes, com os cachos indomáveis, mas sem meus produtos condicionantes, eu não tinha outra opção.
Fiquei em um tremendo impasse, sobre usar ou não a escova de dentes de Kane, e sim eu sabia qual era, pelo leve odor dele preso no cabo da escova.
No final, acabei sedendo ao impulso da higiene e usei a escova dele. Não senti nenhum nojo, afinal, Kane tinha me beijado mais cedo. Nos dividimos saliva o suficiente para que não sentisse nojo de sua boca. E enxuguei a escova depois, tomando todo o cuidado de coloca-la na mesma posição de antes.
Talvez ele nunca descubra o que eu fiz.
Kane me emprestou uma camiseta de manga cumprida, uma cueca simples no estilo box preta, e uma calça de moletom cinza que tive que dobrar pelo menos quatro vezes no elástico da cintura.
Toda a roupa ficou gigantesca em meu corpo, ainda assim, nunca me senti mais confortável do que naquele momento.
Ter o odor de um Alfa forte me cercando, o cheiro certo, me fez sentir calma e protegida. E como nunca estive muito próxima de Alfas, ter todas essas sensações é inacreditável. Meu cérebro Ômega praticamente ronrona de prazer com essa nova experiência.
Assim que saio do banheiro, tenho o cuidado de não esquecer minhas próprias roupas muito bem dobradas para esconder minha calcinha.
Ao entrar novamente no quarto de Kane, o encontro digitando rapidamente no telefone, e é quando me lembro que não avisei Bry ou Samuel do que aconteceu. Eles devem estar preocupados me procurando. Meu peito se enche de terror e arrependimento no momento que me dou conta que sou uma péssima amiga.
Kane deve ter sentido a mudança em meu cheiro, pois em segundos ele abandonou seu celular e correu para estar ao meu lado.
Em seu rosto uma expressão preocupada ao me encarar.
— O que aconteceu? — Sua voz cheia de comando Alfa praticamente me obrigava a responder. Acredito que ele não percebeu que a usava.
— Eu não avisei a Bry que estava saindo da festa. Ela deve estar preocupada. — Respondo sem demora, expondo a minha repentina angústia.
Vejo-o soltar a respiração e relaxar ao me encarar.
— Não se preocupe, gatinha. Sua amiga sabe onde você está, Dylan já conversou com ela. — Seu timbre rouco e o cheiro dos seus feromônios estão cheios da verdade, então sei que não está mentindo para mim, logo não demoro em relaxar.
Não consigo me afastar quando noto a nova aproximação de Kane, seu cheiro Alfa queima mais intensamente em minhas narinas. Seus profundos olhos castanhos me obrigam a prestar atenção nele.
Estou presa em sua presença e na força que ele exala.
Parece que nesta noite, tudo o que enterrei para não sentir, para não me deixar levar, para me manter afastada, para não pensar em meus sentimentos, tudo isso caiu por terra, e meu mundo se iluminou com o brilho de um par de intensos olhos castanhos.
— Eu quero que você se sinta confortável, então deite e saiba que está segura, amanhã você irá conversar com sua amiga. — Kane me diz ao estender sua mão tatuada para o meu rosto e tocar muito delicadamente a minha pele. Seus olhos correm por meu corpo e se enchem de satisfação masculina. — Vou tomar meu banho. Então, fique tranquila, você está segura.
Sem dizer mais nada ele se afasta. Eu o vejo sair do quarto segurando algumas peças de roupa.
Sem demora, depois de sua partida, me sinto ligeiramente desorientada. Ainda estou muito ligada em meus sentimentos ômega para me sentir segura sozinha. Minha biologia pode ser meu pior inimigo, mas, ao sentir o cheiro alfa de Kane em tudo a minha volta consigo começar a me sentir mais confiante, para não ter um ataque de pânico.
Ninguém vai me atacar aqui. Penso em total modo ômega. Meu alfa vai me proteger.
Ainda ligada aos instintos mais ferozes, levo o meu olhar para a cama de Kane.
Fechando os meus olhos me concentro nos odores a minha volta, principalmente os que vem da grande cama e com satisfação confirmo que não existe nenhum odor sobressalente. Apenas alfa e nada mais.
