Desvendando Mistérios
5 Capítulo 5 - Não tão amigável
Shunrei havia chegado ao apartamento no meio da manhã, trazida pelos funcionários de seu tio, esse havia achado o trabalho dela esplêndido e havia prometido não se intrometer na vida dela a não ser que ela solicitasse. O cabelo ainda tingido de vermelho vivo ainda estava com as características de Isabella e ela torcia para que Shiryu não estivesse em casa para que ela pudesse ter tempo para ir a um salão de beleza. Entrou no apartamento e foi sorrateiramente até o quarto onde o encontrou vazio, pelo tempo Saori e Hyoga já deveriam ter ido embora, então ela poderia ter tranquilidade por algumas horas:
—Shunrei? — Saori estava de pé no meio do corredor a olhando como se tivesse visto um fantasma.
—Ou Sá, desculpe a falta de contato.
—Sua louca, nunca mais faça isso. — Saori foi até a amiga e a abraçou. — Eu achei que estivesse morta.
—Foi uma emboscada muito bem feita do meu tio, quase não volto mesmo. — Ela se afastou de Saori. — Antes de te contar tudo preciso dar um jeito no meu cabelo.
—Tem um salão de beleza aqui perto, acho que eles podem dar um jeito.
—E Shiryu, onde esta?
—Provavelmente trabalhando, mas desde que você desapareceu ele voltou para casa do seu avô.
—Eu tinha pedido certa vez pra ele, que se por acaso me acontecesse algo que ele ficasse por lá por segurança. Mas o que você faz aqui?
—Hyoga arrumou trabalho e não quer mais ir embora, mesmo que ele possa trabalhar no meu hospital. Pode isso?
—Sá, você não imagina o que eu tive que fazer.
—Me conte tudo.
—Aqui. — Ela mostrou o pingente em seu pescoço. — Miro.
—Que?
—Isso mesmo, a missão era diretamente com o filho do meu tio.
—Rei, que situação… Mas ele te reconheceu? Você falou algo com ele?
—Não, essa era a minha proibição. Mas o maior dos problemas é que ele se apaixonou por mim.
—Não foi a maldição?
—Se foi eu não sei, mas Sá eu tive que ter muita força para voltar.
—Então você também…
—Infelizmente. Mas isso foi antes do acordo, meu tio liberou os dois anos, bem, agora 1 ano e 7 meses.
—Será que você vai aguentar? Shiryu ficou com muita raiva por você ter saído daquela maneira e praticamente evita falar de você.
—Bem, se ele não quiser voltar eu vou entender, mas se ele quiser continuar eu vou até o prazo terminar.
—Nesse caso é melhor você se arrumar e ir atrás dele.
—Verdade.
—*-
Era fim de tarde, Shunrei já havia voltado a sua aparência habitual e depois de ter feito algumas compras com Saori ela havia se arrumado para encontrar Shiryu na saída do trabalho. Seria melhor saber a reação dele logo. O avistou caminhando a direção do carro deles, ele parecia tão perdido que não havia percebido a presença dela o olhando. Quando estava mais próximo ela pode ouvir alguém o chamado. Aquela não era a filha adotiva do seu avô? Com os cabelos soltos e usando um vestido, aquilo realmente surpreendeu Shunrei, mas foi então que ela viu os dois a frente se beijando.
É, seu tio não brincava mesmo em serviço. Seja lá o que ele tinha feito havia dado certo. Já era esperado aquilo, ela havia pedido, ela merecia aquilo e porque doía? Aquela avalanche de sentimentos não estava sendo nada aceitável. Caminhou por algumas horas pelas ruas, sentia — se vazia, aquela alegria que havia experimentado dias atrás estava fazendo falta.
Voltou para casa, onde Hyoga e Saori jantavam. Passou por eles rapidamente sem falar nada, apenas foi para o seu quarto onde viu sua imagem refletida no espelho da penteadeira. Não poderia condená — los, eles deveriam estar juntos e ela se intrometeu por ser egoísta e imprestável. Mais uma vez a imagem de Miro invadiu a sua mente, mas o pensamento se esvaiu ao ouvir a voz de Shiryu:
—Boa noite Saori e Hyoga, vim apenas buscar algumas coisas e já estou indo.
—Melhor não, sua esposa esta aí. — Falou Hyoga sério.
—Não é possível.
—É sim, ela esta no quarto. — Falou Saori no mesmo tom de Hyoga.
Ela ouviu os passos dele se aproximando e a porta foi aberta. O rosto ainda estava manchado pelas lágrimas, olhar para ele depois do que tinha visto era doloroso, mas era o mínimo que ela deveria sofrer:
—Oi Shiryu. — Ela forçou um sorriso.
—Rei…- Ele foi até ela e a abraçou. — Achei que tinha te perdido para sempre.
—Ainda temos tempo, se você quiser é claro.
