Devastação
7 Curativo
Notas iniciais
Dias atuais
Porcaria, porcaria. Penso irritada ao olhar para o sofá da sala.
Minha caneta preferida caiu debaixo desse sofá estúpido, e agora vou ter que me abaixar de um modo bem degradante para obtê-la de volta.
Dylan insistiu em ir pegar alguma coisa em seu quarto. Estou sozinha em sua sala de estar.
Conforme o combinado, marcamos de nos encontrar na quinta-feira. Dylan me passou o endereço do apartamento dele e do irmão, e o mais importante...
Kane não estaria presente. É claro que não perguntei onde ele estaria, não é da minha conta o que o grande alfa faz em suas horas vagas.
Será que estava trabalhando? Ou estaria com alguma caloura siliconado no colo?
O apartamento deles é razoavelmente pequeno. Pelo que pude notar, existem dois quartos, um banheiro conjunto e uma cozinha aberta com vista para a sala de estar.
Tudo estava organizado e o cheiro de alfa impregnava o local de tal forma que passei todo o meu período de monitoria, lutando contra a minha designação ômega. Tudo isso apenas para não deixar que meus hormônios enlouquecessem.
Minha biologia não me controla. Fiquei cantando isso em meu cérebro, uma espécie de mantra.
Como em todas as aulas, Dylan foi um completo cavalheiro, em nenhum momento me deixou desconfortável ou me perfumou. Nenhuma piadinha sobre a minha designação foi jogada e me mantive tranquila em sua presença.
Ele é um aluno curioso e um pouco disperso. Nada que eu já não tenha lidado antes.
Depois de uma aula substancialmente proveitosa, Dylan me disse que levaria algo em seu quarto e me deixou sozinha na sala.
Comecei a organizar rapidamente o meu material didático.
É foi durante a arrumação de cadernos, livros e folhas que minha mão esbarrou em minha caneta preferida a jogando para debaixo do sofá.
Decidi que era melhor pegá-la antes que Dylan voltasse para a sala, por isso e sem demora, me abaixei em meus joelhos, inclinando o meu tronco para o chão. Estou vestida em uma saia xadrez, por isso tomo todo o cuidado para não ficar em uma posição muito expositiva. Virando o meu rosto para a direita, olho para o vão entre o sofá e o chão. Estava muito escuro para localizar minha caneta, então tive que esticar meu braço no escuro e tatear em busca dela.
Estou concentrada quando sou surpreendida por um rosnar alto. Algo quase animalesco.
— Não olha para ela, porra. — A maldição foi lançada com tal poder, que senti meu corpo gritar em ameaça.
Com presa puxei meu braço de volta e imediatamente senti algo rasgar a minha pele.
— Porcaria. — Resmunguei ao me sentar sobre meus joelhos e encarar minha mão sangrenta. Porém, tinha algo mais importante acontecendo do que a minha mão, então sou tirada da minha dor ao notar de onde veio o barulho que me assustou.
Kane Hunter, está parado na entrada da sala de estar, com uma postura ameaçadora enquanto encurrala seu irmão na parede oposta, o cheiro da sua raiva pica algo em meu olfato, é ruim e fede. Seu corpo todo gera ondas de agressão.
Não sinto nada vindo de Dylan mas não posso negar que minha atenção está concentrada em Kane.
Em questão de segundo sinto meus instintos Ômega dominarem o meu corpo e pensamento. Por isso, quando me jogo em pé e corro para a disputa alfa, não penso nas consequências, apenas em abrandar a raiva do meu Alfa.
Kane passou da fase em que existe coerência, sinto em cada parte do meu corpo que os instintos Alfa nele o estão dominando.
Meus instintos gritam que deve acalmar o Alfa. Não tenho força para negar a enxurrada de emoções que me dominam.
Desajeitadamente corro entre os dois irmãos, espremendo o meu corpo entre ambos.
Não me assusto quando sinto braços fortes contornar a minha cintura, me puxando para o calor de um corpo quente. Enquanto um rosnado ameaçador faz meu corpo tremer. Estou muito dominada pela minha designação para me importar.
Kane me puxa para longe do irmão. Seu toque é protetor e principalmente possessivo. Mais uma vez sou tomada por pequenos ronronados que escapam de mim, parecem uma pequena melodia necessitada. E sem que Kane peça, levo o meu pulso até o seu rosto, oferecendo uma das minhas glândulas de cheiro para o seu olfato e lábios.
