Notas iniciais
Olá pessoas, Prontas para mais sofrência? Estamos na reta final... ;*

O medo deve estar saltando dos meus olhos. E encarar Dylan não me ajuda em nada.

Imediatamente o vejo pegando o seu celular no bolso, então corro para interrompê-lo. Sei que ele está prestes a chamar por Kane, meu Alfa deve estar presente nesse momento, isso é tudo o que meus instintos mais profundos demandam, todavia, ao mesmo tempo isso é tudo o que eu não quero.

Kane acabou de sair de mais uma luta e não desejo que ele volte tão cedo para outra. Principalmente agora que me prometeu não brigar. Ele não merece sujar sua reputação e se colocar em risco por um verme igual a Julian Stuart.

— Por favor, não. Não quero Kane aqui. — Digo ao tocar na mão que Dylan segurava o celular, parando a sua ação.

— Porra, Emma, alguém te bateu, está na cara e não tente negar. Kane tem que saber...

— Não, por favor, ele me prometeu que não lutaria mais, não o quero brigando com ninguém, por favor Dylan. — Respondo ao fazer uma péssima tentativa de me controlar, me agito para secar as lágrimas do meu rosto.

Dylan me olha como se eu estivesse louca ou alucinando, suas narinas se abrem em desgosto enquanto ele me agarra pelos braços, não de uma maneira forte que pode me machucar, apenas de modo mais firme e me puxa pelo beco, de volta para a porta de onde ele saiu, não chegamos a entrar no prédio, mas estamos mais escondidos do que antes.

— Se você não quiser que eu conte para o meu irmão, você tem que me contar tudo o que aconteceu, e vou saber se você mentir. — Suas palavras estão carregadas, é assustador de ouvir, já que Kane é o gêmeo rabugento, enquanto Dylan está sempre risonho e de humor leve.

Tenho poucos segundos para decidir o que fazer, mas acabo por me ater a verdade, estou assustada e amedrontada, odeio me sentir assim, todavia sei que a única forma de obter algum alívio será conversando com alguém.

No momento não tenho muitos amigos, mas sei que posso contar com Dylan, ele e seu irmão sempre foram os melhores Alfas que já conheci, sempre me trataram com respeito e atenção, por isso decido dar um voto de confiança e dizer tudo o que passei nas mãos de Julian.

Tento muito segurar minhas lágrimas, não quero me tornar uma bolha lacrimosa e chorona enquanto o meu relato escapa por entre os meus lábios.

Os lugares em que fui espancada doem terrivelmente, porém não acredito que quebrei nada, estou apenas dolorida e assustada.

Depois do incidente com o beijo, enquanto Julian ainda namorava com minha amiga Bry, me mantive afastada o máximo possível, sempre senti uma sensação estranha ao redor dele, ainda azeda que dominava minha garganta e me deixava sempre meio enjoada e verdadeiramente atenta, eu associava isso a sua designação Alfa. Não sei o que ele viu em mim, mas o ar em sua volta sempre me pareceu tóxico e pouco atraente.

Entretanto, mesmo com meu julgamento sobre o seu caráter, Julian nunca tentou nada muito drástico, nenhuma abordagem violenta, somente assustadora, se é que posso levar isso em conta sobre ele.

Eu sempre soube que tinha que me manter atenda ao seu redor, e normalmente quando ele estava por perto, eu logo tratava de me esquivar e fugir antes que ele tivesse tempo de me abordar, durante o último ano isso bastou para me safar da presença dele. Foi somente nos últimos meses que ele começou a me assediar de forma mais agressiva, sempre afirmando coisas sobre nós dois que ocorriam unicamente em sua cabeça.

Essa coisa de afirmar que um nascido ômega pertence a um determinado alfa é algo já proibido perante a lei. Se não houve uma mordida de união que forma um acasalamento, nenhum alfa pode afirmar ter controle ou direitos sobre um ômega.

Não vivemos mais na idade média, nos tempos modernos ômegas são considerados indivíduos participativos, cidadãos e com direitos. Não somos mais rebaixados a uma posse, ou usados como moedas de troca de favores, de alianças ou financeiros. Isso é ridículo.

Mas, é culpa minha que hoje passei por isso. A muito tempo que eu deveria ter exposto o assédio que sofria com esse homem. Sou tão burra, que mesmo com um passado cheio de marcas, não consigo me levantar e brigar sozinha.

Aposto que Julian não ousa falar assim com nenhum outro ômega dessa Universidade, ele acredita que sou o elo mais fraco entre todos aqui, provavelmente porque sempre me mantive afastada dos meus, preferindo permanecer em um dormitório de betas, ao me aliar aos meus colegas de designação.

Homens iguais a ele são doentes e perturbadoramente enganosos, escondem sorrisos brilhantes e uma expressão de bom moço, enquanto perseguem e assustam outras pessoas, tudo isso fingindo ser algo que não são. E a designação Alfa não pode ser considerada um fator predominante em seu comportamento distorcido, meu pai é nascido Beta e possui em seu espírito a mesma perversidade que Julian.

O que aconteceu entre Kane e eu, nosso acasalamento e nossa decisão de compartilhar uma vida juntos, mesmo não nos conhecendo há muito tempo, não faz de Kane um predador sem juízo, eu não fui uma pressa em suas mãos. Muito pelo contrário, hoje sei que lutamos muito contra a atração que nos empurrava juntos, e continuo afirmando que se eu tivesse que escolher algum homem para ser meu parceiro e namorado nessa universidade, meus olhos e pensamentos estariam voltados para Kane Hunter.

Alfa é o certo. É bom, protege, é um bom provedor, e um amante insaciável, dará um bom lar e bebês gordos. Penso ao tentar manter minha mente firme, não posso conter meu cérebro ômega de ter pensamentos aleatórios.

E é por isso que decido abrir meu coração para Dylan e explicar exatamente o que aconteceu, e quanto tempo isso vem acontecendo. Não deixo nada de lado, e enquanto meu relato escapa as vezes agitado e em outros momentos cheios de clareza e medo, noto que suas expressões, tão parecidas e diferentes que ele compartilha com seu irmão, vão transformando suas emoções em expressões cada mais ferozes, irritadas e apreensivas.

