Destinos Improváveis
119 Futuro - Atena
Notas iniciais
—Talvez devêssemos andar um pouco mais depressa – Shara sugeriu apreensiva, era simplesmente inevitável não olhar para traz, em direção ao castelo de tempos em tempos... já que a probabilidade daquele plano ser interceptado pelo seu pai antes mesmo delas conseguirem chegar ao seu destino e começar aquilo que estavam dispostas a fazer era grande... um colar sem fecho, francamente... aquilo havia sido o apse… com essa… ele havia se superado.
—O que há de errado Shara? – Catie perguntou intrigada... e sem ter uma resposta adequada para a amiga, Shara decide ignorar… optando por aumentar o ritmo, e espaçar ainda mais os passos, elas estavam quase lá agora... Catie a acompanhou um pouco ofegante — Há algo... eu sei… — ela disse com a respiração irregular — você está agindo como se estivessemos fugindo de algo… eu entendo que o que estamos fazendo é contra as regras e tudo mais… mas você não para de olhar para o castelo como se alguém fosse aparecer a qualquer momento… – é claro que ela havia notado e ela estava certa... afinal, era exatamente isso… Shara estava mesmo fugindo... mas como explicar algo assim para amiga sem abrir o jogo? Shara parou em frente a água… e sem tempo a perder, ela se concentrou nas possibilidades de como elas poderiam atrair a Hidra... talvez se ela tirasse os tênis e subisse um pouco mais o jeans, entrando na água... não fundo o bastante, a Hidra a notária... sim... Já que foi assim que a Hidra a notou pela primeira vez e tentou arrastá-la para dentro do lago... certo, quer dizer… pensando bem ser arrastada para dentro da água congelante não parecia ser uma boa opção... principalmente quando a intenção era fazer a criatura sair da água e não o contrário – Shara, o que está fazendo? – Catie perguntou... vendo a analisar o lago em busca de respostas.
—Apenas pensando – ela foi honesta... ela precisava pensar e agir rápido… ela se lembrou da vez que ela havia vindo com Draco a tira colo, e de como ela tinha conseguido chamar a atenção da Hidra com bastante rapidez ao usar o seu sangue ali… isso sem a necessidade de entrar na água e essa sim parecia ser uma opção válida... mas é claro que ela não havia se preparado para isso, e não havia nada… nenhum objeto cortante a sua disposição, para que pudesse ser usado... ela suspirou… isso seria um problema…
—Agradeceria se me incluísse em seja lá o que estiver pensando – Catie comentou aborrecida – sabe... eu ainda estou aqui, e lembro de ter sido a responsável em sugerir isso... e talvez eu possa ajudar de alguma forma… Mas pra isso, precisa me dizer… – Shara analisou a amiga por um momento... não era muito provável que ela pudesse de alguma forma… ajudar, mas ela resolveu tentar.
—Por acaso... você teria algum objeto cortante ai? – Shara perguntou de forma despretensiosa, a amiga estava carregando uma bolsa lateral que cruzava o ombro, e para sua surpresa ela começou a vasculhar, retirando de dentro um estilete... um estilete serviria muito bem ao propósito, mas por qual razão ela carregaria algo assim? – por que você carrega um estilete na bolsa? – Shara perguntou com bastante curiosidade.
—Sugiro uma troca... uma troca de perguntas – ela a encarou com malícia, segurando o estilete e erguendo a mão no alto para que ela não o alcançasse – eu começo – ela sinalizou... mas aquele não era exatamente um bom momento para brincadeiras do tipo e isso a deixava ainda mais apavorada... – Por que você me pediu para tirar o seu colar antes de vir? – ela perguntou e Shara recuou, desconfortável com a pergunta, como... como ela podia ser assim tão assertiva... – sabe, se esse fosse o colar que sua mãe lhe deu, confesso que até entenderia, afinal... o valor da peça é imensurável e perdê-la seria mesmo trágico, e isso meio que justificaria o zelo excessivo, mas esse não é o caso aqui... – Catie havia notado a diferença das peças, e Shara sabia que ela não desistiria até que tivesse algo...
—O colar, ele está encantado – ela respondeu, estendendo a mão para que a amiga lhe passasse o estile – por que você carrega um estilete na bolsa? – ela perguntou mais uma vez… Catie reteve o estilete.
—Num castelo, onde absolutamente todos tem varinha e fazem magia... eu precisava de algo a mais para me defender, além da força do meu próprio braço – ela respondeu, com o semblante fechado… Ela disse defender? O que isso significava... ela havia sido atacada? Atacada por alguém?
—Catie... alguém tentou... Te machucar? – A amiga não havia mencionado nada sobre isso em nenhuma oportunidade anterior, se bem que a conhecendo o bastante, ela não diria… ela preferia resolver as coisas à sua maneira.
—Minha vez – e então elas ficariam naquilo, respostas vagas e sem muita informação… e sendo assim, aquilo não iria evoluir... – que tipo de encantamento? – ela olhou diretamente para o colar...
—Monitoramento – ela se viu dizendo, no intuito de fazer aquilo parar o mais rápido possível... elas precisavam correr, o tempo estava escoando – está magicamente encantado para monitorar minha localização, é por isso que estou com... pressa... e se não fizermos isso logo, certamente seremos impedidas de fazer... isso aqui – ela segurou o colar – sinaliza exatamente o lugar onde estou… e tudo isso em tempo real, além de minhas emoções... e bem, digamos apenas que esse definitivamente não é um lugar que eu deveria estar, se é que me entende… e portanto é bem possível que teremos companhia em alguns minutos – ela parou de falar... Catie estava processando tudo aquilo, e sem ponderar muito, ela estendeu o estilete para Shara... que o pegou prontamente... havia funcionado… então Shara cortou a palma da mão e se aproximou um pouco mais da água, com o intuito de derramar o seu sangue ali... uma pequena fração do sangue bastaria...
—O que é isso?... o que está fazendo? – Catie a olhou horrorizada, evidentemente ela não esperava algo assim, seus olhos correram do colar, para o sangue em suas mãos e depois para a água... e então ela parecia ter entendido – é assim que ela sente o cheiro do sangue… — Catie balbuciou…
—Sim... quer dizer não necessariamente, mas como queremos agilizar o processo, isso certamente ajudará... — ela informou… se virando para a amiga e ficando completamente de costas para o lago em questão.
