Desventuras de Fim de Ano

3 O mistério dos bonecos de neve




Sarah acordou de muito bom humor após conseguir libertar o espírito de Bran na noite de Yule. Até as meninas no dormitório perceberam que algo estava diferente.


— Bom dia, raio de sol! — Louise cumprimentou-a sorridente, tirando a touca de cetim dos cabelos impecáveis. Ela usava um pijama cor-de-rosa de gatinhos. — Sinto uma energia diferente em você nesta manhã.


— É verdade — Chloe concordou ao se sentar na cama e encarar Sarah. — Você está com um ar de leveza e… está mais bonita também. Não acha, Jamie?


As três olharam para Hartman, que interrompeu o movimento da escova de dentes quando se deu conta de que queriam sua opinião.


— Eu sei lá! — cuspiu um pouco de pasta. — Pra mim, Sinskye está esquisita como todos os dias. Nenhuma novidade.


Ela deu de ombros e saiu escovando os dentes.


Sarah terminou de se arrumar e desceu para o café da manhã. Ficou bastante decepcionada quando não recebeu nenhuma correspondência da família e quase não tocou na comida.


Passou parte da manhã na biblioteca, com Frida aninhada em seu colo, enquanto lia sobre a Descurainia em Mil Ervas e Fungos Mágicos, de Fílida Spore. Guardou algumas sementes e pretendia plantá-las, assim como a professora Sprout orientara. Dessa forma, ocuparia a cabeça e não pensaria tanto na frustração por não ter recebido um cartão de Yule. Nem um bilhete de felicitações. Nada!


Fechou o livro com força demais, acordando Frida.


— Desculpa! — choramingou, abraçando sua gatinha. — Estou decepcionada com elas por terem esquecido de mim.


Frida ronronou e se esfregou na garota, trazendo um pouco de aconchego ao coração de Sarah.



Após o almoço, o sol estava agradável, e os jardins do castelo pareciam muito convidativos. Tudo ainda estava coberto de neve, é claro, mas o brilho criado pelos raios ao atingir a superfície gelada era de tirar o fôlego.


Sarah esticou-se no banco de pedra e afagou a cabeça de Frida, que estava ao seu lado, soltando um suspiro que criou uma nuvem de vapor ao redor de seu rosto.


— Eu vou escrever. Não vou esperar que elas mandem nada.


Abriu a bolsinha tira-colo que levava consigo e tirou um caderno de capa de couro de dragão. Quando encostou a caneta-tinteiro na página, o silêncio dos jardins foi interrompido por um grito estridente de horror. Frida reagiu na hora: saltou do banco com o pelo eriçado, em estado de alerta.


Sarah guardou o caderno e puxou a varinha. Seu instinto urrava para que corresse na direção contrária, para dentro do castelo, mas seu coração acelerado implorava para que tentasse ajudar. Correu em direção ao grito, torcendo para que fosse um aluno que tivesse caído da vassoura ou algo bobo do tipo.


Mas o que viu a deixou horrorizada.


Um boneco de neve de mais de dois metros de altura mantinha seus dedos de galhos apertando firmemente os tornozelos de Jamie Hartman, arrastando-a pela neve. Seu sorriso e seus olhos feitos de pedras pareciam macabros demais para uma decoração natalina.


— Socorro! — Jamie gritou, tentando se segurar em qualquer coisa que não fosse a neve fofa. — Por favor!


Sarah apontou a varinha para o boneco maléfico e pronunciou com firmeza:


Petrificus Totalus!


A criatura paralisou. Jamie chutou as mãos feitas de galho e livrou-se do aperto.


— Eu perdi minha varinha!


— Tudo bem, vamos encontrá-la.


As duas começaram a revirar a neve atrás da varinha de Hartman quando foram novamente surpreendidas.


— Sarah! Cuidado!


Jamie gritou, apontando para as costas de Sarah, que foi atingida por um galho nas costas e jogada alguns metros adiante.