Seus olhos castanhos, na mesma tonalidade dos de Kane, brilhavam ferozes em meu rosto, seus braços então em volta de mim, me segurando e me mantendo inteira.

Quando ele pede para ver meus ferimentos, eu permito com muita vergonha, pois preciso da ajuda que ele tão gentilmente está me oferecendo, ainda assim, sinto meu rosto queimar de constrangimento. Antes, ele observa para ter certeza de que estamos seguros de qualquer olhar curioso.

Com seus dedos gentis ele descobre que estou com um corte na cabeça, meus joelhos e cotovelos estão um pouco ralados do chão e das minhas tentativas de fuga, e o lugar onde Julian me socou no estômago bem perto nas minhas costelas esta começando a florescer em uma cor avermelhada, é certeza que a pele ficará roxa.

Nem preciso contar quem me bateu, Dylan consegue sentir o cheiro de Julian e o reconhece de uma de suas interações. É assustador vê-lo tão descontrolado com o que aconteceu. Mas, de tanto insistir, ele concorda em não contar para Kane.

Toda a sua postura demonstra que ele não está feliz em deixar Julian se safar, mas estou certa que o bastardo sem valor não terá coragem de chegar perto de mim, principalmente depois que consegui fugir.

— Nos próximos dias vou ficar de olho em você. Mas, deixo claro que não estou de acordo em esconder isso de Kane, vocês são acasalados agora e esse filho da puta merece receber uma lição e garanto que meu irmão sentira prazer em desmembrar aquele merdinha. — Suas palavras estão cheios de rosnados irritados.

— Por favor, Dylan, não quero que Kane brigue com ninguém. Ele me prometeu e Julian é um covarde. — Explico depois de conseguir controlar as minhas lágrimas, sinto meu rosto inchado e quente, mas estou certa que a vermelhidão do choro não vai demorar a passar. — Não quero que Kane suje suas mãos com aquele lixo de homem.

— As vezes é necessário lutar por quem amamos, Emma. — Sinto o meu peito queimar com suas palavras. — Você é a companheira do meu irmão, é o direito dele e meu também.

Por mais que suas palavras me encham de carinho e aceitação, até mesmo proteção, acredito que não vale a pena revidar a violência de uma pessoa maligna, isso é tudo o que Julian espera, e não quero que ele tenha nada do que deseja, não as custas dos meus garotos.

E essa é outro sentimento que me assusta, a clara certeza de que Kane e Dylan são parte da minha família tanto quanto minha irmã Valerie. Eu deveria saber que algum dia me sentiria assim, apenas não parei para pensar sobre isso, já que os últimos dias após o meu calor foram tão conturbados e cheios de novidades.

Dylan é como o irmão que sempre quis ter, e agora que estou com Kane posso considerá-lo assim, isso é um sentimento bom comparado aos horríveis que senti nas mãos de Julian.

Ainda levo alguns minutos, mas consigo convencer Dylan a guardar esse segredo, ele não parece feliz, mas está resignado em me agradar. E é ele que insiste em me acompanhar até a casa de fraternidade onde estão as minhas coisas.

Tenho que subir em sua moto, o que me deixa nervosa, afinal ele pilota muito rápido e certamente ficarei enjoada.

Quando chegamos na porta da fraternidade, sinto o meu celular tocar e vibrar com uma nova chamada de Kane.

É difícil atender, principalmente porque ainda não estou cem por cento, porém Dylan permanece ao meu lado, seus olhos atentos em mim, com uma carranca de desgosto ao me ouvir mentir para seu irmão.

Eu digo que não é mentir, é omitir, já que de certa forma conto que encontrei Dylan no campus e ele me ofereceu uma carona até meu novo dormitório.

Ainda tenho que inventar algo para não encontrar com Kane durante o resto do dia. No plano original, nós dois iriamos almoçar juntos e após o término das aulas eu voltaria para o apartamento deles. Mas, depois do que aconteceu hoje quero apenas me enrolar, dormir e tentar me curar das dores do meu ataque. Sei que se encontrar com Kane, não vou conseguir esconder o que aconteceu, por isso, o melhor plano que consigo bolar é me fortalecer para depois encontrá-lo.

Para obter o resultado que espero, decido inventar uma história sobre uma monitoria de literatura que me apareceu dentro da fraternidade e que depois preciso estudar, o melhor é nos encontrarmos amanhã.

Sei que sou uma péssima mentirosa, e o rosto de Dylan expressa bem o seu descontentamento e incredulidade com minha mentira branca. Todavia, isso é o que me resta para o dia.

— Eu vou abrir uma queixa contra Julian pelo aplicativo da secretária do campus. Vou pedir ajuda para a conselheira da fraternidade. — Falo para Dylan assim que desligo o telefone celular, sei que Kane não ficou satisfeito com a minha mudança drástica em nossos planos, porém não consigo encontrá-lo hoje, não quando meus instintos gritam por ele e me sinto estranha com toda a situação.

— Por favor, faça isso. — Suas palavras são mais fortes do que nunca, sua expressão queima em certeza e raiva. — Mas posso te garantir, Emma, o filho da puta não vai mais encostar em você.

— Olha, só porque não quero que Kane saia por ai brigando, isso não significa que você está isento, ok? Eu também não quero que você ande pelo campus bancando o justiceiro. — Respondo o mais verdadeiramente possível, chego a estender a minha mão e tocar levemente no braço de Dylan, seus olhos descem e queimam onde o estou tocando e tenho certeza que ele sente que tem a responsabilidade de me proteger, afinal, estou com o irmão dele agora. — Então você também tem que me prometer que não vai brigar. Depois que fizer minha reclamação, estou certa que a secretária ira resolver essa situação com Julian e ele será devidamente punido.

— Você é muito mandona, sabia? — Dylan me diz ao me puxar para um último abraço, pela primeira vez na tarde vejo o seu costumeiro sorriso aberto surgir. — Um ômega tão pequeno devia ser doce e suave, apenas obedecendo os Alfas da família. Com uma falta tão grande em sua personalidade e sendo tão baixinha, não sei porque meu irmão decidiu te acasalar.

