Desventuras de Fim de Ano

4 Rir na cara do perigo




Como prometido, Sarah levou dois pudins para Jamie na enfermaria naquela noite. E contou tudo o que descobrira nas Masmorras.


— Eu queria dizer que estou surpresa, mas os garotos da Sonserina são os piores — Jamie enfiou uma colher cheia de pudim na boca, pensativa. — Sem ideia de quem eram os donos das vozes?


— Nenhuma ideia — Sarah suspirou. — Vou xeretar na sala comunal esta noite. Louise e Chloe são bem sociáveis e parecem atentas às fofocas da escola. Minha esperança é que elas ajudem.


— Você consegue fisgá-las pela curiosidade. Vai por mim.


As duas riram. Sarah estava satisfeita por ver a colega bem. Considerando que a vira ser erguida pelo pescoço por um monstrengo feito de neve, era uma injeção de ânimo lembrar que conseguira evitar algo mais grave e que agora estavam ali, comendo pudim e conspirando.


— O que você tinha de valor? — Sarah ergueu o olhar para Hartman, e houve um momento de silêncio constrangedor.


— Hum?


— Aparentemente temos alunos da Sonserina usando bonecos encantados para atacar e roubar alunos do primeiro ano — Sarah explicou, mais devagar. — Eu não tinha nada comigo além do meu caderno de desenhos. Você foi cercada por dois. Eles pareciam bem empenhados em tirar algo de você.


O rosto inteiro de Jamie ficou vermelho. Ela enfiou todo o pudim na boca para evitar falar.


— Tudo bem. Eu entendi.


Sarah não queria admitir, mas ficou chateada. Pensou que estavam se tornando amigas; por isso, sentira-se confortável em falar sobre sua família e seu passado. Pelo jeito, estava fazendo uma leitura errada da relação.


Após alguns minutos de silêncio, Sarah terminou de comer o pudim e se levantou.


— Boa noite, Jamie. Descanse, porque amanhã vamos chutar o traseiro de alguns alunos da Sonserina.


— Sarah!


Ela parou e se virou.


— Obrigada — Jamie soltou finalmente, de forma tímida, mas sincera. — Por ter me salvado dos bonecos… e pelo pudim.


Um sorriso surgiu no rosto de Sarah, embora ainda houvesse tristeza em seu olhar.


— Você me deve uma, Jamie — disse em tom leve, já caminhando em direção à saída. — E eu vou cobrar.


Quando fechou a porta, ainda ouvia o riso de Jamie ecoando. O próprio sorriso, porém, desvaneceu rápido demais.


Era esquisita demais para ser considerada amiga? Não demonstrara companheirismo o bastante para Jamie se abrir?


Cansada e sensível, Sarah decidiu ir direto para o dormitório repousar.


Para sua surpresa, encontrou Louise e Chloe esperando-a com esmaltes e cremes para o rosto.


— Soubemos que a Jamie está na enfermaria — disse Louise.


Ela a convidou a sentar-se nas almofadas espalhadas pelo tapete do quarto.


— E soubemos que você — Chloe colocou as mãos nos ombros de Sarah, ajudando-a a se acomodar — foi a responsável por salvar a Hartman.


Um riso nervoso escapou de Sarah. Mas, assim que Chloe começou a escovar seus cabelos, ela foi relaxando, sentindo-se mais confortável.


— Pois é. Que ironia… Até ontem a Jamie me odiava.


— Odiar? Acho que não, Sarah — Louise riu, aproximando-se com uma lixa de unhas. — Já vi Jamie defendendo você de alunos da Grifinória quando você nem estava presente.


— E ela sempre te olha com admiração nas aulas — completou Chloe. — Principalmente nas práticas.


— Onde vocês estão querendo chegar com isso?


Louise e Chloe se entreolharam, mas não responderam. Em vez disso, mudaram de assunto.


— Alguma ideia de quem está por trás desses bonecos encantados? — Chloe separou o cabelo de Sarah e começou a fazer uma trança. — Pela complexidade dos feitiços necessários, devem ser do quinto ou do sexto ano.


— O quinto ano devia estar se preocupando com os N.O.M.s, não em pregar peças nos alunos novos! — Disse Louise ao terminar de lixar as unhas de uma mão e passar para a outra.


