Destinos Improváveis

123 Futuro - O Ritual


Notas iniciais
Esse capitulo merece um fundo musical, nada e nenhuma letra deve se destacar quando se tem tanto a dizer e sentir. I'm Forrest... Forrest Gump | Forrest Gump https://www.youtube.com/watch?v=ehu2PsWgl0A

Shara acordou cedo naquela manhã, no dia anterior ela havia se deitado e dormido bem antes do que costumava ser o seu horário habitual... sim ela estava exausta após um dos dias mais icônicos de toda a sua vida, se contasse a alguém, certamente ninguém acreditaria: uma guerra de farinha com o temido professor Snape? Honestamente, até ela questionou se aquilo não fora mesmo um sonho, mas as roupas sujas no cesto do banheiro evidenciavam os fatos. Era real.

Shara sorriu ao lembrar de como eles se divertiram, especialmente de como ela o havia vencido no final... ela colocou as pantufas verdes e trançou os cabelos, sabendo que aquele seria mais um dia intenso… aquele era o tão esperado grande dia, uma transição na história, na sua história… o ritual, estranhamente, ela sentia-se muito mais confiante ali e ao abrir o guarda-roupa, escolheu peças especiais para a ocasião... vestindo-as, olhou-se no espelho e quase não se reconheceu, ela tinha tanta opção agora, munida de uma confiança desconhecida, calçou os coturnos pretos, uma escolha bastante assertiva da mãe de Draco que prestará atenção aos detalhes e então Shara desceu as escadas.

Ao se aproximar, Shara ouviu vozes na cozinha e percebeu que não estavam sozinhos... seu pai não havia mencionado visitas, então quem quer que fosse não havia se anunciado, ela caminhou até lá e, sem hesitar, abriu a porta, se deparando com a presença do diretor Alvo Dumbledore, que se virou para recebê-la com um sorriso amplo em seu rosto.

—Shara querida — ele disse sempre bastante afetuoso — espero que esteja bem alojada — seu pai lhe lançou um olhar rápido, mas não fez comentário algum pertinente ao assunto, ela apenas assentiu, afinal... apesar de estarem em processo de adaptação, do seu ponto de vista eles haviam se saído muito melhor do que o esperado, em apenas dois dias... uma guerra de farinha, o que mais ela deveria esperar daquelas férias?

—O diretor já estava de saída — seu pai pontuou, demonstrando que queria que ele se retirasse — Ele veio apenas para trazer a chave de portal e passar algumas instruções – e foi então que uma bota velha e gasta, apoiada em cima do balcão chamou sua atenção, não podia ser aquilo… podia?

—Quanto mais improvável for, melhor — o diretor disse, piscando para ela ao captar sua confusão, ainda assim era estranho — Antony e as irmãs de Medusa também receberam uma e todos irão se encontrar no mesmo lugar — ele informou se levantando da cadeira onde estava acomodado, ela notou que havia também uma xícara de chá, o que denunciava que eles já estavam conversando tinha algum tempo – sendo assim… vou deixá-los para que possam se organizar, esse será um grande dia — ele sorriu se movendo pela cozinha… — Severo assim que voltar, me mande um relatório completo, está bem? – ele pediu e parecia bastante confiante sobre o sucesso daquela missão, como se soubesse de antemão aquilo que viria – afinal não é todo dia que se realiza um feito como esses – ele concluiu... Shara o estudou por um momento, talvez ele soubesse... sim, afinal ele era Alvo Dumbledore e essa era a percepção que ela tinha sobre ele.

—Espere — ela disse antes que ele pudesse de fato ir, aquele era um ponto, e havia algo nesse sentido que fazia algum tempo que ela queria mesmo perguntar… seu pai a encarou sem entender — há algo… que eu gostaria de saber — ela começou… — algo em toda essa história que não entendi...

—Se estiver ao meu alcance… é claro — ele disse de forma vaga o que honestamente a irritava um bom tanto, ele costumava reter as informações mais importantes... mas acontece que aquela era uma pergunta que somente ele poderia responder e trazer clareza sobre isso lhe cairia bem.

—Naquele dia… quando o senhor me abordou e me incentivou a conversar com a boneca de pano que Antony havia me presenteado no natal… o senhor sabia não é mesmo? Sabia que o endereço do lugar onde Elza estava e queria me encontrar se encontrava dentro dela — aquilo era algo que Shara nunca conseguiu compreender, era ilógico… o diretor ficou sério por um instante, evidenciando que não estava esperando algo assim.

—Sim — ele admitiu e Shara notou o olhar de julgamento que seu pai lançou sobre ele.

—Como... digo... como isso pode ser possível? — esse era o ponto que ela queria chegar… era o que Shara não havia conseguido entender, a boneca estava com Antony esse tempo todo...

—No dia em que me encontrei com Elza no cabeça do Javali, eu permiti que ela se aproximasse de mim por uma única razão — ele disse pela primeira vez de forma clara, racional e objetiva — digamos apenas que ela não tenha sido a única a roubar algo de mim naquela noite — ele foi enfático...

—Está dizendo — seu pai interveio visivelmente incomodado — que deixou com que aquela bruxa lunática e cheia de más intenções se aproximasse e pegasse o seu maldito cabelo… Alvo…

—Não foi o que eu disse Severo — o diretor o corrigiu – confesso que foi ingenuidade a minha, achar que não haveriam implicações… — e enquanto ele falava Shara ligou os pontos… a única forma dele saber sobre a boneca e já que aparentemente tinha alguma ligação com algo que ele roubou de Elza… era se ele tivesse visitado o futuro… sim era o que ele havia feito.

—A esfera — Shara disse em voz alta e os dois homens voltaram sua atenção para ela outra vez — o senhor tocou na esfera… o senhor viu o futuro… — ela afirmou.

