Destinos Improváveis
122 Futuro - Guerra de farinha
Notas iniciais
O aroma familiar e penetrante das poções preenchia o ar do seu laboratório, o crepitar do fogo sob o caldeirão era um som que geralmente trazia um sentimento de controle, tranquilidade e precisão para ele, no entanto... não hoje, hoje o seu foco estava em outro lugar, uma distração... algo pouco comum para alguém tão meticuloso como ele... principalmente quando estava fermentando, mas a presença inquietante de um evento futuro pairava sobre sua mente, turvando seus pensamentos... o ritual, o tão aguardado ritual... eles sairiam na manhã seguinte, e ele sequer havia informado Shara a respeito, a verdade é que ele não queria alarma-la ainda mais, faziam apenas dois dias que ela havia se instalado em sua casa... e a mudança repentina de rotina já era por si só algo com o qual ela estava tendo que lidar... ele bufou, se atrapalhando com os ingredientes.
Severo sabia da importância do ritual e de como faze-lo de forma bem sucedida tiraria Shara da lista dos sangues mais procurados e desejados de todo o mundo bruxo, mas ainda assim ele não compreendia completamente as implicações daquilo que fariam ali... e a incerteza o corroía, ele odiava não ter controle absoluto sobre a situação, ele detestava ser surpreendido e o temor pela segurança dela o sufocava... ela era sua única fraqueza, o único ser pelo qual ele daria a própria vida sem hesitar... ele se preocupava incessantemente com ela, mais do que ele jamais se preocupou com alguém... como isso podia ser possível? Aquela era uma pergunta interessante, já que era algo que nem ele podia ou sabia explicar exatamente, quando foi que as coisas viraram assim?... e o apreço de ter uma criança debaixo do seu teto... aos seus cuidados, o zelo e... foi quando, perdido naqueles pensamentos... que tudo desandou... sim o caldeirão parecia reagir violentamente a sobressalência de algo que ele havia depositado lá, o que era mesmo?... ele não sabia... e então explodiu em uma nuvem de vapor verde e uma chuva de detritos... Severo tentou recuar, protegendo-se como pôde, enquanto uma onda de frustração e fúria o dominava... sua paciência, já esticada ao limite, estourou como uma bolha frágil.
—MALDIÇÃO – ele grunhiu alto — Como pude ser tão descuidado? – rosnou para si mesmo, limpando resquícios da poção em sua vestimenta, enquanto contemplava a bagunça que havia se transformado sua tão organizada bancada de trabalho... aquilo era inadmissível, uma falha grotesca... logo ele que sempre exigiu perfeição de seus alunos em sala de aula, e então havia acabado de cometer um erro gravíssimo... falhar era uma afronta intolerável... sua frustração se transformou em uma ira tempestuosa... ele subiu as escadas, cada passo um tamborilar irritado contra aquela madeira velha do assoalho... ele precisava de uma bebida forte... algo que o fizesse esquecer... algo que pudesse... e então batendo a porta da cozinha, ele foi recebido por um grito abafado e uma visão de completa desordem... Shara, que parecia segurar uma fornada de biscoitos de canela, os deixou cair no chão, assustada pelo barulho ou talvez pela sua aparição repentina... maldita pirralha desastrada, aquele não era um bom momento, já que ele estava tudo, menos no seu melhor humor.
—O que pensa que está fazendo? – ele cuspiu em sua direção, sua voz impregnada de sarcasmo – pensei ter sido claro, ao ditar as malditas regras... você não tem autorização para mexer em meus itens pessoais – ele havia elevado a voz...
—Eu... eu só estava tentando ser util... bem e essa é a cozinha... não achei que fosse um problema... – ela tentou se defender, estava gaguejando o que o irritou ainda mais.
