Notas iniciais
Mais um capítulo para vocês!

Entrar na casa não foi nada difícil, com Luke Turner e Bry ao meu lado consegui passar despercebida.

Eu ainda sentia alguns olhares curiosos em mim, mas ninguém se atreveu a me abordar.

A casa estava cheia. Mais cheia do que no dia da festa. Parece que todos os Alfas desta universidade foram convidados para assistir a Lua Vermelha.

O forte cheiro de dezenas de feromônios alfa misturados, femininos e masculinos, deixava o ambiente quase irrespirável para mim. É lógico que imediatamente senti meus próprios feromônios bloqueando o pior do odor.

Ansiedade, raiva, violência e vingança eram os cheiros que reinavam, tive a impressão de que quase todos os Alfas reunidos exalavam um desses cheiros.

Meu nariz coçava e queimava quando eu inspirava, por isso tentei ao máximo não respirar pelo nariz, e sim pela boca.

O odor era tão forte que quase conseguia sentir o gosto desagradável em minha língua.

Bry começou a me dizer, de modo discreto, o nome de alguns conhecidos dela. Luke Turner permanecia com uma de suas mãos em sua cintura estreita. Seu olhar atento sempre estava no ambiente, em todas as pessoas ao nosso redor e em Bry, principalmente.

Minha amiga podia não notar, mas ele exalava fortes feromônios de posse em relação a ela. E sua postura orgulhosa ao seu lado indicava para qualquer outro Alfa que ambos estavam juntos e que era melhor não se aproximar.

Em meio a toda a multidão pude notar alguns betas, que estavam de braços dados com seus cônjuges Alfa. Entretanto, estava claro que eles só estava presentes porque eram assegurados de seus Alfas. Esse não é um evento para os olhos Beta, apenas Alfas.

E mais uma vez, eu era a única Ômega no recinto. Parte disso me assustou, ou voltou a me assombrar, afinal, não fazia nem vinte e quatro horas que fui atacada nessa casa. E saber que em algum lugar dentro desses cômodos estava o homem alfa que me atacou, fazia meu sangue congelar nas veias e meus instintos Ômega gritarem por todo o meu corpo.

Estava presa em meus pensamentos quando me assusto com Luke Turner, ao me tocar no ombro.

— Você está segura, Emma. Nada vai te acontecer aqui. — Sua voz grossa me acalma muito lentamente. Sei que devo estar lançando uma enxurrada de feromônios, por isso quando olho em seus olhos escuros, tento me acalmar.

Ninguém vai me machucar, não aqui. Penso depois de um longo suspiro, ainda tento manter minha respiração longe do meu nariz, para não ser assaltada pelo mar de cheiro alfa ao meu redor.

— Tenho que procurar por Kane. — Falo depois de alguns suspiros e de conseguir acalmar o pior do meu medo.

— Sei que ele já chegou. — Luke me responde com seus olhos presos em um grande relógio de pulso. — A luta não vai demorar para começar, daqui a pouco Charles vai fazer o anúncio e nos chamar para o porão. — O escuto dizer, mas não sei quem é Charles, deve ser alguém dessa fraternidade ou algum estudante importante dentro do campus.

Suas palavras apenas fazem com que uma ansiedade cresça em meu peito, um sentido de urgência que não posso negar.

Por isso, começo a andar atravessando a multidão, não tenho dificuldade em me mover entre os Alfas presentes, muitos deles me olham e comentam coisas entre seus amigos, sei que sou o principal ponto de fofoca e isso me irrita.

Bry e Luke foram ao grande porão onde a luta será realizada, estou sozinha, mas não me sinto atacada, mesmo que minhas glândulas de feromônio cocem de modo irritante, evito tocar nelas e espalhar ainda mais meu cheiro, tudo o que não preciso é ter um bando de Alfas entrando em frenesi por causa do meu cheiro ômega.

Tento me manter calma o máximo possível, as vezes consigo sentir o cheiro de Kane, então estou mudando minha rota de perseguição aleatoriamente, preciso encontrá-lo e não estou totalmente louca de perguntar aos Alfas ao meu redor.

De repente sou abordada por um dos meu principais pesadelos, Julian. Um alfa loiro e atlético que vive para me perseguir. Já faz algumas semanas que não sou severamente abordada por ele, isso me deixou com uma sensação de leveza e me desligou para o perigo que ele representa.