— Suspeito de alunos da Sonserina — Sarah respondeu. — Ouvi uma conversa nas Masmorras, mas estava escondida em um armário de vassouras, então não consegui ver os rostos.


— Nossa, eu tenho muitas perguntas! — Louise deu uma risadinha cheia de expectativa


Após Chloe finalizar a trança, as três se sentaram em círculo, escolheram os esmaltes para pintar as unhas, e Sarah contou tudo o que acontecera em detalhes — desde o ataque dos bonecos perto dos jardins até o encontro com Alanis nas Masmorras e as pistas sobre os possíveis culpados.


— Alanis está cem por cento disposta a ajudar. Jamie recebe alta amanhã e não vai querer ficar de fora. Vamos nos juntar e ensinar uma lição a eles.


— Eu estou dentro! — Louise falou com orgulho. — Não fui atacada, mas vou defender a minha casa!


— Eu também estou dentro! — Chloe emendou, empolgada. — E eu sei de mais gente que vai adorar ajudar!


❆


Durante a madrugada, as meninas foram para o salão comunal da Torre da Corvinal, onde se reuniram com Jason Ross. Ele era um dos primeiranistas mais habilidosos e inteligentes da escola, disso ninguém tinha dúvida. Ainda assim, era tímido e reservado, falando apenas com Chloe e Louise.


Por isso, coube a elas colocar o amigo a par de toda a situação, relatando os ataques dos bonecos de neve enfeitiçados e o que fora descoberto por Sarah nas Masmorras. Jason ouviu tudo em silêncio absoluto, concentrado em cada informação, como se, ao mesmo tempo em que tomava conhecimento dos fatos, já traçasse um plano de ação.


E, de fato, ele traçou um plano antes do amanhecer do dia 24 de dezembro.


❆


— Eu confio a minha vida no Jason — Louise comentou baixinho, apertando a mão da amiga enquanto caminhavam pelos jardins da escola. — Mas isso não quer dizer que eu não esteja com medo de apanhar de um boneco de neve assustador.


Chloe deu uma risada nervosa.


— Relaxa, Lou — começou, tentando parecer tranquila. — Jason e Sarah juntos são imbatíveis. O plano vai dar certo, confia!


As duas garotas se destacavam em meio à neve que cobria o chão. As capas escuras esvoaçavam a cada sopro de vento gelado, obrigando-as a se encolherem. Não havia mais ninguém à vista, o que tornava o momento carregado de apreensão e expectativa.


Do meio da folhagem coberta de neve, Sarah e Jason aguardavam. Atentos, acompanhavam Louise e Chloe, mas também observavam o perímetro, à procura de qualquer movimento suspeito.


Por um momento, Sarah chegou a cogitar a possibilidade de os responsáveis simplesmente terem desistido daquela brincadeira sem graça. Mas, quando avistou as formas esbranquiçadas e assustadoras surgindo da vegetação do outro lado, sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha.


— Agora!


Ao comando de Jason, Sarah saiu do esconderijo com a varinha preparada e lançou o primeiro feitiço:


— Estupefaça!


A magia atingiu um dos bonecos, derrubando-o, mas outros três cercavam Chloe e Louise, que puxaram as varinhas para se defender. Jason, por sua vez, correu em direção ao ponto de onde os bonecos haviam surgido. Quando ele sumiu de vista, Sarah começou a se preocupar.


Olhou para as colegas, que pareciam estar dando conta da situação, e depois encarou a vegetação onde Jason se embrenhara.


— Devo seguir meus instintos — murmurou para si mesma, começando a correr. — Devo seguir meus instintos!


E eles estavam certos. Ao atravessar os arbustos, quase foi atingida por um feitiço. Jason duelava bravamente com dois alunos da Sonserina do quinto ano, cujas vozes Sarah reconheceu de imediato — agora, finalmente, associadas a rostos.


Ela não sabia seus nomes, mas isso pouco importava. Eles haviam machucado Jamie, roubado Alanis e agora atacavam Jason. Sarah aprendera a nunca deixar barato quando mexiam com quem lhe importava.


— Expelliarmus! — ditou com firmeza.