—Não se justifique para mim – ele a rodeou, sabendo que a estava intimidando – e se não consegue sequer segurar um maldito prato de biscoitos em suas mãos... talvez devesse mesmo reconsiderar suas habilidades com uma varinha, já que deveria se comportar como uma bruxa e não como um incompetente e desastrado elfo doméstico – ele soltou, o sarcasmo pingando em cada palavra... lá no fundo ele sabia que estava sendo injusto com ela, sim ele sabia... mas ainda assim aquilo era mais forte do que qualquer coisa que pudesse controlar, ele estava descontando sua frustração nela, justamente nela... era contraditório até quando tudo que ele mais queria era preserva-la dos perigos lá de fora, mas quem a protegeria dos perigos de dentro? Quem a protegeria dele? Ele recuou... ao contemplar aqueles olhos verdes... agora brilhando com as lágrimas contidas... e por um instante ele se deu conta de que havia passado dos limites... e numa percepção súbita ele se lembrou que aquela não era uma cena qualquer... os biscoitos caídos no chão, ela se assustando com o barulho e sendo intimidada por alguém mais velho era uma repetição de algo difícil e cruel do seu passado, algo... uma lembrança que ele havia visto com seus próprios olhos... Merlin... ele passou as mãos pelo cabelo desconcertado...
—Os biscoitos eram para o senhor — ela disse com a voz trêmula – São de canela... os seus preferidos, eu queria fazer uma surpresa... já que tem passado bastante tempo no laboratório, trabalhando... eu mal o vejo... e eu sinto muito por isso... pela cozinha, pela... sujeira, eu... sou de fato desastrada... essa não é a primeira vez e eu posso, eu vou limpar... – ela se abaixou... começando a recolher os destroços, mas como de costume ele sacou a varinha antes que ela pudesse...
—Evanesco – ele disse e toda a sujeira desapareceu de suas vistas, contudo Shara permaneceu abaixada e sem reação, e ele se arrependeu por isso também, já que limpar a bagunça de forma magica, naquela situação a humilhava ainda mais... foi então que ela se levantou lentamente, escondendo o rosto dele, ela estava chorando... ele sabia... ele havia feito sua filha chorar... mesmo quando ela havia se disposto a fazer algo gentil por ele... os biscoitos... ela tentou passar por ele, mas ele não podia deixa-la ir assim... não daquela forma, não sem resolver aquilo primeiro... ele respirou fundo por que era tão difícil dizer... pedir perdão para ela? Por ele tinha sempre que estragar tudo daquele jeito? e num impulso ele segurou o braço dela, antes que ela pudesse sair e fugir dele... ela paralisou no instante em que ele a tocou, ele podia sentir a tensão no corpo dela... ela estava desconfortável.
—Eu... vou para o meu quarto... – ela tentou, puxando o braço de forma sutil, mas ele não permitiria... ele precisava alcança-la uma vez mais.
—Não... – ele ordenou – deve ficar – ele disse, tentando soar de forma um pouco mais amena e falhando miseravelmente ali, ele suspirou – eu... gostaria que você gritasse comigo agora – ele pediu para ela – que me chamasse de babaca – pelo menos era como ela o chamava em situações como aquelas... e nesse caso ele merecia, por que ela não estava explodindo com ele? onde estava a falta de controle de impulsos que tanto o irritava, teria sido muito mais fácil, se ela apenas retrucasse, de forma defensiva... o enfrentasse ou algo do tipo.
—Por favor senhor – ela pediu – eu não quero brigar mais... – ela disse, revelando uma maturidade que ele não esperava encontrar nela, não quando ela deveria ser apenas uma criança de 11 anos e se comportar como tal, mas ela não era uma criança comum... e de alguma forma... aquilo penetrou em sua armadura, ele se sentiu momentaneamente desarmado, ela exercia mesmo tal influência sobre ele, e a intensidade do que antes era raiva estava dando lugar a uma sensação de vulnerabilidade... ela era a sua criança, ela havia feito algo bom para ele, ela havia se preocupado, aquela era a cozinha dele... deles... esse era lar dela agora… e então a voz de Poppy ecoou em sua mente como já havia ecoado tantas outras vezes no passado, ele era o adulto daquela relação... e sem pensar, e sem ressalvas... ele a puxou contra si, a abraçando e dessa vez ela não lutou contra o contato dele, mas ele a ouviu chorar compulsivamente contra o seu peito, seu rosto escondido em suas vestes... ele não a colocaria para fora, ele não era a representação do que Noah havia feito e sido para ela um dia... ele precisava ser diferente, melhor, ela merecia alguém que se importasse e que demonstrasse em atitudes e palavras... “apenas diga” ele ouviu aquela voz interior o impulsionar, mas antes que ele pudesse — Me desculpe – ela mesmo disse em meio aos soluços... – me desculpe pela cozinha, pelos biscoitos... pela sujeira… eu não deveria… – mas não, aquilo não estava certo.
