Ao meio da madrugada, o cônjuge erguia-se do lado de sua esposa, com a cabeça latejando em uma dor insuportável. A mão lhe evolvia a têmpora e os dedos apertavam-lhe o crânio em uma tentativa frustrada de amenizar a aflição. Provavelmente era resultado de uma ressaca, mas que ressaca? Não se lembrava de nada que havia ocorrido após entrar em um boteco e, com seus amigos... não, com seus companheiros de copo, mergulhar a sanidade em doses e mais doses, até que ela se afogasse.

A luz da lua, que entrava por brechas da persiana, incidia sobre os olhos da esposa. Aluminada, notava-se certo escurecimento ao redor deles. Dando de ombros, imaginou serem olheiras, embora não se lembrasse delas antes de sair de casa ao trabalho.

Guiado pelas passadas ao banheiro de seu quarto, ao lado da cama, tateou a parede adjacente a moldura da porta. Os olhos fechados imergiam-no em um breu eterno, até os dedos encontrarem o interruptor. A lâmpada acendeu, mas seu corpo parecia queimar, como um vampiro exposto ao Sol.

Apoiado sobre a pia, suas pálpebras lutaram contra a dor penitenciária que o afligia, conseguindo, finalmente, encarar seu eu espelhado. Porém, o reflexo do espelho piscava. Como poderia ver-se piscar? As córneas refletidas tomaram uma coloração rubra, a íris tornava-se uma escuridão vazia, e a pele escamava. Sem entender o que acontecia, olhou para as mãos, mas não havia nada de errado. Voltada a atenção ao espelho, viu que seu reflexo dava-o as costas e ia até a cama. Sobre o pescoço, o reflexo dava um último relance no estremecido homem. O sorriso alargava-se, o punho erguia-se e, como uma guilhotina, caía sobre o crânio da mulher.

Arfava, respirava pesado, seu coração acelerado parecia querer livrar-se de sua prisão óssea e encontrar-se com o mundo. O suor frio escorria seu corpo, enquanto colocava-se sentado. Fitava as próprias mãos, que tremiam. A cabeça mantinha a dor, porém, com intensidade menor que a de antes, que parecia não uma conseqüência de ressaca, mas uma punição celeste.

As cenas que vira lhe cruzaram a mente em um flash, quando, tomado pelo medo, virou o olhar à sua esposa. Ela estava bem, excluindo o contorno roxo em seu olho e a mancha de lágrimas enxugadas pela fronha. A luz da lua continuava aluminando-a os olhos, tristes e desesperançosos.

Os últimos meses também voltaram para sua cabeça. As infindas noites de briga, e, da última vez, o ápice da violência corporal. Punira os apelos da mulher com um golpe descordenado e pesado contra o rosto, antes de, sem quaisquer palavras, ir à cama.

Finalmente dera-se conta que o reflexo não era um pesadelo, mas sim o seu futuro; um demônio inescrupuloso, capaz de infligir o mal a quem jurou outrora proteger e amar. Era o apelo do pingo de sanidade que ainda lhe restava vivo, emergindo o álcool, tentando salvar-lhe a pouca vida que ainda tinha.