Imediatamente sou tomada por uma serie de arrepios gelados, detesto estar sobre os seus olhos frios. Julian é lindo e um mentiroso, manipulador e sem caráter.

Abaixar minha guarda para ele não é uma boa ideia. Não quando sinto arrepios de aviso, e meus instintos ômega se arrepiam de asco. O seu cheiro é forte e errado para o meu olfato.

— Minha Emma, olha só a confusão que você criou. — Ele me diz, sua voz quase que um sussurro em meu ouvido, Julian tenta se aproximar de mim, quase que colando nossos corpos juntos.

— Eu não criei nada, estou tentando parar essa insanidade. — Respondo, também mantendo a minha voz em um sussurro. — Você viu Kane Hunter em algum lugar?

— Sabe, quando fiquei sabendo de um Ômega criando toda a confusão de uma Lua Vermelha, nunca achei que fosse você. — Sua voz arrastada e quase odiosa para mim.
— Mas, não é injustificável, todo alfa deve proteger o seu ômega, o que me irrita é saber que Kane Hunter pediu essa Lua Vermelha. Você não permitiu que aquele pedaço de merda encostasse no que é meu, não é mesmo?

Suas palavras me assustam, Julian é capaz de me tirar do sério com essas declarações estúpidas e possessivas.

O cretino se aproximou de Bry e fingiu querer um relacionamento com ela, apenas para se aproximar de mim, ficava me espreitando pelos cantos, até o dia que me atacou me roubando um beijo, e forçando sua língua em minhas glândulas no pescoço.

Ele disse que sabia que eu o queria, e que nós seriamos um lindo casal Alfa e Ômega. Que seus pais me aprovariam e toda a baboseira controladora e manipuladora de alguém que não está bem da cabeça.

Eu quase quebrei seu nariz naquele tarde, depois e aos prantos contei para Bry o que tinha acontecido e ela imediatamente terminou com ele.

Desde então ele vem de forma bem suave me perseguindo. É claro que ele não chama isso de perseguição, Julian pensa que estamos em um estranho flerte, que por ele ser Alfa e eu Ômega, tenho que me submeter e gostar de sua atenção.

Já disse, várias vezes que não tenho interesse nele, mas o sujeito é persistente e acha que estou tímida em seu cortejo, por isso, continua a me atormentar, com comentários que as vezes me assustam.

— Eu não sei de onde você tira os seus delírios ao meu respeito, mas te garanto que não sou sua, não sou de ninguém, sou minha e minhas decisões dizem respeito apenas à mim, eu não preciso pertencer a ninguém. – Falo o mais seria possível. – Esse romance brega, Alfa e Ômega, não vai acontecer entre nós dois, quantas vezes tenho que te falar isso?

— Você é doce, Emma, mas no fundo sabe que somos um para o outro, desde o momento que senti seu cheiro, eu sabia que você seria minha e algum dia nós vamos acasalar e você vai carregar todos os meus filhotes. – Sua fala arrastada, quase sonhadora, encheu o meu peito de terror, não sei mais o que fazer em relação à Julian, na frente de outras pessoas, quando ele sabe que pode ser ouvido por mais do que apenas eu, suas palavras são mais suaves, agora quando ele sabe que só eu posso ouvir, sua máscara cai e ele começa a me afogar em seus sonhos estranhos de acasalamento e filhotes e me dar um nó.

Coisas muito íntimas para se falar para alguém que você não conhece. Por algum motivo, Julian acredita que vamos ficar juntos, e que toda a minha negativa é apenas um charme.

Isso é assustador, e nos últimos meses até tenho medo de ficar sozinha com ele.

— Depois que seu teatro com Kane Hunter acabar, vamos sentar juntos e começar a conversar sobre o nosso relacionamento. Quero estar acasalado até o final da minha graduação, assim como o meu pai fez com a minha mãe. – Seu sorriso brilhante de galã, poderia fazer muitas moças suspirarem por ele, mas apenas aterroriza algo em meu peito.