—Mas é claro que quero. Mas nunca mais desapareça dessa maneira.
Hyoga e Saori surgiram a porta do quarto:
—Tenho uma noticia para vocês dois. — Hyoga chamou a atenção dos amigos.
—Diga. — Pediu Shunrei.
—Shunrei, eu guardei segredo do Shiryu mas já que você voltou acho que é hora de contar. Aqui. — Ele entregou o envelope para Shunrei. — O resultado dos seus exames que você fez quando sentiu — se mal antes de sair feito louca. Você esta grávida.
—Hã? — Shunrei estava pasma.
Saori e Shiryu se jogaram sobre ela e a abraçaram fortemente. Hyoga se aproximou dela e a abraçou:
—Parabéns! — Falou Hyoga enquanto abraçava a morena.
—Eu não sei como agir...Um bebê… — Ela estava pasma.
—Eu vou ser pai Hyoga, eu vou ser pai! — Shiryu abraçou Hyoga que não sabia como agir com a felicidade do amigo.
—Shiryu, você não veio só buscar algumas coisas?
—A Shunrei, esqueci a Shunrei. — Ele se virou para a esposa. — Eu vou levar a Shunrei em casa e depois eu volto.
—Tudo bem.
Shunrei observou Shiryu sair de casa. Ela se virou para Hyoga:
—Pelo amor de Deus, diz que isso que você disse é brincadeira. — Implorou Shunrei.
—Acha mesmo que eu brincaria com algo tão sério assim? — Hyoga a encarou pasmo.
—Eu não posso estar grávida, seria um castigo muito grande.
—Pare Shunrei, é um filho seu. — Saori interviu.
—Saori essa criança vai ser um fantoche como eu, isso é inaceitável.
Saori deu um tapa no rosto de Shunrei:
—É seu filho, você vai cuidar e não vai deixar ele seguir o seu caminho. — Saori estava séria o que assustou Shunrei e Hyoga. — Eu também não vou deixar você desamparada com esse bebê, vou te ajudar com tudo.
—Vocês não existem. — Shunrei sorriu entre lágrimas e foi amparada pelo casal de amigos.
Os dias foram preenchidos com a idéia do bebê, até Miro agora era uma coisa distante. Shiryu havia voltado para casa e convivia bem com Shunrei. Ao que parecia o bebê estava bem e tudo estava calmo e tranquilo para que ele pudesse continuar crescendo no ventre de Shunrei.
—*_
Shunrei estava em um restaurante em uma reunião com alguns parceiros da fundação Graad, ouvia o que eles diziam mas não prestava muito atenção, não estava com a cabeça muito boa naquele dia e queria que aquilo acabasse para que pudesse voltar para casa. Ela olhou ao redor e uma coisa chamou a sua atenção. Um grupo de homens entravam no restaurante, mas um se destacava entre eles e esse era Miro.
Ele conversava seriamente com os demais do grupo, e para o azar de Shunrei eles estavam em uma mesa próximos a saída. Ela olhava discretamente para o grupo enquanto terminava de ouvir os detalhes da reunião até que ela notou o olhar de Kamus sobre si. Era óbvio que ele estava tentando tirar as dúvidas de que ela era a mesma pessoa que ele conheceu no Brasil.
Ela tentou disfarçar prendendo os longos cabelos, mas infelizmente naquele dia ela usava o presente que Miro havia lhe dado e aquilo seria um problema se Kamus reconhecesse. Por fim a reunião terminou e ela rapidamente foi ao banheiro para retocar a maquiagem de forma a disfarçar um pouco seus traços. Precisava sair dali em segurança, ainda mais que Shiryu estava vindo buscá -la.
Sentiu — se mais segura e resolveu sair. Com todo seu autocontrole, passou ao lado de Miro, que estava de costas para ela e alcançou a porta, mas o som de passos atrás dela a fez entrar em pânico. Ao olhar através do vidro dos carros estacionados viu Kamus a poucos passos atrás de si:
—Isabelle.
Ela ouviu Kamus chamar e o ignorou seguindo em frente apressando os passos, mas ele a seguiu. No desespero ela atravessou a rua correndo ao ver Shiryu estacionando o carro em uma vaga próxima do local onde estava. Foi tudo muito rápido, ela ouviu o som de buzina de um carro e tudo ficou escuro.
Miro sentiu a falta de Kamus e ao olhar ao redor viu que o amigo estava de pé a frente do restaurante, onde havia um aglomerado de pessoas. Ele pediu licença as outras pessoas da mesa e foi até Kamus:
—O que esta havendo? — Perguntou Miro ao amigo.
—Ligação para o Afrodite. — Ele exibiu o celular.
—Estou falando das pessoas.
—Uma moça foi atropelada.
—Não foi ajudar porque? — Miro perguntou pasmo com a frieza do amigo.
