Notas iniciais
Fiquei muito triste que vocês não comentaram no capítulo anterior. Estou desanimando de postar...

Devo ter demorado quase uma hora no banho. Pelo menos foi isso o que pareceu. Mas, acho que não era muito para quem havia passado três dias sem tomar banho. Desliguei o chuveiro. Me sequei e fui até meu guarda roupa e fiquei me olhando no espelho enquanto secava meus cabelos. Eles eram longos, até o meio das costas, castanhos escuros como meus olhos e levemente cacheados. Tirei a atenção de meus cabelos e percorri o olhar pelo meu corpo, até chegar a uma parte dolorosa de se olhar. Ela me trazia lembranças ruins. Toquei as cicatrizes. Uma lágrima formou-se em meu olho direito, mas eu a reprimi e ela se foi. Larguei a toalha em um canto qualquer do quarto e fui me vestir. Me olhei novamente no espelho. Por que eu era tão parecida com ela? Que droga. Tinha a impressão de que tinha me esquecido de algo, mas saí do quarto. Eu queria ver logo o meu pai.

Quando estava no meio do corredor, eu me lembrei. “A blusa!” Como eu pude esquecer? Sem ela, as pessoas iriam começar a me estranhar, se bem que ninguém perceberia. Achei melhor não arriscar. Dei meia volta e entrei em meu quarto, pegando minha habitual jaqueta de couro preta. Saí de meu quarto correndo e desci a longa escadaria com a mesma velocidade, o que eu não fazia normalmente. Tropecei no último degrau e quase caí. “Típico de mim”, pensei comigo. Olhei em volta da enorme sala. Vários rostos me olhando. “não veio muita gente né?”, pensei, lembrando do que meu irmão havia me dito. Mentiroso.

Percorri os olhos pela sala e vi minha vó. Ao lado dela, o caixão de meu pai. Um nó se formou em minha garganta nessa hora e eu o engoli em seco. Minha vó, percebendo minha presença ali foi me abraçar. Ela estava com olheiras horríveis e parecia não ter ingerido nada além de água e remédios desde que papai morrera. Era triste vê-la daquele jeito. Alguém tão alegre e espontânea, que, muitas vezes, parecia mais uma adolescente do que eu. Por isso eu a abracei forte, muito forte, e evitei o choro que estava prestes a sair. Ela não era mãe de meu pai, mas ela se importava demais com ele e também havia se apegado depois da morte de mamãe.

Percebendo nosso momento, pude ver meu irmão dando um toque para que todos saíssem de lá. Minha vó me soltou. Olhou em meus olhos e me deu um beijo na testa. Até vovó conseguia ser mais alta que eu. Depois disso, ela se foi e me deixou à sós com papai. Um frio me percorreu a espinha e por um momento eu não quis ver papai. Mas, eu o enfrentei e fui, mesmo com um medo desconhecido, eu fui, em passos lentos.

Enquanto caminhava pela sala, pude perceber várias fotos de papai. Dele conosco, com o pequeno Tony, com a mamãe, com a sua família. Uma, em particular, me chamou a atenção. Ele; bem novo, acho que no ensino médio ou faculdade; ao lado de um outro homem, claramente mais velho, quase idêntico a ele. Os mesmos olhos claros, que eu tanto invejava e queria ter. O único que os havia puxado era o pequeno Tony. O mesmo cabelo cacheado, que naquela época, papai havia deixado bem comprido, caindo nos olhos. O nariz quase idêntico. Boca e sorrisos igualmente lindos. “Tio”, pensei. Eu já havia o conhecido, por isso eu me lembrei. Só que na época, eu era muito nova. Só me lembrava de que ele morava no centro-oeste, tinha muito senso de humor e tinha uma esposa muito bonita, porém, ela me assustava um pouco, parecia uma maníaca.

Parei de observar a foto e me dirigi ao caixão de papai, que estava aberto. Um cheiro bom exalava de lá e eu me surpreendi. “Bálsamo”, pensei. Ele adorava isso. Olhei para ele. Os olhos fechados, que nunca mais se abririam. Uma lágrima escorreu-me o rosto, e dessa vez, eu não a impedi.

Comecei a falar com ele:

- Olá papai – eu disse, entre soluços. – Eu sei que é tarde, mas eu só queria que o senhor soubesse que eu o amo, e você fará muita falta. – Comecei a me lembrar de todos os momentos que tivemos. Doía demais. – Quer dizer, quem vai me chamar de “princesinha” agora? Quem vai ficar acordado comigo, me esperando dormir quando eu tiver um pesadelo? Quem vai cuidar de minhas feridas no coração? Quem vai me chamar de meu anjo? Quem vai me ensinar a jogar poker? Jogar football, baseball e basquete comigo? Quem vai me confortar quando alguém quebrar o meu coração? E, o pior, quem vai dizer que me ama, com um sentimento verdadeiro pai? Ninguém! Sem você, eu não sou ninguém! – Nessa hora eu não aguentei e me desabei a chorar em cima do caixão. Depois de uns cinco minutos, parei.

- O senhor não ia querer me ver assim né pai? – Perguntei, sem obter uma resposta. – Claro que não, o senhor gostava de festas e de ver todos felizes. – Afirmei, engolindo o choro. – Eu me sinto muito grata por ter puxado isso de você. Sua generosidade, sua simplicidade... Nunca quis vir morar com a vovó e montar em cima dela por causa da grana, como qualquer outro homem faria. Por que você não era só mais um homem papai. Você é O homem. Você é realmente a melhor pessoa que eu conheci em meus curtos anos de vida. Você é meu herói, papai, e você sabe disso, afinal, eu dizia isso o tempo todo, né? Mais uma mania que puxei de você. E me orgulho. O senhor lutou enquanto pôde. Agora está em um lugar melhor. Eu sei disso.