— Você ao menos escuta o que diz? Relacionamento? Que tipo de relacionamento você acha que nós dois temos? – Eu respondo irritada, e logo me movo para o impedir de passar as mãos pelos meus cachos, seu rosto não demonstra nenhuma irritação, apenas diversão quando me encara. – Você enganou a minha amiga para chegar perto de mim, fingiu que precisava das minhas aulas de monitoria, e me atacou quando estávamos sozinhos. Escute bem, pois estou me cansando da sua perseguição, eu não gosto de você, nós não estamos em um relacionamento e não vamos acasalar. Eu não sei porque você me escolheu para ser seu ômega, mas isso não vai acontecer, e se você não parar com isso, vou até a direção do campus e vou te denunciar por assédio. Eu não quero...

Minha fala é interrompida quando o sinto avançar sobre mim, seus feromônios alfa queimam com raiva e urgência, o que fazem meu coração acelerar e meus instintos ômega recuarem em uma submissão errada.

— Sua recusa está me cansando Emma, eu não sou um garotinho alfa para você brincar, todos os alfas do campus sabiam que você era minha, a chegada dos irmãos Hunter não mudou nada nisso. E não sou alguém para negar, gosto do seu fogo, sua raiva faz meu sangue ferver para te submeter a mim. – Julian sussurra suas palavras bem perto do meu rosto, estamos muito afastados para que alguém note o seu comportamento errado, o que me faz tremer por dentro, essa é a primeira vez que ele me ameaça de forma tão explícita. – Você é meu ômega, e estou cansando de ser paciente, mas não vou aceitar te dividir com ninguém, depois dessa Lua Vermelha, nós vamos nos assumir um casal, e você vai se submeter ao seu Alfa, exatamente do modo que a natureza te criou.

Minha reação foi totalmente instintiva, em um momento Julian estava segurando fortemente o meu braço, no outro minha mão voou pelo ar e foi parar em seu rosto. É claro que meu tapa o pegou desprevenido, enquanto o meu corpo todo tremia por causa da adrenalina, o seu rosto bonito passava por uma enxurrada de emoções, variando entre a surpresa, raiva, dor, e no final um desejo tão feroz que fez meus instintos ômega gritarem para correr.

No instante que senti seu desejo avassalador queimar em mim, sua mão ficou ainda mais firme em meu braço, apertando a minha carne até doer. Eu estava prestes a gritar quando fomos interrompidos.

Eu nunca me senti tão feliz em ver Dylan Hunter em minha vida.

— Você vai soltar o braço dela, ou vou ter que te desmembrar para isso? — Sua pergunta nos pegou de surpresa. Todavia a chegada dele foi a melhor coisa que me aconteceu.

Julian ainda levou alguns segundos para me soltar, depois apenas sorriu caloroso para Dylan, enquanto se afastava dois pássaros para longe de mim.

— Ei, cara, nós estávamos apenas conversando. – Sua expressão de bom moço não demostrava mais nenhum sentimento de posse ou desejo, apenas parecia divertido com toda a situação, mesmo que o lado esquerdo do seu rosto ainda queimasse escarlate com o tapa que lhe dei.

Meu sangue corria agitado em minhas veias e tudo o que podia pensar era em me afastar de Julian e nunca mais sentir seus feromônios novamente.

E me surpreendi ao não me afastar quando senti ao braço direito de Dylan passar pelos meus ombros, me puxando para mais perto de seu corpo, e ao contrário de Julian o calor de Dylan não me sufocava e não me assustava, seus feromônios tinham um ótimo odor, e me deixava relaxada e em paz, ainda que não fossem perfeitos quanto os de seu irmão. Estar com Dylan era mil vezes melhor do que estar com Julian.

Mesmo os dois sendo Alfas.

— Da próxima vez que eu te ver perto dela, você vai conversar com os meus punhos. Esse é o último aviso que te dou. – A ameaça na voz de Dylan fazia meus instintos ômega irritadiços, entretanto, o odor de proteção dos seus feromônios me fazia mais calma.

No final, por dentro e com toda avalanche de odores alfa ao meu redor, eu estava começando a ter uma bela dor de cabeça, minhas glândulas de cheiro queimavam mais que nunca, uma coceira irritante e persistente, enquanto sentia meu estômago revirar.

Julian não parecia nem um pouco abalado pelas palavras de Dylan, em seus olhos eu até conseguia ver uma motivação crescendo. Principalmente quando me olhou e piscou de forma marota, uma promessa no piscar.

Apenas me deixei relaxar quando ele se afastou de vez, virando de costas para Dylan e eu, e se embrenhando novamente na multidão de Alfas e betas na sala.