—O marido dela estava ali. De qualquer forma vamos voltar.
—Você realmente sabe ser cruel.
—Tem coisas que não dá para se evitar ou um problema maior pode ocorrer. — Kamus voltou para dentro de estabelecimento.
Miro observou o aglomerado de pessoas por alguns segundos. Algo naquele acidente o incomodava. O homem de roupa branca e longos cabelos negros chamava a mulher em seus braços, ele a chamava de Rei, e a aliança na mão que ele segurava a dela deixava claro que a mulher em seus braços era sua esposa. Os pensamentos do grego foram povoados por Isabella. Ele gostaria de reencontrá — la novamente, mas aquele não seria o momento.
—*-
Shunrei abriu os olhos e fitou o teto branco. Sentia a cabeça latejar e sentia o corpo dormente, ela olhou para o lado e viu Shiryu cochilando em uma poltrona, ele parecia exausto. Ela o observou por alguns minutos e logo ele despertou, a olhando com um carinho enorme:
—Que bom que acordou. — Shiryu falou indo até ela e lhe acariciando o rosto.
—O que aconteceu?
—Você foi atropelada por um carro.
—Não me lembro de ter visto um carro quando fui atravessar a rua. Mas de qualquer forma eu te disse antes de sair de casa que não estava bem.
—Eu lembro que você me disse. Mas você se sentiu mal naquele momento?
—Sim, durante a reunião eu senti tontura e para sair de lá foi difícil.
—Bem, aconteceu. Ainda bem que você esta bem. — Ele a beijou na testa.
—E o bebê?
—Não resistiu.
Shunrei sentiu um desconforto, um vazio que nunca havia sentido antes. Agora que ela se acostumava com a idéia de ser mãe uma tragédia havia levado seu filho. Talvez fosse um sinal para que ela seguisse o caminho predestinado e não o que ela queria. Com extrema dificuldade ela se ergueu um pouco e abraçou Shiryu, que a acolheu. Ele sabia que para ela tinha sido difícil se acostumar com a gravidez e a perda seria muito mais dolorosa, não só para ela mas para ambos:
—Desculpe. — Ela pediu enquanto lágrimas brotavam em seus olhos.
—Não precisa se desculpar, foi apenas um acidente. Vamos ter a oportunidade de tentar novamente em breve. — Shiryu forçou um sorriso para a esposa.
—Shyu, de verdade, eu não quero mais ter que passar por isso. Nunca mais. — Ela voltou a abraçá — lo.
—Não vai mais passar por isso querida, eu te prometo.
Eles ouviram leves batidas na porta, e após Shiryu autorizar a entrada, Saori surgiu com um semblante preocupado:
—Vim correndo assim que soube. Como estão? — Ela entrou no quarto, fechou a porta e se aproximou do casal.
—Nos conformando.- Respondeu Shiryu com o semblante cansado. — Eu vou deixá — las, assim vocês podem conversarem melhor.
—Obrigada. — Saori agradeceu e acompanhou Shiryu até a porta, a fechando assim que o mesmo saiu. — Rei, como você esta?
—Me sentindo péssima. — Respondeu Shunrei sincera.
—Mas me conte o que realmente aconteceu, eu te conheço e sei que não se envolveria em um acidente simplesmente por não estar sentindo — se bem.
—Você realmente me conhece muito bem Sá. Aquilo aconteceu porque eu estava fugindo. Miro e seu amigo Kamus estava lá, Kamus me reconheceu e veio atrás de mim. Entrei em pânico e por fim não vi o carro vindo.
—Você acha que ele veio atrás de você?
—Impossível, eu disse que morava na Grécia.
—Rei, não pode subestimar o Miro dessa maneira.
—Eu sei, mas mesmo assim Sá eu me desesperei não pelo Miro mas sim pelo Kamus, ele sim pode me causar graves problemas. Ele me reconheceu depois de dias sem me ver e mesmo com aparência diferente.
—Isso é grave. Vou dar um jeito de reforçar sua segurança.
—Não se preocupe, meu tio já me dá cobertura para que Miro não me encontre antes da hora. Mas foi estranho isso ocorrer, pois mesmo quando estamos em locais próximos, nós nunca nos encontramos.
—Eu me recordo disso. Lembro — me de uma festa que você foi como minha acompanhante e ele estava lá, veio um cara e praticamente te arrancou da festa.
—Aquele era Afrodite, ele trabalha com Miro. Ele que me deu apoio enquanto eu estava em missão.
—Ele é bem interessante.
—Muito.
—O que vai fazer agora?
—Repouso durante 15 dias, acho que dá prazo para eles sumirem daqui.
—Eu sei que você esta em um momento ruim mas eu tenho uma noticia não muito boa pra te dar.
—Pior do que saber que perdi um filho não pode ser. — Falou uma irônica Shunrei.