— Você é um chato, se não estivesse tão abalada te daria um soco no estômago, e acredite eu sei que um soco nessa parte doí muito. — Tento seguir sua brincadeira, mesmo que no fundo ela me irrite um pouco, mas já estou ficando acostumado com ele me chamando de baixinha, mesmo que eu não seja, afinal tenho um ótimo tamanho para uma mulher ômega.

Depois disso, nossa despedida é rápida e ainda fico para trás para ver Dylan ir embora em sua moto assassina. Pela Deusa ômega, juro que prefiro mil vezes a minha bicicleta.

No momento em que sua silhueta some em uma das curvas da longa rua residencial onde a fraternidade está localizada, me apresso para dentro, e é quando me lembro que Dylan não respondeu a minha promessa, fico pensando nisso durante alguns segundos, todavia no final sei que ele vai honrar sua palavra.

Em seguida, saio dos meus devaneios e incertezas e sigo para a casa. Já lá dentro levo um tempo e coragem para decidir o que fazer, se abro ou não uma reclamação contra Julian. Agora que ele conseguiu me machucar e se vingar, não acredito que ele voltará a me atacar, ele seria muito estúpido em agir assim. Por isso, decido que vou esperar mais alguns dias para abrir a reclamação. Se eu sentir quer ele continua a me importunar, vou direto na secretaria abrir a queixa, talvez posso ir até a segurança do campus também. Então opto por deixar Penny fora disso.

Me instalar, tomar banho, comer alguma coisa e ir para o meu quarto é mais fácil do que eu imaginava, tirando a preocupação de que fui espancada por um lunático, para não ficar pensando nisso decido organizar minhas malas, guardar minhas coisas dentro do meu novo pequeno armário, nunca fui uma pessoa bagunceira, sempre tento manter o máximo de cuidado e higiene com as minhas coisas. Novamente minha colega de dormitório não esta comigo, o seu lado do quarto é organizado, mesmo que seu ninho na cama continue intacto.

Não sei o que o meu ninho deve parecer para outras pessoas, eu teria que perguntar a Kane, ou Valerie, já que ambos são os únicos que já me viram aninhar e me esconder em minha construção de lençóis e cobertores.

Eu nunca vi o de minha irmã, nunca estivemos perto quando ela está em Calor, tirando a primeira vez quando ambas éramos pequenas e meu pai a vendeu, ainda assim, como permaneci trancada no porão, não cheguei a ver o ninho que ela construiu.

O ato de nidificação é muito pessoal para um ômega. Logo, poder ver o ninho que outra mulher construiu é algo bem diferente do que eu esperava. Mesmo esse não sendo o seu ninho de Calor.

Kate, minha colega de quarto, tem um ninho bem fofo. É tão bagunçado quanto o meu, mas isso deve ser uma característica da nossa designação, ainda assim, acredito que o trabalho dela é bem fofo. Seu cheiro é forte, mas não desagradável, então evito tocar em qualquer coisa, pois sei que ela saberia que eu estava curiosa.

Não fico surpresa quando não consigo dormir, mesmo depois de toda a arrumação, meu corpo dói em todos os lugares, principalmente onde fui mais maltratada, por isso tenho que tomar alguns comprimidos para dor e chego a aplicar uma pomada para sarar meu corte na cabeça, os arranhões nos meus joelhos e cotovelos. Infelizmente não tenho nada para aplicar na mancha roxa que já se forma na minha barriga.

Agora que o vermelho já se foi, fico aliviada em descobrir que a aparência não está tão ruim assim. Então não me escondo atrás de desculpas, e agora com tudo organizado fico sozinha com meus pensamentos e tudo o que tenho do mundo, ou seja, as coisas que estão em minhas malas.

Em algum momento o sono deve ter me alcançado, pois quando abro meus olhos noto que já é muito tarde, o céu está escuro e minha colega de quarto também já está dormindo. Na escuridão total do cômodo posso notar um chumaço de cabelo escuro todo emaranhado saindo por entre as cobertas do ninho de Kate.

Sinto minha bexiga apertar em desconforto e sei que foi por isso que acordei, o que é uma pena já que uma tarde de sono profundo era tudo o que precisava para me sentir melhor. Ainda sinto um grande desconforto em algumas partes, mas tirando o pior dos meus machucados já me sinto mais eu mesma.

O ruim de alguém crescer em um lar abusivo, onde eu era espancada a cada poucas semanas, é que sei todos os sinais que um corpo machucado pode enviar, especialmente aqueles que informam que estou me curando, e a rapidez com que acontece.

Ao pegar meu celular noto algumas mensagens. A primeira é de minha irmã me dizendo que chegará em dois dias, a segunda é de Dylan me perguntando se estou me sentindo melhor, e as próximas três mensagens são de Kane, ele me pergunta se estou bem, como foi a minha monitoria, se comi alguma coisa e se quero que ele me leve alguma coisa para jantar. A última mensagem enviada foi a duas horas

Não demoro a responder, digo que depois da monitoria fiquei organizando as minhas coisas e que acabei adormecendo. Não acredito que ele ainda esteja acordado, por isso não espero uma resposta dele. Apenas desligo meu celular, volto a tomar mais comprimidos para dor e retorno a dormir.

Na manhã seguinte, acordo mais cedo do que esperado, minha colega de quarto continua adormecida, o dia esta apenas clareando, quando decido me levantar para me arrumar, por isso não demoro em tomar banho e me vestir para o dia, também saio cedo, pego minha bicicleta e pedalo para as primeiras aulas da manhã.

Como perdi minhas aulas da tarde, tenho que me concentrar o dobro para pegar o que foi perdido, também tenho uma série de trabalhos acadêmicos para entregar, ainda do período do meu calor. Estou tão atarefada de coisas para fazer que mal noto o tempo passar, a única coisa que me lembra são os momentos de dor, onde meu corpo demanda por descanso, fome ou mais remédios.

Passo uma manhã bem agitada entre uma aula e outra, me forço em prestar atenção nas vozes de meus professores em suas diferentes aulas, e em minhas anotações no meu caderno. Só paro no meu período de almoço, quando sou surpreendida com um sinal suave do final da aula e início do horário de descanso, por isso não demoro em recolher meu material, enfiando tudo dentro da minha mochila e me unindo aos estudantes que saem da sala de aula.