Eu sei que tinha um monte para explicar para Dylan, e uma longa conversa pela frente, mas sem os feromônios de Julian me agredindo, a única coisa que vinha em minha mente era Kane.

— Onde está Kane? – Minha pergunta saiu antes mesmo que conseguisse pensar em dizê-la.

Eu senti Dylan rir no meu cabelo, por um instante pensei que ele estivesse me cheirando, mas deixei de lado essa ideia quando o encarei.

Seus olhos espertos tão parecidos com o do irmão, faziam o meu peito arder de saudade e preocupação.

O sentimento de saudade era estranho, já que eu tinha visto Kane apenas essa manhã, e a preocupação era totalmente necessária, já que o grande tolo estava indo para uma Lua Vermelha em meu nome.

— Ele está se preparando para a luta. – Sua resposta apenas atiçou raiva para o meu peito.

— Me leve até ele. – Tive que exigir, já segurando em sua mão, e o puxando para a multidão.

Para a minha sorte, não tive que liderar o caminho, afinal não fazia nenhuma ideia de onde Kane poderia estar se preparando. Dylan me segurou firmemente em seu corpo, enquanto atravessávamos entre as pessoas ao nosso redor, abrindo caminho até um dos quartos no andar de cima da casa.

Eu o segui sem reclamar, meus instintos diziam que podia confiar em Dylan, e por onde andávamos o cheiro de Kane apenas aumentava.

Minha ansiedade crescia dentro do peito, enquanto meus passos praticamente corriam para onde Kane estava.

Ninguém nos parou em nosso caminho, eu podia notar que mais pessoas sussurravam, porém não podia ouvir sobre o quê.

Para chegar até Kane tivemos que seguir por um grande corredor. Cheio de portas, todas fechadas. O cheiro alfa aqui era enorme, quase sufocante.

Dylan nos encaminhou para um a direita do corredor.

Eu estava muito nervosa para bater na porta, então apenas abri e corri para dentro.

O forte cheiro de seus feromônios me inundaram como uma tsunami. Tudo o que eu podia perceber era ele parado ao lado no fundo do quarto, sem camisa.

As tatuagens em todo o seu torço eram abundantes o cobrindo por inteiro. Seus músculos retesados e cortados eram um delírio para os meus olhos, sua postura austera e pronta para a luta, enchiam o meu cérebro Ômega de deslumbramento.

Mas, no momento que seus olhos castanhos se prenderam aos meus, tudo ao meu redor desapareceu.

Não faço ideia de quem se moveu primeiro, apenas sei que em um curto espaço de tempo, Kane estava me apertando em seus braços, enquanto sua boca devorava a minha.

Eu me sentia como uma peça de quebra-cabeças que tinha que encaixado em um lugar perfeito. Era assustador.

O gosto de sua boca na minha era devastador para os meus sentidos Ômega que choramingavam por ele, enquanto o sentia praticamente ronronar ao lamber meus lábios.

— Não faça isso. — Pedi no momento em que nos separamos para respirar. — Não lute.

— Gatinha, vai acontecer. Aquele alfa vai pagar por tocar em você. — Sua voz grossa arranha algo dentro do meu peito.

— Mas eu não quero isso. Não quero que brigue por mim, já passou, ele não conseguiu fazer...

— Ele tentou, ele te machucou, o maldito precisa aprender uma lição. — Suas palavras eram profundas e fortes, cheias de sentimentos de raiva e vingança, eu até podia cheirar um bocado de medo e calor em suas emoções.

— Eu não estou pedindo vingança, Kane. Você não é obrigado a lutar por mim. Não quero que você se machuque ou que vá preso. — Os braços do gêmeo tatuado me apertavam ainda mais forte, seus feromônios ao meu redor eram um cobertor para os meus sentidos.

Meu ômega interno ronronava de prazer em estar em seus braços. A coceira em minhas glândulas finalmente estavam inexistentes ao senti-lo tão próximo.

Seus dedos passeando pela minha pele, me levando a um pequeno pedaço de paraíso.

— Nada vai acontecer, estamos seguros. — Sua voz está cheia de certeza. Mesmo que meu peito chore de medo, sei que implorar pode envergonha-lo, fazendo-o parecer fraco e não é isso que eu quero.

