Destinos

5 Capítulo 05. L'amour Est Un Oiseau Rebelle


Notas iniciais
Deleitem-se (ou não).

1936. Paris, França.

Camus não poderia estar mais feliz. Após quase três anos de dedicando-se quase que exclusivamente à pesquisa, enfim era reconhecido como uma mente expoente da termologia. Em plena juventude já participara de meia dúzia de eventos como expositor e possuía artigos publicados em revistas de destaque. Era convidado a integrar grupos de pesquisa formados por reconhecidos mestres e doutores e, em meio a tudo isso, mantinha com facilidade suas notas acima do padrão.

De cima do palco, sob o olhar atento dos ouvintes, o francês explicava sua pesquisa com naturalidade, como se já nascesse falando o jargão científico. Observava a dificuldade dos calouros em compreender grande parte das expressões que usava e, mesmo assim, não mudava o linguajar. “Se quiserem entender, que corram atrás”, pensava.

É verdade que, por muitos, era tido como esnobe. Camus não se importava, sabia que educação não era algo medido por sorrisos, mas por polidez e discrição, traços que todos admiravam naquela figura ruiva e distante.

Estava imerso em sua apresentação quando alguém na platéia chamou sua atenção. Nas últimas fileiras, um rosto conhecido sorriu ao perceber que Camus o fitava com curiosidade e um pouco de irritação. Finda a apresentação e os questionamentos, o francês dirigiu-se ao ouvinte para saber o que o trouxera a tal local, esquivando-se dos bajuladores de plantão que insistiam em segui-lo para onde quer que fosse.

Quando finalmente se livrou do bando que o cercava, viu-se frente a um Milo ansioso, ostentando um sorriso de orelha a orelha para si.

— Não deveria estar no trabalho a uma hora dessas? – Perguntou o ruivo com sua costumeira cara fechada. Acostumado com a aparente frieza do amigo, Milo apenas deu de ombros.

— Fui dispensado mais cedo hoje – Respondeu o grego, de modo misterioso.

— Posso saber o porquê?

— Sabe o que é isso? — Milo puxou do bolso um pedaço de papel e o estendeu para Camus.

— Eu deveria? – O francês levantou uma sobrancelha em curiosidade, notando que se tratava de uma carta bastante formal.

— É a resposta daquela revista. Sabe o artigo da hemofilia¹?

— Não me diga que... – Vendo o sorriso no rosto do amigo, Camus compreendeu a situação e não pôde deixar de alegrar-se por ele. Deixando de lado a habitual impassividade, envolveu o amigo num forte abraço, parabenizando-o pela conquista.

Há algum tempo, Milo tentava publicar um artigo sobre uma possível solução a crises de hemofilia, uma fórmula que viria a salvar inúmeras vidas e revolucionar a história da medicina. Consistia em um preparo injetável que, adaptando-se ao organismo do indivíduo, possibilitava a coagulação sanguínea onde o corpo a necessitasse. Tal substância não saíra do papel nem do campo das ideias até o momento, mas o estudante ainda tinha outra novidade para contar ao amigo.

— A Normale aprovou a pesquisa, vão bancar meu projeto! – Contou Milo, orgulhoso de si.

— Ótimas notícias, sem dúvida, Milo! – Disse Camus, contente. – Mas como fará para se dedicar a isso enquanto estuda e trabalha?

— Detalhes... O tempo nós arrumamos, já temos os fundos e laboratório. Meio caminho já foi andado...

— Pelo contrário, meu amigo. Agora é que você deu o primeiro passo! – Riu Camus, enquanto se dirigiam para fora do auditório.

Foram comemorar a conquista em um bar bastante frequentado pelos estudantes locais. Era um ambiente pequeno e movimentado, o centro de toda a concentração social que cercava as faculdades da região. Lá podiam se encontrar alunos das mais diversas universidades e disciplinas, fato que tornava o local um antro de fofocas e exibicionismo pessoal.

A dupla sabia que contar seus objetivos e conquistas pessoais é o princípio do fracasso. Contentaram-se em pedir algumas bebidas e conversar animadamente entre si, apenas.

A cada gesto de Camus, Milo ficava ainda mais fascinado por ele. Seu jeito honesto contrastava com a aura misteriosa que emitia, suas opiniões tão sinceras e assertivas eram muito bem colocadas. Sua fineza e elegância, mesmo nas situações mais adversas, lhe davam um charme indescritível. Além de todos esses atributos à sua personalidade, também contava com uma beleza incomparável, desde seus raros cabelos rubros e sua pele levemente rosada, até seus olhos ardentes como o fogo.