Sem nem perceber me movo para os lençóis, subindo da cama macia e me aconchegado na suavidade dos diversos tecidos.
Tudo cheiro a segurança, alfa, calor e aconchego.
Imediatamente enterro o meu rosto em seu travesseiro, ali o cheiro é particularmente mais delicioso, então tenho que me controlar para não me esfregar nele, mesclar os nossos odores, ainda assim não posso deixar de passar as glândulas em meus pulsos pelos tecidos.
Algumas vezes sinto a necessidade de passa-los pelas glândulas em meu pescoço, me certificando de ter meu cheiro no ninho que estou construindo.
A ato de nidificação é comum para todos os Ômegas. Até mesmo os homens que nascem nessa designação em algum momento fazem seus ninhos. Por ser um ato compulsório, não temos muito controle, a biologia nos puxa com força e os instintos nos forçam a obedecer.
Alguns Alfas também podem construir ninhos, para agradar seus Ômegas, entretanto o comando do ninho sem dúvida alguma é dos Ômegas.
Estou tão entregue a construção do meu ninho perfeito que perco a noção do tempo, fico maravilhada com o ato de amassar e enrolar os lençóis, cobertores e edredons.
As vezes paro para olhar em volta e verificar minuciosamente o meu trabalho. O ninho sempre tem que estar perfeito.
Toda vez que encontro uma dobra errada nos tecidos, ou algum lugar que não ficou aconchegante o suficiente, me lanço para concertar tudo imediatamente.
Para um beta, todo o meu ninho seria apenas uma grande bagunça de tecido, um amontoado sem sentido. Um desperdício de tempo, os betas não entendem os velhos costumes.
Sou acordada do meu transe quando escuto um ronronar alto. Sem medo, pois não senti nenhum ameaça, olho para a porta entreaberta e vejo que Kane está parado no batente, com seu corpo encostado e seus braços cruzados no peito.
Ele veste uma calça de moletom cinza e uma camiseta branca folgada, seus cabelos curtos ainda molhados e todas as suas tatuagens nos braços a mostra me levam a ronronar em resposta.
É claro que fico envergonhada pela minha resposta. Estou ajoelhada em sua cama, me esfregando em seu cheiro e praticamente babando em seu corpo. Isso não é algo que eu faria, não deliberadamente.
Kane caminha até meu lado e estica a mão esquerda para o meu ombro.
— Você se sente segura agora, pequeno Ômega? — Suas palavras ligadas inteiramente a minha designação me fazem tremer por dentro.
Não consigo responder, então abaixo o meus olhos antes que comece a mendigar por ele.
— O que te aborrece, gatinha? — Kane me pergunta, sua voz grossa faz os pelos do meu braço arrepiar.
Volto a olhar em seus olhos. Estou aterrorizada de me afastar dele.
— Você vai me deixar sozinha, alfa? — Me sinto responder ao apertar a minhas mãos nos edredons que estava segurando. Nesse momento, preciso de algo para me agarrar ou minha coragem vai escapar.
— Você quer ficar sozinha?- Sou puxada para mais uma pergunta. E sinto uma ansiedade em sua voz, algo que ele tenta esconder, mas eu ainda posso notar.
Aceno negativamente, afinal não consigo deixar de responder.
— Você já fez muito por mim, não quero te forçar a mais nada. — Insisto ao encarar, também me sinto ansiosa com tudo o que está acontecendo, todavia não consigo me controlar. E acredito que não quero me controlar.
Kane não me responde, apenas se afasta de mim, voltando para a entrada do seu quarto e fechando a porta. Depois ele desliga a luz, nos deixando apenas com a iluminação vinda da janela.
Hoje, por ser um dia de lua cheia, seu quarto não está inteiramente no escuro.
Consigo vê-lo quase que perfeitamente.
Meu ninho está iluminado fortemente pela luz do luar.
Eu observo atentamente seus movimentos. O vejo voltar para a cama. A subir ao meu lado, por alguns segundos ficamos nos olhando, cada um de nós esperamos pelo primeiro movimento do outro. Toda a postura de Kane demonstra que ele não quer me assustar, ou me forçar a uma situação que pode me afugentar.