Kane Hunter é o alfa mais forte que conheço, e mesmo não sabendo muito dele, meu corpo inteiro grita que ele é certo, algo nele se encaixa perfeitamente em mim.

— Eu vou com você, tenho que estar lá...

— Sem chance, Emma, quero você segura. Dylan vai ficar com você até tudo acabar, ele não vai sair do seu lado, você não precisa ter medo, vai ficar segura. — Kane está prestes a me dar um segundo beijo quando o interrompo.

— Eu não temo pela minha segurança, temo pela sua. A Lua Vermelha é proibida, não quero que você se machuque ou seja preso. Por favor, Kane. Alfa, não me deixe. — As palavras escapam de meus lábios antes que eu pense em dize-las. Meu timbre doce e submisso vem inteiramente da minha designação.

Nunca pensei que algum dia me ouviria soar assim. Eu sei que muitos Ômegas quando estão assustados ou temerosos, com suas designações tomando conta de seu lado racional, que algo assim, um pedido ômega, pode escapar.

Faz parte da minha designação, acredito que fiquei assustada justamente por isso. Meus instintos estão tão bagunçados que tudo está confuso.

Com minha atenção inteiramente em Kane, não pude saber quem mais estava no pequeno quarto, mas os suspiros Alfas de genuína surpresa e desconforto são inegáveis.

Ótimo, estou me fazendo de idiota na frente de várias pessoas, sendo a maioria Alfa.

Já Kane, aparentava que estava em uma verdadeira guerra interna. Ele realmente rosnou e ronronou para mim. Seus braços se tornaram mais possessivos em meu corpo, enquanto seu rosto queimava com calor e posse.

No mesmo instante sinto algo dentro de mim subir em resposta ao Alfa.

Por isso, tive que trancar meus lábios para não choramingar implorando naquele tom ômega em necessidade. Foi uma batalha me controlar, principalmente porque algo quente e desconfortável se arrastava dentro de mim.

Kane me beijou com força, seus lábios nos meus me enchiam de necessidade.

— Antes que você perceba, estarei de volta. — Sua voz mais grossa do que nunca me disse, assim que ele me soltou de seus braços. — Dylan, fique com ela e não a permita em nenhum lugar fora desse quarto.

Mesmo dando instruções ao seu irmão, seus olhos nunca deixaram os meus.

E ao se despedir, me deu um beijo suave nos lábios e testa. Seus olhos cheios de promessas quentes, ainda que sua expressão fosse fechada em uma carranca.

Ao nos separarmos, e com sua saída do quarto pude enfim notar vários outros homens Alfas, todos da idade de Kane, que com a minha chegada estavam quietos e também carrancudos. Todos me olhavam seriamente e acenavam educadamente ao sair do quarto e seguir Kane.

Seus feromônios eram uma bagunça para o meu senso olfativo, mas pude discernir desejo, vingança, inveja e respeito.

Mesmo com o pedido de Kane, ainda tentei segui-lo, porém fui barrada por Dylan.

Seus feromônios estavam mais selados para o meu nariz, mas pude notar um grande senso de proteção e justiça se espalhando ao seu redor.

— Desculpe, baixinha. — Ele falou cheio de convicção. — Você vai esperar aqui, onde é seguro.

— Isso é ridículo, Dylan. Essa Lua Vermelha é uma besteira enorme. Porque ele pediu isso? — Questiono irritada, não posso deixar de andar em volta do pequeno quarto.

Agora que Kane saiu, me sinto ainda mais desconfortável em minha pele. Todas essas emoções devem estar me deixando doente.

— Não foi só Kane que pediu a Lua Vermelha. — Dylan me diz com um pequeno sorriso se espalhando pelo seu belo rosto.

— Como assim, eu não entendo. — Resmungo para ele.

— Josh Tunder, presidente dessa República Alfa pediu uma Lua Vermelha pelo seu ataque, e também Harry Salt e Breno Alexander, eles viram você correr na festa logo após ter se livrado do alfa que tentou te atacar, parece que você passou por eles em sua fuga, eles dois pediram uma Lua Vermelha por você. — Enquanto Dylan ia me dizendo isso, fui tomada de perplexidade e irritação, uma leve vertigem tomou conta dos meus membros.