—Não – ele a manteve ali – a culpa não é sua Shara... a culpa é minha – e então ele havia conseguido dizer e aquilo era o mínimo que ele poderia fazer por ela naquele momento – eu me exaltei... e acabei a assustando, nada disso é culpa sua – ele repetiu, se sentindo ainda mais vivo ao dizer – descontei minha frustração, a minha raiva em quem menos merecia – ela havia relaxado um pouco, sua respiração ficando mais estável – eu estive distraído e acabei de explodir um caldeirão – ele admitiu, de certa forma, dizer aquilo em voz alta era ainda mais humilhante, em especial vindo dele que exigia no mínimo a perfeição... e ela se soltou dos seus braços para encara-lo.
—Como? – ela exclamou – o senhor fez o que? – ela perguntou incrédula.
—Explodi um caldeirão – ele teve que repetir, engolindo em seco... a última vez que ele havia explodido um daqueles, foi quando Sirius o sacaneou no 4° ano e aquilo sequer havia sido culpa dele, Shara o olhava esperando por uma explicação mais coerente sobre aquilo... era evidente o quão chocada ela estava com aquela revelação, em outras circunstâncias ele apagaria sua memória, mas ali não cabia, ele devia isso a ela, a verdade – sim isso é exatamente o que parece – ele complementou de forma vaga.
—Eu sinto muito por isso senhor... – ela se recuperou — deve ter sido uma poção bastante complexa – ela não estava julgando-o pelo contrário, ela estava tentando reconforta-lo, o que tornava tudo ainda mais constrangedor, ainda mais por que ela estava errada sobre a natureza daquilo, aquela não era uma poção difícil e nem complexa, e se fosse... um erro como aquele cometido por ele, poderia ter explodido não apenas um simples caldeirão mas sim todo o porão da sua casa, mas por sorte e por vergonha também, aquela era apenas uma maldita e simples poção calmante, mas ele achou que não havia necessidade dela conhecer tantos detalhes.
—De fato – ele mentiu – de qualquer maneira é uma falha bastante grave, uma distração como essas poderia ter causado uma tragédia – ele manteve o discurso de professor mesmo não estando em sala de aula – ela limpou o rosto com as mangas e ele se controlou para reter qualquer comentário sobre aquilo… algumas guerras era melhor e mais fácil deixar de lutar.
—E por que o senhor estava distraído? – ela perguntou… maldita piralha esperta, ficava cada vez mais difícil esconder o jogo dela.
—Faremos o ritual amanhã – ele achou que cabia informar… e o semblante dela mudou instantaneamente ao perceber as implicações daquilo.
—Amanhã? – ela repetiu… se encostando contra o móvel da cozinha, buscando quem sabe algum tipo de sustentação – achei que faríamos no próximo final de semana... quer dizer não que o senhor tenha dito isso... mas de alguma forma achei que teríamos um pouco mais de tempo para… – ela silenciou, e lá estava a razão pelo qual ele havia omitido a informação dela, agora ela parecia nervosa.
—Dumbledore sugeriu a data e eu acatei – ele informou – Hogwarts passará por uma vistoria do ministério amanhã, e essa se torna uma boa oportunidade para tirarmos Antony e as irmãs de Medusa do castelo… Alvo tem receio que qualquer resquício de magia antiga possa ser identificado e ele tem alguma razão sobre isso, já que o ministério tem aperfeiçoado os métodos de busca nos últimos anos… — ele informou.
—Então… eles irão conosco? – ela perguntou, cada vez mais surpresa com aquele arranjo.
—Infelizmente sim – ele bufou, ele havia se oposto a sugestão do diretor, afinal ter companhia não era exatamente algo que o agradava, mas em todos esses anos convivendo com aquele velho ardiloso, Severo aprendeu cedo que gastar seu tempo argumentando era desgastante e inútil.