Era uma pessoa sem igual, disso Milo tinha certeza. Porém, outra certeza também aflorava no coração o jovem grego. Teimava em admitir para si mesmo o quanto amava Camus e o queria por perto. Guardava em si um sentimento muito mais forte que mera paixão, nutrido por anos de convivência e admiração por aquele brilhante estudante de física.

Algo, no entanto, o impedia de declarar este sentimento tão belo o qual chamava de amor. Como o bom conhecedor de si mesmo que era, o rapaz tinha ciência do medo que o assolava sempre que formulava pensamentos românticos para com o ruivo.

Desde muito cedo já tinha consciência de sua orientação sexual, sem nunca contá-la a ninguém, nem mesmo a sua própria mãe. Temia por sua integridade, reputação e, principalmente, por sua vida, ao ponto de nunca sequer ter mantido um relacionamento amoroso com quem quer que fosse. Somado a todas essas preocupações, o medo da rejeição por Camus, o temor de perder uma amizade verdadeira e desinteressada, os boatos que surgiriam... Pensar em tudo isso era desmotivador e exaustivo, por isso, Milo se contentava em manter somente uma forte amizade com o francês.

Discorriam sobre assuntos aleatórios entre um gole e outro de cerveja barata, quando notaram uma estranha agitação em uma mesa não tão distante do balcão onde estavam. Foi quando ouviram um forte estilhaço vindo do local e algumas vozes exaltadas. Logo perceberam um grupo de três ou quatro rapazes em torno de uma garota, constrangendo-a com palavras obscenas e gestos rudes.

Prontamente os dois se puseram de pé para retirar a moça de tal situação, quando repentinamente um dos assediadores deu um forte empurrão na jovem, derrubando-a ao chão e manchando seu vestido com bebida.

Não demorou muito para que os amigos fossem ao auxílio da garota, levantando-a e verificando se ela não havia se ferido. Tinham ambos um senso de justiça e virtude muito aguçados para simplesmente ignorar uma pessoa em apuros.

— O que pensam que estão fazendo?! – Perguntou Milo, exasperado. – Quanta covardia!

— Não vêem que é uma mulher?! – Gritou Camus, cedendo à emoção momentaneamente por conta da atitude inaceitável do estranho e, em parte, do álcool. – Desprezíveis!

Um dos homens que estava importunando a jovem se manifestou. Era bastante esbelto e tinha cachos loiros que batiam nos ombros. Trazia um sorriso cínico e postura zombeteira. Certamente era alguns anos mais novo que Camus e Milo, porém não se mostrava nem um pouco intimidado pelos rapazes.

— O que importa se ela é mulher ou não? – Disse o desconhecido em tom irritadiço. – Sabe o que essa porca russa disse agora há pouco?

— Não interessa o que ela disse ou deixou de dizer, seu cretino! – Falou o grego, com uma raiva quase incontrolável.

Ao ouvir isso, o agressor percebeu o sotaque persistente de Milo e não perdeu a oportunidade de tornar-se ainda mais rude.

— Ora, quantos porcos russos por aqui! Parece mais uma reunião de sovietes! – Disse com desdém o sujeito, seguido dos risos de seus companheiros que participavam de toda aquela baixaria. Frases de aprovação como “Isso, Misty!” e “Você é mesmo hilário!” amaciavam o ego do rapaz enquanto ele se deleitava em ver as expressões de ódio nos rostos dos ofendidos.

— Eu sou grego, seu mauricinho karióli! – Gritou Milo antes de proferir uma enxurrada de ofensas incompreensíveis aos franceses, que se limitaram a rir e fazer pouco-caso.

Recobrando o bom senso, Camus logo percebeu que aquela discussão não os levaria a lugar nenhum, já estando a moça suja e assustada e ambas as partes visivelmente alteradas. Notou também que o dono do bar os encarava colérico e com bastante insatisfação. Teria de amenizar a situação antes que Milo e Misty partissem para as vias de fato.

De tão absorto em sua raiva, Milo não ouvia as ordens de desistência e Camus viu-se obrigado a praticamente arrastá-lo para fora do estabelecimento, deixando com o proprietário uma quantia pouco maior que o devido, como recompensa pelo tumulto provocado. Levou com dificuldade a moça assustada e o amigo exaltado para longe dali.

O trio parou em frente ao Panthéon de Paris, no Quartier Latin, e lá descansaram por algum tempo. Com os ânimos acalmados, os dois buscavam entender o motivo da confusão. Ao perguntar à jovem o que desencadeara a deplorável atitude de Misty, ela timidamente respondeu que era bailarina e chegara de viagem a pouco tempo e esperava algumas colegas de profissão no bar, quando o grupo se aproximou dela e começou a lhe falar obscenidades. Assustada, a garota ameaçou chamar o gerente e levantou-se para correr dali, quando um dos desordeiros a segurou pelos pulsos, de modo a derrubar uma garrafa, estilhaçando-a no chão. Em seguida, a moça deferiu um tapa em Misty, que perdeu o controle, partindo para a agressão física.