— É claro que Kane também pediu uma Lua Vermelha, todos os Alfas que estavam na festa fizeram uma reunião depois do ocorrido, eu também teria pedido o direito dessa Lua Vermelha, mas Kane ganhou o direito a Lua assim que chegou com o seu cheiro sobre ele. E agora, na frente de Josh, Harry e Breno, você acabou de demonstrar que ele é merecedor dessa luta. — Suas palavras ainda me deixavam espantada. — Não se preocupe, baixinha, meu irmão é um lutador assustador, ele vai ganhar isso facilmente.

— Lutador assustador? — Pergunto ao me aproximar dele. Estou irritada e desconfortável, e acho que posso vomitar a qualquer momento. — É assim que você quer me tranquilizar? E todos esses Alfas que eu não conheço, pedindo uma lua Vermelha, o que diabos isso quer dizer? Isso é insano, Dylan.

Dylan estava pronto para rebater meu comentário, quando parou o inspirou fortemente.

Seu corpo todo se enrijece e um pequeno rosnado escapa de seus lábios.

Logo, meus instintos Ômega estão mais ligados do que nunca, martelando em minha cabeça. Não me sinto ameaçada, mas sei que algo está errado.

— Emma, sei que não é normal perguntar sobre isso, mas eu preciso saber se você tem tomado os seus supressores. — Suas palavras agora são quase um rosnado, enquanto seus olhos me encaram.

— É claro que eu tomo os meus supressores. — Respondo de forma azeda.

— Hoje você tomou os seus supressores? — Sua insistência me irrita e não entendo o que ele quer dizer. Não até sentir a primeira cólica queimar em meu baixo ventre.

Ainda fico olhando para ele quando coloco uma mão sobre minha barriga e me sinto começar a queimar de dentro para fora.

Em silêncio repasso os meus últimos dias, lembrando das minhas manhãs e se tomei meus supressores.

Imediatamente pego a minha pequena bolsa, que sempre carrego comigo e a abro retirando minha carteira onde minha cartela de supressores está.

Fazendo as contas de todos os dias, noto que três comprimidos estão sobrando e pela contagem do mês, eu não deveria ter nenhum comprimido sobrando.

Meu coração dispara de modo selvagem dentro de mim. Enquanto uma sensação de pânico ameaça me sufocar.

Não pode ser, isso não pode ser verdade. Penso cheia de medo ao voltar a recontar a minha cartela, outra cólica me queimar de dentro para fora.

Quando olho para Dylan, ele deve ter percebido o grau do meu desespero.

— Quantos dias, Emma? Se foi apenas um, nós podemos comprar um supressor de emergência e tudo vai dar certo. — Seu cérebro já está trabalhando em tudo o que ele pode fazer para me ajudar, enquanto o meu ainda está paralisado em terror.

Alfas e Ômegas tomam supressores para diminuir e esconder muito dos seus feromônios, e o pior dos instintos ligados a cada designação.

Esquecer de tomar um comprimido pode levar um Alfa a Rotina e um Ômega ao Calor. Nos dias atuais não é algo que alguém queira fazer sem um bom motivo.

Eu tomo supressores desde os meus quinze anos, quando tive o meu primeiro calor.

Quando estão próximos ou em rotina, os Alfas homens ou mulheres ficam mais agressivos, seus instintos demandam que eles encontrem um parceiro para transar por dias e prover sem parar. Apenas alguém nascido Ômega consegue segurar até o final a rotina de um Alfa, nossos corpos são biologicamente projetados para isso.

Agora quando um Ômega está próximo de entrar em calor, homem ou mulher, ficamos ansiosos, irritadiços e incrivelmente dependentes. Ao contrário dos alfas, um Ômega no calor não consegue fazer nada a não ser gemer e implorar por um nó, entramos em um estado de choradeira e dor, semi consciência que não nos deixa comer ou beber por nós mesmos até o fim desse período. É humilhante.

Ambos Alfas e Ômegas sentem uma dor excruciante se não podem atender ao chamado da natureza. São vários dias de dor ofegante, masturbação intensa e desconforto.

Normalmente sempre passo meu calor com a minha irmã, ela cuida para que eu me mantenha alimentada e hidratada, enquanto estou sozinha gemendo e chorando no meu ninho.

Ainda sem acreditar, pego o meu celular e abro o meu aplicativo de calor, para a minha surpresa estou mais de um mês adiantada, o que só faz aumentar o meu medo.