—Shara – Catie buscou o seu olhar, o sustentando… ela parecia pensar em algo e estava mais séria do que de costume – quem exatamente monitora esse colar? – era óbvio que ela perguntaria aquilo.
—O professor Snape — Shara respondeu, seu coração acelerou… aquela não era apenas uma noite para quebrar regras, mas também para infringir imposições, mas Catie não parecia surpresa com a sua resposta.
—Isso está errado Shara… eu não sei desde quando isso está acontecendo, mas isso precisa parar… — Ela recuperou a voz e seu timbre estava grave — ele é mais velho, ele é seu professor… e isso não deveria ser assim… escute, entendo que se sinta sozinha e esteja carente, vulnerável… entendo que tenha se afeiçoado a ele… entendo que busque por alguém que a acolha… eu realmente entendo tudo isso… mas você ainda é uma criança… e ele… bem, ele não pode te dar jóias caras, e enfeitiça-las a ponto de você perder sua privacidade, o que quero dizer é que de forma alguma ele não deve monitora-la… — e então Catie havia entendido errado… obviamente.
—Catie… não é isso… — ela tentou…
—Você é ingênua… e eu cuidarei disso apartir daqui… — Catie estava desconfortável — assim que finalizarmos aquilo que viemos fazer essa noite, eu mesma irei até Dumbledore com o assunto… — ela informou — eu lamento muito Shara, mas esse é simplesmente o certo a se fazer — ela disse… Shara suspirou…
—Tenho certeza que Dumbledore não irá intervir nisso… — Shara alertou… e agora a amiga parecia surpresa... ou talvez perdida… ou talvez alarmada.
—Ele… como assim? Ele tem que intervir… afinal o professor Snape não tem o direto Shara… ele passou dos limites com você… você sequer pode tirar o colar... e isso é muito sério, tenho a certeza que Dumbledore poderá enxergar algo assim — Catie disse, ela parecia preocupada, verdadeiramente preocupada, mas aquela preocupação era infundada, e não havia o que fazer ou mudar ali, então Shara apenas deu de ombros... reação que não foi bem interpretada pela amiga — me escute Shara… isso… não é saudável… quem ele pensa que é? — ela tentou novamente, havia um brilho de fúria em seu olhar… algo diferente… e Shara sabia que não teria como sustentar aquela mentira da amiga, por muito mais tempo.
—Acontece… que ele pode Catie — ela entregou
—NÃO — Catie se exaltou a assustando — ELE NÃO PODE — ela parecia terrivelmente abalada… — ele é apenas um professor, e tudo bem que seja o seu chefe de casa… mas isso… ELE NÃO PODE — Shara ponderou por um momento, o senso de cuidado e proteção da amiga, era admirável… e ela estaria certa, se não fosse por um único detalhe em questão….
—Ele é o meu pai Catie — ela disse, revelando a verdade e vendo Catie lutar com isso, Shara fechou os olhos… estava feito e o silêncio que se fez no lugar fazia tudo ser ainda mais tenebroso… Catie não disse mais nada, e Shara não sabia se deveria abrir os olhos para ver se ela havia sobrevivido a aquela informação… isso até uma dor insuportável emanar de sua cicatriz e o barulho da água sendo lançada atrás de si a obrigar a fazê-lo, a Hidra… havia chegado… Catie deu um pequeno grito, colocando as duas mãos sobre a boca… e Shara se virou, lentamente… lá estava ela, tal qual ela era, a criatura imponente de muitas cabeças de serpente e com o corpo de dragão, uma visão terrível… um ser mágico e imortal.
—Filha de Poseidon... — a voz pegajosa que parecia estar dentro da sua cabeça disse, e uma coisa era fato... ter que reve-la depois da última vez, definitivamente não era o tipo de experiência que ela gostaria de repetir, isso... se não fosse de fato importante... o que ela e Catie haviam julgado ser — você cometeu um erro, vindo até mim essa noite — ela estava silvando, sim... afinal ela era uma cobra em posição de ataque – dessa vez não pretendo perder tempo com discussões tolas… devo ser rápida… e acredite, você apreciará minha nova abordagem — ela alertou, abrindo a boca, revelando suas garras afiadas, em ouras palavras sem conversa, tudo estava perdido… Shara estava ofegante agora e podia jurar que aqueles seriam os últimos segundos da sua vida, quando ela sentiu o estilete sendo retirado de sua mão de forma sutil, já a besta a sua frente inclinava uma das suas cabeças e se abaixava em sua direção… ela seria mesmo devorada? Abocanhada de uma única vez? Era o que parecia ser, ela fechou os olhos, mas num rompante ela foi puxada por Catie, e dado a força e a manobra que a pegou desprevenida, Shara se desequilibrou e acabou caindo no chão… mas ainda assim ela viu, quando a amiga, ergueu uma das suas mãos ao alto, em direção a criatura com o intuito de fazê-la parar… Shara ia gritar para amiga correr, gritar que aquilo não ia resolver, quando para sua surpresa a criatura de fato parou... foi quando Shara entendeu, que Catie tambem havia se cortado, imitando o seu comportamento, ela estava sangrando agora… e o seu sangue havia conseguido atrair a atenção da criatura sobre si... a Hidra não apenas havia parado o ataque, como ela parecia estar recuando, Catie havia conseguido... Pelo menos por hora ganhar algum tempo ali.
—Impossível – Shara a ouviu sussurrar – esse cheiro... está sentindo esse cheiro? – ela perguntou para a outra cabeça de serpente...
—Shara – Catie sussurrou seu nome sem se virar – diga a ela, diga a ela para sair da água... diga quem eu sou... – Catie pediu... – diga que eu quero conversar com ela... diga que não pretendo machuca-la... – bem não é como se Catie pudesse de fato fazer algo contra a criatura perigosamente assassina a sua frente... e tão pouco a Hidra parecia teme-la dessa forma, não essa definitivamente não era a questão ali, embora Catie havia conseguido chamar sua atenção e paralisa-la... isso com o uso do seu sangue... o que era prova mais do que suficiente, que Catie era mesmo parte daquela história... Ela era por assim dizer... Família.