***

Depois da minha despedida com o papai, fomos para o cemitério. Foi uma cerimônia linda, com muitas memórias, impossível evitar o choro. Mas, a ficha já estava caindo. Papai tinha nos deixado aqui, mas nos deixou com um ensinamento: “Pessoas vão e vem em sua vida. Vocês têm que se acostumar com isso e levar o que elas fizeram de bom pra vocês e pros outros, as boas lembranças, os bons momentos. Assim, a dor passará mais rápido e vocês poderão voltar a sorrir com mais facilidade.” Meu irmão estava seguindo bem esse conselho, mas no fundo ele sabia que eu não conseguiria, mas ele estaria ali pra me ajudar. Uma versão mais nova e morena de papai. Consegui sorrir ao olhar em volta do caixão e encontrar o seu olhar no meio de tantos ali presentes.

Ficamos lá até escurecer. Voltamos para casa no carro de Nicholas, nós três, calados. Não havia nada para se dizer afinal. Quando chegamos lá, jantamos, também sem assunto e fomos dormir. Com dormir eu quero dizer que fomos para cama, pois eu fiquei acordada. Olhei para o relógio. Meia noite. “Ainda está cedo.”, pensei. “Acho que vou pegar um copo de leite, pra ver se isso resolve minha insônia.” Desci as escadas, devagarzinho, para não fazer nenhum barulho. Cheguei à cozinha e peguei meu copo de leite. Me encostei sobre o balcão e o bebi. “Pra que uma cozinha tão grande, numa casa onde só vivem 3 pessoas?”, me perguntei. Terminei meu copo, limpei meu bigode de leite e coloquei o copo sobre a pia.

Quando estava prestes a voltar para o meu quarto, pude ouvir uma conversa, entre minha vó e meu irmão.

- Você acha que Jessica vai demorar muito pra superar? – Dissera ele. Eu não pude acreditar, eles estavam falando de mim? Sim, meu nome é Jessica e eu o odeio, por que esse nome é de patricinha, o que tinha aos montes em minha escola, e eu, definitivamente, não era uma delas.

- Não sei. – Dissera vovó. – Por isso eu acho melhor nós a afastarmos daqui por algum tempo.

- Vovó, a senhora tem que me desculpar, mas eu não concordo com essa ideia. Jessie é uma garota sensível e, se com nós ela já vai demorar pra superar, imagina sem a gente. Ela vai ficar perdida.

- Não, meu filho. A vovó aqui já viveu bastante e sabe que, infelizmente, o melhor remédio pra curar uma perda, além do tempo, é a distância. Por isso eu acho melhor nós a transferimos amanhã mesmo. – Ela dissera. Como assim transferir? Eu mal entrei em uma escola e já teria que me mudar?

- Olha vovó, a senhora quem sabe das coisas e se a senhora diz que vai ser melhor pra ela ficar afastada, então eu acredito em você. – Ele disse. Como ele podia concordar com isso? – Mas, me diz, onde fica esse colégio interno do qual a senhora está falando? – Nessa hore eu não pude evitar uma lágrima. Como assim colégio interno? Eu estava indignada mas continuei ali, pra ver onde aquilo ia dar.

- Então, Nick, fica na Escócia, e é um colégio só para garotas. O diretor de lá é meu amigo e já está tudo resolvido. Ela irá para lá amanhã mesmo. – Escócia? Como eu sobreviveria tão longe assim do meu irmão? E ele estava concordando com tudo? Eu não estava acreditando no que ouvia.

- É, vovó, acho que ela vai gostar de lá. Afinal, ela ama o frio e nós já estamos acostumados com a Europa. Foi uma boa escolha, pelo menos ela se sentirá menos mal de saber que o nosso antigo lar será o novo lar dela. – Ele disse. Eu quase explodi de raiva quando o ouvi dizer isso.

- Então, está tudo certo. – Dissera vovó. – Agora vamos dormir, que amanhã será um longo dia.

- A senhora tem razão vovó. – Dissera Nicholas e a abraçou – Sua bênção vó.

- Deus te abençoe meu filho. – Dissera ela, dando um beijo em sua bochecha. Os dois subiram juntos e eu ainda fiquei na cozinha por um tempo, tentando processar tudo que eu tinha acabado de ouvir. Eu não podia aceitar aquilo.

- Droga. – disse, socando a parede. Saí da cozinha e passei pela sala. Uma foto me chamou a atenção. A foto de papai com titio. – O que você ainda está fazendo aqui? – Me perguntei pegando a foto. Me sentei no sofá e passei meus dedos pela imagem. Então, tive um estalo.

- É isso. – eu disse. Como não pude pensar nisso antes? Não me aguentei, subi até meu quarto, peguei algum dinheiro e minha mochila. A enchi de roupas, as primeira que vi pela frente. Coloquei meus All star e pus mais uns três pares deles em minha mochila. Saí do meu quarto e passei pelo quarto do meu irmão de vovó. – Eu amo vocês. – Disse, baixinho. – Mas eu não posso deixar com que vocês façam isso comigo.

Desci as escadas, fui até a sala e peguei as chaves. Eu tinha apenas 15 anos, mas se tinha uma coisa que papai havia me ensinado muito bem, era andar de moto. Também, eu tinha uma identidade falsa. Eu ia fugir daquele lugar. Meu destino? Bom, eu havia ouvido as palavras “Centro-oeste” e “titio” muitas vezes durante esse dia, então era pra lá que eu iria.

- Adeus Califórnia. Olá Ohio.

Notas finais
Gostaram? no próximo capítulo as coisas vão começar a esquentar. Claro, se vocês comentarem. xD