—É justo – ela disse refletindo sobre aquilo – já que tudo começou com eles... então é justo que eles estejam lá e que termine com eles também – a lógica dela não era ruim, mas algo estava errado na maneira como aquilo foi dito, ela estava visivelmente desconfortável e embora eles tivessem entrado em outro patamar da conversa, havia algo no comportamento dela que ele não havia conseguido decifrar… ele a analisou com cautela, buscando qualquer sinal por menor que fosse… e era apenas estranho que toda a ira que parecia domina-lo a apenas alguns minutos atrás havia se dissipado completamente e agora ele estava focado em compreender seja lá o que fosse que a estivesse incomodando, sim Shara mudava mesmo tudo nele, até a forma como suas emoções se comportavam podia ser moldado em sua presença… antes, em circusntacias como aquelas e antes dela entrar na sua vida, ele levaria horas até se recuperar de surtos de raiva assim, além da necessidade de uma boa e generosa dose de whisky de fogo.
—Ha algo de errado – ele afirmou, talvez ela tenha mudado de ideia novamente… talvez repensado… analisado a situação…
—E se eu não conseguir? — ela perguntou, desviando o olhar… seus olhos ainda estava vermelhos e ele entendeu que ela estava lutando contra algo ali, lutando contra o medo de fracassar — eu sei que todos estão cheios de expectativas sobre isso… sobre o ritual — ela estava tentando algum autocontrole — Antony… Catie… agora elas, as irmãs, e o senhor… mas eu nem sei exatamente o que fazer lá… eu nem sei onde ir… o que dizer… — ela estava abrindo suas inseguranças para ele, como se ele merecesse tal entrega, mesmo depois de tudo, como ela podia?… — eu sei que tem essa coisa da predestinação e isso por si só deveria bastar… mas ainda assim, estou com medo — ela confessou para ele, e uma lágrima sutil desceu pelo seu rosto, já bastante marcado, ele já não sabia quantas vezes a havia visto chorar em todos aqueles meses, eram muitas... mas ela não era uma criança comum e ela não chorava por qualquer coisa… ele nunca poderia criticar o choro dela, ela tinha muito pelo que chorar… e se não bastasse, ele ainda conseguia contribuir com o seu choro… e a culpa de vê-la sofrer… parecia de alguma forma sufocá-lo…
—Poção calmante — ele revelou… ela levantou os olhos em sua direção.
—Não obrigada… eu estou bem… quer dizer, já estive melhor é claro… mas estou bem — ela recusou como se aquilo se tratasse de uma oferta… mas nesse caso não era.
—O que quero dizer é que o caldeirão explodiu enquanto estava preparando um novo estoque de poções calmantes — ele se sentiu compelido a ser honesto com ela, aquela era uma troca justa e como esperado a informação despertou seu interesse.
—Mas… como poderia ser?... uma poção calmante... ela é… — Shara silenciou mais uma vez.
—Sim… uma poção fácil, uma poção que pode ser tranquilamente preparada por alunos do terceiro ano, uma poção que estou acostumado a preparar já que é preparada com bastante frequência por mim para abastecer as enfermarias da escola… é isso que está pensando, estou certo? — ele perguntou e agora não soava mais de forma tão humilhante como parecia ser da primeira vez… ela assentiu… ainda confusa.
—O senhor disse que estava distraído… e se isso tem alguma relação com o ritual… então o senhor também acha que... que eu posso... não conseguir? — ela perguntou… um tanto quanto aflita, ela havia deduzido aquilo através da forma deturpada que ela tinha de se enxergar no mundo, a forma como ela foi conduzida a acreditar ser... e ela fazia muito isso, mas ela estava errada, aquelas não eram verdades ao seu respeito e havia muito a trabalhar nesse sentido.
—Shara — ele segurou seu queixo — eu estaria mentindo se dissesse que o ritual não é uma preocupação para mim, como pode ver... é, mas definitivamente não dessa maneira… o que me preocupa é o fato de não poder, ou de não conseguir protegê-la… daquilo que desconheço, daquilo que não posso controlar ou prever... mas eu não tenho nenhuma dúvida sobre o que você pode e é capaz de fazer, e diante de tudo que passou e fez esse ano, você também não deveria ter… e acredite nenhuma predestinação foi necessária para me fazer enxergar isso… – ele disse numa tentativa de faze-la entender de uma vez por todas que tipo de bruxa ela realmente era... ela era brilhante.