—Não, não é mesmo mas dependendo do ponto de vista pode ser agradável.
—E o que seria?
—Shaka estará de volta nos próximos dias.
—Isso é mau, muito mau. E se ele me procurar? Ele não sabe que estou casada agora. E o pior, e se o Shiryu descobre tudo?
—Não quero nem imaginar. De qualquer forma você esta avisada que o Shaka vai estar de volta e provavelmente vai querer que você volte a trabalhar para ele.
—Não vejo problema em voltar a trabalhar para ele desde que ele entenda que estou casada.
—Acho que esse não é o caso do nosso amigo religioso.
—Verdade.
—Vou voltar para o apartamento agora, devo arrumar as coisas pra você quando receber alta.
—Eu agradeço Sá.
Saori saiu do quarto deixando Shunrei sozinha. A morena tinha um olhar vazio, pensava nos últimos dias que estava vivendo tão bem com Shiryu, tudo estava se montando em torno do bebê e aquilo a preenchia com um doce sentimento. Ela queria ter uma família, a família que ela não teve. Ela ouviu o som da porta se abrir:
—Shyu, estou com sede... — Ela se assustou ao ver Kamus de pé ao lado da cama.
—Desculpe, não sou a pessoa que você queria. Mas eu sei que você é a pessoa que procuro. Isabelle, ou melhor, Shunrei. — Ele exibiu o acompanhamento dela.
—O que você quer?
—Miro esta louco atrás de você, por que não volta?
—Não é hora para isso. Agora por favor me deixe em paz.
—Você não é a princesa da família secundária? Por que simplesmente não aceita seu destino?
—Você não sabe de nada, é melhor me deixar em paz e por favor esqueça que me encontrou, meu tio não vai ficar nada feliz em saber que você meteu o nariz onde não deve. — Ela falou brava.
—Não vou sair enquanto não me dizer o motivo de tudo isso.
Nesse instante Shiryu entrou no quarto com algumas frutas em uma cesta, ao ver Kamus ele parou:
—O que esta acontecendo aqui? Quem é você? — O moreno perguntou desconfiado.
—Ele já está de saída. — Shunrei sentenciou no mesmo tom que ela usou meses atrás quando eles encontraram o estranho homem no apartamento dela.
—O que você quer com a minha esposa? Pode falar comigo que eu resolvo.
—Esposa. — Kamus falou para si mesmo e um sinistro sorriso surgiu em seus lábios. — Já entendi. — Ele se virou para Shunrei. — Vou estar te aguardando princesa.
Kamus passou por Shiryu o ignorando e saiu do quarto. Shunrei sentou na cama e os sinais de nervosismo eram claros:
—O que esta havendo aqui Shunrei?
—Problemas. Infinitos problemas. — Ela jogou o cobertor de lado e tentou se levantar mas sentiu uma tontura.
—Rei, você não pode se levantar assim. — Shiryu foi até a esposa e a amparou.
—Preciso de um telefone.
—Você não precisa de um telefone, você precisa descansar. Rei você precisa entender que você pode dividir seus problemas comigo, eu sou seu marido.
—Mas isso não condiz com a situação Shiryu. Você ser meu marido ou não, não vai ajudar nessa situação.
—Quer dizer que eu não faço diferença na sua vida?
—Não é bem assim. Deixa, eu vou descansar. — Ela voltou para cama derrotada.
—Ele é um de seus clientes? — Perguntou Shiryu tentando disfarçar a tristeza.
—Não, ele trabalha para o meu tio. — Percebendo a chateação do marido ela continuou. — Ele queria saber se eu estava bem após o acidente.
—Começo a acreditar que seu tio não é alguém tão ruim assim.
—De fato ele não é, problema são as regras da família. Ah Shyu, tudo que eu queria era poder viver em paz com você, sem essas perseguições.
—Ignore — as e vamos viver em paz. — Ele a abraçou e lhe beijou a fonte.
—Prometo fazer isso.
—*-
Shunrei havia recebido alta e estava em casa, o que deixava Shiryu mais tranquilo. Ela se recuperava bem até mesmo superando a perda do bebê. Ele havia ido até um bar de um amigo para poder conversar um pouco. Várias coisas passavam na mente dele desde que encontrou aquele homem no hospital, inclusive uma possível traição da esposa.
Ela voltou diferente, parecia querer distância dele e quando estava por perto parecia forçada a estar ali. Havia conversado com Hyoga e o mesmo disse que aquele comportamento poderia ser resultado da gravidez, mas ele não se convencia, aquelas lágrimas que ela derramava diante do espelho escondida de todos, tinha um motivo muito mais forte para ela chorar daquele jeito, mas por mais que ele tentasse descobrir, não havia nada que indicasse algo.
Shiryu entrou no bar do amigo e o encontrou lavando alguns copos enquanto via um jogo de beisebol pela televisão:
—E não é que veio mesmo! — Falou Ohko, o amigo de Shiryu.
