Destiny
2 Vivendo o pesadelo
Notas iniciais
Eu escutei atentamente cada palavra que meu irmão disse. Eu só não podia acreditar. Eu não QUERIA acreditar. Então, não tinha sido um pesadelo? Era verdade que papai tinha morrido? Não, não podia ser verdade.
Demorei alguns segundos para processar a informação e uma lágrima logo escorreu-me a face, dando lugar à muitas outras até que meu rosto ficasse completamente molhado. Parei de olhar através do meu irmão e apenas olhei para ela, buscando o colo e consolo que ele prontamente ofereceu-me. Deitei em seu colo e não pude evitar chorar mais, um choro desesperado, como um choro de bebê. Ele tentou, mas logo acompanhou-me com as lágrimas mesmo lutando contar elas, que não o obedeciam. Ele tentava ser forte para o nosso próprio bem. Afinal, a menininha indefesa dali era eu, certo? Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. Primeiro, eu perdi minha mãe, depois, meu irmãozinho e agora meu papai? Meu parceiro? A pessoa que me entenda? Que me confortava? Que ria de minhas piadas? Que me zoava só pra me ver bravinha e depois me dava um beijinho no rosto e me fazia cócegas só pra me ver sorrir? Meu cúmplice? A pessoa que me AMAVA e que eu amava mais que tudo nesse mundo? Claro, eu e meu irmão éramos bem próximos e realmente nos dávamos muito bem, mas não seria a mesma coisa. Não sem papai, pois mais que um pai, ele era um grande amigo pra nós dois. ERA. Ele se foi. Nós o perdemos para uma doença. Uma doença muito feia chamada CÂNCER. É, na nossa família não é a primeira vez que isso acontece. Todo o lado paterno da nossa família sofria com isso. Meu bisavô morreu de câncer. Meu vô, seguiu o mesmo caminho. Depois, meu irmãozinho Anthony, cujo o qual se foi cm apenas 5 aninhos. Agora, o meu pai se fora e eu começava a me perguntar quanto tempo restava ao meu irmão. Sim, Nicholas também tinha câncer. Todos tinham câncer. Menos eu. E eu me odiava por isso. Me odiava por ser mais parecida com a minha mãe do que desejava. Não, minha mãe não era um exemplo de pessoa. Ela traiu meu pai e nos deixou. Depois de um tempo, voltou e meu pai a aceitou. E ela continuava o traindo. Depois, ela acabou engravidando, do meu pai mesmo, e morreu logo após o parto, sem ter a chance de conhecer o filhinho. E, cinco anos depois, meu irmãozinho querido se fora por causa da droga do câncer. às vezes eu desejava ter essa doença. Eu me sentia culpada por ser estupidamente "saudável".
Não vimos o tempo correr, então não sei direito se haviam se passado segundos, minutos ou horas em que eu e Nicholas ficamos ali, da mesma maneira. Então, eu me levantei e ele começou a explicar tudo o que havia acontecido:
- Quando você soube do papai- disse ele – você desmaiou. A gente até pensou em te levar pro hospital, mas achamos melhor te deixar aqui mesmo, já que provavelmente você acordaria logo. Mas não foi o que aconteceu. Você está aí há três dias maninha! – Ele terminou e fez uma pausa, dando um suspiro, que eu não sei se foi verdadeiro ou se foi apenas pra me zoar mesmo. Eu estava surpresa. Meu pai havia falecido enquanto eu “dormia” por três dias? Agora sim, eu estava me sentindo uma péssima filha.
- Então – continuou – mesmo que isso a entristecesse, vovó achou melhor fazer o velório do papai sem você. Só que...
- Como assim vocês decidiram velar o papai sem mim? – o interrompi, gritando, indignada – O que vocês têm na cabeça? Vocês sabiam, aliás, SABEM o quanto eu sou... – me veio um nó na garganta e eu engoli em seco, me segurando para não chorar – ERA apegada à ele. Como vocês puderam... – Não consegui terminar a frase e soltei um grito de raiva, me jogando na cama com as mãos na cabeça.
- Calma mana! – Ele disse em um tom calmo, como sempre e me entregou um travesseiro, com um sorriso irônico. Tudo o que eu fiz foi enfiá-lo na cara e gritar, como se o mundo não existisse e uma lágrima escorreu-me a face e eu a reprimi. Não sei quanto tempo fiquei lá, do mesmo jeito. Tirei o travesseiro do rosto, me levantei, soltei um longo suspiro e o entreguei a meu irmão.
- Pronto, já se acalmou? – perguntou ele e eu apenas virei a cabeça em sua direção – Posso continuar? – disse ele e eu me vi obrigada a virar todo o corpo em sua direção. Ele pegou minhas mãos e olhou em meus olhos. Eu assenti para que ele pudesse continuar.
- Então, eu estava dizendo que fizemos o velório do papai sem você. Só que a vovó me dizia para subir aqui a cada cinco minutos para ver como você estava, pois, ao contrário do que você pensa, ela SABE o quanto vocês eram apegados. Bem, eu estou nessa de subir e descer a cada cinco minutos há três dias. Finalmente deu certo, né?! – Disse ele, mas eu fiquei sem entender uma coisa.
- Pera – eu disse – então, vocês estão velando o corpo do papai há três dias? Ele ainda está lá embaixo e você não me diz nada, seu filho de uma...- ele me interrompeu jogando o travesseiro em mim enquanto eu ia pra cima dele.
- Será que eu vou ter que te fazer ficar calma de novo?- indagou ele – E te lembrar de que somos filhos da mesma mãe? – Disse e eu suspirei. Não gostava que me falassem da mamãe. Doía demais. – Respondendo suas perguntas: sim, nós estamos velando o corpo do papai há três dias. E sim, ele ainda está lá embaixo. Mas isso, como disse antes, é só porque a vovó sabe o quanto vocês eram apegados. Então, ela te esperou todo esse tempo – Quando ele disse isso, não pude evitar que meus olhos ficassem úmidos e vazassem. Mas logo reprimi esse gesto.
- Te esperou e esperaria muito mais. – Disse ele, secando minha lágrima — Até um ano se fosse preciso e você sabe disso. Ela quer que você tenha um tempo com ele antes do último adeus. Então, tome um banho e se arrume, porque logo após o seu tempo com o papai, nós vamos direto para o cemitério. – Ele terminou, se levantando e eu apenas assenti, também me levantando. Então, ele me abraçou forte e beijou minha testa, como papai fazia.
- Eu te amo. – eu disse a ele, que sorriu.
- Eu também te amo, maninha – respondeu e foi em direção a porta.
- Ah – eu disse e ele se virou – Só mais uma coisa. Veio muita gente pra vê-lo? – Perguntei.
- Hum, mais ou menos – respondeu – vieram os mais importantes. Até mesmo aquele nosso tio que não vemos desde o nascimento do pequeno Tony.
- Ele ainda está aí? – perguntei, por algum motivo aquela pergunta era importante e eu só não sabia o por quê.
- Não, já foi embora. Algo com a escola em que ele trabalha – disse ele – eu não sei direito.
- Ok – respondi e ele se foi. Fechei a porta do quarto e soltei um longo suspiro. Fui até o meu guarda roupa e peguei a primeira camisa de banda que vi em minha frente e uma calça jeans igualmente escura. Depois disso, me enfiei debaixo do chuveiro e as lágrimas reprimidas começaram a rolar em meu rosto, com a dor das lembranças que tinha de meu pai.
- Por que? – eu me joguei no chão, me sentia perdida e vazia – Por que ele? Por que meu pai? Por que?
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