Destinos Entrelaçados.
1 Nada é como queremos.
Notas iniciais
Eu sou bonita.
Não, não estou me vangloriando e muito menos estou sendo vaidosa, ser uma mulher bonita no meu mundo não é uma coisa boa, não no tempo em que eu vivo.
O mundo está no seu ápice tecnológico, mas é claro que tudo tem um preço a se pagar, o nosso mundo é basicamente dividido entre os ricos e a escória, se você algum dia tiver a chance de conhecer Baltic a cidade dos ricos, tenho certeza que se apaixonaria, as luzes os prédios, os carros voando, e a energia que cercava tudo, seu robôs e androides, parece um mundo de fantasia, até conhecer o outro lado, a fome e a miséria domina aquela parte, a minha parte, aqueles que não tem dinheiro como nós, vivem aos montes, escondidos em pequenas cidades e aldeias, mas escondidos do que? Monstros? Bichos ou fantasmas? Não, nosso único medo é nosso próprio semelhante, afinal depois de um tempo para os ricos não bastava ficar com 70% do planeta, com 90% da comida e dos recursos, eles agora querem brinquedos, pois já não bastam seus androides e mecanismos, agora eles querem brinquedos humanos, nós somos caçados por coletores para virarmos escravos, apenas um objeto para ficar a mostra, apenas para que os ricos mostrem o quanto tem poder.
Os coletores são caçadores pagos especialmente para vir atrás de nós, homens se nem um traço de compaixão que arrancam crianças dos colos das mães se assim seus clientes pedirem.
E é por isso que temos que desaparecer, construímos nossas cidades com tecnologia o suficiente para nos esconder de forma precária, nossos disfarces não tão bons e nossos campos de forças não tão fortes, porém fazemos o possível.
Mas como eu já disse sou bonita, e isso não é bom, pois sempre somos os primeiros a serem pegos, tento não imaginar o que acontece com as pessoas que são levadas, até por que ninguém nunca voltou para contar a história, tudo o que sabemos são apenas suposições e fantasias.
O pior é que eu tenho tudo para ser normal, tenho 16 anos e cabelos castanhos escuros, que de certa forma são quase negros, a pele branca pela falta de sol, vivemos quase exclusivamente cobertos por uma camada de proteção que impede os coletores de nos encontrar, mas também não deixa que o sol entre, meus olhos são estranhos, como se fosse de um marrom claro, mas nem chega a ser mel, sei que minha forma física soa estranha, mas de alguma forma meus cabelo conseguem ficar bonitos, de uma forma meio liso, meio ondulado, o que me fez repica-los perto dos ombros, numa tentativa vã de deixá-los esquisitos e tirar os cachos, de alguma forma eles continuam bonitos, para meu desespero, lavo o rosto constantemente, e nunca, nunca passo nem um tipo de maquiagem, a última coisa que preciso no momento.
Para a nossa sorte, eles nunca veem para nossa direção, nossa cidade fica localizada no meio da floresta.
– Anna – Match bateu na minha cabeça – o que está fazendo?
Match é meu melhor amigo, na verdade é o único, ninguém quer ser amigo de alguém que pode ser lavado a qualquer momento, porém tenho certeza de que não preciso de mais ninguém, ele e Vicky já são o suficiente para mim.
– estava tentando dormir um pouco – murmurei.
Estava deitada na colina, a solidão era algo realmente bom quando ninguém quer ficar perto de você.
– não deveria ficar tão exposta os coletores podem te ver – ele se sentou do meu lado.
Como uma maré de centeios os cabelos de Match iam dourados em todas as direções, ele tinha olhos castanhos assim como os meus e sardas em todo o rosto, braços e mãos, o que estragava a beleza dele, para sua sorte, Match é três anos mais velho que eu e desde que me encontrou, quase morta de fome e raquítica, veio cuidando de mim e da irmã mais nova, como se fossemos uma família.
– eles nunca vem nessas bandas – me espreguicei – não temos pessoas interessantes aqui.
– hey, e eu? – ele se fez de chocado – sou estonteantemente sexy, tão lindo que dói.
– tem razão – dei um meio sorriso – você seria motivo o suficiente para que eles venham para cá, cuidado, vão expulsar você.
– viu? – ele bateu no meu braço- sabia que....
Um barulho ensurdecedor tomou conta de toda a colina, vindo da cidade, era nosso alerta geral, dava para ouvir da cidade algumas instruções sendo dadas as pessoas que ali estavam, me coração deu um salto, isso só podia significar uma coisa.
– impossível – murmurei – eles nunca vem por aqui.
– parece que mudaram de ideia – Match estava em pânico – vamos, temos que sair daqui.
Uma luz iluminou minha mente fazendo-me lembrar o que eles faziam quando pegavam pessoas bonitas acompanhadas, eles sempre matavam, para que no futuro, os parentes e amigos não se vingassem, é por isso que ninguém quer chegar perto de uma pessoa bonita, é como um passe para a morte.