Também posso sentir ondas de agressão vindas de Dylan, mas nada tão intensas quanto as que estão acontecendo com Kane.
Kane esfrega o seu rosto em meu pulso, o que me leva a ter uma serie de arrepios. Seus braços estão em volta de minha cintura. Enquanto seus olhos castanhos queimam em mim.
Fico neste misto de sentimento por alguns minutos. Apenas volto do meu entorpecimento quando vejo a mancha vermelha escorrer para a camiseta de Kane.
Entretanto, no instante em que tento me soltar de seu agarre sou barrada.
— Não, ômega. — A voz gultural de Kane me paralisa em um comando alfa. Ainda levo alguns segundos para processar tudo.
— Alfa, dói. — Minha voz sai em um sussurro. Lentamente observo o filete de sangue que escorre de um pequeno corte próximo ao meu dedo anelar.
Tenho que admitir que todo o momento parece um trecho escrito em alguns desses livros de banca de jornal.
Os olhos de Kane viajam para o corte em minha mão e em um piscar de olhos sua postura muda. Seus olhos crescem e se tornam assustados.
— Eu te machuquei? — Sua pergunta é um sussurro preocupado. Ainda assim ele não me solta de seu aperto. Algo triste cresce em sua aparência, uma sombra que parece esmagá-lo.
— Não. — afirmo no instante em que consigo me afastar de seu aperto. — Me cortei com o seu sofá.
Não consigo me afastar para muito longe, não quando as mãos de Kane voltam a encontrar a minha pele, dessa vez ele segura as minhas mãos, e com cuidado examina o meu pequeno corte. Antes que eu possa reafirmar que estou bem, Kane puxa suavemente a minha mão sangrenta para os seus lábios e lambe o pequeno corte, até que o sangue que mancha a minha mão seja limpo pelos seus lábios macios.
É a primeira vez que sinto os lábios de um homem em minha pele. Pelo menos de modo consensual.
Esse é o ato mais profundo de perfumar alguém. Algo tão primitivo que nem é bem aceito em nossa sociedade moderna.
Estou em completo choque. Meus joelhos tremem e não posso evitar que meu queixo caia em surpresa.
Ele continua a sua exploração oral em minha pele, até alcançar outra de minhas glândulas de feromônios localizada no meu pulso, seus olhos estão fechados e Kane fecha os seus lábios quentes no rosado da minha glândula, a sugando e lambendo com sofreguidão.
Os tremores no meu corpo aumentam tanto, que me sinto levemente tonta de prazer.
Meus instintos Ômega disparam e algo em minha mente bagunçada por sensações, dispara em prazer, pois meu alfa gosta do meu cheiro, tem prazer em minha pele e está me perfumando agressivamente.
— Kane, que porra você está fazendo? -Somos trazidos para a realidade quando Dylan nos separa. Sou tomada por uma onda de medo no momento em que sinto o meu alfa ser afastado de mim.
Mas, logo que o sentimento surge, a realidade também bate em mim.
O que estou fazendo? Penso ao agarrar o meu pulso e segurar exatamente onde a boca de Kane estava, alguns segundos atrás.
Kane parece estar tão muito atordoado. Seus olhos brilham em ameaça para Dylan, que nos separou, depois se abrem largamente em terror ao notar o que estava fazendo.
— Emma, eu...- Sua voz está carregada. Mas, decido que não quero ouvir.
— Você tem algum curativo?- Pergunto ao me forçar a sair de meu estado de torpor.
— No banheiro. — Dylan me responde.
Sem falar com nenhum deles, sigo rapidamente para o banheiro. Imediatamente sinto Kane em meus passos. E não sou capaz de afastá-lo, pois meus feromônios ainda cantam para ele.
O seu cheiro está mais forte ao meu redor. Com nuances protetoras e cheias de calor. É intoxicante de tão bom, por isso não fecho a porta do banheiro trancando-o para o lado de fora. Apenas o observo se escorar no batente, com os braços cruzados no peito e uma expressão fechada no rosto.
Sem pedir permissão começo a abrir as gavetas do gabinete da pia, procurando pelos curativos.
A primeira gaveta está cheia de preservativos, a surpresa da minha descoberta queima em meu rosto, e não posso me impedir de corar. Seguindo o meu momento de descobertas embaraçosas, a segunda gaveta também está cheia de preservativos.
— Isso é algum tipo de piada? Quantos preservativos um homem precisa?- Não posso evitar que meu aborrecimento escorra pelos meus lábios.
A risada de Kane me tira do aborrecimento. É o primeira vez o que escuto rir.
