Notas iniciais

- Senhor, desculpe, mas precisamos ir. – Agradeço aos céus que ele pelo menos fala, e a cor volta ao seu rosto. Pobre homem. Será que Warner vai atirar da cabeça dele só por essa interrupção? As meninas continuam no mesmo lugar sem se mexerem, me lembro delas verem algo parecido no Ponto Omega, mas naquela situação era com Adam e havia muito mais roupas. Warner estava apenas com suas boxes pretas e eu com aquele pedaço de shorts cinza e uma camiseta branca.

Warner se levanta como se nada demais estivesse acontecendo e evita as meninas que olham pra mim como se eu tivesse alguma estranha habilidade de criar um buraco negro atrás dos olhos.

- Sabe Delalieu você deveria ter batido na porta antes de entrar feito um furacão.

A voz é autoritária, como se estivesse dando bronca em uma criança birrenta. O soldado abaixa a cabeça e começa a murmurar algo que não consigo compreender, algo como “eu bati senhor” e também “o senhor não respondeu”. Pobre homem. Warner parece perder a paciência com ele e passa uma das mãos pelos cabelos. As meninas já estão olhando para fora da janela. Veja o quanto a janela se torna interessante nesses momentos!

- Senhor, o supremo comandante irá pessoalmente anunciar a população que a guerra...

- A guerra, o que aconteceu? – me vejo cortando as falas do soldado que visivelmente torna a se corar, merda ainda estou com essa roupa mínima, mas preciso saber as noticias dos meus amigos.

Ele retorna a falar olhando somente para Warner que já conseguiu se vestir e esta fechando o casaco pesado cheio de botões. Lembro-me de ter estragado algum destes, será que ele jogou fora?

- As noticias não são boas para nenhum dos lados e temo que quem mais esta sofrendo as baixas seja a população. Há rumores na base que a real intenção seja eliminar o setor 45. — Ele termina de falar e olha para a porta como se já tivesse dado o recado.

Warner volta a olhar para mim, ele está nitidamente preocupado. Talvez por mim, talvez pela população, talvez pela possibilidade de querer voltar para a guerra. Ele sabe que se voltarmos vamos lutar de lados opostos.

- Senhoras, muito obrigada por emprestar as roupas para Juliette, mas, teriam algo mais... Apresentável para ela? – Creio que a capacidade delas de falar voltou, mas continua instável.

- ...T-temos algumas ro-oupas. – Acho que essa foi a Sonya, ainda com os olhos arregalados. Elas devem estar com medo, de mim? Ou de Warner? Ou de Anderson? Ou da guerra? Na verdade elas têm vários motivos para terem medo agora. Anderson quer usá-las em beneficio próprio.

As meninas saem do quarto e voltam 3 minutos depois com uma calça jeans preta e minhas botas, incrível que elas ainda estejam em bom estado. Aparentemente vou continuar com esta camiseta branca e elas pedem desculpas por não terem algo mais quente pra vestir-me. Me pergunto em que situação deve estar meu traje do ponto ômega.

- Aqui amor, vista isso, não acredito que seus dons envolvam algo como não ficar resfriada.

Warner me passa um de seus casacos, um verde escuro que vai ficar grande em mim, ele porem tem uma faixa, aparentemente sem nenhuma função, mas eu utilizo para deixá-lo preso á minha cintura isso deve ajudar a não entrar tanto frio. O casaco também tem dois ligamentos de ombro com duas estrelas bordadas em cada lado e botões negros foscos.

Olho-me de relance no espelho próximo da janela. Sinto-me uma militar com esse casaco. Obviamente o primeiro a me ver deduziria que estou do lado do Restabelecimento, ou seja, do lado errado. Mas isto pode me dar alguma vantagem, passaria despercebida no território inimigo, poderia chegar ate a base com facilidade e sem precisar usar Kenji.

Kenji, será que ele esta bem? Será que ele ainda está vivo? Será que ele conseguiu resgatar Brendan e Winston? E como as meninas estão aqui? Elas haviam ficado... Oh não, as crianças também estavam lá, pessoas estavam lá.