—Eu disse que viria. — Shiryu sentou a frente do balcão.
—Vai uma cerveja?
—Não obrigado, estou dirigindo e logo tenho que ir pra casa ver minha esposa.
—Cara, tu já era chato antes de casar, agora esta pior do que nunca.
—Se case também pra você entender.
—Mas enfim, o que veio fazer aqui?
—Preciso de uma opinião sua. — Shiryu respirou fundo. — Acho que a minha esposa me traiu.
—Você acha?
—Acho.
—Você me contou que ela passou um tempo fora. Depois que ela voltou, quantas vezes foram pra cama?
—Não me lembro, mas não foram muitas vezes por causa do bebê.
—Isso não é desculpa, ela deve ter aprontado fora.
—Como pode afirmar assim com tanta precisão?
—Cara, ao contrário de você eu tenho experiência com mulher e quando elas agem assim elas conheceram algo diferente lá fora.
—Será Ohko? Mas Shunrei sempre gostou tanto de mim, se passaram tantos anos e ela não exitou em aceitar meu pedido de casamento.
—Ela teve outros namorados depois que foi embora?
—Mais ou menos por aí.
—Se você tivesse me dito antes eu não deixava você se casar com ela e sim com a Shunrei filha do Mestre Ancião, aquela sim vai ser uma excelente esposa.
—Até a minha própria esposa diz isso de vez em quando.
—Eu não conheço sua esposa, mas imagino que pra você ter se casado com ela, em alguma coisa ela deve ser muito boa, mas pra falar a verdade me parece que ela quer apenas passar um tempo com você pra depois tomar um rumo na vida.
—As vezes me sinto usado dessa maneira. De qualquer forma devo ir embora agora, ela deve estar me esperando com uma boa comida para o jantar.
—Perfeição demais tem algo errado por trás.
—Aqui ela. — Shiryu mostrou uma foto dele com Shunrei. — Não é linda?
—Já entendi porque se casou. — Ohko acompanhou Shiryu até a saída..
—Tchau Ohko.
—*-
Shunrei havia acabado de sair do banho, o jantar já estava pronto e ela aguardava Shiryu. Ela penteava os longos cabelos quando o viu se aproximar e abraçá — la por trás. Ela deixou a escova de lado e se virou para ficar de frente para o marido:
—Achei que ia demorar mais. — ela o beijou levemente e sorriu para ele.
—Com uma esposa linda dessas o que eu iria fazer em um bar fedorento e cheio de machos? — Ele brincou.
—Que bom que escolheu sua esposa, o jantar ainda esta quente e podemos jantar juntos enquanto assistimos alguma coisa na televisão, o que acha?
—Não vejo problema se você me ajudar no banho.
—Hum...isso é uma proposta interessante. — Ela sorriu sedutora para ele que correspondeu o sorriso. Ele a tomou nos braços e a levou para o banheiro onde fez amor com ela.
Os dois tomaram banho juntos e se arrumam para jantarem. Com a ajuda de Shiryu, Shunrei arrumou as coisas em uma bandeja e levou para sala onde escolheram um filme de comédia para assistir. Ao fim do filme Shunrei recolheu as louças e levou para cozinha. Shiryu a observou por alguns instantes e resolveu acompanhá -la:
—Shyu eu devo voltar a trabalhar na próxima semana. — Shunrei avisou enquanto lavava a louça.
—Mas já? Eu realmente estava me acostumando com você em casa.
—Eu também já estava me acostumando a essa vida de dona de casa, mas tudo que é bom dura muito pouco e eu devo voltar.
—Vai fazer aquele mesmo horário?
—Não sei, depende do meu chefe. Se lembra daquele cara que a Saori me pediu para investigar? O Que me trouxe até aqui?
—Sim, o nosso cupido. — Shiryu sorriu.
—Ele esta de volta, e a Saori já avisou que ele me quer de volta.
—Como assim te quer de volta? Não tem funcionário melhor pra ele não? — ele fingiu estar com ciúmes.
—Ter tem, mas só eu que suporto aquele cara. Pense em um cara insuportavelmente detalhista.
—Então só você mesmo pra dar conta. Se bem que se eu fosse ele eu também gostaria de ter uma funcionária linda e eficiente como você.
—Até parece que sou isso tudo. — Ela sorriu carinhosamente para ele.
— Você apenas é. — Ele se aproximou dela, a abraçou por trás e a beijou no pescoço. — Estava pensando em fazermos algo diferente esse fim de semana, o que acha?
—Tipo visitar um templo. Não fizemos isso desde que nos casamos, deve ser por isso que essas coisas estranhas tem acontecido conosco.
—Não acredito nessas coisas. — Ele confessou. -Quando vai me contar sobre os dias que passou desaparecida?