A varinha de um dos valentões voou de sua mão. Ele encarou Sarah com raiva, percebendo, pela primeira vez, a presença dela ali.


Jason usou o mesmo feitiço para desarmar o outro garoto, mas a batalha estava longe de terminar. Sem as varinhas, os dois sonserinos começaram a moldar bolas de neve, arremessando-as sem piedade contra os mais novos.


Uma delas atingiu o rosto de Sarah. A visão embaçou, o mundo girou, e por um instante ela perdeu completamente a noção de onde estava.


A dor no rosto trouxe Sarah de volta à realidade. Piscou várias vezes, forçando os olhos a se ajustarem, e enxugou a neve derretida com a manga da capa. Antes que pudesse recuperar totalmente o equilíbrio, ouviu um grito conhecido.


— Sarah!


Virou-se a tempo de ver Chloe sendo encurralada por um dos bonecos restantes. O construto de neve avançava de forma desajeitada, mas insistente, erguendo os braços de galhos para atacar.


— Não deixa ele chegar perto! — Louise gritou lidando com outro boneco, já com a voz trêmula e cansada


— Estou tentando! — Chloe respondeu, conseguindo mirar a varinha. — Petrificus Totalus!


O feitiço atingiu o boneco em cheio, fazendo-o escorregar e cair duro no chão coberto de neve.


Louise não perdeu tempo: abaixou-se, moldou uma bola de neve com rapidez surpreendente e a lançou com força.


— Isso é por tentar machucar minha amiga!


A bola acertou o rosto de um dos sonserinos, espalhando neve para todos os lados. Sarah não conseguiu evitar um sorriso rápido — que desapareceu assim que ouviu um estrondo seco vindo do outro lado dos jardins.


Outra bola de neve cruzou o ar, dessa vez muito mais alto. Sarah seguiu sua trajetória com os olhos, sentindo o coração despencar quando percebeu para onde ela ia.


Não…


A bola de neve atingiu uma das janelas do andar térreo da escola com um estalo alto, seguido por um som inconfundível de vidro se partindo. Fragmentos cintilaram antes de caírem no chão, refletindo a luz pálida da manhã.


O silêncio que se seguiu foi absoluto.


— O que foi isso?! — Jason gritou, ainda ofegante, olhando ao redor.


— Merlin… — Louise levou as mãos à boca. — Eu juro que não mirei lá!


— Eu também não! — Chloe arregalou os olhos, pálida. — Eu só… joguei mais forte do que devia.


Os bonecos restantes se desfizeram aos poucos, a magia que os mantinha de pé se dissipando com o caos instaurado. Os dois sonserinos trocaram um olhar rápido e, aproveitando a confusão, recuperaram suas varinhas e começaram a recuar.


— Nem pensem em fugir! — Jason apontou a varinha para eles.


Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, passos apressados ecoaram pelo pátio. Vozes adultas se aproximavam — firmes, autoritárias.


— Ah, não… — murmurou Chloe, sentindo o estômago afundar.


— Professores — Louise sussurrou. — Estamos mortos.


Sarah olhou para o vidro quebrado, depois para os rostos assustados das meninas e, por fim, para Jason, que parecia calcular mentalmente quantos pontos a Corvinal perderia por aquilo.


Ela respirou fundo.


Antes que qualquer um pudesse dizer algo, deu um passo à frente.


— Fui eu.


Todos se viraram para ela ao mesmo tempo.


— O quê?! — Chloe sibilou. — Sarah, não!


— Eu joguei a bola — Sarah continuou, sentindo o coração bater tão forte que chegava a doer. — Foi um erro meu.


Jason franziu a testa.


— Sarah, isso não é justo…


— Shh — ela interrompeu, sem tirar os olhos do corredor por onde os professores surgiram. — Depois a gente conversa.


O grupo de docentes finalmente os alcançou, expressões severas estampadas no rosto. O olhar de um deles foi imediatamente atraído pela janela quebrada. Talvez fosse a professora que todos menos queriam ter chamado a atenção: a Srta. Eleanor Haraldsen — a nova professora de Defesa Contra as Artes das Trevas e madrinha de Louise.


— Alunos — disse a professora, em tom frio. — Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?


