— Perdão?

Encaro Ares com confusão e uma pitada de pânico. Por que o deus da guerra está me tratando assim?

— Como está se sentindo? — ele repete, calmamente. O deus da guerra está calmo.

— Bem — minha resposta sai quase como uma pergunta. Eu estou estática.

— Ela precisa de espaço, Ares — Apolo revira os olhos — cai fora.

Me surpreendo um pouco por ele agir quase como... Uma pessoa normal.

— Ela precisa de mim — retruca Ares.

— Eu nem ao menos conheço você — rebato, indignada — e não gosto que ninguém diga o que eu devo ou não fazer.

Em vez de parecer ofendido, ele sorri.

— Gosto disso — faço uma careta com essa frase.

Antes que eu possa dizer algo, um homem entra no quarto. Ele veste roupa de carteiro e isso já entrega quem é. Hermes, suponho.

— Hera quer vê-la — avisa, olhando curioso para mim. O deus parece me avaliar de cima a baixo, então ergo mais o queixo.

— Por quê?

— Porque ela é fofoqueira — dá de ombros — Demeter já está lá e pediu para chamar Atena, que com certeza vai chamar Artemis, que por sua vez vai arrastar Hestia com ela.

— Isso vai se tornar um espetáculo — geme Apolo, colocando as mãos na cabeça — um de péssima qualidade, com atraso na abertura e o pior lugar na plateia.

— Eu vou levá-la para o meu templo, ela precisa descansar — Ares se levanta e eu me afasto um pouco. Seu tamanho é intimidante.

— Eu não vou a lugar nenhum com você, — rebato, acrescentando depois — senhor.

Antes que Ares possa retrucar, Apolo toca em seu ombro.

— Ela precisa se arrumar para encontrar Hera. Depois vocês se resolvem — diz, com uma pontada de impaciência.

— Você sabe que a rainha das rainhas não gosta de esperar — Hermes apoia Apolo, com uma pitada de deboche.

Ares então assente e me olha uma última vez antes de sair. Hermes e Apolo vão atrás dele. Me levanto em um pulo, minha mente tentando achar uma saída, mas a porta é aberta novamente.

— Senhorita Souza — a ninfa de antes entra saltitante, parecendo alegre — fui incumbida de ajuda-lá a se trocar para se encontrar com a soberana. Creio que o tempo não está ao nosso favor, mas podemos lidar com isso.

Decido não resistir enquanto ela pega um frasco e pinga apenas uma gota em cima da minha cabeça. Automaticamente, é como se eu tivesse tomado um banho. Estou limpa e fresca, meu cabelo está úmido. A ninfa então pega um vestido no enorme guarda-roupa e um par de salto. Até mesmo das minhas roupas íntimas tenho que abrir mão por novas. Não crio caso, me vestindo e sentando obediente em frente a penteadeira, onde meu reflexo faz meu coração acelerar.

Como pode eu não parecer comigo mesma?

Quer dizer, o essencial ainda está aqui. Mas tudo parece... perfeito. Meu cabelo está mais brilhoso do que nunca, minha pele não parece ter nenhum defeito, minhas cicatrizes parecem ter desaparecido. Meus olhos... Me inclino mais para o espelho — recebendo resmungos da ninfa, que faz um elaborado penteado em meu cabelo — fitando com curiosidade meus olhos. Antes, eles eram castanhos com pequenos pontos dourados e já me disseram que às vezes em luta, eles se tornam completamente dourados. Mas agora... Eles continuam castanhos, porém mais claros. Os pontos dourados ainda estão aqui, só que agora eles dividem espaço com pontos... rosados? Me inclino mais ainda, sem acreditar. Pequenos pontos rosados...

— Está pronta, senhorita — a ninfa me levanta com pressa, quase me fazendo tropeçar nos saltos ao me arrastar até a porta. Não tenho tempo para tomar coragem, já que ela abre a porta e dou de cara com os três deuses me encarando.

Eles estão diferentes, é a primeira coisa que noto. Agora, vestem roupas tipicamente gregas antigas, assim como eu. A coroa de louros que Apolo ostenta me faz estremecer. Ele nunca será meu papai, uma vozinha no meu interior choraminga.