— Tão puritana, vai me dizer que não anda com algumas guardadas? — Sua pergunta faz com que meu rosto queime ainda mais intensamente.
— Não. Eu não tenho nenhuma guardada. — Não tenho tanta certeza de porque respondo ao seu questionamento. Para me distrair abro a torneira de coloco a minha mão cortada embaixo da água corrente. Examino o meu corte e vejo que não foi nada grave.
— Isso é errado, Emma. Mesmo as mulheres tem que se proteger. — Ele insiste no assunto o que começa a me irritar.
— Eu não preciso de preservativos para me proteger. — Retruco no mesmo instante em que fecho a torneira e dou as costas para Kane ao me virar para secar a minha mão em uma toalha cinza.
Quando me viro novamente para a porta, me assusto com a proximidade de Kane. Com o meu constrangimento crescente, não notei que ele se moveu e veio para mais perto de mim.
— Por que você não precisa deles? — Seus braços estão segurando a pia atrás de mim, me mantendo presa, seus olhos estão mais escuros que antes e a sua voz possui inegavelmente um comando Alfa. Demandando a minha resposta.
— Porque sou virgem. — A resposta escapa de meus lábios antes que eu possa pensar em responder.
Vejo Kane morder suas bochechas por dentro, em seguida trincar o maxilar. Seus olhos escurecem enquanto o vejo inspirar profundamente. Meu rosto queima mais do que nunca. Estou enormemente constrangida e não sei o que fazer, principalmente no instante em que sou atingida por feromônios que cheiram a satisfação.
Meu cérebro ômega vibra em contentamento pela satisfação dele. Consegui fazer meu alfa satisfeito, e isso me faz ter vontade de inclinar minha cabeça para trás, liberando o caminho no meu pescoço até minhas glândulas de feromônios para a sua inspeção.
Sei que me submeter assim vai aumentar ainda mais a satisfação do Alfa na minha frente.
Estou prestes a agir em favor dos meus hormônios ômega , quando somos mais uma vez interrompidos por Dylan.
— A pizza já está chegando.
Começo a me agitar, mas Kane não permite que eu me afaste.
— Vou cuidar de você, gatinha. — Sua voz arrasta perto do meu rosto. Estamos muito próximos e isso me desconcerta.
Ainda mais desconcertante é a forma com que ele cuida do meu ferimento. Nem noto de onde ele tirou um pequeno quite médico, e com muito cuidado aplica uma quantidade pequena de pomada em cima do meu corte e depois coloca um curativo por cima.
O tempo todo as suas mãos são firmes, e seu toque quente quase como um carinho faz minha pele arrepiar.
Me mantenho calada para que meus segredos continuem guardados. Ainda não posso acreditar que contei para ele que sou virgem.
Me sinto estúpida.
Kane tem tanta experiência. E eu não tenho nenhuma, sei que seu cheiro demonstrou satisfação, mas pela primeira vez me sinto insegura em sua presença.
— Não conta para ninguém o que eu disse para você. — Mais uma vez deixo que meus pensamentos vazem pelos meus lábios. — Não gosto de me expor.
— Seus segredos estão seguros comigo. — Sua resposta acalma o meu coração. Por algum motivo que não consigo explicar, acredito nele.
Toda essa situação com Kane é desconfortável, mesmo com a minha interação com outros alfas, nunca passei por algo tão cru.
— Minha saliva deve ajudar no corte. Amanhã já não existirá nada. — Escuto Kane dizer depois de um longo suspiro e um último toque em minhas mãos.
— Obrigada. — Respondo ao encará-lo, quando Kane se afasta, posso voltar para a sala.
Dessa vez ele não me segue.
Meus passos são lentos e não sei muito bem o que estou sentindo, meus instintos ômega ainda estão poderosos dentro de mim, me sinto desconfortável em meu próprio corpo, minha glândulas de feromônios coçam, e a que Kane provou lateja em meu pulso.
Estou acalorada, corada e envergonhada. Sei que tenho muito a refletir. Tenho que me afastar desse apartamento e desses dois alfas.
Minha aula de monitoria com Dylan foi ótima, mas esse final foi um desastre completo.
Acredito que o pior é o cheiro de Kane em minha pele. Nas manhãs glândulas, ele me perfumou e agora consigo sentir seu cheiro em mim. Isso me desconcerta mais que tudo, faz com que me sinta necessitada e estranha.