Sentindo falta de ar e uma forte dor nas omoplatas, Sarah levantou-se o mais rápido que conseguiu, mirando a varinha no boneco que acabara de atingi-la.


Alarte Ascendare!


O boneco foi erguido no ar e bateu violentamente no chão, despedaçando-se.


Sarah mal teve tempo de se recompor do último feitiço lançado quando ouviu Jamie gritar novamente. Viu a colega encurralada por dois bonecos de neve; um deles acabara de acertá-la com um golpe no ombro que rasgou seu casaco.


Com um floreio da varinha, Sarah petrificou um deles. O outro avançou sobre Jamie, tentando agarrá-la. Ela desviou habilmente na primeira e na segunda tentativa, mas foi pega pelo pescoço na terceira. O boneco de neve levantou-a do chão, apertando sua garganta com os dedos de madeira que eram mais fortes do que pareciam.


Jamie começou a perder a consciência. Sarah saiu do choque e reagiu, usando o que lhe restava de energia para gritar, mirando a cabeça do boneco:


Bombarda!


A varinha de faia vibrou com a força do feitiço. A cabeça e o tronco do boneco explodiram em pedaços de neve, e Jamie caiu no chão.


Sarah correu em sua direção com os olhos cheios de lágrimas, começando a tremer com o choque de ver Hartman desmaiada e machucada.


— Pelas barbas de Merlin! — Por um segundo, não soube o que fazer. Seus tremores se intensificaram, e as lágrimas escorreram por suas bochechas. Balançou a cabeça, secou o rosto com a manga do casaco e respirou fundo. — Enervate.


Quando o feitiço tocou Jamie, ela abriu os olhos devagar.


— Sinskye… Quem diria que seria você a me salvar, hein…


Sarah sorriu, ficando mais calma.


— Acho que é coisa de família, no fim das contas.


— Como assim? Vai me dizer que você é filha de…


— Auror? Sim. — Sarah assentiu, ainda sorrindo. — Consegue se levantar? Vou levá-la à enfermaria.


— Consigo. Espera… O quê?! Você é mesmo filha de um auror?


Sarah ajudou Jamie a se levantar e apoiou-a em seus ombros para voltarem ao castelo. Agora podia sentir que o golpe nas costas realmente havia acertado em cheio. Estava toda dolorida.


— É uma longa história, mas sim. Minha mãe é casada com a auror Emma Sparrow.


— O QUÊ?!


— Shhh, não faça uma cena, Jamie! E, há dois minutos, você estava sendo estrangulada por um boneco de neve amaldiçoado. Vamos poupar essa garganta, por favor.


Elas foram andando, e Jamie não tirava os olhos de Sarah, esperando que ela falasse.


— O que você quer saber? — Sarah revirou os olhos. — Vamos, pergunte.


— Eu quero saber tudo, oras! Sua mãe é simplesmente casada com uma bruxa especialista em duelos que lutou contra Você-Sabe-Quem!


— Falando assim, parece grande coisa. Eu não tenho tantos detalhes quanto você pensa. Minhas memórias… Algumas delas foram removidas, sabe? Para preservar a minha saúde mental.


Sarah não olhou para Hartman depois disso. Suas bochechas estavam muito vermelhas, e seus olhos, marejados.


— Minha irmã era bem pequenininha na época, e estávamos sempre recebendo ameaças — confessou baixinho, sua voz misturando-se ao som da neve amassada sob os pés de ambas. — Fomos ficar com os Elrich, a família paterna da minha mãe, nos Estados Unidos. Só retornamos para nossa casa em Godric’s Hollow ano passado.


Houve um longo período de silêncio.


— Eu sinto muito por isso, Sarah. Eu não… tinha analisado por esse ângulo.


— Tudo bem. É o comum de se acontecer.


— Não imaginava que você fosse tão talentosa usando uma varinha.


— Por falar em varinha, eu volto depois pra tentar encontrar a sua.