Shunrei gelou, ela vinha evitando de falar sobre isso com Shiryu desde que voltou. Ela não gostava de mentir para ele porque ele não merecia, ele era um bom marido e se esforçava para tal e ela fazia a mesma coisa como esposa, mas contar o mínimo daquela missão poderia arruinar o pouco que havia recuperado depois da volta dela.
Ela largou a louça que lavava e se virou para ele:
—Eu não gostaria de falar disso.
—Nem mesmo poderia resumir? — Ele perguntou esperançoso.
—Eu tinha que me livrar de uma pessoa e me livrei, só isso.
—Homem ou mulher? E por que?
—Mulher. E porque ela atrapalhou os planos do meu tio.
—Você… — Ele procurou uma maneira melhor de dizer. — Por acaso você teve que se livrar dela de uma maneira mais complicada?
—Não Shyu. — Ela riu. — Eu apenas a desviei para um caminho bem longe dos interesses do meu tio, não precisa se preocupar.
—Fico mais tranquilo. E onde você estava? Você voltou bronzeada.
—Quero te levar lá um dia. — Ela falou animada. — Vou te mostrar, vem cá.
Ela saiu dos braços dele e o puxou pela mão até o quarto, onde foi até a mochila que ela havia levado para missão e pegou um envelope, de onde tirou várias fotografias:
—Geralmente tiro foto durante as minhas missões, é um hobby que eu tenho. — Diz ela espalhando as fotos pela cama.
—Isso é novo pra mim. — Ele se aproximou para ver as fotos.
—Aquela mochila tem minha câmera e alguns equipamentos de fotografia.
—Por isso você cuida dela com tanto cuidado?
—Exatamente.Olhe as praias de lá. — Ela apontou algumas fotos.
Shiryu observou as fotos que Shunrei havia tirado. Ela conseguia tirar fotos maravilhosas, com efeitos de luz e sombra muito bons. Mas outras fotos que chamou sua atenção, as fotos em que Shunrei estava nelas. Ele pegou uma em que ela estava de pé segurando uma canga de praia atrás de si com os braços abertos e os cabelos ruivos vivos balançavam ao vento:
—Essa aqui esta linda. — Ele falou encantado olhando a foto. — Você fica linda ruiva.
—Como assim? Achei que me achava perfeita morena. — Ela brincou.
—Não sei, mas você estava tão linda aqui, como no dia do nosso casamento.
—Hum...você quer me ver ruiva?
—Eu gostaria sim. Aliás, quem tirou essas fotos suas?
—Esse cara aqui.- Shunrei pegou uma foto dela com Afrodite em um mirante e entregou a Shiryu. — Esse é Afrodite, é meu parceiro de missão. Não se preocupe ele é gay.
—Com essa cara, esta meio óbvio. — Shiryu riu.
—Ele é como um irmão pra mim, sempre cuida de mim e evita que eu entre em enrascadas.
—Gostaria de conhecê -lo.
—Quem sabe um dia? Então, o que achou do Brasil?
—Acho que eu gostaria de ir com você.
—Então vamos começar a poupar um pouco para juntarmos um bom dinheiro para irmos nas suas férias, o que acha?
—Mas Rei, a reforma da casa nos cinco picos é prioridade, não podemos ficar aqui quando resolvemos ter filhos.
—Sim, eu sei que temos a reforma como prioridade mas isso não impede de juntar um dinheiro pra viagem, aliás nós não tivemos lua de mel.
—Certo, você já me convenceu. Vamos fazer essa viagem.
Olharam as fotos durante algum tempo e depois resolveram ir descansar. Dias depois Shunrei voltou a trabalhar e lá estava Shaka, impecável como sempre a aguardando para mais um dia de trabalho. Mas naquele dia em especial Shunrei não estava bem, havia ido visitar o avô e o mesmo contou sobre os comportamentos de Shiryu e o quanto aquilo o desagradava.
Ela também havia descoberto que a moça havia voltado a correr atrás de Shiryu depois da perda do bebê e que ele mantinha um leve relacionamento com ela as escondidas. Mas o que ela não entendia era o ciúme que Shiryu havia desenvolvido por ela, sempre perguntando sobre tudo e até mesmo controlando seus passos, e aquilo já se tornava insuportável:
—Shunrei! — Ela escutou a voz de Shaka.
—Ah oi. — Ela falou saindo de seus devaneios.
—Estou te chamando tem algum tempo, você esta bem? Quer voltar para casa?
—Não precisa, eu estou bem.
—Não, você não esta. Eu tenho reuniões hoje?
—Até agora não.
—Vamos, vou te levar para casa. Você não vai ficar trabalhando com essa cara de choro perto de mim. Vamos.- Ele a ajudou a se levantar, pegou a bolsa dela e saiu do local para garagem onde a levou para casa em seu carro.