Ao ouvir tal história, Camus e Milo permaneceram chocados. Apesar de não duvidarem nem um pouco do ocorrido, achavam inadmissível que ainda houvesse pessoas capazes de tratar as outras de modo tão cruel no meio acadêmico.

— Escute, ficará tudo bem agora – Disse o francês a confortando, ao ver que a moça ainda tremia. – Meu nome é Camus e este é meu amigo Milo. Podemos te acompanhar até seu hotel, afinal, já está escuro demais e é perigoso andar sozinha por aí uma hora dessas.

— Muito obrigada a vocês dois – Falou enquanto tentava se manter de pé. – Mas não será necessário, eu ficarei hospedada na casa das minhas amigas... O único problema é que não sei o endereço delas, já que me levariam do bar direto para lá. Se me levarem até um telefone ficaria bastante grata à ajuda de vocês.

— Faremos isso, não se preocupe – Disse Milo de modo gentil. – Aliás, gostaria que me perdoasse por ter perdido a calma naquele bar. Acabei a assustando ainda mais...

— Não, por favor! – Apressou-se a russa. – Sou eu quem deve pedir desculpas a vocês por envolvê-los em tantos problemas!

— Qual seu nome, senhorita? – Perguntou Camus, voltando à sua seriedade habitual.

— Desculpe! Esqueci de me apresentar... – Respondeu a moça envergonhada. – Me chamo Natassia, prazer em conhecê-los!

— Escute, Natassia. Isso vale para você também, Milo – Camus proferiu de modo sisudo. Ainda havia resquícios de álcool em seu organismo. – Nunca se desculpem ou sintam culpados por defender seu orgulho. Nunca, jamais façam isso. Os verdadeiros culpados de toda essa história estão naquele bar, importunando alguma pobre alma neste momento. Não quero mais ouvir lamentações de vocês, vamos logo procurar um telefone.

Dito isso, os três se puseram a caminhar até um renomado hotel que se localizava nas proximidades do monumento. Conseguiram usar o telefone após um pouco de esforço, na tentativa de convencer o hoteleiro a cedê-lo por alguns instantes à moça. Feita a ligação, Natassia soube que a casa de suas amigas era um pouco mais longe que o esperado, além do rio Sena e aquém da Bastilha.

Sendo o endereço razoavelmente próximo ao apartamento de Camus, o francês se prontificou em acompanhá-la até o local. Tal convite despertou em Milo um sentimento jamais presenciado pelo grego antes. “Estou com ciúmes?”, se indagava.

— Posso acompanhá-los também! – O loiro apressou-se para oferecer sua companhia, apesar de seu apartamento situar-se na direção oposta ao destino da dupla.

— Não será necessário, Milo. Você mora à uma hora de lá. Não quero me sentir culpado caso você for assaltado na volta – Brincou Camus. – Cuidarei bem dela, fique tranqüilo.

— Mas...

— Muito obrigada pela preocupação, Milo – Natassia interviu – Mas creio que já fui um grande incômodo a vocês hoje, pedir para você vir conosco está fora de questão. Não quero ser um peso para vocês.

Naquele momento Milo percebeu que ardia de ciúmes de Natassia. Não a culpava, nem a Camus. A jovem obviamente não o impedia por maldade, mas por preocupação com a segurança do recém conhecido. Era realmente uma atitude louvável dispensar sua companhia para que pudesse voltar cedo para casa. Mesmo tendo ciência de tudo isso, Milo detestava a situação. Chegou até a se perguntar se ela realmente iria para a casa das amigas.

Nutriu pensamentos similares o percurso inteiro de volta para casa, amaldiçoando mentalmente o bando de Misty e sua estúpida atitude arrogante. Chegando ao edifício onde residia, pensou que finalmente encontraria um pouco de sossego para sua mente agitada, quando, ao aproximar-se de seu apartamento, pôde ouvir o som forte de certa vitrola tocando. Teve, então, a certeza de que seria impossível dormir esta noite.

Notas finais
Não fiquem com raiva da Natassia, ela não sabe de nada (inocente...) Espero que tenham se entretido com este capítulo :) Nos vemos em breve! hemofilia¹ = doença que impede a coagulação sanguínea em seus portadores, podendo que qualquer ferimento mínimo se torne fatal