—Não há necessidade de repetir o que ela disse – a outra cabeça falou – posso estar cega, mas ainda ouço muito bem... agora me diga guardiã...– a voz era pegajosa e fria e era inevitável não se sentir amedrontada diante dela — qual é o truque aqui? – ela perguntou desconfiada – nos tirar da água e depois nos atacar... – ela acusou – saiba que por mais frágil que possamos ser e parecer fora da agua... nada do que você fizer, nem sua magia será capaz de nos derrotar... a maldição nós forjou durante todos esses anos a sermos aquilo que somos... e independente do que você jovem bruxa, escolhida dentre todas as filhas de Poseidon esteja planejando essa noite... nós somos invencíveis... Afinal nós somos...
—Imortais, eu sei... – Shara se antecipou — e não... não há truque algum, e nada aqui foi planejado... e eu também não sou filha dele, de Poseidon... e ela a minha amiga... bem – Shara olhou de Catie para a hidra e Catie fez o mesmo – você mesma sabe, que seria impossível recriar... algo assim... isso é sobre o sangue dela, você o sentiu... e ela é real e ela quer conversar com vocês... talvez devesse apenas ouvir o que ela tem a dizer – Shara tentou sem saber exatamente o que Catie tinha a dizer e começando a achar que aquele não era um plano tão bom assim – mas sim, precisa ser feito fora da água... para que ela possa entender o que você diz, do contrário não é exatamente uma conversa... e como você mesma disse... não há nada a temer, então não há nada a perder também... – Fez-se um silencio e pela forma como as cabeças se moviam, Shara percebeu que elas estavam tendo uma espécie de conversa silenciosa entre si, e não parecia nada bom, ela mesma não colocou credibilidade alguma sobre o fato delas acatarem o que havia sido sugerido, até que em um movimento inesperado toda a criatura, mergulhou outra vez e adentrou no lago, as assustando... elas haviam sumido...
—O que isso significa? – Catie perguntou ainda em posição e sinal de alerta... enquanto se afastava um pouco mais da margem e ajudava Shara a se levantar do chão... Shara o fez, mas com alguma dificuldade, sua cicatriz ainda estava queimando...
—Eu não sei – Shara de fato não sabia, ela olhou para as águas agora paradas do lago em busca de algo... a Hidra havia ido embora? As deixado ali... Simples assim... não fazia sentido, o silencio no lugar era tão intenso, que era possível ouvir o som da sua própria respiração, além do batimento cardíaco acelerado de Catie, até que uma movimentação bastante suspeita na superfície da agua, chamou sua atenção e então ela emergiu outra vez, no entanto em sua versão humana... fazendo Catie e Shara saltarem assustadas, Catie deu alguns passos para trás, e Shara a acompanhou com o olhar, a Hidra... não estava interessada nela naquele momento, era estranho até, mas ela sequer a olhou, a Hidra estava interessada em Catie... ela saiu da agua lentamente e caminhou em direção a sua amiga e mesmo que ela não pudesse enxergar, o que era evidente, ela podia se localizar muito bem pelo espaço... seguindo o cheiro talvez... Catie se manteve firme e estável no lugar, sustentando uma segurança que Shara sequer sabia que ela tinha... as duas estavam a poucos centímetros de distância uma da outra agora... e vê-las assim era um tanto quanto perturbador, já que nada que Shara fizesse, caso a Hidra resolvesse atacar ou machucar Catie de alguma forma, surtiria algum efeito, elas estavam vulneráveis... e Catie estava ainda mais... seja o que for, que Catie estava planejando dizer a criatura, tinha que ser suficiente bom e eficaz.
—Quem é você? – a Hidra perguntou, e embora a voz ainda parecesse soar dentro de sua cabeça, Catie tinha razão sobre ela... sim ela podia se fazer ouvir e entender quando estava fora da água... já que a amiga compreendeu perfeitamente bem a pergunta, sinalizando positivamente com a cabeça.
—Eu sou… Catarina Cortez... – ela se apresentou — e eu sou... ao que tudo indica sua descendente direta... – ela levantou a mão deixando o corte e o sangue visível mais uma vez – digamos então, que eu seja o seu futuro e voce... o meu passado – ela disse com bastante desenvoltura, mas de onde Shara estava, ela podia ver o peito da amiga subir e descer, de maneira irregular, uma prova de que ela estava apreensiva com aquele contato também.
—Você ouviu o que ela disse?… ela disse que o nome dela é Catarina! – a Hidra perguntou para si mesma – Sim eu ouvi...– e ela mesmo respondeu, Shara e Catie trocaram olhares confusas... era loucura pensar, mas parecia que era assim que as coisas funcionavam, quando a Hidra assumia a sua forma humana, haviam duas ali... e elas habitavam um único corpo e uma única cabeça e o mais estranho disso tudo, é que elas falavam entre si – esse nome... Catarina... – a Hidra mencionou, parecendo se lembrar de algo.
—Sim... é Catarina – Catie respondeu prontamente... – esse era o nome da minha avó também, minha mãe o escolheu para mim... foi uma homenagem a ela na verdade... – Shara ouviu aquela particularidade da amiga, aquilo era algo que ela não sabia… e era algo tão pessoal, e Catie havia dito aquilo com tanto orgulho… e Shara percebeu que não conhecia muito sobre o verdadeiro passado da amiga, tão pouco sua história...
—Catarina foi o nome escolhido pela nossa mãe para o bebe que ela estava carregando em seu ventre… antes dela fugir da nossa casa e desaparecer da nossa vida – a Hidra respondeu... entregando algo bastante pessoal também... então havia um bebê, aquilo era novo — mamãe tinha certeza que seria uma menina... – ela disse e Shara podia jurar que havia um toque de melancolia ali... que definitivamente não combinava com aquele ser.
—Por que... por que ela fugiu? – Catie perguntou tentando estabelecer aquele pequeno vínculo que parecia querer se formar entre elas... mas antes mesmo que a criatura pudesse responder sua pergunta, a Hidra se aproximou um pouco mais dela, erguendo as duas mãos em sua direção, e aquele movimento fez Shara enrijecer e por puro instinto buscar sua varinha, a segurando com força em sua mão... contudo a Hidra não parecia estar inclinada a atacar, na verdade ela passou as duas mãos pelos cabelos e pelo rosto de Catie como quem quisesse fazer algum tipo de leitura ali.