Shunrei abriu a porta do apartamento e convidou Shaka para entrar:
—Fique a vontade, vou me trocar.
—Isso me traz lembranças. — Shaka falou sorrindo.
—Ei, sou casada agora. — Ela falou entrando no quarto.
—Onde esta seu marido? — Ele perguntou em um tom elevado para ela ouvir.
—Trabalhando. Tenho que ligar para ele avisando que voltei para casa, se ele ligar para o escritório e eu não atender é motivo para horas de falação.
—Shunrei esse casamento esta te fazendo muito mal, por que mantém isso?
—Como assim Shaka? — Ela voltou e sentou próxima a ele no sofá.
—Quando eu te conheci você era tão radiante, tão animada, mas agora é tão raro ver você sorrindo desde que voltei você fica quieta, com um olhar triste e vazio, como se estivesse faltando algo.
—E esta mesmo Shaka. Eu me casei achando que iria ser feliz, ele foi o meu primeiro namorado e disse que me faria feliz, eu apenas acreditei que daria certo, mas somos tão diferentes.
—Mas não é só isso, não é mesmo?
—Não. Eu acabei me metendo no caminho dele com outra pessoa, mas depois que tive que passar uma temporada fora ele e essa pessoa se reaproximaram, eu sinto que estou atrapalhando.
—E o que pensa em fazer?
—Não sei. Agora tenho praticamente mais um ano para ficar com ele, mas não sei se vale a pena. Estou me sentindo péssima.
—Não vai adiantar você forçar nada, se você não esta feliz e ele também não esta. Os dois tem que chegar em um acordo para finalizar esse sofrimento. Que vocês deram um mau passo se casando, isso é óbvio.
—Eu estou percebendo que sim. Estou amadurecendo a idéia de deixá -lo livre, acho que ele precisa ser feliz ao lado de uma mulher que o ame de verdade.
—E você precisa ser feliz ao lado de alguém que a faça feliz.
—Vou te contar um segredo. Quando estive fora eu conheci uma pessoa, uma pessoa que me fez muito bem.
—Se o que precisa é de folga para ir atrás dessa pessoa, te dou até uma semana. — Ele falou brincando.
—Acho que eu deveria ter me casado com você. — Ela se atirou nos braços dele que a abraçou carinhosamente.
—Já esta pedindo demais de mim. — Ele sorriu e afagou os cabelos dela. — Que tal adiantarmos o serviço aqui mesmo? Creio que tenha um computador em casa.
—Tenho sim, aliás Saori morava comigo.
—Então vamos trabalhar.
Desde que Shaka havia voltado ele havia se tornado um ótimo amigo para Shunrei, dando todo suporte necessário a morena que havia ficado sozinha após a volta de Saori e Hyoga para o Japão. O loiro fazia questão de apoiá -la no momento difícil que ela estava vivendo, mesmo que isso significasse que o marido dela enlouquecer de ciúmes. Foi ele que ajudou Shunrei a descobrir que o marido havia voltado a ter um caso com a filha do avô dela e foi ele também que pedia para ela ter paciência, pois na hora certa ela sairia dessa situação complicada, sem maiores problemas.
Quando deu por volta do horário do almoço os dois decidiram ir para um restaurante, que era próximo ao local de trabalho de Shiryu. Não foi surpresa para eles encontrarem o mesmo almoçando no local e como sempre estava acompanhado da Shunrei mais nova. Shaka cutucou Shunrei e apontou para o casal em uma mesa escondida no restaurante:
—O que acha? — Ele perguntou.
—Acho que vou lá.
—Aproveita que temos uma viagem marcada para Grécia para depois de amanhã.
—Tem razão.
Ela se levantou e caminhou calmamente entre as mesas, se aproximando do casal no exato momento em que eles trocavam um beijo. Ela jogou o menu que havia pegado de outra mesa a frente deles:
—Gostariam de pedir agora? — O casal se afastou pasmo ao ouvir o som da voz dela, que tinha um simpático sorriso no rosto.
—Rei! — Shiryu falou surpreso ao vê — la. — Não é isso que esta pensando.
—Não é mesmo. Eu vim aqui avisar que estou indo embora, vou providenciar o divórcio e a casa dos cinco picos é sua, faça o que achar melhor. — Ela tirou a aliança e colocou na mão dele. — Seja feliz.
—Espera Rei, não podemos terminar tudo dessa maneira.
—Não existe outra maneira, Shiryu. A Shunrei com quem você devia estar desde o início era ela e não eu, me esqueça por favor.
—Não, eu não posso te deixar sozinha. Não quero que nada de ruim te aconteça, eu prometi te proteger, lembra?
—Não precisa ser como meu marido. De qualquer forma manteremos contato.