—Muito bem — ele a estudou — acredito que isso possa responder a sua pergunta — mesmo não dizendo aquilo era uma admissão… ele havia mesmo feito... mas ainda assim, como Elza não havia notado? Ela era esperta o bastante e aquilo não era algo que passaria despercebido... até por que levaria um tempo e sem mencionar que a esfera sempre esteve com ela... era confuso...

—Como o senhor conseguiu enganá-la? — ela perguntou sendo direta também — Elza estava com a esfera o tempo todo, inclusive na noite em que fui até ela… Elza certamente teria notado algo assim — e a medida que as perguntas eram respondidas, outras mais iam surgindo.

—Ela não notou… por uma razão bastante coerente, eu corrigi antes que ela pudesse — ele parecia esclarecer o óbvio ali mas ainda assim não fazia muito sentido — um vira tempo — ele disse, uma volta foi o suficiente — ela não fazia ideia do que aquilo significava… um vira tempo, o que isso fazia?

—Foi por isso que entregou e mandou Antony levar a adaga para mim, naquela noite com Elza — seu pai trouxe uma outra questão à tona — claro… — ele rosnou para o diretor — você sabia sobre isso o tempo todo, já que viu o futuro… frações do futuro é por isso que sabia exatamente o que fazer e o que seria necessário… como ousa intervir dessa maneira? Como ousa não ter dito… — seu pai esbravejou.

—Eu não só vi o futuro naquele dia Severo — Dumbledore encarou o seu pai de forma profunda — como interferi nele o alterando — Seu pai perdeu a cor ao ouvi-lo dizer… aquilo era ruim? Shara não sabia, mas tentou processar — sim… e não tente me exortar sobre isso, eu sei bem quais são as implicações que algo assim pode causar, mas por sorte ainda estamos todos aqui… vivos — ele havia dado ênfase a palavra final… mas falando em implicações…

—O senhor… — ela o analisou por um instante, ela não sabia exatamente quantos anos de idade ele tinha, mas não eram poucos e isso lhe doeu... – o senhor teve que ceder anos da sua vida… para conseguir as previsões, já que esse é o preço cobrado pela magia do objeto – o tempo podia ser ainda mais caro para um homem de idade tão avançada como ele… mas ele sorriu ao entender o que ela estava querendo dizer ali.

—Sim criança — ele continuava sorrindo, como podia? — mas acredite… nenhum tempo é preço o bastante quando se está salvando a vida de um grande amigo — ele disse olhando para o seu pai outra vez… e então a verdade lhe caiu como uma luva, o futuro que ele havia visto, era outro... era diferente, naquele futuro o seu pai… havia morrido… afinal ele teria ido até Elza sem ela, já que ela não teria como conseguir o endereço tomando as poções que seu pai a havia obrigado a tomar todas as noites… e então... sim ele teria morrido já que Elza podia ser muito mais forte ali, a magia ancestral que ela possuía o teria derrotado naquela noite, já que não era ele que Elza queria... Elza esperava por ela e por essa razão o diretor havia interferido, ele mudou a história e aquilo que aconteceria ali, é por isso que ele queria que Shara fosse até eles naquela noite, o diretor estava mandando ela, não para que ela fosse raptada e morta por Elza ali, mas sim por que ele estava salvando a vida do seu pai naquele momento… e sim Dumbledore sabia que seu pai daria a vida por ela se fosse necessário… e então havia a adaga, Antony e a magia ancestral… aquelas eram tramas dentro de tramas… e pela primeira vez Shara olhou para o diretor de uma forma completamente diferente, ela o enxergou como o bruxo nobre, sábio e brilhante que todos costumavam falar e independente de tudo que ele tivesse feito, as manipulações e os julgamentos que ela tinha sobre ele, agora Shara podia ver... pela ótica dele e ela tinha muito do que agradecer, afinal ele havia dado um futuro para eles, os dois... um futuro que só era possível por causa daquilo que o diretor fez.

—O senhor... – ela caminhou até ele e segurou sua mão com ternura — tem minha eterna lealdade... eu não tenho palavras para agradecer ao que fez... — ela disse seus olhos marejando pelas lagrimas de gratidão… se ele não tivesse dado o seu tempo em troca das visões, Shara estaria fazendo aquele maldito ritual sem o seu pai hoje ou sabe-se lá quando ou como… Dumbledore havia dado uma chance para que eles pudessem ser felizes…

—Alvo — seu pai chamou, ele também havia entendido as consequências — dessa vez você foi longe demais…

—Não se preocupe Severo — ele encarou seu pai de forma intensa — ainda tenho tempo mais do que suficiente aqui para intervir em outras questões no futuro e que se fazem necessárias e quando chegar a minha hora… bem você apenas saberá e estará lá comigo e me recompensará qualquer sacrifício — seu pai permaneceu sério e imóvel — e quanto a você criança… — ele se virou para ela seu olhar era tenro — eu devia isso a você já que não pude fazer o mesmo e salvar a vida da sua mãe... eu sinto muito Shara — ele disse visivelmente emocionado... e nada mais ali precisava ser dito, ele se moveu em direção a porta… e saiu, Shara analisou o seu pai… ele estava desconcertado… e ela foi até ele o envolvendo pela cintura… se ele estava vivo hoje, isso era graças a Alvo Dumbledore.

—Entendo quando o senhor diz que algumas coisas são melhores quando mantidas na ignorância — ela reforçou algo que ele havia dito certa vez, ela entendia o quão difícil podia ser para ele ter uma dívida como aquela, sem poder pagar ou retribuir a altura — eu… não imaginava algo assim dele… quando perguntei...

—Alvo tem e sempre teve métodos incomuns de resolver os problemas — ele disse ao interrompê-la, enquanto encarava algum lugar distante dali.

—Ele salvou a sua vida e salvou a minha também — Shara declarou, afinal ela não conseguiria prosseguir sem ele – então não deve ser tão ruim... – ele se voltou para ela, seu olhar estava vazio.