—Seu rosto – ela disse depois de um tempo – lembra muito o dela também... – era estranho dizer, mas havia alguma conexão inexplicável sendo formada ali, e era difícil mensurar se era bom ou ruim… talvez se Shara levasse em consideração o fato de que elas ainda não estavam sendo devoradas por ela e nem atacadas por sua magia antiga… bem aquilo… parecia ser razoavelmente aceitável – mamãe, ela fugiu no final da gestação, quando as coisas começaram a ficar insustentáveis em nosso lar, isso… despois que a maldita chegou... ele, o nosso pai... se tornou um homem desprezível e violento... e isso é algo que veio com ela… ela destruiu nossa família, trazendo consigo dor e destruição, ela fez isso… e tudo que aconteceu foi culpa dela... – Shara sabia que a Hidra estava se referindo a Medusa ali, mas não fazia sentido… ou havia um lapso na história que Shara tinha perdido.
—Não faz sentido... – Shara interrompeu, chamando a atenção da Hidra — quero dizer… a mãe de vocês, ela havia fugido… antes… algum tempo antes... certo? ela não conheceu Medusa – Shara meio que afirmou, com base naquilo que havia ouvido Antony lhe contar – Medusa, ela veio até vocês… depois… bem depois que sua mãe partiu… – sim era isso que Shara acreditava e conhecia da história delas… ela só achou por bem não mencionar a parte sobre a mãe delas ter abandonado a família e fugido com outro homem, que não parecia ajudar em nada naquela situação… estando ela gestante ou não.
—NÃO – a Hidra gritou, num tom grave e estridente fazendo com que Shara e Catie levassem as duas mãos até os ouvidos – a maldita chegou duas semanas antes dela partir, vivíamos bem... uma vida simples sim, mas tranquila e duas semanas foram o suficiente para levar embora a nossa paz… foi por causa dela que mamãe foi embora... foi por causa dela que papai se transformou em um monstro, foi por causa dela que estamos nessa situação… por anos, milhares de anos a fio, presas nessa maldição terrível, sendo submetidas a um lugar do qual não pertencemos, tendo que lutar por sobrevivência e por espaço, sendo caçadas como uma iguaria... – sim aquela confissão carregava mil anos de amargura – a culpa foi dela... MALDITA... — Shara não sabia o que era pior, se era o fato de ter deixado a criatura ainda mais brava, ou se era tê-la tão perto e revelando um novo ponto de vista da história que ela desconhecia ou ainda... se era ouvi-la se referir de forma carinhosa a alguém... como papai e mamãe, sim isso era completamente inesperado e fugia em muito da imagem temível que ela passava.
—Como pode dizer isso? – Catie interveio, sentido a mudança na postura da criatura, que agora sim, parecia mais propensa e disposta ao ataque, a Hidra se limitou a analisa-la... mas nada fez, então Catie continuou – digo, Medusa era apenas uma criança naquela época, como a culpa poderia ser dela? – Catie tentou contornar… — estou apenas tentando entender... tudo isso – ela finalizou, trazendo a conversa para um novo patamar.
—Medusa foi a nossa maldição muito antes de sermos de fato amaldiçoadas – ela acusou – quando ela chegou era apenas uma criança… uma criança encantadora, mamãe ficou admirada com tamanha doçura, ela parecia não saber e nem se lembrar de nada do seu passado, ela estava perdida e sozinha… e papai a acolheu, nós não tínhamos muito mas ela parecia ter sido deixada lá para nós e aquilo era simplesmente o certo a se fazer... mas não, aquilo foi ERRADO – ela gritou a última palavra – Medusa trouxe a maldição assim que pisou em nossa casa... dois dias depois de ter sido acolhida, uma mulher desconhecida nos visitou, foi papai que a recebeu em casa... ele não sabia... mas aquela mulher, ela não era uma de nós, ela não era sequer humana... ela fazia coisas… magia com as próprias mãos, eu e Euriale estávamos voltando da feira naquele fim de tarde e nos escondemos atrás do feno ao percebermos que havia algo errado acontecendo ali, uma luz azul irradiava pelas frestas e janelas... e aquela mulher, ela falava palavras em uma língua antiga… papai parecia ter sido enfeitiçado, pois não podia se mover... depois disso ela simplesmente virou as costas e foi embora, desaparecendo no breu... e então a partir daquele dia, ele nunca mais foi o mesmo... ele se tornou tão frio e violento, que mamãe precisou fugir para manter ela e o bebe a salvo, ela teve medo que ele pudesse machuca-lo ainda em seu ventre, ela disse que encontraria um lugar e que voltaria assim que possível, para nos buscar, mas ela nunca mais voltou… – Catie estava visivelmente impactada com aquele relato, de alguma forma, era como reviver a sua própria história contada de forma diferente e em tempos distintos... e aquilo pesou para Shara também e mesmo podendo ver, perceber… que aquilo não era culpa de Medusa... que a menina, a criança havia sido uma vítima ali… ainda assim, aquilo era sobre ela também, e Shara se sentia mal por Catie… e talvez por todo o resto, como se a culpa pela vida infeliz da amiga, fosse dela… era tão fácil desassociar as histórias, entre ela e Medusa, mas era muito difícil desassociar a culpa… Medusa era inocente, mas ela não… como poderia? E isso sem mencionar a quantidade de semelhanças... os detalhes... então o paí delas havia sido amaldiçoado também... por alguém...
—Quem… quem era aquela mulher? – Catie perguntou sua voz quase falhando ali algo que Shara também queria saber – você, digo vocês... ouviram falar dela depois do ocorrido?... — Catie estava sendo racional… ao fazer as perguntas certas... Shara não sabia se teria conseguido... sentindo seu estômago embrulhar com toda aquela confissão, além da dor desagradável em sua cicatriz.