Caminho lentamente, mas mantendo uma atenção maior em meu entorno em caso de avistar Julian me seguindo ou observando, não quero mais ser pega desprevenida por ele, mesmo com tantas pessoas conversando e se encontrando com seus conhecidos, meus olhos permanecem ativos em todos ao meu redor.

Já na saída do prédio de aulas, não posso evitar de me sentir aliviada quando sinto os primeiros raios de sol em meu rosto, o calor é tão delicioso em meus músculos tensos que não posso evitar que um suspiro cansado escape de meu peito. Mais uma vez olho para as pessoas ao meu redor e evito esbarrar em qualquer um ao me dirigir para onde minha bicicleta está.

É claro que não dou dez passos para fora da multidão de alunos quando noto a presença do meu Alfa. Kane me espera encostado em uma pilastra na entrada do grande prédio, seus olhos castanhos estão presos em mim, prestando atenção em todos os meus movimentos, sua expressão está fechada, mas posso jurar que vejo suavidade em seu olhar. E ele está tão bonito em sua jaqueta preta e suas tatuagens aparecendo levemente, seus braços cruzados em seu peito enquanto ele mantêm uma postura austera e forte que mal posso me conter, saio em uma pequena corrida e me jogo em seus braços.

Meu alfa me alcança antes que eu me jogue nele, seus braços correndo para me abraçar com força e me prender em seu corpo. Imediatamente sinto meus machucados arderem em desconforto, afinal meu torço sofreu muito com o ataque de Julian, mas foco em não permitir que nada transpareça em meu rosto, a não ser a sensação maravilhosa de ter Kane tão próximo a mim, com o cheiro de seus feromônios nadando para dentro dos meus pulmões emanando um gostoso sentimento de pertencimento.

Quando nos beijamos nem sei quem começou o beijo e não me importo nenhum pouco com isso, contando que o sabor de seus lábios continuem a alimentar minha saudade dele. Parece que estamos separados a meses e não unicamente um dia.

Não posso conter o meu desejo de me agarrar ao seu corpo, e ronronar em seus lábios. Por isso passo os meus braços ao redor do seu tronco, por dentro de sua jaqueta preta e festejo o calor depreendido de sua pele, mesmo através de sua camiseta cinza. Quando nossas bocas se separam estamos ofegantes e risonhos.

Tenho certeza que estou um pimentão, minhas bochechas queimam de constrangimento, afinal nos dois anos que estudo nesta universidade nunca me expus tanto. Todavia, meu peito canta em contentamento ao me encontrar nos braços do meu alfa. Meu cérebro ômega esta cantando em contentamento.

Agora os olhos de Kane brilham ainda mais, e seu sorriso é tão bonito que meu único desejo é voltar a provar de seus lábios. Entretanto me contenho e mudo meu foco para beijos suaves em seu maxilar. Sua barba voltou a crescer ao ponto de me espetar, e novamente não tenho como me importar menos, afinal acho um charme.

— Você veio me buscar. — Digo entre os meus pequenos beijos, ainda sinto em minha pele os raios de sol brilhando sobre nós, enquanto uma suave brisa chega mais gelada. A mudança de estação está chegando rápido, então vou aproveitar todas as chances que tenho para me esquentar embaixo da luz do dia.

— Eu não aguentava mais nenhum minuto longe de você. — E nesse momento posso jurar que esta declaração em sua voz grossa me enche mais de calor do que o sol que tanto amo. Principalmente quando ele leva o seu rosto até meu pescoço e em meus cabelos, me perfumando de modo educado, enquanto minha pele formiga de prazer.

Sem que eu peça, Kane recolhe minha mochila do chão onde a larguei e a coloca em seus próprios ombros. o contraste entre a cor verde-água da minha mochila e seu visual todo em preto é gritante e um pouco divertido, fico encantada com o quanto eu gosto.

Mal percebo quando Kane aperta a sua mão nas minhas, entrelaçando os nossos dedos. Andamos assim, e faço o meu melhor para não perceber ou me importar com os olhares curiosos a nossa volta, mesmo depois de uma semana, os curiosos ainda nos encaram cheios de sussurros indiscretos.

Muitos caras acenam para Kane, e ele os cumprimenta com um aceno de cabeça, nada de muito sorrisos, sempre mantendo a sua postura Alfa ao caminhar. Porém, seus olhos famintos sempre se prendem aos meus, e existe tantas promessas presos neles que tenho que me controlar muito para não hiperventilar e começar a umedecer a minha calcinha.

Nós dois caminhamos para o principal refeitório do campus e não demoramos em escolher algo para comer. Para a minha alegria nos sentamos nas mesas exteriores, logo pude aproveitar ainda mais meu dia de sol.

Kane se sentou ao meu lado e manteve toques suaves em minha pele durante todo o nosso almoço, e fiz o mesmo, me maravilhando com a naturalidade do gesto.

— Minha irmã vai chegar amanhã. — Digo ao finalizar a mastigação de mais um pedaço do meu sanduíche de frango.

— Ela precisa de uma carona? — Kane me pergunta após levar uma mexa rebelde dos meus cachos de volta ao lugar.

— Eu não sei, ela vai chegar no horário do jantar então estava pensando em ir buscá-la sozinha, afinal temos muito assunto para pôr em dia, mas na volta podemos parar naquele restaurante que você me levou, sei que estaremos famintas, então você pode nos encontrar lá, levar o Dylan se ele quiser aparecer. — Falo ao encarar sua expressão.

— Tem certeza que não quer que eu te leve? — Sua pergunta é genuína então esta manchada com ciúme ou raiva, por eu querer encontrar minha irmã sozinha.

— Sim, Valerie é um pouco sensível em relação aos homens, especialmente os Alfas. — Respondo ao levar minha mão até a dele e voltar a entrelaçar nossos dedos. — Nós duas não tivemos uma infância fácil, então acredito que é melhor amaciar um pouco antes de te apresentar.

— Eu não gosto disso, mas se você acha que é o melhor, então é o que vamos fazer. — Sua resposta é esperada, e seus olhos estão em meu rosto.