—Não se iluda — ele disse por fim — existe um preço… sempre existe um...

—Qualquer que seja esse preço – ela afirmou – valerá a pena – ela o ouviu suspirar... afinal não havia como negar algo assim...

—Muito bem — ele se desvencilhou do abraço — primeiro o café – ele ordenou apontando para a mesa da cozinha enquanto mudava de assunto – a chave de portal foi programada para um horário específico e não queremos nos atrasar — ela assentiu, se sentando à mesa... não ela não queria se atrasar... ele estava certo sobre isso, agora mais do que nunca Shara estava determinada a fazer aquilo que estava predestinada a ser feito ali... sim ela estava pronta para o que o destino lhes havia reservado, afinal aquilo era sobre um futuro que agora lhes pertencia por completo.

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Era uma floresta densa, porém um lugar incrivelmente belo... essa foi a primeira impressão dela ao chegar... o dia estava ensolarado, e uma brisa leve de verão balançou parte dos cabelos que não haviam ficado presos em sua trança... era um bom dia e um bom lugar, para um grande feito, ela pensou.

—Onde estamos exatamente? — resolveu perguntar, assim que se recuperou daquela aterrissagem nada convencional, embora não pudesse reclamar, aquilo era de longe muito melhor do que aparatar... mas ela estava perdida ali, eles não haviam conversado muito em sobre como seriam as coisas, nem sobre onde iriam parar e Shara estava apenas confiando de que tudo se encaixaria nos detalhes para ela, literalmente como num passe de mágica, afinal era assim que costumava acontecer.

—Cidade de Cistina na Grécia Antiga... – uma voz atrás dela respondeu — quer dizer… pelo menos é onde ela costumava ser.

—Antony – Shara exclamou, se virando e o abraçando, ele parecia incrivelmente mais radiante essa manhã, e como informado as irmãs de Medusa também estavam ali... e acenaram para ela de forma discreta, elas pareciam evitar qualquer contato pessoal, levando bem a sério a imposição que seu pai havia feito, sobre manter distância dela, honestamente, Shara preferia assim.

—Pelo que me recordo, assim que cruzarmos a parte densa, apenas um pouco mais à frente... encontraremos o lugar.... o ponto exato que buscamos... o rio, e a transição dele com o mar – ele apontou fornecendo um pouco mais de informação, seu pai se virou para onde Antony havia indicado e lançou o que parecia ser alguns feitiços de checagem... mas aparentemente não havia nada com o que se preocupar, na verdade pelo aspecto da mata, parecia mesmo que ninguém circulava por lá.

—O rio... o mesmo lugar onde Medusa foi encontrada sozinha e perdida pelo nosso pai – uma das camponesas disse.

—Sim, e onde Atena estabeleceu o seu templo alguns anos depois – a outra complementou.

—Que é… o lugar onde todos nós fomos amaldiçoados e também – Antony oscilou procurando as palavras — onde Medusa tirou a vida, com a adaga de Perseu tempos depois – ele disse sério e todos fizeram silencio... aquele lugar era repleto de lembranças.

—A fonte de Medusa – seu pai foi o primeiro a falar, e Antony assentiu.

—Sim... e como disse e podem ver, não há nada demais aqui... apenas mato e água – Antony suspirou – nenhum fantasma, ou entidade espiritual... guardando o lugar – e era assim que parecia mesmo ser – sim meus caros, esse é o lugar da lenda... ou seja, estamos de volta ao início de todas as coisas – aquilo foi dito de forma vazia – sabe... está diferente de como me lembro, a floresta está mais fechada... é como se a própria natureza entendesse e decidisse preservar a história do lugar... atribuindo a ela ainda mais significado... — e Shara pensou sobre isso, fazia sentido, afinal era como se aquele lugar não existisse no mundo...

—Parece... que é o lugar certo então – seu pai constatou, enquanto abria a mata com um feitiço que Shara desconhecia, mas se mostrou bastante útil... afinal ele havia acabado de abrir uma espécie de trilha para eles ali – sabe... não tenho pretensões de passar meu dia aqui... – ele comentou com ironia, já que ninguém havia se movido — faça as honras ave – seu pai sinalizou para que Antony tomasse a frente e os guiasse até o rio.

—Não – ele devolveu e era evidente que ele estava lutando contra algo ali – eu... simplesmente não posso – ele sussurrou.

—Eu faço – a irmã mais velha disse tocando no ombro de Antony, eles pareciam mais civilizados uns com os outros agora – eu e minha irmã, viemos aqui todos os anos... – ela comentou enquanto passava por eles e mostrava a direção – pelas águas é claro, mas não é difícil de se localizar em terra... – e ela estava certa... eles não precisaram andar muito até que o som de águas correntes fosse ouvido por todos... Antony havia ficado por último e então parou, Shara podia entender o peso daquelas lembranças para ele, já que Medusa havia sido a primeira mulher que ele amou, eles haviam tido uma filha juntos... Crisa, certamente havia sido criada e corrido por ali... sim era doloroso... Shara se aproximou dele, segurando sua mão... e uma lágrima sutil desceu pela face dele... lágrima essa que ele limpou rapidamente.

—Obrigada – ele sussurrou... aquilo havia lhe dado forças e ele prosseguiu, dessa vez tomando a frente... e assim que a vegetação se abriu, ela revelou um dos lugares mais sublimes, era uma clareira banhada pelo sol, onde um rio cristalino corria suavemente... e em larga extensão a água refletia o céu azul nela e a aura do lugar parecia vibrar com uma energia bastante familiar para Shara agora, aquilo era magia antiga e era muito poderosa, a sensação estava em todos os lugares, Antony se aproximou da margem do rio... respirando profundamente, enquanto as irmãs de Medusa se posicionaram ao lado dele... era ali, sim aquele era o lugar, até Shara podia sentir.