Quando olho para Dylan, não há nada estranho em sua postura, mesmo tendo quase brigado com Kane. Fico envergonhada de ter sido o motivo para a desavença deles.
E não quero imaginar as coisas que estão passando em sua mente agora.
Será que ele acha que sou uma ômega descontrolada?
É melhor eu não pensar nisso.
— Eu encontrei o que você estava procurando debaixo do sofá. — Dylan diz ao me entregar minha caneta.
Depois de pegar a minha caneta , me volto para o meu material didático que ficou em cima da mesa de centro da sala e depois de me ajoelhar no chão, termino de guardar o que ficou de fora.
Estou um pouco deslocada sobre o que fazer, por isso decido ir embora.
— Obrigada por encontrar a minha caneta, minha irmã me deu. — Agradeço depois de um suspiro.
Quando levanto o meu olhar, Dylan continua a me encarar com o seu sorriso habitual, e encontro Kane encostado na parede do corredor, novamente com seus braços cruzados no peito e uma postura orgulhosa. Seus olhos castanhos queimam nos meus, e não posso escapar disso.
Sem que consiga controlar, volto a corar, por isso desvio o meu olhar de volta para a minha mochila.
— É melhor eu ir embora. — Digo para ninguém em especial. A noite, certamente, não terminou do modo que imaginei.
E como ainda estou acalorada, com meus instintos ômega ainda gritando comigo para que eu vá até Kane e o agarre, tenho que ir embora e tomar um longo banho. Provavelmente, tomar mais um dos meus supressores. E tentar de toda forma esquecer o que senti quando ele colocou seus lábios na minha pele.
Me envolver com qualquer alfa vai estragar todos os meus planos universitários.
— Fique, eu pedi pizza. — Dylan tenta me convencer.
— Eu não posso, desculpe. — Respondo ainda sem encarar nenhum deles, sei que estou sendo covarde, todavia não consigo mudar o meu desconforto. E se não sair e ficar para comer pizza, é bem capaz de cair em Kane e seu delicioso cheiro.
Também estou muito envergonhada por ele saber que sou uma patética virgem.
— Vou comer alguma coisa com minha amiga Bry. Já estava marcado. — Acresento, e rezo, rezo muito para que minha mentira passe despercebida.
Acabo por não esperar nenhuma resposta dos gêmeos, apenas caminho até a porta do apartamento, com minha mochila nas costas.
— Eu vou com você até lá embaixo. — A afirmação de Kane, faz os pelos dos meus braços arrepiarem.
— Nos vemos na próxima monitoria. — Dylan se despede com um aceno cordial.
Não respondo nada, apenas aceno de volta.
Antes que perceba, tenho Kane em meu encalço mais uma vez. O seu corpo às vezes encosta rapidamente no meu, pois estamos andando lado a lado.
Minha mãos coçam para tocá-lo. De certa forma é pura tortura.
Andamos em silêncio até o local onde deixei a minha Blue estacionada.
— Escute Emma, sinto muito por meu comportamento. Não quero que você tenha medo de mim. — Suas palavras fazem algo acontecer em meu peito. Fica difícil segurar um suspiro.
— Eu não tenho medo de você. Mas, agradeço a sua preocupação. — Respondo depois de prender minha mochila no cesto branco da bicicleta e cuidadosamente montar para ir embora. Tomo todo o cuidado para a minha saia xadrez não subir demais.
— Me promete que vai ter cuidado nas ruas, até chegar no seu dormitório. — A voz grossa de Kane, arranha em minha audição, é aterrorizante compreender o quando gosto do seu timbre masculino.
Tenho vontade de ronronar para ele, estou fora de controle.
— Eu prometo, Kane. — Respondo em um sussurro assustado, nós saímos de não ter nenhuma interação para prometermos coisas um para o outro. Isso é muito maluco para entender sem surtar um pouco.
Não quero me ligar em Alfa nenhum, principalmente nesse que mexe tanto comigo.
Kane parece que quer dizer algo mais, porém no último momento se abstém, ainda o vejo morder sua bochecha por dentro da boca, e novamente trincar seus maxilar. Isso deve ser alguma espécie de tique nervoso.
Quem sou eu para julgar, até acredito que ele fica fofo quando faz isso.
Porcaria. Penso ao me recriminar, achar Kane Hunter fofo é um caminho muito perigoso. Eu preciso me manter afastada desse alfa.
Com presa e sem nenhuma despedida, pedalo para longe do apartamento dos gêmeos.
Tenho muito em que pensar. Preciso colocar os meus sentimentos em ordem.
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