Sei que isso não era o que ele queria, mas de tudo o que conheço da minha irmã, quero muito que a apresentação dos dois dê certo, por isso é muito importante que o encontro seja suave e que Valerie entenda o quanto Kane significa para mim. Afinal de contas um acasalamento não é uma coisa banal, logo estarei ligada ao meu Alfa por toda a minha vida.

Sem contar que acredito fielmente que os dois podem se dar bem. Eles são até um pouco parecidos.

Depois de tudo acertado, estou confiante que as coisas vão dar certo no final, então meu peito se enche de confiança.

Deve ser por isso que me distraio das coisas ao meu redor e me torno mais relapsa em minhas escolhas. Estava muito preocupada em esconder meu ataque de Kane, inventando uma nova desculpa para não ir ao apartamento e passar minha noite em seus braços.

Então no dia que tenho que buscar minha irmã no aeroporto, me esquivo da carona de Kane e seus olhos desconfiados e chamo um motorista de aplicativo para me levar até lá.

Estou parada na frente da universidade esperando o motorista do aplicativo chegar para me levar até meu destino, e no momento em que um carro prateado estaciona muito perto da calçada onde estou, e o motorista chama o meu nome, eu entro imediatamente no carro.

Em nenhum momento conferi a placa do motorista no aplicativo, ou o modelo do carro. Não estou acostumada em usar esse tipo de transporte e em minha ingenuidade não cheguei a conferir a identidade do motorista. Esse foi um erro que me custaria muito.

O motorista é um homem jovem, quase que da minha idade, sua pele é branca e seus cabelos são escuros. Seu cheiro mostrava um beta, mas existia um fedor persistente em seu odor, ele estava muito quieto em suas palavras, mas, ao mesmo tempo, cheio de agitação. O tempo todo coçando o nariz e seus olhos estavam bem agitados. Eu tentei não olhar ou prestar muito atenção.

Por isso, me mantive atenta no aplicativo da universidade e em remarcar o maior número de aulas que eu conseguia. Também estava remarcando minhas aulas de monitoria, já que nas últimas duas semanas eu não tinha feito nenhuma, e essas aulas eram uma fonte de renda, muito singela, mas, ainda assim, existente para a minha subsistência dentro do campus.

Me perdi completamente nesses pequenos problemas que acabei não notando o caminho que estávamos tomando para chegar ao aeroporto. Fui me ligar nisso apenas quando o carro começou a balançar mais do que o normal, e no instante em que olhei para fora do veículo notei que estava em uma área de mata e que tínhamos entrado em uma estrada de terra.

Imediatamente senti meu peito queimar em ansiedade e meu coração disparar.

— Desculpe, onde estamos indo? — Questionei ao me inclinar para frente no banco.

O motorista não respondeu nada e apenas continuou a dirigir.

Meu sangue já estava batendo com tanta força dentro do peito que eu nem conseguia pensar direito, logo, me forcei a prestar atenção nos detalhes ao meu redor, com o celular em minhas mãos, me encolhi o máximo possível em meu lugar e abri minhas mensagens.

Mas minhas mãos tremiam tanto que não conseguia me concentrar o suficiente para selecionar um contato, ou escrever qualquer coisa.

— Por favor, por favor, apenas me deixe sair, eu não vou contar para ninguém. Por favor. — Tentei dizer ao motorista, mas o rapaz apenas me lançou um olhar meio enlouquecido, voltou a mexer em seu nariz com certa violência e continuou a dirigir cada vez mais rápido pela estrada de terra, nos fazendo pular a cada buraco.

Continuamos por esta estrada por tanto tempo que não sei dizer se foram meros minutos ou horas, meus instintos gritavam desesperados que algo estava errado, e que meu Alfa não estava em lugar nenhum. O que me fazia quase chorar, pois não conseguia me concentrar a suficiente para agir de qualquer maneira.

— Para onde você está me levando? Esse não é o caminho para o aeroporto. — Tentei mais uma vez, minha voz arranhava em minha garganta.

Em um estalo de desespero, consegui selecionar o contato de Dylan, e escrevi uma mensagem muito rápida para ele.

"Chame Kane..." foi a única coisa que consegui escrever antes do motorista perceber que eu estava escrevendo para alguém.

Nem sei se consegui mandar a mensagem, pois fui severamente atacada com socos fortes. O motorista jovem estava segurando o volante com uma mão, e ao mesmo tempo também estava inclinado de lado, tentando tirar o aparelho de minhas mãos, enquanto usava de sua força para bater em qualquer parte do meu corpo que ele tinha acesso.

É claro que não fiquei quieta. Usei todas as minhas forças para chutar o filho da puta o máximo que conseguia.

Tudo aconteceu tão rápido que me perdi em meus gritos, e as maldições que o homem me lançava ao tentar me agredir e tirar o celular de minhas mãos.

— Porra, cadela ômega, fique quieta. Me dê está porra de celular. — Seus gritos eram muito altos, mas eu estava cheia de adrenalina para obedecer.

Em algum momento o homem se inclinou ainda mais no banco e conseguiu socar uma parte do meu rosto, o que me deixou imediatamente tonta, todavia, consegui me manter lutando e senti minhas unhas rasgarem a pele do seu rosto, o que o fez gritar e xingar ainda mais.

Eu sabia que estava ferrada se não conseguisse sair de dentro do carro, então em um ato de desespero me lancei sobre o banco do motorista e usei de toda a minha força para puxar o volante.

Foi uma atitude tão estúpida, que quando o carro saiu da estrada e derrapou para dentro da mata em nossa frente, caindo em um barranco considerável, a única coisa que consegui prestar atenção foi na dor que senti quando caímos barranco abaixo, e nos socos que senti quando novamente o motorista me atacou para retomar o controle do veículo, me fazendo recuar para a banco de trás e tentar me segurar em qualquer coisa que conseguia colocar as mãos.

É claro que seu domínio na direção durou pouco, pois já estávamos caindo com força e velocidade por entre as árvores.

Toda a ação, desde o instante em que ele tentou tirar meu celular, a luta que se seguiu e minha atitude desesperada de tentar tomar o controle da direção, até nossa ida violenta para dentro de um barranco não levou minutos.

Mas, aos meus olhos, durou horas.

Fomos jogados sem controle algum dentro do carro. Meros bonecos de serra presos dentro de um liquidificador ligado. Até que paramos abruptamente por uma batida tão forte que me senti desfalecer de dor.