—É aqui — Antony afirmou, sua voz firme, mas carregada de emoção – eu me lembro de cada detalhe– ele disse – eu nunca esqueci... o templo de Atena emergia sobre as águas, ele era tão imponente, era robusto e chamava a atenção já Atena, bem ela estava tão brava naquele dia — Shara analisou o lugar enquanto ele falava... buscando por um sinal, um vestígio... mas agora não havia templo algum, não havia mais nada... aquilo tudo havia ficado no passado, era apenas uma história, ou no caso uma lenda... Shara encarou o rio à sua frente, era quase impossível acreditar em todas as tragédias que haviam marcado a história… e ali estava o início de todas as coisas.

—O que aconteceu com o templo? – seu pai perguntou, se aproximando também.

—Foi destruído – a irmã camponesa mais jovem se antecipou em esclarecer – assim que os Deuses foram banidos da terra, todas as evidências sobre eles foram igualmente apagadas... exceto por algo... exceto pelas marcas que ficaram submersas e esquecidas no fundo do rio e do oceano — ela havia dito rio e oceano, e ela referia ao fato daquele ser um ponto de transição, onde as águas de ambos se encontravam, contudo era calmo demais e muito diferente daquilo que ela havia aprendido e estudado em seu colégio trouxa, não havia turbulência e nem ruído ali, aquilo era uma junção de quase a mesma coisa, um grande volume de água só, algo único, era até mesmo difícil de desassociar... espera ela havia dito marcas no fundo do rio?

—Marcas? – Shara perguntou intrigada – que tipo de marcas? – agora ela queria saber.

—Uma espécie de triangulo... eu acho – a camponesa mais velha respondeu... – nunca entendi o sentido das marcas ali, mas não é algo muito comum, digo… isso não é o tipo de coisa que se vê por aí sabe... — Shara sentiu um arrepio percorrer sua espinha... algo dentro dela sabia que aquelas marcas eram importantes... ela olhou para o seu pai, que parecia ter chegado à mesma conclusão.

—Qual a profundidade do rio? – ele perguntou, avaliando o lugar.

—Nesse ponto, é bastante fundo... coisa de mais de 50 metros, afinal esse é o maior rio de toda a Grécia... isso em escala, proporção e volume – uma das irmãs respondeu... certo… mergulhar não era exatamente uma opção e então involuntariamente Shara fechou os olhos, respirando fundo, numa tentativa de canalizar parte da energia daquele lugar e sentindo sua própria magia ancestral sendo despertada ali, como se ela pudesse responder ao chamado das águas, ou como se as águas pudessem responder ao seu chamado, aquela era uma sensação única, tão forte e tão diferente de tudo que ela já sentiu... mas a verdade sobre ela ser exatamente quem era... uma guardiã, era que ela podia mesmo guiar as águas se assim desejasse… sim era isso que o livro escrito por Poseidon dizia, e aquele era de fato um grande volume de água... e aquilo era o que ela sentia que devia fazer...

—Eu posso sentir... — ela disse um pouco ofegante — Eu sinto a magia daqui... e eu sei exatamente o que precisa ser feito – Shara se aproximou um pouco mais da água... sendo impedida de prosseguir pelo seu pai que segurou o seu braço com firmeza, bloqueando sua passagem... a obrigando a encará-lo antes de seguir.

—Shara… seja lá o que for você está proibida de entrar nesse rio… e não me subestime, pois isso é uma ordem… eu sou o seu pai... – ele parecia exageradamente preocupado, e ela apreciou vê-lo assim, ela se sentia cuidada por ele... protegida e tudo mais que uma criança deveria se sentir.

—Eu... não pretendia entrar… não exatamente — ela foi honesta com ele e ele soltou o seu braço, confuso — apenas tocar… sabe é como manipular pequenos dragões de água — ela o lembrou daquele desastre em seus aposentos — apenas numa proporção maior e com um pouco mais de concentração — ela olhou para o rio… — eu deveria apenas tentar – ela sugeriu...

—Como pode saber? — ele perguntou… mas não havia exatamente uma resposta para aquela pergunta.

—Eu não sei... eu posso sentir – ela olhou para as mãos, aquilo era o que ela podia fornecer… afinal não havia nada além disso… nada além de apenas sentir.

—Tenha cuidado... – ele abriu o caminho, talvez ela o tivesse convencido… e ela assentiu, Shara se abaixou e tocou com a ponta dos dedos a superfície das águas, obviamente que ela não precisava da sua varinha ali, e imediatamente, sem qualquer esforço, ondas de energia se espalharam por toda a extensão do rio, ciente do que fazer, Shara apenas desejou… sim ela desejou aquilo que queria... e aquilo foi tão forte que as águas se moveram de maneira incrivelmente sobrenatural... Shara se concentrou naquele que era o seu e o objetivo de todos ali, o ritual... e sem interrupções, ela canalizou sua magia com a magia antiga do lugar… ela sabia que deveria liberar as marcas… aquilo era importante…

E então as águas passaram a irradiar uma luz azul, e lentamente, as marcas no fundo do rio começaram a emergir... formando uma espécie de plataforma que pairou sobre a superfície, o formato era mesmo de um triângulo perfeito, revelando-se à medida que a água se movia em resposta à magia de Shara ali... e uma escadaria com degraus mágicos se formou a sua frente, entre a plataforma que flutuava no ar, á poucos centímetros da água e a terra firme onde ela e os demais estavam... era um convite para acessar o lugar.

—Olhem — Antony exclamou, apontando para os símbolos que apareceram em cada uma das respectivas pontas do triângulo, pareciam projeções vivas de algo – são animais… — ele disse, sim e eram, em cada ponta havia um símbolo distinto... na primeira delas, uma majestosa ave, suas asas abertas como se estivesse prestes a decolar... já a segunda e a terceira ponta, eram exatamente iguais e exibiam a cabeça de uma serpente, com olhos brilhantes e cheios de sabedoria e no centro do triângulo, uma bela borboleta com asas majestosas, que cobria parte do lugar.