—E eu... eu não tenho nenhuma dúvida… de que se o senhor estiver lá comigo… de que eu estarei segura — ela acrescentou, sim em contrapartida ela acreditava nele, e aquele era um sentimento agridoce para ele, afinal saber que ela depositava tanta confiança nele, enquanto ele mesmo se sentia tão incerto e impotente diante do desconhecido, era desafiador... mas havia algo inegável ali, algo que transcendia suas dúvidas, e isso era sobre a conexão entre eles dois… e a forma como se completavam.
—Parece — ele fez uma pausa para estudá-la — que acreditamos muito mais um no outro do que em nós mesmos — ele disse por fim… e ela sorriu ligeiramente, seus olhos ainda um pouco inchados, mas havia um brilho diferente ali... ele havia conseguido alcança-la... e isso era tudo que ele mais queria – eu quero que aceite o meu perdão Shara – e embora ele já tivesse se desculpado antes, havia ainda um bom tanto a se desculpar, uma vida talvez… e ele precisava recompensa-la de alguma forma — eu estava errado... e o meu comportamento foi tudo menos apropriado... portanto... aceite...
—Eu sei que o senhor está fazendo o seu melhor – ela o interrompeu – e é isso que importa para mim – sim ele definitivamente não merecia uma criança como ela... diante dela, ele se sentia exposto e vulnerável, e não de uma forma ruim... ainda que fosse algo completamente incomum para ele... que estava acostumado a ter controle sobre suas emoções, e manter uma fachada de indiferença e autoridade... mas com Shara não... ela era sua redenção, a sua fraqueza e sua razão de viver… e por esse motivo ele se entregava a ela por inteiro.
—Ainda assim, me permita... fazer algo – ela o olhou de forma curiosa – algo para me redimir – ele ofereceu... enquanto convocava utensílios de cozinha limpos — que tal... — ele continuou tentando relaxar um pouco — que tal fazermos uma nova fornada de biscoitos juntos? – ele sugeriu, aquilo era novo também... e não que ele se sentisse completamente a vontade em propor algo assim, mas valeria a iniciativa — com minhas altas e qualificadas habilidades em poções, acredito que poderei recompensa-la com o melhor biscoito de canela que já provou em toda a sua vida – ele tentou soar de forma presunçosa ao dizer aquilo e ela piscou algumas vezes, claramente surpresa pela oferta.
—Sério? — ela perguntou, a incredulidade estava evidente mais uma vez em sua voz.
—Sério — ele respondeu, tentando manter um tom sério, mas havia um toque de descontração que ele não conseguia esconder — Vamos fazer uma nova fornada de biscoitos de canela... desta vez, sem explosões... Shara soltou uma risada abafada, a tensão começou a se dissipar.
—Tudo bem — ela disse, ainda um pouco hesitante, mas havia um certo entusiasmo ali — eu fico com a farinha e os ovos – ela sugeriu se aproximando da pia... e ele a observou se movendo pela cozinha com sua confiança renovada – acho que deixarei as especiarias com o senhor... não quero correr o risco de errar as medidas – ela ironizou, aparentemente ela era muito boa em dar ordens também... ele bufou, cruzando os braços, e foi quando Shara pegou o pacote de farinha nas mãos... e se virou para encara-lo com um brilho travesso no olhar e um sorriso de pura satisfação... que ele suspeitou que ela estava planejando algo com aquilo, contudo era tarde demais e antes que ele pudesse reagir, ela jogou uma nuvem de farinha diretamente em sua direção.
—Isso – ela começou — é pelo erro gravíssimo de explodir um caldeirão – ela explicou – sendo assim terei que descontar cinquenta pontos da Sonserina — ela declarou, imitando perfeitamente o tom rude que ele costumava usar em sala de aula — um erro inaceitável, mesmo para um professor — Severo ficou surpreso por um instante, mas sem tempo de revidar, uma nova nuvem de farinha o atingiu – e isso... é por descontar sua frustração em um mero e pobre elfo doméstico desastrado — ele se recuperou, tentando abrir os olhos para contemplar aquele sorriso amplo que havia transformado o semblante antes carregado de tristeza em algo muito melhor — e isso… — uma terceira onda de farinha o atingiu — é por ser um completo babaca — ele estava irreconhecível… talvez mais branco do que o próprio barão sangrento e ela gargalhou alto... certo… ele não podia resistir ao som daquela risada... ele sacudiu a cabeça, numa tentativa vã de tirar o excesso de farinha de cima do seu cabelo oleoso, já as vestes… bem as vestes era um caso perdido.