No instante em que abri meus olhos, senti meu corpo jogado entre os bancos, uma umidade quente escorria por entre os meus cabelos, manchando o meu rosto e queimando fortemente em minha pele. Minha boca também tinha um forte gosto de sangue, e várias partes do meu corpo doíam com tanta intensidade que não consegui segurar um surto de vômito que explodiu por entre os meus lábios.

Tudo em minha volta girava de modo tão potente que minha visão se turvava a cada poucos minutos. Eu senti que meu rosto ficava cada vez mais molhado, mas não sabia se era por lágrimas, suor da luta, ou sangue.

Meu cérebro ômega também estava confuso, mesmo que meus instintos insistissem que eu estava em perigo mortal.

Aos poucos comecei a tomar conhecimento de várias partes do meu corpo que doíam com mais força. Ao olhar para minha mão esquerda notei que alguns dedos estavam em posições horríveis, com toda a certeza estavam quebrados. E a visão distorcida disso era tão desconfortável e cheia de dor que voltei a vomitar por entre os bancos.

Com todo o cuidado que eu podia ter, segurei minha mão machucada levando-a até meu peito, ao olhar em volta percebi que meu sequestrador estava desacordado no banco da frente, sua cabeça bateu feio no vidro dianteiro e muito sangue escorria de seus ferimentos.

O carro tinha batido de frente para uma árvore grande, e foi isso que nos fez parar em nossa descida suicida pelo barranco.

Levei um tempo para conseguir me firmar no banco, me sentar era quase impossível pela pontada certeira que eu senti nas costelas. Por isso, permaneci em uma posição desconfortável meia inclinada entre os assentos.

Com cuidado procurei por minha bolsa e meu celular. Consegui notar que minha bolsa foi lançada para o banco da frente e estava muito longe para eu tentar alcançar, já meu celular estava embaixo dos meus pés, a tela estava quebrada com tantas rachaduras que era impossível usar, mesmo que o aparelho continuasse ligado.

Pra mim era ainda mais difícil tentar forçar uma funcionalidade com uma de minhas mãos machucadas.

Mas, de qualquer forma eu tentei. Entre lágrimas e sangue, dor e desespero, eu tentei fazer o aparelho funcionar.

Apenas parei quando ouvi um gemido cheio de dor vindo do banco da frente. Meu algoz estava despertando o que me levou a um estado de medo tão grande, que não me importei com meus machucados e nem em fazer o celular voltar a funcionar. Eu sabia que tinha que sair e escapar, antes que meu sequestrador voltasse a lucidez.

Com cuidado me movi o mais rápido que consegui. Quando tentei puxar a maçaneta da porta, vi que ela não estava fechada. Então em seu nervosismo o rapaz não lembrou de me trancar na parte de trás do carro. Eu não sabia para onde ele estava me levando mas, sabia com toda a certeza que ele não tinha boas intenções.

Por isso mantive a mão machucada perto do meu peito e com meu ombro e a mão que ainda estava segurando o meu celular, fiz o possível para abrir a porta do carro.

Não sei se foi a batida e a inclinação do veículo, a violência do acidente ou minhas várias lesões, todavia, abrir aquela porta foi uma das coisas mais difíceis que já fiz na vida. Levou muito da minha força e mais uma rodada de vômito.

Porém, depois de muito tentar, consegui sair do carro. Ao olhar em volta tudo o que eu podia ver eram árvores e muito vegetação, o lugar por onde o carro tinha caído era um morro íngreme e de difícil escalada.

Eu tinha que decidir para onde ir e qual caminho seguir para me afastar do meu sequestrador e do local para onde ele estava me levando.

Voltar para a estrada era a melhor opção, mas meus instintos gritavam para que eu não tomasse esse caminho. Algo de ruim estava na estrada, pior do que estava dentro do carro, por isso eu tinha que tomar um outro caminho.

Nunca fui uma garota de fazer caminhadas na natureza, mesmo tendo os meus hábitos ocasionais de corrida, nunca me considerei uma garota do campo. E agora minha única e melhor opção era a floresta em minha frente.

Olhando para o meu celular, notei que ele continuava ligado, mesmo com a tela detonada e com minhas costelas me rasgando por dentro e minha mão esquerda fragilizada pelo acidente, comecei a dar passos longos e ligeiros para longe do carro.

Em minha mente se eu andasse em linha reta por algumas horas, eu sairia do outro lado da estrada. A região da universidade não era conhecida por suas reservas ecológicas grandes. Então, sabia que encontraria uma solução para o meu problema, uma casa ou cabana, ou um pedaço de estrada diferente de onde vim.

Algo ou alguém. Qualquer pessoa.

Meu Alfa.

Tenho que voltar para ele e para a segurança de seus braços.

Meus instintos estavam ligadas ao máximo enquanto me afastava e adentrava a floresta em minha frente. Eu tinha que ser rápida, pois a noite não demoraria a cair e toda a minha roupa não seria o suficiente para me manter aquecida do pior do tempo.

Um jeans e uma camiseta não me esquentariam, e meus machucados seriam leves em comparação a hipotermia que eu poderia pegar.

Voltar para o carro não era uma opção, principalmente no instante em que escutei uma porta metálica bater atrás de mim, junto com um grito masculino que fazer meus ossos tremerem dentro do meu corpo.

Sem olhar para trás, acelerei os meus passos e corri o mais rápido que conseguia por entre as árvores. Utilizando seus grossos caules como proteção e camuflagem para a minha fuga.

Por alguns minutos ainda escutei o meu sequestrador gritar e me chamar pelo nome. Isso durou até eu me embrenhar cada vez mais entre as folhagens, depois de um tempo deixei de ouvir qualquer coisa. Mesmo os passos amedrontadores não existiam, era apenas eu e a floresta em minha frente.

Quando meu cansaço aumentava, tinha que fazer paradas ocasionais para descansar e me fortalecer em relação as dores que sentia. Tudo a minha volta era assustador, não existia trilha alguma na floresta e eu corria em um sentido reto, ou, pelo menos, tentava me manter um uma rota imaginaria.

Ocasionalmente, eu tentava obter sinal ou qualquer forma de comunicação com o meu celular quebrado, e isso apenas me frustrava ainda mais.