—Isso é novo — uma das irmãs disse — não lembro de estar lá… os símbolos...

—Merlin — seu pai exclamou captando a atenção de todos para si — a ave... – seu pai disse olhando diretamente para Antony, ele havia entendido a ligação – não resta dúvidas aqui de que ela o representa – e como quem soubesse o que fazer Antony se moveu, ele foi o primeiro a subir os degraus e se posicionar sobre a plataforma, logo acima da imagem da ave, um símbolo da sua maldição, a ave batia as asas e assim que Antony o fez a magia do pássaro se dissipou sobre ele e parecia ter se misturado com a magia que ele mesmo possuía, se tornando um só... e uma magia azul e ainda mais intensa passou a se mover em torno dele... que sorriu.

—É incrível – Antony sorriu ainda mais – a sensação disso é incrível... – Shara também sorriu, aquela era uma das coisas mais lindas e poderosas que ela já havia visto.

—As serpentes – seu pai retomou, agora encarando as duas irmãs — cada ponta, representa uma das cabeças da hidra – e então elas fizeram o mesmo se movendo e se posicionando sobre os respectivos símbolos e a mesma magia que havia envolvido Antony as envolveu... – já a borboleta – seu pai disse olhando para ela, sim a borboleta era sobre ela e sobre todas as guardiãs, Shara sabia... a corde como era chamado, uma magia da sua linhagem, algo que sua mãe havia pedido que ele lhe ensinasse, naquele encontro na eternidade – estou sendo irracional se deixa-la fazer isso dessa maneira e sozinha, não é seguro e não sabemos o que esperar a partir daqui... pode haver algo... algo que eu esteja perdendo, algo... que não posso conter ou controlar, algo que a machuque... Shara – ele segurou sua mão... mas ambos sabiam que aquilo deveria ser feito.

—Não há nada… não nesse sentido — ela o tranquilizou – apenas o fato, de que eu sinto que estou exatamente onde devo estar... no lugar certo, com as pessoas certas… e com uma missão que deve ser cumprida — ela fez uma pausa — por mim – ela declarou, seu pai estava sustentado o contato visual e sem ressalvas estampando a preocupação que o corroía por dentro, algo que ele havia aberto para ela no dia anterior... mas que ela podia ler em seus olhos negros, Shara sorriu para ele, ela se sentia segura simplesmente pelo fato de tê-lo ali, ao seu lado... e tanto ela como ele sabiam que aquele era o destino, eles haviam passado por tanto e agora estavam tão perto de cumpri-lo, ele tirou o colar de dentro do bolso de suas vestes o alcançado para ela... lá estava a peça, que havia sido da sua mãe um dia, e Shara se lembrou de quando Antony a entregou para ela no meio de uma rua deserta na Londres trouxa, parecia tanto tempo agora, ela se lembrou do medo que sentiu ali... mas aquilo não era nada, na verdade aquilo era apenas o começo de tudo que viria depois, uma aventura improvável ao lado de pessoas improváveis, uma lenda cheia de reviravoltas, um história triste... e aquele era o momento de sanar todas as injustiças, ela segurou o colar com força em suas mãos…

—Shara — ele sussurrou — eu não me perdoarei se algo acontecer a você… — era estranho vê-lo oscilar, mas ele não usava seu personagem ali, não... ali ele era apenas Severo... Severo Snape, o seu pai.

—Eu vou ficar bem — ela garantiu — dessa vez é o senhor que deve confiar em mim, pai... – ela disse e mesmo que relutante, ele assentiu a deixando ir... Shara subiu os degraus e se posicionou sobre a figura da borboleta localizada bem no centro do triângulo, e assim que o fez, uma poderosa onda de magia envolveu todo o lugar, e ligou todos os símbolos, e agora todos estavam conectados entre si... a luz azul que brilhava sobre as águas, eclodiu, se intensificando e iluminando a clareira com um brilho etéreo... ela nunca havia visto nada parecido, era como se a magia ancestral do lugar misturada a magia deles, fosse algo único… algo especial.

Foi quando de repente, o ar ao redor deles pareceu vibrar com uma presença sobrenatural... as águas do rio e do mar começaram a se agitar violentamente, e então, emergindo das profundezas delas, uma figura majestosa apareceu, segurando um tridente... Shara sabia exatamente quem era aquele, ela já o havia visto antes em suas visões... aquele era o pai de Medusa, sim o próprio, aquele era Poseidon... o Deus das aguas, com seus olhos cintilando como tempestades e seu tridente brilhando com um poder ancestral, ele subiu os degraus sem nenhuma dificuldade... Antony e as irmãs camponesas se ajoelharam em reverência assim que o viram se aproximar... mas Shara não, na verdade ela não sabia exatamente o que fazer e nem como se comportar diante de uma entidade como ele, uma figura icônica, aquilo era mesmo real?… ela sequer tinha palavras... ela deveria dizer algo?