Sarah engoliu em seco, mas manteve-se firme.


— Posso, professora. A culpa foi minha.


Atrás dela, Chloe e Louise trocaram um olhar silencioso — uma mistura de gratidão, culpa e admiração.


— Fomos provocados por alunos mais velhos, e eu achei que poderia lidar com eles — continuou Sarah. — Começamos uma guerra de bolas de neve, mas eu calculei errado o lançamento e… Acertei a janela. Eu sinto muito.


Houve um segundo de silêncio. Sarah sentia os olhos verdes da professora Haraldsen atravessando sua alma.


— É honrado da sua parte assumir a responsabilidade pelo dano, senhorita Sinskye.


Todos pareceram sentir certo alívio, já que a professora não demonstrava estar furiosa. A punição, no entanto, veio em seguida.


— Menos dez pontos para a Corvinal — ela os encarou um a um, demorando-se um pouco mais em sua sobrinha. — De cada um.


Ouviram-se gemidos e suspiros desanimados, mas nenhuma contestação.


— E vocês vão passar o resto do dia organizando a sala de achados e perdidos.


— Mas, tia Elle… Quer dizer, professora Haraldsen, aquela sala é impossível de organizar! — protestou Louise.


A docente sorriu.


— Então o castigo está à altura, não acha, querida?


❆


Sarah passava o espanador sobre uma armadura empoeirada com uma mão; com a outra, segurava um saco de gelo sobre o olho dolorido pela bola de neve que a atingira.


— Você foi muito corajosa, Sinskye.


Ela olhou para Jason, que empilhava livros antigos sobre uma mesa.


— Você estava pronta para cumprir a detenção sozinha.


— É, mas não adiantou nada — Sarah respondeu, desanimada. — Vocês estão aqui, e nós ainda não recuperamos os objetos roubados pelos bonecos.


Nesse instante, a porta da sala se abriu, e o zelador empurrou Jamie para dentro, resmungando que ela era malcriada e agressiva, e que bastava mais uma encrenca para ela ser expulsa. O mais surpreendente eram os arranhões em seu rosto e o pedaço de papel higiênico, parcialmente manchado de sangue, enfiado em uma das narinas.


— Jamie?! — Sarah largou o espanador e correu até a colega. — O que você está fazendo aqui? Não devia estar na enfermaria? Você está sangrando!


Hartman abriu um sorriso vitorioso e tirou de dentro da capa um saco cheio de objetos variados.


— Enquanto vocês estavam se matando nos jardins, eu recebi alta da enfermaria e consegui recuperar os objetos roubados!


— O quê?! Como?! — Louise quis saber, incrédula. Largou a vassoura e se aproximou. — Não vai me dizer que…


— Sim, eu invadi a sala comunal da Sonserina. Na verdade, obriguei uma aluna a abrir e entrar comigo para buscar o que os bonecos tinham levado. Precisei lutar por eles na hora de sair, mas tudo bem. Valeu a pena.


Todos a encaravam boquiabertos.


— Se estão chocados com o meu rosto — completou Jamie —, é porque vocês não viram o da Polly Sullivan, do quarto ano.


O silêncio perdurou por alguns segundos, enquanto processavam as informações. Não demorou até que explodissem em gargalhadas.


— Eu não me arrependo — disse Jamie, satisfeita.


— Nem eu! — Louise concordou.


— Muito menos eu! — Chloe assentiu.


Jason olhou para Sarah e lhe deu um pequeno sorriso.


— É a minha primeira detenção — comentou. — Mesmo sendo ruim… ainda bem que é com vocês. Eu também não me arrependo.


O coração de Sarah se encheu de algo novo — algo quente e brilhante, que a fez se sentir pertencente. Não como quando estava em família; era diferente. Seus olhos brilharam ao encarar os colegas, que agora sentia — verdadeiramente — serem seus amigos.


— Preciso confessar uma coisa — a voz baixa de Sarah fez com que todos voltassem a atenção para ela. — Eu adorei rir na cara do perigo.


E eles voltaram a rir, divertindo-se enquanto tentavam organizar uma sala impossível de arrumar. Porque estar entre amigos tornava tudo melhor — mesmo quando era horrível.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.