Eu podia perceber que tinha bastante bateria, mas com a tela quebrada, não conseguia fazer nada a não ser observar o que estava acontecendo com a pouca luz que vinha do aparelho. Também não tinha sinal em quase nenhum lugar o que era extremamente frustrante, principalmente por não fazer ideia de onde eu estava.

Fui tão tola, tão burra que entrei em um carro sem conferir se esse era o motorista licenciado que me levaria até minha irmã. Fiquei distraída com meus problemas acadêmicos e não prestei atenção no caminho que o motorista estava me levando, não até ser muito tarde.

Praticamente me coloquei nessa situação, eu que sempre fui tão atenta e disciplinada em ficar ligada e não confiar com tanta facilidade.

Tentei muito não chorar, por dor, arrependimento ou medo. Se me coloquei nessa situação, eu tenho que me tirar dela.

O pior é que nem posso confirmar se consegui mandar a mensagem para Dylan.

Ando e ando, tentando muito manter uma rota imaginaria e quando a noite começa a cair, e tudo a minha volta fica escuro e aterrorizante, tiro uma força do medo em meus ossos e continuo a andar a esmo.

As vezes escuto algum galho quebrar ou algum barulho estranho a minha volta, mesmo o som do vento batendo nas folhas e galhos é assustador para mim.

Em algum momento chego próximo a um pequeno córrego. A água me parece cristalina, por isso tendo a pensar que ela é limpa, então, levada por minha cede, me abaixo e com minha mão boa, bebo o máximo que meu estômago me permite. É claro que isso me leva a uma nova onda de náusea, mas consigo segurar tudo dentro de mim e não vomito nenhuma vez.

Depois e cheia de medo continuo a andar, dessa vez me mantenho próxima ao córrego, com esperança de que ele me leve para algum lugar. Mesmo que seja apenas alguns passos de água e muito limo, ainda acho que é minha melhor opção de ser descoberta ou encontrar alguém que possa me ajudar.

Quando a noite cai e a escuridão me rodeia de todos os lados, continuo a minha jornada, sempre próxima desse córrego de água. Tenho que parar mais duas vezes para me hidratar e continuar a minha caminhada. Acredito que tenho a sorte da noite ser incrivelmente iluminada por uma intensa lua cheia, então mesmo dentro da escuridão consigo identificar meu caminho. E no instante em que entro em algum trecho mais escuro da mata, ligo o meu celular e ilumino mesmo que precariamente o meu caminho, é claro que isso tira muito da minha bateria e logo fico amedrontada de não ter mais esse recurso.

Então, evito me viciar na falsa sensação de proteção que a luz do celular me proporciona. E na pequena tela quebrada não consigo identificar que horas são, por isso continuo a andar, mesmo ao sentir que meus pés queimam com bolhas da longa caminhada.

Os dedos quebrados da minha mão estão inchados e doem tanto que tenho que trincar meus dentes para não gritar, minhas costelas também doem muito, acredito que também devo ter quebrado uma ou duas.

O tempo todo tenho que me lembrar que não existem animais ferozes nesse lugar, nem pumas, ou ursos ou lobos famintos. Então não devo me preocupar com isso, e mesmo querendo muito ficar parada e esperar que alguém me encontre, é uma atitude nada inteligente, especialmente porque não sei se estou sendo seguida.

Kane vai me encontrar, ele é meu Alfa, meu companheiro e não desistirá de mim, eu somente tenho que permanecer viva o máximo que conseguir.

Dylan também vai procurar por mim, tenho certeza disso, ele é meu amigo, irmão do meu Alfa.

E minha irmã, ela deve estar muito assustada por não me encontrar no aeroporto, ela sabe que sumir assim não é um comportamento típico meu, ela também deve estar me procurando.

Tenho que continuar andando, me movendo. Não posso desistir e não vou.

Não sei porque aquele homem estava tentando me sequestrar, algo me diz que Julian pode estar envolvido. Mas, não quero pensar nisso, ou vou acabar encolhida no chão, fraca e emocional, do jeito que ele quer que eu esteja. E o meu maior medo e estar certa e o monstro estar nesse exato momento seguindo meu rastro. Mesmo pensar no meu sequestrador já me enche de um medo paralisante que imediatamente tenho que engolir para conseguir continuar a andar.

Posso ser um ômega e mulher, mas sou forte. E não serei uma presa fácil para ninguém.

Acredito que algumas horas se passam quando estou exausta demais para andar, mesmo o frio cortante não é tão incomodo quanto a dor em meus machucados. Por isso, depois de horas seguindo o caminho do córrego me afasto tentando procurar um lugar para descansar e dormir.

Não posso continuar assim, ou vou desmaiar de exaustão.

Não ando muito até encontrar um arbusto espesso ao lado de um grande tronco de carvalho antigo.

Mesmo com pouca bateria, tenho que ligar meu celular mais uma vez para verificar o chão em volta e por dentro dos ganhos folhosos.

O lugar parece ser perfeito para me esconder, se eu me encolher bem, vou conseguir espremer meu corpo pelos galhos e me arrastar no chão. O cheiro do carvalho e do arbusto é forte e bem úmido o que talvez esconda o perfume dos meus feromônios. Sem contar que a folhagem espessa pode ser uma ajuda contra o vento frio.

Enfim, não tenho muitas opções, estou machucada e exausta, caminhei por horas e não posso mais me mover, tenho de descansar, qual outra opção me resta.

Neste escuro posso agravar seriamente os meus ferimentos se eu tropeçar e cair.

Levo mais tempo do que pretendia me arrastando pelo barro úmido e musgoso, tenho que parar várias vezes para trincar meus dentes e não chorar. Sim, com certeza quebrei alguma costela, não doeria tanto assim apenas por uma contusão.

Quando consigo me espremer para uma posição razoavelmente confortável. Faço o possível para preservar minha mão machucada e com meu braço livre, passo meu antebraço por meu rosto, me fechando para o mundo e tentando me proteger dos pequenos barulhos externos.

Pela primeira vez em horas me permito chorar, sinto meu peito apertar de saudade de Kane. Preciso tanto do meu Alfa, que em um momento não sei se estou tremendo de frio ou de medo de nunca mais olhar em seus bonitos olhos castanhos.