Shunrei se afastou e voltou para mesa onde Shaka a recebeu. Ele pagou a conta e saiu do local com ela. Shunrei havia se mantido firme, mas ao sair do local se desmanchou em lágrimas, era mais difícil do que ela pensava, dar adeus a vida calma e pacata que ela tinha ao lado de Shiryu.
Os dois dias que se seguiram ela não voltou para casa, preferiu ficar com Shaka que a apoiava da melhor maneira possível, mas naquela manhã ela teria de voltar para pegar seus pertences antes da viagem definitiva. Ela estava em frente a porta quando a mesma se abriu e Shiryu saiu dando de cara com ela:
—Rei!
—Ah oi Shiryu, vim buscar minhas coisas para viajar. — Ela falou embaraçada.
—Entre, o apartamento ainda é seu.
Sem graça ela entrou no local e olhou ao redor. Ele não havia tirado nada do lugar e ao que parecia estava sozinho ali:
—Vou pegar minhas coisas. Assim que você tiver desocupado o apartamento é só deixar a chave na recepção do escritório da fundação.
—Rei, você vai para onde?
—Não sei. — Ela desviou o olhar.
—Me conte. — Ele se aproximou e tomou as mãos dela dentre as suas. — Eu vou ficar preocupado se não me contar.
—Você não precisa passar por isso. Você tem a Shunrei para cuidar de você e para você cuidar dela, tente me esquecer.
—Mas e se acontecer algo a você? Eu não vou me perdoar nunca.
—Não vai acontecer nada Shiryu, eu ficarei bem.
—Mesmo assim Rei. Fique por perto. Já que quer mesmo terminar o casamento eu não vejo problema, mas você ficar longe dos meus olhos, isso que eu não concordo.
—Olha Shiryu, eu como sua ex — esposa nunca gostei que você estivesse próximo de outra mulher, agora imagine para sua namorada ter que suportar sua amizade com sua ex — esposa, se ponha no lugar dela.
—Você tem razão. Eu vou sentir a sua falta, de verdade..
—Eu também vou sentir sua falta Shiryu.
Os dois se abraçaram e Shunrei foi arrumar suas coisas, sendo seguida por Shiryu que acompanhava cada movimento dela. Aquilo estava tornando as coisas muito mais difíceis para Shunrei que tentava conter as lágrimas que teimavam em rolar pelo rosto. Não resistindo o impulso, Shiryu foi até ela e a abraçou novamente:
—Me perdoe Rei, eu realmente queria que nosso casamento desse certo.
—Eu sei que você tentou, eu também tentei mas isso não daria certo mesmo, eu só tenho que te agradecer por ter me dado dias tão tranquilos.
—Apenas um ano…
—Sim.
—Eu sempre vou te amar.
—Shiryu…
—Não. Não fale nada, apenas entenda isso.
Ele a beijou com todo sentimento que sentia por ela, e ela correspondeu da mesma maneira. O beijo se tornou profundo e intenso e logo eles faziam amor, como a muito tempo não faziam. Não havia como negar eles gostavam um do outro e tinham uma longa história juntos, não havia como esquecer tudo de uma só vez.
Ela olhou nos olhos dele e o beijou novamente:
—Eu tenho que ir.
—Eu sabia que diria isso. — ele acariciou os cabelos dela. — Eu te levo.
—Não precisa, eu chamo um táxi.
—Eu vou te levar sim. Onde você passou esses dias?
—Na casa do Shaka. Ele deve estar me esperando para irmos para o aeroporto.
—Por acaso vocês dois…
—Não. Ele é apenas um amigo e meu chefe, apenas isso. Pode deixar, quando eu puder eu vou entrar em contato com você.
—Me promete?
—Prometo
Pouco tempo depois eles estavam no aeroporto. Shaka providenciou o despacho das malas e Shunrei o aguardava junto a Shiryu:
—Esta quase na hora. — Ela falou para quebrar o silêncio.
—Sim. Eu realmente não gostaria que você fosse embora dessa maneira, ainda mais com esse problema de saúde que ninguém descobre o que é. — Ele falou preocupado.
—Não se preocupe, não é nada demais, provavelmente stress acumulado.
—Vamos Shunrei. — Chamou Shaka se aproximando.
—Vamos. — Ela deu um passo, mas Shiryu a segurou e a abraçou.
—Não esqueça de enviar notícias.
—Pode deixar.
Com um sorriso Shunrei se afastou de Shiryu e acompanhou Shaka para a ponte de embarque, ela parecia mais tranquila depois daquela manhã que passaram juntos e esclareceram alguns pontos. Ela era como o mais belo céu noturno, repleto de estrelas, calmo, frio e misterioso. Ficou olhando até que os dois desaparecem de sua vista, ela não olhou nem uma única vez para trás, ela realmente não voltaria atrás em sua decisão.
Ele respirou fundo e decidiu voltar para casa para começar a organizar sua nova vida, sem aquele céu estrelado para te guiar.
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