– não – me afastei – vá embora, saia de perto de mim, não é seguro.
– Anna eu não vou deixar você.
– cala a boca e sai de perto de mim – gritei – você tem que salvar vicky.
Usar a irmã mais nova dele como desculpa ajudava muito, ele sabia que não podia deixa-la sozinha, Vicky também poderia ser levada.
– se esconda – ele pediu correndo em direção a cidade – não deixe que te levem.
Comecei a correr da direção contraria no exato momento em que um clarão tomou conta do céu, olhei para cima em desespero, eles haviam quebrado nossa cúpula de proteção, nosso campo de força já era, agora todos estavam à mercê deles, e eram dezenas em suas motos voadoras atirando dardos paralisantes nas pessoas como se fossemos animais.
Talvez para eles fossemos mesmo.
Entrei na floresta a procura do esconderijo que Match e eu havíamos feito para caso isso acontecesse, nunca pensamos que um dia usaríamos, sempre me veio à mente que vivíamos isolados demais para sermos encontrados, nos meus 16 anos de vida nunca, nem um coletor passou perto daqui, e agora, de repente, eles chagam aos montes, tem alguma coisa errada.
Encontrei o carvalho que dava entrada ao nosso esconderijo e retirei a porta que era feita de ferro, coberta de musgo e folhas, desci as escadas até o quarto que havíamos construídos debaixo da terra, deva para ficarmos ali tranquilamente, afinal, éramos apenas nós três, não posso me dar ao luxo de me importar com os outros.
Ouvi um barulho lá de cima, e subi as escadas para observar, Match vinha correndo puxando Vicky pela mão, uma garotinha de 9 anos com os mesmos cabelos dourados e olhos castanhos, mas infelizmente, para ela, sem as sardas, sorri e corri para abrir a porta.
Meu sorriso de alivio desapareceu assim que vi três coletores atrás deles, não deu tempo de avisar antes que Match fosse atingido no pescoço e Vicky na perna, eles caíram alguns metros a minha frente e tive que cobrir a boca com as mãos para não gritar.
Não.
– pegamos mais dois – eles desceram das motos.
Eles estavam com capacetes que não permitia que víssemos seus rostos, e todo o corpo estava coberto por uma armadura mecânica azul que deveria ajuda-los a se locomover, além de proteger é claro.
Eles levantaram Match pelos cabelos, e pude ver o pânico em seus olhos, ele não conseguia se mover por causa do dardo, mas seus olhos transmitiam o medo que ele não podia demonstrar.
– que pena – o coletor murmurou – você não é exatamente uma beldade, conheço alguns milionários que gostam especialmente de meninos.
Ele deixou o corpo de Match cair no chão e se dirigiu a Vicky, lagrimas silenciosas saiam de seus olhos. Ele a levantou elas trancinhas.
– pelo menos não temos perda total – dava pra senti-lo sorrindo – mate o garoto, não queremos parentes vivos.
– Não – gritei.
Não podiam mata-lo assim, na minha frente, sem que eu fizesse algo.
Sai, pretendendo lutar com unhas de dentes, não iam mata-lo, não iriam leva-la.
Naquele momento eu deveria ter considerados algumas opções, primeiro, eu não tinha nem uma arma aparente, segundo eu era apenas uma, terceiro, eles estavam armados, e em bando.
Só que o desespero pode ter levar a fazer loucuras.
Assim que abri a porta, seus olhares foram de surpresa a deboche numa velocidade incrível, senti uma picada forte no ombro e cai a alguns centímetros de Match, meu corpo estava totalmente preso, como se meus nervos e ossos não obedecessem, frustrante, desesperador.
Olhei para Match pedindo desculpas pela burrice que havia acabado de fazer.
Meu corpo foi levantado e senti uma dor horrível no couro cabeludo.
– Quem diria que tínhamos uma pedra preciosa tão linda por perto e íamos nos contentar com bijuterias hein?! – o que me pareceu o líder começou a rir – Eu agradeço por você ser mais bonita do que inteligente, por que se não teríamos encontrado você.
Ele me pegou no colo e me pós deitada na parte de trás, desconfortável e minha cabeça ficava pendendo livre.
Minha visão periférica, viu quando pegaram vicky, fazendo com ela o mesmo que comigo, e então...
Mataram ele...
Simples, assim, tiraram a vida do meu melhor amigo, sem se importar com isso.
Eles levantaram voo e senti náuseas conforme íamos nos separando do chão, sempre odiei altura, se não estivesse paralisada pelo dardo estaria paralisada de medo, mas naquela hora não foi isso que me preocupou, o que me assustou de verdade, foram as motos decolando por toda a cidade, levando cada um consigo suas vítimas.
E eu sou uma delas.
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