Como pude esquecer de tomar os meus supressores? Faz seis anos que tomo as pequenas pílulas cor de rosa, diariamente e sem pular um dia sequer. Agora esqueci de tomar três dias seguidos.

Hoje, eu estava na casa de Kane e com toda a confusão do meu dia esqueci de tomar, ontem passei meu dia com Bry, devo ter pulado a pílula sem querer, mas o dia anterior ao de ontem não havia nada acontecendo que eu pudesse esquecer de tomar o meu supressor.

O que faço agora? Não posso ligar para Valerie, ela não vai conseguir um vôo a tempo de me ajudar, certamente não posso ir até ela, nenhuma companhia aérea do mundo me permitiria voar no meu estado. Certamente não posso ficar no meu dormitório e não tenho ninguém para me ajudar a passar por isso sem morrer de fome ou desidratação. Estou totalmente fodida.

— Quantos dias , Emma. Você precisa me responder. — Sou acordada do meu surto por Dylan, que está praticamente gritando comigo.

— Três dias...- Minha voz é quase um sussurro quando respondo.

— Três dias? — O grito de Dylan não chega a me surpreender, esquecer de tomar os supressores por um dia é uma tolice, por três é uma catástrofe. — Caralho, Emma, três dias é muito tempo sem supressores. O cheiro está mais forte hoje, mas agora sem um monte de outros odores ao seu redor, pude notar a diferença. Você sabe que está entrando no calor, não sabe?

— Agora eu sei. — Respondo ao encará-lo, imediatamente levo minha mão para a minha barriga e tento aliviar um pouco de desconforto que encontro.

— Tenho que te tirar daqui agora mesmo. — Dylan volta a rosnar enquanto me ajuda a me levantar.

Fico surpresa quando ele invade o meu espaço pessoal e me cheira no cabelo e próximo ao pescoço onde minhas glândulas estão.

Mesmo quando tento me afastar, assustada pelo seu gesto, ele ainda me segura forte pelos braços e continua a sua exploração olfativa.

— Ótimo, você ainda tem o perfume de Kane em você, ele te perfumou bem na noite anterior, isso vai afastar os mais curiosos. — Depois da sua explicação me sinto mais relaxada.

Suas ações são muito rápidas a partir desse momento. Logo ele está recolhendo algumas coisas em uma cadeira e me pedindo para vestir uma camiseta preta que era um dos itens que estava sobre a cadeira.

Não preciso nem cheirar a camiseta para saber a quem ela pertence, é lógico que é de Kane, por isso a visto no mesmo instante.

A camiseta é tão grande em mim, que vira um mini vestido. Os feromônios presos no tecido acalmam um pouco do desconforto em minha pele, mas não faz nada pelas minhas cólicas já constantes.

— Por que temos que sair daqui, não podemos esperar por Kane? — Pergunto ao me aproximar de Dylan.

— Não dá tempo, Emma. Você é um Ômega não acasalado que está entrando no calor dentro de uma fraternidade Alfa que está sediando uma Lua Vermelha, com metade dos Alfas do campus aqui dentro. Se eu não te tirar agora, o seu perfume vai jogar metade dos Alfas do campus em uma rotina. — Suas palavras vão cavando um túnel de medo dentro de mim. Por isso, não reclamo quando ele passa seu braço direito sobre os meus ombros e me puxa para mais perto de seu corpo. — Kane e eu somos bons lutadores, mas não podemos com uma centena de Alfas na rotina.

A urgência de nosso caminhar depois que saímos do quarto, não chega a me incomodar, agora que as coisas foram devidamente explicadas, quero estar o mais distante dessa fraternidade, e de todos os Alfas que estão aqui.

Sair da casa foi razoavelmente fácil, já que a atenção das pessoas estava toda no porão, mesmo os poucos remanescentes na sala e na cozinha, fizeram pouco para nos impedir e não entraram no caminho de Dylan.

Quando pisamos no gramado do lado de fora da casa, Dylan me soltou de seu abraço e pegou na minha mão, me puxando levemente para uma rua lateral da grande casa de fraternidade que acabamos de abandonar.

— Para onde estamos indo? — Questiono ainda o seguindo de perto.

— Vamos sair daqui no carro de Kane. Vou te comprar um comprimido supressor de emergência e vamos rezar para que ele dê certo. — Dylan me responde com rapidez.

Depois que estou dentro do carro, volto a minha atenção para o meu desconforto crescente.