—Ah, é assim? — ele disse, com uma ameaça divertida em sua voz — Você quer mesmo começar uma guerra, comigo? – ele a provocou... ela riu ainda mais, recuando ligeiramente.
—Se o senhor conseguir pegar alguma farinha antes que eu me defenda — ela respondeu, os olhos brilhando de diversão, mas ele era mais rápido e sem usar magia verbal o pacote de farinha que ela segurava já estava em suas mãos — você vai pagar por isso — ele disse aquilo em tom de intimidação, mas havia uma leveza ali — dessa vez não haverá clemencia... então sugiro que se renda, antes que eu acabe com você – ele a desafiou.
—Jamais – ela devolveu de forma corajosa.
Então ele pegou um punhado de farinha e começou a lançar em sua direção, Shara soltou uma gargalhada sonora e genuína, desviando-se com bastante agilidade do ataque, mas ele não iria desistir tão facilmente... aquilo havia apenas começado, ela podia ser mais ágil, mas ele certamente era mais esperto... e foi assim que a sua cozinha, sempre tão impecavelmente limpa e organizada, logo se transformou num ambiente caótico e coberto pelo pó branco, aquela sim era uma boa bagunça, algo que ele jamais toleraria em circunstâncias normais... sim o Severo Snape que todos conheciam era meticuloso, rígido e intolerante ao menor sinal de desordem... no entanto, naquele instante ele descobriu uma nova faceta de si mesmo, uma parte que podia abraçar aquele caos todo e encontrar satisfação na simplicidade de uma guerra de farinha.
Sem mencionar que a risada dela era deverás contagiante, e logo ele se viu rindo com ela, uma risada verdadeira, algo que ele não se permitia ter a anos... não quando ele tinha que ser o temido professor de poções em sala de aula, o mestre do sarcasmo e da impunidade em público, e agora ele estava ali... brincando com ela, como se fosse uma criança da mesma idade, sentindo-se livre de um personagem que ele era obrigado a carregar... e por um momento, ele parou para observa-la desejando que o tempo parasse também... o seu rosto estava completamente branco, exceto pelos olhos verdes e brilhantes e pelo sorriso radiante... ela era a personificação da beleza inocente, e isso o atingiu com uma força inesperada... sim ela era realmente dele, e ele era realmente dela... como a vida podia proporcionar algo tão bom para alguém como ele? Abençoada era Maeva, a mulher que o cativou, que enxergou aquilo que nem ele viu, que lutou por aquilo que queria, prosseguindo com uma gestação ruim em tempos difíceis... sim abençoada foi Maeva, a quem ele amou, que venceu as adversidades em meio ao caos, que se permitiu acreditar em um mundo melhor, e ouvir o seu coração, e não as vozes a sua volta, ela que de alguma forma lhe proporcionou o maior e melhor presente de toda a sua vida... a filha deles, Shara Epson... ou melhor aquela era Shara Lowell Snape, a junção de duas histórias... e um destino improvável.
—Eu me rendo — ele exclamou cansado, levantando as mãos em sinal de paz... se ele quisesse ele teria facilmente a derrotado, mas ele não queria... — Você venceu, Shara – sim ela havia mesmo vencido, e isso não era sobre a guerra de farinha... ela abaixou as mãos ainda rindo, e ele se deixou escorregar, sentando no caos daquilo que deveria ser um piso de madeira antigo, ela fez o mesmo, se sentando a sua frente... ambos sentados no chão.
—Eu sempre soube – ela disse enquanto o analisava — que havia um lado divertido aí dentro em algum lugar obviamente que bem escondido... mas, bom... acho que acabo de encontrar — ela comentou com certa satisfação – agora se servir de consolo... o senhor se mostrou um adversário formidável numa guerra – ela completou... – veja... já que ficou com o segundo lugar – ela o provocou, ele bufou.