—Shara – ele foi o primeiro a dizer, a chamando pelo seu primeiro nome – vejo que conseguiu – ele sorriu para ela, aquele era o mesmo sorriso que ele o havia direcionado quando a viu, naquela visão com Medusa... – não sozinha é claro – ele fez menção aos seus amigos e se virou para encará-los um a um e na sequência os seus olhos encontraram com os de seu pai, que também havia subido os degraus e agora apontava a varinha para ele, fazendo Shara estremecer... ele podia ser quem fosse, o comensal da morte mais temível, o bruxo mais poderoso ou até o próprio Dumbledore ali… mas ninguém seria páreo para duelar com um Deus do Olimpo e com toda a sua magia ancestral... se Poseidon quisesse, seu pai estaria morto em segundos, antes mesmo que ele pudesse dizer ou pensar em qualquer feitiço – Severo Snape – Poseidon disse o nome completo dele como se o conhecesse a anos e houvesse alguma intimidade ali – confesso que é uma surpresa encontrá-lo aqui, mas… que bom... afinal nem todos os traços dessa história precisam se repetir — e aquilo era mais uma prova, comprovava mesmo o fato do futuro ter sido alterado para eles — agora peço que abaixe sua varinha, acredite não há a menor pretensão de machucá-la – ele disse de forma gentil – sendo que eu mesma a guiei até aqui…. Shara também é minha descendente, já que ela carrega o meu sangue... assim como carrega o seu... — e de uma forma surpreendente seu pai obedeceu... talvez Poseidon exercesse mesmo alguma influência, então ele se virou para ela outra vez e Shara se sentiu compelida a se abaixar… uma reverência a ele que era um tipo de rei, majestade ou algo assim — não — ele a parou antes que ela o fizesse — isso é ridículo — ele disse — não há necessidade alguma de me reverenciar, ninguém aqui é meu súdito — ele informou — Antony, Esteno e Euriale — ele os chamou pelo nome — erguem-se — ele pediu e eles fizeram — assim está melhor — ele disse.

—Eu não imaginei que o veria… — Shara conseguiu dizer, aquilo era mesmo loucura e ele sorriu, encarando o símbolo da borboleta que estava sobre ela.

—Sabe Shara… você nunca se perguntou, o porquê da borboleta? — ele pediu, Shara pensou naquela pergunta, mas honestamente não… ela não havia feito, ela conhecia o feitiço que invocava a borboleta, algo relacionado a sua descendência e a magia ancestral, mas pensar sobre a borboleta simplesmente nunca lhe ocorreu e ela gesticulou negativamente com a cabeça — a borboleta era o animal preferido de Medusa, sim ela era uma criança completamente apaixonada por esse animal — ele fez uma pausa — confesso que fiquei um pouco desapontado no início já que teria preferido golfinhos, peixes… ou algo relacionado ao meu reino e território — ele contou — teria sido mais fácil, mas é claro que filhos não nascem para suprir nossas expectativas — ele olhou para o seu pai — Ayla a mãe de Medusa criou um móbile que ficava em cima da cama dela, com borboletas de papel, de diversas cores e tamanhos, eu as encantei… elas batiam as asas para ela todas as noites, e Medusa as adorava — Shara o estudou por um momento, aquilo era tocante, ele havia eternizado a escolha da sua filha, como sendo o animal que representaria todas as guardiãs, e não que tivesse alguma relação com os animais aquáticos, como talvez ele esperaria que fosse, mas ainda assim ele havia feito, aberto uma exceção.

—Isso é lindo — ela disse, e ele parecia emocionado.

—Sim... e hoje sua missão aqui é escolher uma das borboletas — ele explicou — essa é a verdadeira motivação por trás da magia do colar… acredito que já tenha compreendido como a poção dentro dele deve funcionar — ele meio que afirmou, e então ele assoprou em sua direção, fazendo algo brotar do chão, um pedestal, que subiu até a sua altura e revelou uma espécie de recipiente… de cristal ou algo assim.

—É uma poção de necromancia — ela revelou aquilo que sabia — mas não que eu saiba exatamente o que fazer com ela… — e de fato Shara não sabia, mas ele não parecia muito preocupado ali.

—Elza… — ele disse o nome da sua bisavó, fazendo Shara se perguntar se ele conhecia o nome de todas as guardiãs — teria escolhido Aurora, a sua filha… se estivesse hoje, aqui em seu lugar — ele esclareceu, sim Shara sabia disso, Elza havia dito — contudo o que Elza não sabia… e que Atena também não explicou, é que não é possível fazer as duas coisas… apenas uma borboleta pode ser escolhida, ou seja, ou ela escolheria Medusa na tentativa de quebrar a maldição ou ela escolheria a sua filha e a maldição continuaria viva — Shara o analisou… não certamente Elza não sabia disso… aquilo era mesmo novo para todos ali.

—Quer dizer… — seu pai interrompeu — que essa poção trará a vida, literalmente a vida, uma das guardiãs que já morreu? — ele encarou a bacia, era meio óbvio, mas sim… e o coração de Shara acelerou com a possibilidade de ver e ter sua mãe ali — e essa guardiã, a borboleta escolhida, ela poderá ter uma nova vida… outra vez? — ele soava redundante, mas Shara entendeu que até mesmo ele, o seu pai, sendo tão brilhante como era, não contava com algo assim.

—Exatamente, esse é o ponto da necromancia... — ele confirmou – essa poção vai além, da sua magia professor – ele esclareceu – magia ancestral torna o que é impossível aos seus olhos, real aos meus – ele disse se virando para ela — Shara o colar está com você? — ele perguntou, e Shara abriu a mão o revelando… — Você pode abri-lo? — ele pediu e ela fez, ela estava tremendo — agora peço que deposite o líquido dentro da bacia, Shara analisou a bacia por um momento… tudo ali tinha uma razão — Não se preocupe não há nada a temer — ele a incentivou, e então Shara despejou o líquido no local indicado — agora é só esperar… — ele sorriu, Shara notou que líquido parecia estar sofrendo algum tipo de processo químico de mutação, algo muito similar ao que acontecia com os ingredientes nas aulas de poções e então ele mudou de estado, se transformando em uma espécie de vapor colorido, onde pequenas borboletas surgiram, elas bateram suas asas e como quem buscasse por liberdade, elas saíram de dentro do recipiente, e começaram a voar em cima deles e em todas as direções… aquilo era emocionante, cada uma das borboletas representava uma das guardiãs, ela sabia… e num rompante ela podia contemplar todas as guardiãs do seu passado, juntas ali... aquelas eram todas as mulheres da sua história no mesmo espaço e tempo… era surreal.