Tenho certeza de que já estou com uma febre leve, meu corpo inteiro começa a queimar de forma irritante, enquanto afundo o meu nariz no tecido preto da camiseta de Kane e respiro o seus feromônios quase que religiosamente. Isso não acalma o meu corpo, mas me faz mais lúcida.

Quanto tempo eu tenho antes que o calor tome conta da minha sanidade? Umas duas horas? Três? Ou apenas mais alguns minutos? Estou em uma situação tão fodida que mal posso pensar sobre isso.

Não posso ligar para a minha irmã, não posso preocupa-la desse jeito. Valerie vai perder o juízo com essa notícia, que é inteiramente minha culpa.

Sem nem perceber puxo o meus joelhos para o meu peito e passo os meus braços em volta deles, me mantendo presa em um forte abraço.

É difícil ignorar as primeiras contrações vaginais e o calor que cresce em meu sexo. Por dentro, estou rezando para Dylan não perceber que já estou nesse estágio. E que meus feromônios não o joguem em uma rotina.

Tudo o que posso fazer pelos próximos minutos é me concentrar em não começar a chorar quando a dor começa a ser demais. E sinto minha pele inteira queimar. É tão constrangedor, estou morrendo de vergonha e preocupada até a morte com o que vai acontecer.

Em algum momento noto que Dylan me empurra uma garrafa de água aberta e um comprimido vermelho grande, ele praticamente tem que me forçar a tomar o remédio, já que estou em uma suadeira tão grande, que nem notei que paramos em uma farmácia, que ele estacionou, saiu do carro, comprou o supressores de emergência e voltou para me forçar a tomar.

— Você tem alguém para te ajudar com o calor, Emma? — Sua voz parece cada vez mais preocupada.

— Minha irmã, mas ela mora do outro lado do país, e não vai conseguir chegar a tempo.
— Consigo cuspir as palavras por entre os meus lábios. – Deus, o que eu vou fazer? Você pode me deixar no dormitório ou na casa de Bry, vou pensar em algo até o meu calor ficar pior, prometo.

— De jeito nenhum, não vou te deixar sozinha em um dormitório e me desculpe, mas sua amiga está mais preocupada com o que existe nas calças de Luke Turner, do que com o seu calor, e aposto um dos meus preciosos testículos que ela não vai saber cuidar de você nesse momento. – As palavras de Dylan machucam, mas são mais verdadeiras que nunca. Bry não vai conseguir cuidar de mim nesses dias. É pedir muito que ela apenas largue tudo por quatro ou cinco dias e exclusivamente se concentre em mim, dia e noite.

Sem me dizer mais nada, ele volta a ligar a carro e voltamos para a estrada.

Não sei quanto tempo ficamos no trânsito da cidade até o campus da universidade, mas os vidros do carro estão abaixados, Dylan deve ter feito isso para não entrar em uma rotina com o meu cheiro, e estamos correndo pelo asfalto, em alguns instantes sinto que paremos o carro, e logo Dylan está me ajudando a sair do veículo.

Noto que estamos indo para o apartamento que ele divide com o irmão, mas não consigo me opor. Não quando tudo o que consigo pensar é no grande alfa tatuado, e em seu maravilhoso cheiro ao meu redor.

— Meu irmão e eu não vamos te tocar se você não quiser, Emma. Eu juro para você isso, mas vamos estar próximos para te ajudar. Não fique com medo, baixinha, nós não somos esse tipo de alfa, e não vamos te fazer mal. – Dylan tem uma certeza gritante em seus olhos, seu cheiro demonstra confiança e verdade, proteção e cuidado.

E sei com todos os meus instintos que ele não vai me machucar. E nem Kane.

Por isso, quando o sigo para dentro do apartamento, tudo o que posso fazer é rezar para o supressor de emergência surgir efeito e acabe com o meu calor, ou que um milagre caia do céu e nada de horrendo me aconteça. E se eu realmente entrar em calor, espero que seja o mais rápido da minha vida.

Tudo o que posso fazer agora é esperar por Kane, então para me acalmar, volto a puxar sua camiseta preta até o meu rosto e me afogo em seu feromônio perfeito. Mesmo que eu esteja queimando de dentro para fora, tenho que me manter forte e lúcida até ele chegar.

Notas finais
Preparadas para o Calor da Emma?