Jamie sorriu, faceira, e retirou a varinha do cós da calça.


— Ah, então você estava com ela o tempo todo, Hartman?


— Não! O tempo todo, não! Eu a encontrei logo depois de acordar nos seus braços!


Sarah deu uma risadinha contida e ajustou o braço de Jamie em seu ombro, entrando no castelo.



Na enfermaria, Sarah precisou explicar três vezes o que acontecera nos jardins. Parecia improvável que bonecos de neve animados com magia tivessem deslocado o ombro de Jamie e machucado sua traqueia; os adultos estavam mais inclinados a suspeitar que as duas estivessem duelando escondidas e acabaram se machucando. Contudo, nenhuma punição foi aplicada de imediato — apenas os sermões costumeiros da enfermeira-chefe.


Sarah recebeu alguns cuidados, mas Hartman teria de passar a noite em observação, pois algumas poções iam ser ministradas durante a madrugada. A voz de Jamie estava bem rouca e ela só conseguia falar baixo. Não porque era cuidadosa, mas porque o tratamento usado pela Madame Pomfrey a forçava a não usar sua voz e a relaxar a região do pescoço. Era isso ou imobilizar completamente a garganta.


— Alta só amanhã? Aff, não acredito!


— Você tem algum compromisso importante? — Sarah arqueou a sobrancelha.


— Sim! Descobrir quem fez aqueles bonecos de neve!


— Justo. Eu também quero descobrir, mas você precisa repousar agora. Vamos cuidar dos responsáveis depois.


Sarah levantou-se da beirada da cama onde estava sentada e olhou com pesar para Jamie.


— Descansa, por favor.


— Eu vou.


— Trarei a sobremesa do jantar, prometo.


— Eu vou cobrar, Sinskye. Se for pudim, eu quero o dobro ou nada.


Elas trocaram um olhar de cumplicidade, e Sarah saiu.


No corredor, enquanto descia as escadas, começou a listar possíveis culpados por encantar os bonecos de neve para atacar. Não foi muito efetivo: conhecia poucos alunos da escola e duvidava bastante que aquilo fosse obra de algum professor ou funcionário. Perguntou-se quantos mais poderiam haver espalhados pela escola — ou se aqueles eram os únicos.


Concentrada em suas próprias especulações, Sarah nem percebeu em que andar estava. Quando a escada começou a se mover, alterando a rota do percurso, agarrou-se ao corrimão e torceu para não sair em um local completamente desconhecido. Mas, considerando a sua sorte naquele dia, era bem provável cair direto na sala de detenção, pendurada pelos tornozelos.


Vagou pelo extenso corredor, observando as armaduras cochicharem quando ela passava, como se soubessem de alguma coisa.


Sarah parou de andar e encarou uma das armaduras.


— Ei, soldado! — vociferou, observando a armadura encantada se prostrar em guarda e bater continência. — O que sabe sobre os bonecos de neve encantados no jardim?


— Sei somente que os alunos interessados em pregar peças nos primeiranistas estão escondidos nas Masmorras, capitã!


— Nas Masmorras, é? — Sarah coçou o queixo, pensativa. — Eram da Sonserina?


A armadura estava prestes a responder quando a mão feita de placa de aço de sua colega vizinha atingiu-lhe a nuca, fazendo a cabeça rolar pelo corredor, acompanhada de um desagradável ruído metálico.


— A falta de respostas também é uma resposta — murmurou para si mesma, correndo pelo corredor para continuar sua descida. Agora com um destino traçado: as Masmorras.



Não era sua parte favorita do castelo, mas adorava as aulas de Poções, então fazia um esforço sempre que precisava estar ali. O ambiente úmido, escuro e gelado não trazia uma sensação agradável, mas lá estava Sarah, firme e forte, com a varinha preparada, caminhando pelos corredores da parte mais profunda de Hogwarts.


