Desventuras de Fim de Ano

2 Faça seu próprio ritual




Quando Sarah acordou na manhã do dia vinte e um de dezembro, soube que teria muito trabalho pela frente. A começar pela bagunça em que se encontrava o dormitório que dividia com Jamie e mais duas garotas da Corvinal — Chloe Sinclair e Louise Haraldsen.


A neve caía impiedosamente do lado de fora, tornando quase impossível que Sarah saísse para realizar seus compromissos externamente. Mesmo que uma aluna de onze anos não pudesse ir além dos muros da escola, ela pretendia vagar pelos terrenos e pela orla da floresta para encontrar pinhas, galhos de azevinho e sementes, a fim de realizar o ritual de Yule — um costume presente em sua família, que mantinha vivas as tradições pagãs.


Mas não era só pelo Yule. Sarah também pretendia utilizar a data e toda a energia mágica inerente ao dia vinte e um de dezembro para libertar, de uma vez por todas, o espírito da criança que vinha seguindo-a há meses.


Depois de arrumar sua cama e deixar seus pertences organizados no malão, Sarah se empacotou toda com um casaco grosso, calças forradas, luvas, touca e botas para neve. Pretendia descer para o café da manhã e já partir, mesmo com a neve caindo, para o exterior do castelo, atrás dos ingredientes que faltavam.


Todas as meninas estavam no dormitório e pareceram curiosas com os preparativos de Sarah, mas só Jamie falou:


— Vai sair com essa neve toda caindo, Sinskye?


— Por que quer saber, Hartman? Quer ir comigo?


Louise e Chloe se entreolharam e seguraram o riso.


— Não estou a fim de virar um picolé, mas boa sorte pra você. Espero que valha a pena.


— Vai ter que valer.


O tom urgente era discreto, mas estava presente na voz de Sarah. Se as outras garotas perceberam, ela não saberia dizer, mas não perdeu mais tempo na torre da Corvinal e logo rumou para o Salão Principal, onde fez seu desjejum tomando uma xícara de chocolate quente e comendo biscoitos natalinos de gengibre.


Do lado de fora, sentia a neve atingir seu rosto como pequenas agulhas. O vento era como receber um golpe de toalha molhada — ora no peito, ora nas costas. Encolhida, Sarah caminhou pelo pátio de entrada, desceu para os jardins e seguiu rumo à cabana do guarda caças.


Com o avanço da manhã, a neve parou de cair e o sol apareceu timidamente entre as nuvens, o que ajudou na busca pelos ingredientes. Encontrou as pinhas de que precisava, assim como alguns ramos de azevinho. Mas nada de sementes.


Sentiu um arrepio na nuca, e o frio ao seu redor aumentou. Antes mesmo de se virar, já sabia que o espectro do menininho estava ali.


— Não encontrei sementes para o ritual, mas não se preocupe. Vou procurar nas estufas do castelo.


O menininho sorriu e apontou para a orla da floresta, a alguns metros dali.


— É, eu sei, mas eu não vou entrar lá. A Floresta Proibida tem esse nome por um motivo.


Prestes a retomar o caminho para o castelo, deparou-se com uma figura conhecida saindo de trás de um arbusto coberto de neve. Embora fosse do primeiro ano, Bart — apelido para Bartolomeu — Aleksander era pelo menos uma cabeça mais alto que Sarah. Tinha os cabelos muito escuros e curtos, a pele clara e os olhos azuis elétricos, cheios de uma rebeldia única. Sarah sabia que ele era apaixonado por quadribol — as fofocas diziam que era um lance de família — e que estava entre os amigos próximos de Alanis.


Ela também sabia que aquele garoto era problema. Havia poucos meses do início do ano letivo, e ele já tinha mais detenções do que se pode contar nos dedos das mãos.


— Sarah Sinskye, certo?


Ouvir seu nome e sobrenome saindo da boca dele a fez engolir em seco. Assentiu com a cabeça, respirando com um pouco de dificuldade o ar que parecia cada vez mais gelado.


— É verdade que você foi internada em uma casa para loucos?


Havia um quê de inocência na pergunta, mas a maior parte da intenção era cruel. Ele sorriu quando viu Sarah empalidecer.


— Pelo jeito a Ziegler estava errada. Você é mesmo bem doidinha.


— Eu não ligo para o que vocês pensam sobre mim, Bartolomeu. Só… Me deixa em paz!


Apertou a bolsa com as pinhas e os ramos de azevinho, encheu o peito de ar e continuou a caminhada, ignorando a presença do grifinório, que ia ficando para trás.


— Meu nome é Bart. — Ele vociferou, destacando “Bart”. — Locomotor Mortis!


A azaração a atingiu, e suas pernas prenderam uma à outra, fazendo-a cair na neve antes de sequer alcançar a varinha.


— E eu vou ficar com isso.


Bart aproximou-se e tomou a bolsa com pinhas e galhos, decepcionando-se por não encontrar nada demais.


Enquanto ele resmungava, checando o conteúdo novamente, Sarah observou o espectro do menininho surgir atrás de um monte de neve que estava prestes a deslizar na direção de Bart.


Sarah não teve chance de alertá-lo. No fundo, não sabia se queria poupá-lo. Observou o espectro se concentrar e mover a neve, causando um pequeno deslizamento. Bart soltou a bolsa e tentou mover a varinha, mas nenhum feitiço saiu a tempo, e ele foi empurrado morro abaixo junto com a neve.


Sinskye desfez o feitiço em suas pernas, colocou-se de pé agilmente, agarrou a sacola e saiu correndo sem olhar para trás.