Ao mesmo tempo que avalio eles, eles me avaliam também. Apolo me olha como se eu fosse uma estranha, o que não deixa de ser verdade. Ares parece encantado, sua face demonstrando uma vulnerabilidade desconcertante. Já Hermes sorri com malícia e olha para Ares com divertimento antes de se virar para mim novamente.

— O que um banho não faz, hein? — brinca, mas realmente parece impressionado.

Seguro as laterais do vestido com força, envergonhada. Eu sempre fui bonita, isso não é novidade para mim. Mas ter deuses me encarando como se eu fosse a oitava maravilha do mundo é desnorteante...

— Para onde vamos? — ignoro o braço estendido de Apolo, o que faz ele bufar e os outros dois sorrirem.

— Templo de Zeus — sinto um arrepio percorrer meu corpo com a informação. Hera não poderia me encontrar em um jardim agradável e público? Ou no templo de Apolo, já que, querendo ou não, ele é meu pai e tecnicamente responsável por mim aqui.

— Oh — é tudo que eu consigo dizer.

Desvio a atenção para o caminho que estamos fazendo e percebo que estamos saindo de um templo. Olho para trás e o desenho de sol enorme bem no centro, no topo, deixa claro quem é o dono do templo. Eu estava no templo de Apolo. Faz sentido. Isso não quer dizer nada. Afinal, ele é o deus da medicina...

— Você vai ficar bem — Hermes tenta me consolar — ele nem está lá. Hera só está fazendo isso para te intimidar.

— Está funcionando — resmungo, respirando fundo em seguida. Eu vou conhecer pessoalmente deuses. Mais deuses, aliás. Deuses que por acaso também são meus tios, tias, primos...

Que pé no saco.

Olho ao redor, tentando aproveitar meu passeio pelo Olimpo antes da minha talvez morte iminente. É tudo tão... Mágico. Como um Conto de Fadas. Mas algo parece errado. As criaturas — ninfas, sátiros, deuses menores... — parecem felizes e serenas, mas até notarem minha presença. Então ficam paradas no lugar, com um olhar estranho, apenas me encarando. A expressão deles até é boa, mas mesmo assim é estranho.

— Por que todo mundo está me olhando assim? — questiono, levemente irritada. Talvez estar ao lado do deus da guerra faça isso com todos.

— Porque você é linda, uma semideusa e porque é nova aqui — Hermes responde, fazendo Ares lançar um olhar raivoso. O deus mensageiro não se abala — Eu não estou mentindo.

— Eu poderia socar todo mundo que está incomodando você — Ares diz para mim, em um tom mais baixo. Tenho certeza que Apolo e Hermes ouviram, mas eles são educados e fingem que não.

— Não, obrigada — agradeço a... Gentileza? — eu poderia socar eles eu mesma.

— Eu seguro e você bate — ele pisca para mim e eu até deixo escapar um sorrisinho. Ele pode agir estranho para caramba, mas não posso maltratar possíveis aliados agora. Só os céus sabem o que os deuses tem preparado para mim. E, com minha experiência, posso dizer que não é coisa boa.

Logo um templo bem maior que os outros chama minha atenção. Com certeza o de Zeus. Há desenhos de raios por toda parte, nuvens e águias e todo o tipo de coisa que lembre ao deus, tudo caprichadamente entalhado. Quando começo a subir a escadaria, sinto minhas pernas tremerem.

Ao chegar no hall de entrada, o tamanho me deixa quase doente.

— Oh, céus — murmuro, definitivamente intimidada.

Eu posso morrer hoje.

— Elas estão nos esperando — Apolo faz uma careta, mas respira fundo e assume uma expressão impassível ao liderar nosso grupo.