Ouviu vozes de estudantes e uma movimentação de sombras que pareciam sair da sala comunal da Sonserina. Não queria ser vista ali, ou poderiam desconfiar que estava xeretando. Entrou na primeira porta menos suspeita que encontrou, espremendo-se entre as vassouras de um armário extremamente apertado e empoeirado.


Sentiu algo encostar em sua perna e, em seguida, viu olhos brilhando na escuridão do armário. Estava prestes a gritar quando uma mão cobriu sua boca.


Alanis a encarava com uma expressão que misturava clemência e cumplicidade. Ela sinalizou para Sarah ficar em silêncio e lentamente afastou a mão da boca da loirinha.


— O que você está fazendo aqui, Sinskye?!


— Eu pergunto a mesma coisa, Ziegler!


A ruiva revirou os olhos, tentando não se manter tão próxima da colega, mas o armário era pequeno demais para permitir qualquer tipo de conforto.


— Eu fui atacada por um boneco de neve perto do campo de quadribol hoje mais cedo e… um deles pegou algo que eu quero de volta.


— Jura? Você também foi atacada? — Sarah mordeu o lábio, preocupada. — Então talvez seja pior do que eu pensei.


— Você se machucou? — O escuro não permitia perceber detalhes, mas Alanis tentou checar se Sarah estava ferida.


— Só um pouquinho, mas Jamie está na enfermaria.


— Pelos deuses!


— Eu acho que algum aluno da Sonserina pode estar envolvido nisso.


Sarah usou Lumus para fazer surgir um foco de luz dentro do armário escuro. Ficou ruborizada ao perceber que ela e Alanis estavam muito mais próximas do que imaginava.


— Escuta! Tem alguém falando alguma coisa… — Alanis ficou imóvel e encarou Sarah. — Apure seus ouvidos, Sinskye. Pode ser que a gente descubra algo agora.


Sarah assentiu e se concentrou, diminuindo o som da própria respiração para conseguir escutar o que vinha do lado de fora do armário de vassouras. Notou sem dificuldade que eram duas pessoas conversando — dois garotos. Eles riam e se gabavam de como eram bons em conjurações e encantamentos, dizendo que poderiam até ganhar algum ouro com aquilo.


Um deles, no entanto, mencionou especificamente que os bonecos de neve haviam conseguido objetos pessoais bastante valiosos.


— Achei um bisbilhoscópio, um lembrol e um diário, mas esse ainda não consegui abrir. Tem um encantamento prendendo o fecho.


— Podemos explodi-lo. Que tal?


Sarah viu a raiva tomar conta do rosto de Alanis, mas antes que a grifina agisse por impulso, segurou sua mão com força e balançou a cabeça em negativa, murmurando:


— Nós vamos pegá-los, mas não agora.


A ruivinha assentiu, os lábios crispados, muito provavelmente para não gritar todos os palavrões do mundo.


As risadas dos garotos cessaram, a conversa foi ficando mais distante e os passos desapareceram pelo corredor. Alguns segundos após o completo silêncio, Sarah e Alanis saíram aos tropeços do armário.


— Talvez dê tempo de alcançá-los!


Alanis preparou a varinha, pronta para começar a correr atrás dos culpados, mas novamente Sarah a segurou pela mão, puxando-a de volta.


— Ei! Eu sei que tem algo seu com eles, mas não adianta agir sem planejamento. Eles são mais velhos, criaram aqueles bonecos assustadores… não acha que você vai se frustrar se for despreparada?


— Você tem razão, Sinskye. E eu te odeio por isso!


Sarah suspirou e soltou a mão de Alanis.


— Bom, eu proponho uma união de forças. Você tem um objeto pessoal a ser recuperado, eu quero me vingar por terem feito Jamie ir parar na enfermaria. Que tal unir o útil ao agradável?


Um sorriso travesso surgiu nos lábios de Alanis. Seus olhos azuis faiscaram, e seus cabelos pareciam brasas acesas.


— Pode contar comigo, Sinskye! Vai começar a temporada de caça às cobras!