Quando alcançou as estufas, sua respiração já tinha se normalizado. Retirou a touca da cabeça e bateu a neve dos cabelos quando percebeu que a professora de Herbologia estava por ali.


— Oh, bom dia, senhorita Sinskye! — Ao avistar a criança, a professora Sprout abriu os braços e deu um sorriso afetuoso. — O que a traz às estufas nessa manhã gelada de inverno?


As estufas do castelo despertavam um quentinho no coração que Sarah não conseguia explicar. Faziam-na se lembrar de casa. Uma de suas mães sempre gostou muito de plantas e possuía uma pequena estufa no jardim da residência que mantinham em Godric’s Hollow.


Era onde deveria estar. Em casa. Com sua família.


Inspirou profundamente e afastou o pensamento da mágoa e da saudade, aproximando-se da professora.


— Bom dia, professora! Não imaginei que pudesse estar aqui, mas que bom que está. — Deu o sorriso mais simpático que conseguiu, prosseguindo: — Vou realizar um ritual de Yule e preciso de algumas sementes. A senhora teria algumas sobrando para me ceder?


Os olhos da professora Sprout brilharam, e ela saiu pela estufa, mostrando o crescimento das novas plantas adquiridas e relatando a ótima colheita de pus de Bubotúbera do dia anterior. Sarah a acompanhou, muito interessada nas espécies que encontrava pelo caminho — algumas que nunca tinha visto, outras bastante familiares.


Pararam na bancada de trabalho da professora, onde ela apanhou um pequeno saquinho e o entregou a Sarah.


— Sementes de Descurainia. Você sabe para que ela serve?


— Sim! Tem propriedades curativas e é um dos ingredientes da poção Polissuco.


— Excelente, senhorita Sinskye! Cinco pontos para a Corvinal!


Sarah sorriu, realmente muito contente.


— Fique com essas sementes, use-as no seu ritual e, se restar alguma, plante! Pode usar os vasos disponíveis na estufa. Temos terra, substratos, fertilizantes… E, se precisar de orientações, sabe onde me encontrar!


A professora deu uma piscadinha e saiu cantarolando baixinho em direção ao canteiro das Bocas-de-Guincho.



Após o almoço, Sarah se escondeu no banheiro feminino e trancou a cabine. Levou consigo todos os ingredientes de que precisava e organizou um pequeno altar no chão — com velas vermelhas, as pinhas que cuidadosamente pintou de verde e dourado, os ramos de azevinho, as sementes de Descurainia e alguns bolos de caldeirão que havia guardado nos bolsos.


Por último, colocou no centro do altar o velho coelhinho de pelúcia com olhos de botão, encontrado no Lago Negro havia um mês — o grilhão que impedia o menininho de atravessar o Véu. Era um brinquedo velho, encardido, mas repleto do peso de memórias de uma vida perdida cedo demais.


Quando Sarah tocou o coelhinho pela primeira vez, em uma tarde em que explorava a margem do Lago Negro, recebeu uma enxurrada de memórias do dia em que a criança se afogou.


Era filho de um professor que lecionara em Hogwarts havia dois séculos. Estava ali por acaso — um evento aberto para as famílias dos funcionários da escola. Um baile natalino, com um banquete e apresentações artísticas. O menininho saiu para explorar junto de outras crianças, mas afastou-se demais. A última coisa que ouviu antes de entrar na água foi uma voz o chamando.


Sarah encarou o coelhinho de olhos de botão mais uma vez e usou a varinha para acender as velas. Uma a uma, as chamas passaram a iluminar o rosto alvo da menina, dando um aspecto ainda mais azul aos seus olhos curiosos e serenos. Sentou-se com as pernas cruzadas e concentrou-se na chama de uma das velas, inspirando e expirando de forma compassada. Quando se sentiu pronta, fechou os olhos e iniciou a visualização da magia expandindo-se de seu corpo para fora.


O costumeiro arrepio na nuca foi mais intenso dessa vez. Primeiro, a sensação de o frio no banheiro aumentar. Depois, a certeza de não estar mais sozinha.


— Me diga seu nome, e eu o libertarei.


Brandric Loch — a vozinha infantil sussurrou.


— Le sgrios nan geimhlean, shaor mi d’anam! — Sarah abriu os olhos, apontou a varinha para o coelhinho e disse: — Incendio.


As chamas consumiram a pelúcia rapidamente, que Sarah flutuou com Leviosa alguns centímetros acima do altar, fazendo com que as cinzas caíssem sobre as velas, as pinhas, os ramos de azevinho e até mesmo sobre a comida.


Sentiu o espectro de Brandric se esvaindo, pouco a pouco deixando o banheiro feminino e o plano dos vivos, até desaparecer por completo.



À noite, no salão comunal, Sarah sentou-se diante da lareira sozinha. Era perto da meia-noite, e todos os alunos já haviam se recolhido para suas camas. Menos ela.


Tudo o que sobrou do ritual foi ateado ao fogo. Observou em silêncio os ramos de azevinho e as pinhas pintadas queimando. O cheiro de bolo de caldeirão queimado encheu o ambiente por alguns segundos, fazendo-a sorrir ao lembrar que Brandric pedira especificamente por eles — “são meus favoritos”, ele disse.


— Espero que encontre descanso com sua família, pequeno Bran.


Quando tudo terminou de queimar, Sarah se levantou e foi para o dormitório.


De trás de uma das poltronas do salão comunal, o rosto de Jamie inclinou-se para checar se a colega já tinha saído. Ela caminhou na ponta dos pés até a lareira, tentando decifrar o que exatamente Sinskye estava fazendo, mas tudo o que restava era um leve aroma de bolo de caldeirão e pinhas no ar.