Seguimos ele até uma enorme sala de estar, ricamente decorada, claro. A primeira coisa que eu reparo, entretanto, são nas cinco mulheres: a primeira delas está sentada em um dos sofás, virada diretamente para nós, seu vestido tem penas de pavão, mostrando quem é. Outra está sentada ao seu lado, em uma distância segura. Ela veste verde e parece a mais velha do grupo, apesar de não aparentar mais que quarenta. A mais nova está sentada em uma poltrona, parecendo desconfortável em seu vestido marrom, sua aparência é de adolescente, mas sua face demonstra uma seriedade anciã. Artemis, com certeza. Ao seu lado está uma mulher um pouco mais velha que ela, seu vestido laranja desbotado. Já a última está perto de uma estante de livros, seu vestido é cinza azulado.

— Solari Dove Souza — Dove. Ninguém nunca fala meu segundo nome. Eu até tinha me esquecido dele. Mas Hera parece quase recitar meu nome, como uma poesia complexa. Não sei se isso é bom ou ruim.

— Soberana — me ajoelho em uma perna, abaixando minha cabeça e encarando o chão por três segundos, até me levantar novamente e olhar para as outras deuses, me inclinando por mais três segundos — senhoras.

— Por que eu não recebi esse tratamento? — Hermes reclama, mas não é a sério. Percebo um sorriso brincando em seus lábios.

— Porque ela é esperta o bastante para saber os tratamentos que deve dar a cada um — suponho que seja Atena a dizer isso, com seu vestido esvoaçante. Ela me avalia com os mesmos olhos de Annabeth, só que mais frios. Com certeza Atena.

— Eu sou Hestia — a deusa de laranja sorri amigavelmente, se aproximando — essas são Atena, Demeter, Artemis e Hera.

— É uma honra imensurável — digo o mais solenemente possível. Um passo em falso e eu estaria segurando o céu, virando planta ou estrela. Meu estômago parece se revirar.

Outros semideuses já foram mortos por tão pouco...

— Então — Demeter dispensa com a mão minha formalidade — o que aconteceu com você, jovem? Devo dizer que está gerando certa comoção por aqui.

— Eu fui flechada no coração — conto — estava no acampamento e fui atacada.

— Por quem? — desta vez quem pergunta é Hera. Ela tenta manter o tom neutro, mas está ávida pela fofoca.

— Aquele bastardo do Eros — Ares não faz questão de esconder sua raiva. Hera e Demeter trocam um olhar cúmplice.

— E como você se encaixa nisso, Ares? — Artemis olha para ele quase com repulsa.

O deus da guerra parece desconfortável, ficando imóvel ao meu lado. Olho para ele desconfiada. Por que ele precisa pensar tanto para dizer a verdade?

— Com licença — um homem entra na sala e ele parece bem comum. Me pergunto o que é — Zeus exige a presença de Solari Souza no templo dos deuses. Imediatamente.

Meu coração parece falhar e depois bater descontroladamente e percebo Ares se aproximar de mim, tocando minha mão gentilmente com a sua.

— O que meu marido quer com ela? — Hera parece quase livida. A sala parece menor, enquanto todos sentem seu ciúme quase passar por nós em ondas. Qualquer boa primeira impressão que eu poderia dar foi completamente arruinada.

Um breve silêncio é feito, todos olhando cautelosamente para Hera e o mensageiro.

— Ahn — o homem começa a gaguejar e eu tenho vontade de sacudi-lo e dizer "vai logo antes que Hera me mate" — semideuses invadiram o Olimpo e exigem ter sua líder de volta.

Mais um breve silêncio é feito. Não consigo conter um sorriso. Chocado, confuso e preocupado, mas acima de tudo, orgulhoso. Nós não abandonamos um dos nossos.

— Isso vai ser tão bom — Hermes comenta, sumindo em seguida. Ele simplesmente some, em um piscar de olhos.

— Vamos lá, antes que fique pior — Apolo segura meu braço e eu não reclamo. Fecho os olhos com força e comparo a sensação que sinto com o que li em Harry Potter. Isso parece muito com aparatar. Desagradável, mas útil.

Ao abrir meus olhos novamente, percebo que estou de frente para um trono gigante. Dou uns passos para trás, erguendo meu olhar até Zeus, que me encara de maneira indecifrável.

Notas finais
hermes = tudo pra mim aliás, vocês são filhos de que deus/a? eu sou filha de Hades, mas devo ter uma benção de Apolo fortíssima