—São 49 borboletas no total… — ele informou — você Shara, é a guardiã de número 50, mas sua corde, como pode ver... não está ali, já que ainda está viva — ele esclareceu, Shara não conseguia tirar os olhos das borboletas, procurando por uma delas em especial… mas não precisou de muito esforço quando a borboleta azul, de um tom vivo… voou e pousou sobre o seu nariz, Shara sorriu para ela… aquela era a corde da sua mãe, era simplesmente impossível não reconhece-la, Shara já a havia visto antes, em momentos tão difíceis e dolorosos de sua vida… e então ela voou e pousou sobre o ombro do seu pai… e Shara não pode segurar a lágrima que desceu, marcando sua face… aquela era a primeira vez, que os três estavam juntos… e ela queria que fosse assim, pra sempre, a sua família… e então outra borboleta amarela se distanciou das demais, e Shara a acompanhou com o olhar… ela havia voado até Antony que também estava visivelmente emocionado com tudo aquilo que se desenrolava ali.

—Crisa — ele disse, Antony havia reconhecido a própria filha e mesmo que ele nunca tivesse tido a oportunidade de enxerga-la como filha antes, em vida... a borboleta parecia saber, e isso era ainda mais incrível.

—Sim… elas podem sentir seus entes queridos — Poseidon explicou – a corde é forte, ela transcende mundos e possibilidades é por isso que essa é uma das magias mais intensas — ele esclareceu — Crisa é minha neta — ele também encarava a borboleta — mas ela decidiu ir até você… — ele disse e isso fez Antony desabar... – ela o reconhece Antony – Poseidon fez questão de dizer.

—Achei que ela me odiasse — ele disse, limpando as lágrimas – depois de tudo...

—Bom, tenho certeza que não — Shara sabia o quanto aquilo era importante e significaria para ele… mas de todas as borboletas onde estava a principal delas?

—Onde está Medusa? — ela perguntou um pouco constrangida.

—Medusa é aquela borboleta lá no alto — ele apontou e Shara acompanhou o movimento dele, aquela era uma borboleta diferente, ela era totalmente branca… de uma beleza ímpar… sim ela se destacava de alguma forma entre as demais — entendo sua dúvida, mas ela tem ressalvas, e guarda dores bastante profundas de todos que estão aqui e por essa razão ela ainda não se conectou com ninguém — ele disse sério — sabe Shara, eu anseio por esse momento por todos esses milhares de anos, o que foi uma verdadeira eternidade para mim — ele complementou triste — se ela aceitar o meu perdão hoje, terei tudo aquilo que preciso — ele disse esperançoso — digamos que eu paguei o preço pelos meus erros... afinal eu mereci.

—Eu não entendo… — Shara disse — não é sua culpa tudo isso, o senhor estava salvando a vida dela quando se afastou, o reino havia sido atacado e ela teria morrido também, se o senhor não interviesse e a levasse naquele momento… e por mais que tenha sido ruim, a história e tudo mais, não é sua culpa — Shara não entendia… — por que anseia tanto por esse perdão? Talvez se o senhor apenas explicasse a ela... sabe, eu sei bem como é – Shara olhou para o seu pai... – eu também deduzi... interpretei errado, eu...

—Acontece que é minha culpa — ele disse a interrompendo, e abrindo algo novo ali — eu me relacionei com Atena, eu a trouxe para as nossas vidas, ela foi um caso fora do meu casamento, uma traição para minha família, e isso não por que eu não amasse Ayla, eu realmente a amava, com todas as minhas forças, ela foi a única mulher que eu já amei, mas eu fiz, eu me submeti a esse relacionamento, para provar algo, para não perder meu reino e principalmente para afastar Zeus dos meus negócios, Ayla havia recém descoberto a gestação e eu queria protege-la da irá de Zeus e dos Deuses… e pra isso ele precisava acreditar que eu estava cumprindo os seus desígnios – ele a encarou — sabe Deuses e mortais não são permitidos, mas o preço da minha falta de posicionamento foi bastante alto… Atena logo ficou obcecada por mim… ela queria levar adiante aquilo que eu não podia, e ao mesmo tempo em que tentava afasta-la, ela se tornava cada vez pior, Atena não sabe perder, e a única certeza que eu tinha era de que ela não podia saber sobre o meu segredo, Atena deveria ser mantida longe da minha família e muito menos cogitar a existência de uma filha... então eu menti – ele fez uma pausa — sabe Shara, quando a gente se torna pai… algo muda em nós, a gente faz de tudo que está ao nosso alcance, para protegermos aqueles a quem amamos, os nossos filhos — ele disse se virando para o seu pai, que estava rígido ali, mas Poseidon tinha razão sobre isso, Shara sabia — Atena nunca soube sobre as verdadeiras origens de Medusa em minha vida, e então ela cometeu um dos maiores equívocos... e com a possibilidade de ver o futuro ela interpretou erroneamente minhas intenções… o seu ciúmes doentio, nos leva a uma sucessão de injustiças e a intenção hoje é corrigi-las — Poseidon resumiu, Shara não esperava uma revelação como aquelas… era…

—Tem razão — Esteno falou pela primeira vez, desde que Poseidon chegou — a culpa de tudo aqui é sua… — ela o acusou com ousadia — contudo, todos nós... todos aqui erramos e devemos desculpas a ela, a Medusa — Shara ficou surpresa pela maneira como aquilo foi dito, não dava para acreditar que apenas alguns dias atrás, ela, as guardiãs e especialmente Medusa eram consideradas inimigas mortais da Hidra... realmente Catie havia exercido papel fundamental naquela mudança.

—Sim — Euriali completou — espero que ela possa nos perdoar também… fomos tão injustas com ela, Medusa não merecia nossa falta de compaixão — e Shara apreciou aquela mudança repentina, até mesmo Antony parecia completamente perplexo ali...

—Eu gostaria de poder me desculpar também – ele aproveitou a deixa... – se ela permitir é claro... – ele se encolheu constrangido.