—Sim... – a Hidra admitiu – e de fato, ela não era uma de nós, ela era na verdade… uma Deusa — ela revelou, e aquilo... não podia ser... não... como? por que? Shara estava perdida... — e ela passou a vir de tempos em tempos, ela parecia interessada em acompanhar... o seu nome... era Atena, pelo menos era como costumavam chamar, ela passou a se ocupar lá, havia um templo e um altar... onde ela recebia o povo, muitos eram aqueles que vinham até a nossa região para cultua-la, em busca de conselhos, receber e dar algo em troca, já que sua sabedoria e seu senso de justiça eram altos e inalcançáveis – A Hidra informou e aquilo foi um choque... havia muito para ser compreendido agora, por que Atena havia se envolvido? Por que ela faria algo assim? Por que ela teria ido até Medusa, enquanto ela era apenas uma criança, afinal Medusa não representava ameaça alguma naquele tempo, por que ela enfeitiçou aquele homem, o mercador?... e de repente tudo que Shara sabia sobre aquela história, parecia ter escoado pelas suas mãos... as peças do quebra cabeça não pareciam mais se encaixar de forma adequada, qual era o ponto afinal? – nossa vida mudou muito desde que a Maldita chegou em nossa casa – era doloroso ver a forma como a Hidra se referia a Medusa, era como se Catie pudesse se referir a ela da mesma maneira — nós fomos abandonadas e maltratadas desde então... mas o que foi mais difícil dentre tudo que suportamos, foi a dor da separação da pessoa que mais amávamos... nós nunca mais tivemos notícias dela, a nossa mãe e nem sobre o bebe que ela carregava... mas se você leva o nosso sangue... e se você está aqui hoje... esse bebe, a nossa irmã... certamente nasceu, cresceu e teve filhos... ela sim...faz parte do seu passado... afinal como mais poderia? Você... ter o nosso sangue, se nós duas nunca tivemos a oportunidade de ter família e nem ninguém, além de nós mesmas numa eternidade vazia e sem fim... – Shara estava com alguma dificuldade em se manter de pé agora, principalmente ao notar o olhar vago e perdido da amiga... havia compaixão ali e não por menos... Catie tinha razão sobre a importância de ouvir a Hidra... aquela criatura também havia sido uma vítima na história, vivendo miserávelmente desde então... apenas mais uma das inúmeras injustiças...
—Será que eu... eu posso te dar um abraço? – Catie pediu, pegando não só ela de surpresa como a própria criatura em si...
—Abraçar? – a voz pegajosa da Hidra repetiu... e sem esperar uma resposta positiva, Catie se aproximou dela e fez o improvável... sim ela estava abraçando a Hidra, e sim elas estavam se abraçando, já que a Hidra retribuiu o gesto... aquilo era ilógico, era loucura... mas ainda assim era... a única coisa digna a se fazer... Shara pensou em pedir desculpas... mas desculpa nenhuma nesse mundo, bastaria... e agora Shara podia entender, ainda que aquilo não justificasse a forma como as irmãs passaram a tratar Medusa e muito menos o fato delas a terem entregue a Atena anos depois... não, mas aquilo era sobre fazer justiça com as próprias mãos... e ao faze-lo elas se tornaram igualmente ruins... Atena certamente esperava por aquilo... Shara suspirou... se dando conta de que... ela levou a mão ao ombro... sua cicatriz, havia parado de doer.
—AFASTE-SE DELA AGORA – aquela era voz de Antony, e não era como se fosse um pedido… aquilo era uma ordem, dita com muita autoridade e quando Shara se virou... seu olhar foi de encontro com o olhar do seu pai… ele também estava ali, ela sabia que ele viria… o colar é claro… e ele estava com a varinha em mãos, pronto a atacar, e sim ele faria... mas seu coração disparou, quando notou Antony mover o cajado em direção a Hidra... – EU MANDEI SE AFASTAR – ele estava sendo hostil... e Shara sabia o estrago que aquela coisa fazia...
—NÃO – Catie interveio – não a machuque Antony – ela pediu se posicionando à frente da Hidra, como se a criatura frágil fosse ela, e não o contrário... e antes que Shara pudesse fazer qualquer coisa, ela sentiu a força de algo invisível a puxar, a movendo de onde estava ... seu pai havia aproveitado a distração para afastá-la do lago, da Hidra, dos perigos e infelizmente da sua amiga também, a trazendo diretamente para ele... e a forma como ele a amparou ali, mostrava o quão alarmado ele estava... mais uma vez seus olhares se encontraram, mas nada foi dito… embora Shara soubesse que deveria esperar o pior daquela situação, ele estava no direito, ela havia lhe dado todas as razões possíveis para... bufar, brigar, ser irracional, ameaçá-la, puni-la, tratá-la como uma garotinha estúpida que ela de fato era... enfim, mas o que ele fez, não veio de encontro com aquilo que ela esperava dele, não... ele a abraçou, de uma maneira intensa, de uma forma como ele nunca havia feito antes, como se ele fosse perdê-la a qualquer momento, como se aquele fosse o último contato... aquela era mesmo a noite dos abraços inesperados... e então ela se aconchegou em seus braços... ele era o acalento que ela precisava.
—Antony – ela ouviu a Hidra dizer, e pelo tom de como aquilo foi dito, havia uma certa surpresa – como? Eu não o vejo... mas ainda assim posso sentir sua vibração... está diferente... você está na sua forma humana, não está? – ela perguntou, ela olhava para ele mesmo não o vendo, mas como se vê-lo em seu não literal sentido da palavra fosse de tudo o mais improvável em toda aquela situação.
—Sim – ele respondeu... – e isso me torna ainda mais obstinado e perigoso, sei que sua magia pode ser forte, mas acredite a minha também é... e antes que possamos destruir um ao outro, eu ordeno que... – Antony falhou nas palavras... obrigando Shara a se virar para ver o exato instante em que Catie havia se aproximado e segurado a mão da Hidra – o que Merlin… isso quer dizer? – ele estava confuso, não pra menos... mas o que Catie fez, havia surtido efeito, já que ele baixou o cajado, perdendo totalmente a compostura...