Logo, sinto que devo oferece meu primeiro movimento, assim me deito e o aguardo, meu coração está batendo tão forte que tenho certeza que Kane pode ouvir cada martelar. Meu sangue corre rápido nas veias, enquanto o aguardo.
Nunca estive tão intima a ninguém, e isso me faz tremer por dentro.
Kane se deita ao meu lado e sem que eu peça, ele nos cobre com um dos seus cobertores.
Lentamente me arrasto até ele. E para a minha surpresa nos encontramos na metade do caminho. Nossos movimentos são suaves, mas precisos.
Seus braços passam pelo meu corpo, circulando a minha cintura e me puxando para mais perto dele. Estamos deitados um de frente para o outro, fortemente presos em um abraço.
E mais rápido do que começou, todo o meu receio vai embora. Me sinto segura nos braços de Kane. Seu cheiro alfa é intoxicante para os meus sentidos Ômegas.
— Você usou minha escova de dentes. — O escuto dizer bem próximo ao meu rosto e imediatamente sinto o meu rosto voltar a esquentar. Seu hálito é fresco e agradável.
— Sinto muito, Kane. — Respondo o mais verdadeiramente possível.
— Eu não me importo, gatinha. — Sua resposta é quase um sussurro enquanto as sua mãos passam muito lentamente pelas minhas costas cobertas com sua roupa.
Seu carinho acalma os meus nervos e fortalece a minha sensação de segurança.
— Obrigada, Alfa. Obrigada por cuidar de mim. — Volto a sussurrar, lentamente com uma de minhas mãos, puxo o seu braço para a frente do meu rosto e com meu nariz, na luz de uma lua cheia, procuro a sua glândula de feromônio, lambendo-a e beijando sua pele. O seu gosto em minha boca ativa meus instintos Ômegas, no fundo da minha mente algo me diz que tenho que agradar o alfa. Sei que o estou perfumando e não me importo nenhum pouco.
Kane rosna em meu cabelo, me puxando ainda mais para o seu corpo.
Ele não afasta o seu braço de mim, e os sons de agrado que escapam de sua boca apenas me fazem querer agrada-lo ainda mais.
No momento que afasto os meus lábios de sua pele. Sinto Kane puxar, de forma delicada, o meu rosto até o dele.
Não fico surpresa quando sinto os lábios dele procurar os meus.
Me sinto entorpecida de desejo pelo alfa em meus braços. Nunca pensei que a ligação entre um alfa e um Ômega fosse tão forte.
Eu nunca senti um desejo tão forte e certo por um Alfa, e as sensações que tomam conta do meu corpo e pensamento ao estar nos braços de Kane é algo que eu apenas ouvia falar.
Tudo parece correto e no lugar. Eu tenho um bom ninho, com um alfa forte para me proteger. Isso é tudo o que minha biologia mais demanda em mim.
Sentir a língua de Kane explorando a minha é inacreditável, é erótico e faz crescer uma dor entre as minhas pernas. Me sinto impelida a separar minhas coxas e o puxar para cima de mim.
Kane me para antes.
— Me prometa, Emma. — Sua voz esta cheia de comando Alfa quando nos separamos em nosso beijo. — Prometa que sua virgindade é minha, que você é minha. Prometa, Ômega!
Mesmo no escuro, consigo ver o brilho dos seus olhos, tão próximos aos meus, sua expressão seria focada em meu rosto.
— Sim, alfa. Sou sua. — As palavras escapam de meus lábios e vem direto do mais profundo de quem sou. Do Ômega que existe em mim.
Por alguns instantes ficamos apenas nos olhando, ambos surpresos com nossas declarações.
Depois, Kane parece sair de seu transe.
— Vamos dormir gatinha. Amanhã resolvemos essa bagunça. — Suas palavras ditas tão baixinho em meus lábios, juntamente com um ronronar satisfeito, não demoram a me fazer dormir.
O último pensamento que tive foi de satisfação e medo. Uma mistura estranha dentro do meu peito, pelo dia de amanhã.
Não sei o que vou resolver com Kane, se meus instintos finalmente diminuírem, talvez eu consiga voltar a me afastar dos gêmeos.
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