Deusa ômega, tenho uma vida para compartilhar com ele, filhos e família, proteção e lar. Me deixe viver, permita que eu o encontre mais uma vez. Por favor. Sinto um pouco de conforto em meu clamor e talvez seja isso que me faz enfim me desprender e cair no sono.

Não sei quanto tempo consigo dormir, mas quando desperto assustada estou deitada na mesma posição que adormeci. O céu brilha claro em minha volta, indicando que consegui algumas horas de sono.

Ainda leva um tempo para me ajustar a realidade e entender o que está acontecendo a minha volta.

Existe um cheiro no ar, algo horrível e conhecido que faz meu corpo encolher e minha mente gritar em alerta.

— A cadela deve estar por perto. O rastro dela para nesse ponto da água. — Escuto uma voz grossa dizer. Talvez seja o meu sequestrador.

Então eu estava certa, ele realmente não desistiu de mim. Logo, meu coração dispara dentro do peito e tenho que evitar fazer qualquer barulho para não ser encontrada.

Meus pensamentos voam ligeiros na tentativa de encontrar uma solução, uma saída desse pesadelo. Mas, é claro que tudo o que é ruim pode piorar.

— Você é a porra de um incompetente. Deixou minha mulher fugir das suas mãos. Eu deveria atirar na porra da sua cabeça. — Escuto a voz de pesadelo de Julian responder ao meu sequestrador, por que agora eu tenho certeza da identidade da primeira voz.

— Ela é uma cadela louca, jogou o meu carro naquele barranco, quase me matou. — Meu sequestrador resmunga e posso ouvir seus passos andando ao redor do pequeno córrego, seus pés esmagando as pequenas pedras em seu caminhar agitado. — Agora a polícia está em toda área, deixe essa cadela para trás e vamos embora.

— Já disse que não vou sair sem ela, ela é minha, meu ômega. Se você quiser obter mais da Queda do Lobo é melhor encontrá-la. — Julian responde também andando de um lado para o outro.

Não faço a menor ideia do que é Queda do Lobo, mas não estou nem um pouco interessada em descobrir.

— Aquele outro alfa também está atrás dela, você é um idiota por insistir nisso...

A conversa é interrompida quando escuto um barulho forte. Talvez Julian tenha batido em seu capanga.

— Não fale assim comigo porra, ele vai morrer se tentar tirar o que é meu. — Julian rosna tão alto que os pássaros nas árvores se assustam e voam para longe.

Mas, algo que escuto dos dois me enche de esperança. Kane e a polícia sabem que estou desaparecida, e de algum modo conseguiram seguir meu rastro até este lugar, tudo o que preciso fazer e sair daqui e encontrar algum policial.

Tenho certeza que o outro alfa citado é o meu alfa, Kane está aqui, ele está me procurando.

Alfa veio me buscar, ele vai me proteger. Meus instintos gritam dentro do meu cérebro ômega, e mesmo estando tão cheia de medo por Julian e seu capanga estarem tão perto de mim, não consigo evitar de me sentir feliz por saber que Kane está lá fora. Me buscando, procurando por mim.

Não leva muito tempo para a conversa de ambos serem apenas um zumbido fraco na mata, eles devem ter continuado a descer o córrego. Então, ao escutar o barulho de ambos se perder na floresta, me sinto cheia de coragem para me arrastar para fora do meu esconderijo e continuar viagem.

Devo seguir o caminho inverso e voltar por onde desci na madrugada escura. E tenho que fazer isso rapidamente, para fugir de Julian e seu capanga e encontrar meu Alfa.

Sair do esconderijo foi mais fácil do que entrar, talvez porque dessa vez eu estava mais motivada e nem as pontadas cegantes de dor conseguiram me deter.

Estou determinada a sobreviver.

Então, não demoro a me erguer e correr pela mata, forçando os meus pés a uma caminhada ainda mais aterrorizante do que antes, quando a noite e a incerteza eram meus maiores medos, agora meu terror tem face e nome. E me caça pelo cheiro.

Evito fazer qualquer tipo de barulho desnecessário, todavia, tenho certeza de que não estou sendo tão cuidadosa quanto gostaria.

Tenho certeza de que consigo correr por quase uma hora, mas o terror me absorve quando escuto barulhos rápidos vindo a toda velocidade atrás de mim.

Não ouso olhar para trás, apenas me forço a continuar correndo, mesmo quando minha vista escurece e um enjoo forte tome conta do meu estômago, um suor frio escorrendo por meu pescoço e têmpora, agora que estou sendo perseguida não posso evitar que grossas lágrimas escorram pelos meus olhos.

Em um ato de puro terror, desvio o meu caminho e tento abrigo atrás de um grosso tronco de árvore.

Minha respiração é um problema maior que o meu cheiro. Por isso, uso minha mão boa para tapar minha boca e evitar um barulho extremo que identifique a minha posição.

Os minutos que se seguem são aterrorizantes, os piores da minha vida.

Minha mão machucada ainda está com meus dedos tortos e em posições estranhas, se Julian colocar suas mãos em mim, não vou conseguir lutar.

— Emma, saia de onde está escondida, vamos lá, venha para o seu Alfa e eu prometo não te castigar tanto. — A voz de Julian é a pior coisa que escuto. Parece que estou dentro de um pesadelo terrível e não consigo acordar de jeito nenhum. — Eu sinto o cheiro do seu medo, e é delicioso. Vamos ômega, não deixe seu alfa com raiva, você tem que me obedecer e ser uma boa garota.

As lágrimas continuam a escorrer pelo meu rosto, estou descontrolada de medo, tremendo tanto que mal consigo dar um passo para longe ou pensar em qualquer outra coisa que não seja Julian e sua voz monstruosa. Seus passos são altos e circulam em volta de onde estou escondida.

Então quando sinto braços fortes me puxarem e uma mão cobrir minha boca, me subjugando em um abraço de urso, mal posso evitar de desmaiar de terror.

A única coisa que consigo pensar em um momento de loucura é que acabou, minha vida acaba agora.

Notas finais
Gostaram? Estão ansiosas? Me deixem amor, sou movida por carinho =)