—Isso quer dizer — Catie interveio — que ninguém vai atacar ninguém essa noite, que atacar não é necessário… — ela parecia dona da situação… e então ela se virou para a Hidra — eu entendo, sim entendo exatamente aquilo que vocês sentiram, o que vocês passaram… eu mesma senti e passei… por algo assim também — ela revelou — perdi minha mãe para uma doença e alguns meses depois perdi meu pai para um feitiço… em condições no mínimo… bastante semelhantes — Catie disse, voltando seus olhos em sua direção e a Hidra fez o mesmo, entendendo o que ela havia dito sem que precisasse de mais explicação.
—Guardiã maldita, filha de Poseidon… foi ela… — a Hidra a acusou, era inevitável mas aquela voz fria e pegajosa, tão característica, fazia com que seus nervos quase entrassem em colapso… mas dessa vez, seu pai se posicionou a sua frente, como um escudo protetor… evidenciando que agora ele também podia ouvir aquilo que ela dizia, e mesmo que Catie tenha dito algo sobre ninguem atacar ninguém... ele faria, se achasse necessário, em defesa dela... sim ele faria, ele sequer havia recuado, e ve-lo naquela posição dizia muito sobre quem ele havia sido na guerra... sua pose estóica, seu olhar gélido, impunha medo e autoridade, ele mantinha a varinha firme em suas mãos... ele não parecia perder nenhum movimento — saia da frente bruxo das trevas… farei vingança essa noite… ela a guardiã deve pagar… em nome de Medusa...
—Não… — Catie exclamou, era a segunda vez que ela intervinha naquela noite em prol de pessoas e situações distintas — ela não tem culpa… Shara não tem culpa… Medusa também não teve… não elas — Catie defendeu — elas… eram apenas crianças, quando foram tiradas… arrancadas de suas famílias de origem… para que sofressem por algo que não lhes cabia…
—Medusa merecia sofrer — a Hidra cuspiu — ela deveria pagar… por tudo, por toda dor que nos foi infringida…
—A por favor… apenas superem… fazem mais de mil anos agora e o discurso ainda continua o mesmo — Antony se meteu — Medusa tinha magia… ela tinha beleza, ela tinha alguém que se importa-se com ela… e vocês… vocês duas eram amarguradas, feias e vazias e apenas estavam com inveja dela… e não satisfeitas em serem assim, vocês vieram até mim, sabendo sobre meus sentimentos por ela... e me contaminaram em meu ponto mais fraco, me convenceram... e me fizeram ir até o templo, ir até Atena naquele dia em busca de justiça… para que a grande Deusa da porra nenhuma olhasse por mim e se sensibilizasse com a minha causa... Foram vocês que me incentivaram a entregá-la, e vejam só... agora estamos todos aqui… milhares de anos depois, e a culpa disso tudo na verdade… é toda sua — ele acusou, apontando o dedo para ela… — criatura medíocre e... Egoísta — ele finalizou.
—Seu bastardo, você só enxerga aquilo que quer ver… e é por esse motivo que foi tão facilmente manipulado… — a Hidra o contornou — a magia de Medusa nunca foi uma ambição para nós e a beleza dela muito menos… o que nutrimos por ela vai muito além daquilo que sua vaga compreensão pode ser capaz de ir e enxergar… Medusa veio e nos tirou tudo… isso é sobre o que ela nos tirou e não sobre o que ela é...
—Voces nunca tiveram nada…
—CHEGA — Catie se posicionou outra vez — olha eu sei o que isso parece para cada um aqui… eu sei… e eu entendo… mas isso precisa parar, talvez vocês não percebam, todos vocês… mas a partir do momento em que vocês se posicionaram dessa maneira… vocês fizeram parte do que Atena arquitetou… sim… vocês duas, com tanto ódio e sede de vingança contra Medusa — ela olhou para a Hidra — e você com sua impulsividade e fraca leitura dos fatos — ela olhou para Antony que estava novamente surpreso — vocês estão apenas contribuindo para que os planos e os propósitos dela, da única vilã de toda essa história, aquela que foi a verdadeiramente responsável por toda a injustiça que os tem afligido desde então… vocês… sim, vocês contribuíram para que ela e seus propósitos prosperassem… em tempo… isso precisa parar… — Catie suspirou… e fez se um silêncio sobre o lugar…
—Eu confesso não entender… — Shara foi a primeira a quebrar o silêncio – eu não entendo o que levou Atena até lá... tipo... a troco de que, ela enfeitiçaria aquele comerciante, sendo que Medusa ainda era pequena… — ela disse externando aquilo que ela vinha pensando ali e Antony a analisou com surpresa, obviamente ele não sabia sobre essa parte da história — se o problema de Atena com Medusa sempre foi sobre o ciúmes doentio e possessivo que ela sentia por Poseidon… e isso em virtude de uma interpretação errada dela sobre a situação… a menos que ela pudesse voltar no tempo, nada mais explicaria algo assim… afinal ela não tinha como saber sobre eles… não naquela época… isso não faz sentido… — Shara disse confusa…
—Atena não podia voltar no tempo, mesmo ela sendo quem era e tendo poderes superiores e especiais — a voz grave de seu pai, chamou a atenção de todos para si, ele parecia um pouco mais a vontade agora... baixando a varinha — contudo ela tinha algo, um dom… que permitia com que ela julgasse determinadas situações com bastante sabedoria e por essa razão lhe foi atribuído o título e o senso de justiça… tanto é que na mitologia trouxa por exemplo, ela ficou conhecida como sendo a Deusa da justiça e da sabedoria… obviamente que fica fácil julgar uma causa, quando se tem informações privilegiadas sobre ela — ele explanou, usando um pouco de ironia… então quer dizer que Atena trapaceava, que grande novidade, Shara pensou… — Shara — ele disse seu nome — quero que me responda uma pergunta de forma objetiva… de onde vem o dom que você possui ou de onde vem a sua magia antiga? — ele perguntou… como se estivesse em sala de aula.
—Vem… de Poseidon… quero dizer isso é algo que vem dele... ou deles… dos Deuses e é passado por gerações… — ela respondeu… olhando para as próprias mãos.