—Então vamos descobrir — Poseidon disse olhando diretamente para ela — Shara, está em suas mãos agora, você só precisa fazer a sua escolha, então escolha uma das borboletas — ele sinalizou, seu coração saltou outra vez, sim aquilo era sobre Poseidon e Medusa, e por mais que Shara soubesse que deveria escolher ela, a primeira guardiã… e assim quebrar a maldição da sua ancestralidade que corria sobre o seu sangue representado por uma terrível marca que ela carregava em seu ombro esquerdo, quebrar a maldição da imortalidade de Antony lhe dando uma nova oportunidade de viver, e quebrar a maldição da criatura perversa que havia sido e era a Hidra, e por mais que ela soubesse que aquilo era o certo a se fazer e de que aquele era o último perdão, o perdão que faltava para que o passado fosse corrigido e que todos ali almejassem isso de alguma forma… mas havia algo… algo que estava crescendo e tomando algum espaço em seu coração, sim, e se a escolha era mesmo dela, havia uma segunda possibilidade ali, a chance de ter uma família completa, a oportunidade de escolher a borboleta azul, a corde de sua mãe e abraça-la, senti-la de verdade… e então eles poderiam viver juntos, e quem sabe viajar no verão, caminhar de mãos dadas na praia, o sol e areia fofinha, ela, o seu pai e a sua mãe, juntos os três, como deveria ter sido desde o início… e então as guerras de farinha seriam ainda mais divertidas… e quem sabe eles pudesse recuperar o tempo que perderam, lendo histórias uns para os outros até entardecer… e isso era algo que dependia unicamente dela… havia uma oportunidade — Shara — Poseidon chamou, talvez ele pudesse sentir que ela estava oscilando… seu pai se aproximou também, a borboleta da sua mãe ainda estava sobre o ombro dele e voou, assim que ele se moveu, ele se abaixou ao lado dela… ficando exatamente a sua altura... seus olhos se encontraram, e aquela foi uma das mais difíceis e longas trocas de olhares que eles já haviam tido, era como se ele pudesse ver tudo que ela via... ler sua alma e suas pretensões.

—Entendo – ele disse segurando a sua mão – mas sua escolha precisa ser pautada na razão e não na emoção — ele disse, e então ela começou a chorar… por que ele estava se opondo a algo assim? por que ele não queria ter uma família, juntos… por que? Aquela era a oportunidade... por que desejar algo assim era errado?

—Eu não posso — ela disse em meio as lágrimas — não posso fazer isso… por que o senhor não quer que estejamos juntas? — ela soluçou, colocando as mãos sobre o rosto, e fechando os olhos – essa é a nossa chance, você não vê?... de sermos uma família de verdade de sermos felizes… tenho certeza que lidaremos com todo o resto… a maldição...

—Shara… filha — ele disse na frente de todos sem qualquer ressalvas, tirando delicadamente as mãos dela de sobre o rosto — isso é tudo que eu mais quero… eu amava e continuo amando a sua mãe, só não a amo mais do que hoje amo você — ela o encarou, ela não entendia... então por que… — nós sempre seremos uma família – ele tentou alcançar seu coração, ela gesticulou negativamente – sim... – ele limpou suas lagrimas — mas esse é o momento em que sua escolha deverá se basear naquilo que é certo e não naquilo que é mais fácil — mas não era justo… ela se jogou nos braços dele, soluçando… e ele a manteve ali.

—Não é justo… — ela chorou contra ele — por favor…

—Shara — Poseidon a chamou novamente — precisa fazer sua escolha — ele insistiu... Shara sentiu seu coração sendo quebrado ali... aquela com toda certeza era a decisão mais difícil de toda a sua vida, e ela estava completamente dividida... embora seu coração gritasse, e Shara se virou mais uma vez, ela olhou para as borboletas, cada uma representando um elo com seu passado, com sua ancestralidade. Olhou para seu pai, seus olhos negros a estudavam... ela sabia o que ele queria dizer, sabia que a escolha certa era a mais difícil... mas ela não estava certa sobre isso... não quando havia tanto...

—No seu tempo – seu pai sussurrou a encorajando.

—Eu escolho... — sua voz tremeu, mas ela encontrou forças dentro de si... e então Shara apontou para a borboleta que parecia brilhar mais intensamente... e todos os olhos se voltaram para ela!

Notas finais
Sim, eu não consegui fechar o ritual em um único capitulo (e isso surpreende um total de 0 pessoas hahaha) Esse capitulo, de longe foi o que mais sofreu revisão, ele começou a ser escrito lá pelo capitulo 70... então, sim muita coisa mudou durante o desenvolvimento da história... e espero que tenha feito sentido afinal é o desfecho de toda a trama. Dumbledore, o nosso manipulador preferido... conseguiu se redimir nos 45 minutos do ultimo tempo, e por essa ninguém esperava eu sei... eu não detesto ele, embora sim eu não concorde com seu modo de agir, e acho que suas ações são sempre baseadas na manipulação e isso faz dele qualquer coisa, menos um "mocinho" mas mantive ele dentro do canon, a gente não gosta de como ele se move na trama, não... mas no final... era por um propósito maior, e se isso foi pra manter Snape e Shara juntos (pelos menos alguns aninhos) passei pano... pronto hahaha Embora ficou uma deixa ali propositalmente colocada de que Dumbledore viu muito mais do futuro do que deixou transparecer e de que sabe que vai morrer pelas mãos de Snape... enfim... velho FDP Agora sobre o ritual, não tem muito mais pra dizer né? As borboletas são o ponto alto... eu chorei muito, e aqui Snape sai bastante do personagem (mas quer saber... ele é pai e ama a filha e então é isso... tem entrega e isso deixa o nosso coração quentinho hahaha) A escolha da Shara... sério... quem será que ela escolheu? ou melhor... quem vc escolheria? Obrigada pessoas... essa é quase uma despedida! Vejo vcs no próximo e ultimo capítulo dessa saga!