—Essa com certeza foi a coisa mais estúpida e irracional que eu já fiz em toda a minha vida – ele admitiu, vendo ela ficar séria.
—Está errado – ela corrigiu – a coisa mais estúpida e irracional que o senhor já fez na sua vida, tem mais haver com algumas escolhas do seu passado... se tornar um comensal da morte por exemplo, foi uma delas – Shara continuava séria, ela tinha um ponto de vista bastante interessante sobre o que era ou não estupidez... e ela estava certa, ele sentiu um aperto no peito...e aquilo o atingiu de forma profunda, mas não havia rancor na voz dela, apenas uma verdade simples e inegável... ainda mais por que ela era capaz de ver além do homem que ele fora, além dos erros que cometeu no passado... ela via o homem que ele estava tentando ser agora, por si mesmo… mas principalmente por ela.
—Sim – ele se viu admitindo – eu cometi muitos erros no meu passado aos quais me arrependo e tomei decisões que nunca poderei desfazer...
—Sabe, professor Severo Snape – ela usou o seu nome completo e o seu título – todos nós cometemos erros... alguns grandes como essa coisa de se tornar um comensal da morte e outros pequenos... como explodir um caldeirão numa aula de poções – ela piscou para ele – mas o mais importante mesmo, é aquilo que fazemos com isso... talvez o senhor não tenha percebido ainda, mas tem feito muito para corrigir os seus... – ela engatinhou até ele e se sentou ao seu lado... ele puxou e segurou a mão dela com firmeza em cima da sua, ela tinha uma mão pequena e delicada.
—Reconheço que nunca fui muito bom em expressar meus sentimentos – ele disse ainda olhando para a mão dela, completamente branca pela farinha, pensando em como teria sido segurá-la quando ela ainda era apenas um bebe — Mas você... Shara é a prova de que algo bom pode sair até mesmo das decisões mais difíceis – ela se acomodou contra ele, se sentindo à vontade ali — eu diria até… que você é a minha oportunidade de fazer as coisas certas... – havia tanto ainda a ser dito sobre isso, mas decidido de que apenas uma coisa bastaria, ele a estudou por um momento e então disse — eu amo você, sua garotinha estúpida – sim ela seria a sua eterna garotinha estúpida…
—Eu amo você pai – ela sussurrou de volta... e naquele momento, no meio de uma cozinha desordenada e coberta de farinha, Severo Snape sentiu uma paz que há muito lhe escapava e era bom.
—Sabe – ele disse, chamando sua atenção — acho que podemos estabelecer uma nova tradição aqui – e então ele sugeriu.
—Uma tradição? — ela repetiu — e o que seria? – ela perguntou, tentando se aconchegar um pouco mais nele.
—Guerra de farinha – ele mesmo sorriu ao dizer – apenas nas férias é claro... – ela riu, e aquele som o deixou ainda mais relaxado.
—Acho uma ótima ideia – ela disse animada – embora até eu posso ver que essa é na verdade uma estratégia típica de um Sonserino orgulhoso e inconformado por ter ficado na segunda posição… uma revanche é claro, mas não se preocupe da próxima vez... eu serei mais caridosa e deixarei o senhor ganhar... – ela ironizou.
—Oras sua garota insolente... – ele disse, fingindo ter se ofendido, enquanto passava os braços em torno dela.
Sim, sua cozinha era uma bagunça completa, assim como o seu laboratório de poções e como havia sido sua vida naqueles últimos meses, mas havia algo extraordinariamente belo naquele caos todo... e isso era a felicidade. Ele sentiu as lágrimas se acumularem em seus olhos e não tentou escondê-las... pela primeira vez em anos, ele permitiu que as emoções fluíssem livremente, sem barreiras e sem restrições.
Naquele instante, enquanto olhava para ela, segurava a sua mão e sentia o seu calor contra ele... Severo Snape compreendeu e sentiu-se grato por cada momento que haviam construído, cada reviravolta, cada erro e cada escolha feita dentro daquela história, porque no final das contas tudo isso o havia levado até eles e até aquela ocasião, uma guerra de farinha, risos e lágrimas, e então ele soube que havia encontrado algo verdadeiramente valioso: uma nova chance de recomeçar e ser feliz… sim o destino podia mesmo ser bastante improvável.
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