—Correto — ele confirmou, e se fosse em qualquer outra circunstância ela certamente reivindicaria alguns pontos extras para a sua casa, mas isso não competia com o momento — todas as guardiãs nasceram com um ou mais dons específicos e isso só é possível devido a herança mágica que possuem, o dom de Atena, ou um dos dons dela… era prever o futuro — ele explicou e todos estavam prestando atenção — quando ela se apaixonou perdidamente ou doentiamente por Poseidon, ele já tinha um passado, já tinha uma história, um relacionamento e tinha também uma filha… mas ninguém sabia sobre a menina, apenas os seus mais próximos e fiéis servos sabiam sobre a existência dela… isso se deve ao fato de que Medusa era filha de um relacionamento proibido, um relacionamento entre seres de mundos e visões diferentes… ele um Deus imortal e ela uma mortal, humana e sem magia… eram lados opostos, distintos, um ato condenado pelos Deuses… — Shara pensou nisso e por um instante isso também se parecia um pouco com a sua própria história… a história dele e de sua mãe… uma guerra, um relacionamento proibido, lados opostos… uma criança proibida — Foi nesse momento em que Atena consultou equivocadamente o futuro, e foi quando ela viu que existiam outras mulheres ocupando lugar no coração e no destino do seu amado e isso a corroeu... então ela se dedicou, planejou e gastou os dias para destruí-las… essas mulheres… eram Medusa e sua própria mãe e elas estavam agora na mira da Deusa mais inteligente e astuta que já existiu em toda a história da humanidade — ele explicou e todos estavam atônitos, inclusive ela… como ele podia saber tanto… de onde vinha tudo aquilo agora?… Shara queria perguntar…
—Como você… como… pode saber de tudo isso? — e Antony fez a pergunta em seu lugar.
—Livros não costumam ser confiáveis — ele respondeu vagamente — mas… admito que talvez alguns deles mereçam um pouco mais de atenção… — ele olhou para ela — mas ela não fazia ideia de que livro ele pudesse estar se referindo.
—Então… foi ela, desde o começo… foi Atena que destruiu o reino onde Poseidon morava e vivia com a sua família, não foi? Isso, antes de Medusa ter sido abandonada… matou a mãe dela e enfim... isso nos leva ao início de todas as coisas… — Antony perguntou… sim havia mesmo um reino destruído, Shara se lembrava disso em sua visão, além do olhar de Poseidon e a dor dele em ter que deixá-la daquela maneira e a promessa de que a encontraria um dia…
—Sim… indiretamente é claro, Atena fomentou uma confusão e convenceu seu meio irmão Ares… o destemido Deus da guerra a fazê-lo… e foi assim que Poseidon perdeu seu reino terreno, perdeu sua esposa mortal… e regressou para o Olimpo onde foi castigado por Zeus… sem opção, ele foi obrigado a omitir sobre a existência de Medusa, deixando sua criança proibida para trás, afinal do contrário ela não sobreviveria… — ele esclareceu… e todos estavam horrorizados... Shara refez algumas ligações mentais, moveu as peças do quebra cabeça e agora tudo fazia sentido... aquela era de fato uma história de injustiças — enquanto isso milhares de anos depois... – seu pai continuou — Atena movida pelo mesmo sentimento de ódio e de ciúmes, confinou o seu próprio dom em um artefato mágico… e o entregou nas mãos de uma bruxa mortal, Atena era obstinada e ela conhecia a história, ela sabia que haveria uma guardiã predestinada a quebrar a maldição em um futuro próximo, a maldição que ela estrategicamente impôs com a ajuda de todos aqui é claro — ele usou ironia — algo que foi muito bem pontuado pela Srta. Cortez — Catie a olhou com surpresa, ela havia entendido que aquilo era um enorme de um elogio — obviamente que Atena alegou estar exercendo justiça... afinal era o que ela vinha fazendo em seu templo, todos aqueles dias... a história repercutiu e os Deuses foram banidos da terra, mas ela sabia que mesmo depois de todos esses milhares de anos Poseidon ainda esperava pela sua Medusa, esse que era um amor que ela nunca entendeu… e que ela nunca foi capaz de destruir — ele parou por um instante... lhe lançando um olhar profundo — um amor... de um pai, por uma filha — ele concluiu, e isso era forte… e Shara se viu limpando uma pequena lagrima que escapou de seus olhos...
—Poseidon… está dizendo que ele era o pai dela... de Medusa? — a Hidra perguntou incrédula… talvez se dando conta do equívoco que ela também havia cometido ali.
—Sim… é loucura eu sei… tudo isso, eu mesmo levei dias para processar essa informação — Antony respondeu se sensibilizando com o choque que aquela verdade trazia — mas… continue Severo… — ele disse dando abertura para o seu pai novamente... que assentiu.
—Atena abriu mão do próprio dom que possuía, com o intuito de talvez em uma última tentativa destruir efetivamente os planos de Poseidon de se encontrar com Medusa uma vez mais, então ela o armazenou em um recipiente e o entregou, curiosamente nas mãos de uma bruxa da mesma linhagem de Medusa... afinal a melhor estratégia para se derrubar o seu adversário é destrui-lo por dentro... – ele informou, como se estivesse citando alguma estratégia de guerra — claro que o dom, as previsões do futuro exigiriam um pagamento, e o custo seria altíssimo... mas Atena sabia até onde aquela bruxa era capaz de ir e fazer para conseguir o que queria… e essas continuam sendo algumas das vantagens de quem pode ver o futuro é claro… — ele falou com certa malícia...
—Elza… e a esfera — Shara sussurrou, e seu pai sinalizou positivamente com a cabeça.
—E o que faremos agora? — Catie perguntou alarmada… — ela é uma Deusa, não é como se pudéssemos fazer algo de fato…
—Na verdade... sim... nós podemos… existe algo — a Hidra respondeu… e sua voz pesou ao dizer aquilo — o ritual… essa é a única forma de fazermos isso… de juntarmos Poseidon e a sua filha outra vez, é assim que Atena perde… é assim que a destruímos e colocamos um ponto final nessa história — ela disse numa admissão silenciosa sobre estar errada a respeito de suas próprias convicções… — eu... nós – ela olhou diretamente para Shara – sabíamos que a mudança estava se aproximando, sabíamos que algo estava prestes a acontecer de qualquer maneira… a nossa maldição carrega isso, um instinto predador bastante acentuado contra toda a linhagem dela, Medusa... enquanto Antony se tornou um guia protetor, nós nos tornamos o contrário e é por isso que estamos aqui... é por isso que atentamos contra a sua vida... para impedi-la de fazer, o ritual... mas isso precisa parar — a Hidra olhou para Catie – eu quero concertar... o erro que cometi no passado — Catie sorriu — ela... é de fato a guardiã predestinada... – a Hidra apontou em sua direção – ela é a filha de Poseidon apta e escolhida para a missão... – ela afirmou, e mesmo já sabendo de tudo isso, dito daquela forma... pela Hidra, ainda podia ser igualmente chocante e assustador... — apenas faça o que tem que fazer — ela disse por fim… — eu a ajudarei...
—O que vai acontecer com você se fizermos o ritual? — Shara se viu perguntando, aquela era a resposta que ela vinha buscando por semanas… e o motivo principal dela e de Catie estarem ali essa noite...
—A divisão dos reinos da água vai deixar se existir… o ecossistema vai se restabelecer e ela, elas… que sejam... terão que se submeter a Poseidon e outras criaturas outra vez… no mar… — Antony respondeu antes mesmo que ela pudesse — e mais uma vez vemos que ela estava lutando contra algo, apenas por puro egoísmo — ele a acusou, por pura birra... Catie lhe lançou um olhar hostil que o fez recuar.
—Não Antony — a Hidra o corrigiu — nós vamos morrer… é isso que vai acontecer, nós deixaremos de existir… — Antony abriu a boca e então se calou… seu semblante caiu… ele parecia ter compreendido, que por mais que eles fossem criaturas com destinos distintos, ainda assim eles não eram tão diferentes assim um do outro.
—E você não quer isso… não é mesmo… morrer? — Shara perguntou… um pouco constrangida.
—Não… na verdade, não sob essa maldição… não sendo esse monstro que fomos obrigadas a ser o monstro que nos tornamos, esse monstro ele não é quem a gente é… e nós nunca deixamos de ter esperança.... como você conseguiu Antony? — ela perguntou para ele, e Shara entendeu o que ela queria dizer — como conseguiu voltar a ser… você mesmo? — ela soava triste e agora desesperançosa… mas Antony não respondeu… pelo contrário, ele encarou o seu pai por um longo momento… Shara sabia que ele havia sido o responsável por quebrar a maldição de Antony e ela notou que ele foi quem quebrou o contato visual entre eles primeiro, estando desconfortável com a situação.
—Diga-me criatura — e agora ele havia retomado a fala e falava diretamente com a Hidra… o que ele estava fazendo? Seu coração acelerou… sim ele estava repetindo aquilo que ele havia feito com Antony, se a condição fosse a mesma entao quem sabe… — diga-me qual é a sua história? — ele perguntou… a Hidra parecia em choque… e como se fosse uma outra pessoa… ela sussurrou…
—Obrigada — e Shara podia jurar que ela estava emocionada, enquanto fagulhas douradas se dissipavam pelo ar, Shara buscou a mão do seu pai, apenas por precaução é claro… já Catie recuou um pouco, Antony ciente do que estava acontecendo foi até ela, mas ambos estavam maravilhados, com aquilo que viam, a transformação… sim seu pai havia feito mais uma vez… ele havia quebrado aquela parte da maldição delas, da mesma forma como havia quebrado a de Antony meses atrás… aquela não era mais a Hidra… não ela havia mudado e agora ela… era… ou melhor elas eram duas jovens camponesas e ambas podiam enxergar… e elas estavam se abraçando… e elas estavam chorando… e Catie estava chorando também, e Antony a abraçou sorrindo… aquele momento… aquele pequeno momento, dizia muito e isso sim era mágico e era memorável… aquela noite seria inesquecível para ela e todos ali… e Catie havia sido a grande protagonista dessa parcela da história… embora todos sem nenhuma exceção pareciam ser responsáveis por uma parte do todo… como se o destino os quisesse agora assim… juntos…
—Como podemos retribuir? — uma das camponesas perguntou para o seu pai… — eu e minha irmã, nós faremos qualquer coisa que nos pedir — ela propôs…
—Isso é bastante fácil e simples — ele respondeu prontamente — apenas mantenha suas mãos pegajosas, sua magia ou seja lá o que for longe da minha… — então ele paralisou… Shara sabia o que ele iria dizer…
—O senhor ia dizer… Filha — ela mesmo completou, o surpreendendo ao dizer aquilo tão facilmente na frente de todos — bem… Catie já sabe, eu meio que fui obrigada a contar, você sabe… ela faz muitas perguntas e isso de não colocar fecho no colar, meio que não ajudou aqui… — Shara cruzou os braços fingindo estar chateada com ele — e bem… talvez elas… tenham sido as primeiras a notar já que tem essa coisa do cheiro… — Shara se referia as irmãs…
—Sim… — a outra camponesa respondeu — vocês cheiram iguais — ela sorriu abertamente…
—Sendo assim, como eu ia dizendo — seu pai disse aquilo de forma arrastada — apenas mantenha-se longe da minha… — e então ele olhou para ela antes de completar — Filha — ele admitiu para todos — saiba que nenhum arranhão por menor que seja, será tolerado… — Shara sorriu para ele, e de todas as grandes semelhanças que ela possuía com Medusa, aquilo sobre ter um pai que se importa, um pai que move mundos e que dá a sua própria vida em troca da filha… sim aquela certamente era a maior delas.
—Condição perfeitamente aceita — as duas irmãs responderam juntas e em uníssono… Antony aproveitou para puxar Catie para perto e beija-la intensamente… Shara sorriu para a cena… aliviada pelo desfecho improvável.
—Não se anime muito — seu pai sussurrou em seu ouvido, Shara se virou para estudá-lo — está de castigo — ele informou formalmente… e ela suspirou… claro que ela estaria, ele sinalizou para o castelo… — você na frente — e entao ordenou… ela assentiu, voltar para o castelo tinha um novo significado agora… até por que em poucos dias Atena cairia… e seria pelas suas mãos, pelas mãos da Hidra, pelas mãos do pássaro negro, pelas mãos de Catie e pelas mãos do seu pai… ela vingaria o passado com um novo recomeço, com a certeza de que ao seu lado... estavam os melhores.
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