Destinos

6 Capítulo 06. Qui Saura


Notas iniciais
E "quem tá vivo sempre aparece"!

1937. Paris, França.

Havia semanas, ou melhor, meses que Milo não pregava o olho. A dupla jornada de trabalho e estudos o desgastava mais que o suportável, principalmente após a formação do grupo de pesquisa para o tratamento da hemofilia.

É verdade que, no auge de sua juventude, o grego encontrara em sua pesquisa uma paixão como pouco se vê aos estudos. A cada descoberta parecia abrir-se um vasto horizonte a ser desbravado pela obstinada busca por uma fórmula perfeita, na qual aquele restrito grupo de alunos depositava todas suas esperanças.

Tratava-se, de fato, de um grupo bem pequeno. Apenas um professor-mestre estava responsável por quatro aspirantes a farmacêuticos que, sozinhos, executavam o trabalho de dez ou mais profissionais da área.

O laboratório cedido pela université era compartilhado com alguns outros grupos de estudo, motivo pelo qual o lugar se encontrava em constante desordem, sendo necessário investir diariamente boa parte do tempo a eles permitido para uso do local na arrumação e limpeza do ambiente.

Por diversas vezes os alunos, desprevenidos, deixavam quebrar potes de substâncias mal posicionados durantes essas limpezas, o que implicava em sérios problemas com a administração e os outros grupos. Numa dessas ocasiões inusitadas, uma aluna acidentalmente deixou escapar uma quantidade considerável de ratos de experimento¹ pelo laboratório.

Naquela sexta-feira, como de costume, assim que o espaço foi liberado, os estudantes logo se puseram a organizar o laboratório. Não era uma tarefa fácil, em verdade, mas a força do hábito tornava-a um tanto menos desgastante.

Já cansado de uma semana extensa, Milo organizava aqueles frascos e mais frascos de bases e ácidos distraído, lutando contra a iminente ameaça do sono, quando, descuidadamente, apoiou sua mão direita na superfície de uma caixa de papelão, sem notar que a mesma estava aberta. Sentiu seu braço afundar rapidamente dentro do objeto, surpreso demais para tomar alguma ação defensiva.

Após o susto que teve com o desequilíbrio, percebeu uma leve dor em seu braço direito, ainda posicionado dentro da caixa. Retirou o braço de lá fazendo certo esforço, devido à desagradável sensação que sentia no membro. Olhando-o com mais atenção, notou uma dúzia cortes e perfurações em sua pele acobreada levemente manchada de sangue. Foi então que percebeu onde havia metido seu braço e tentou não se desesperar.

“Idiota, como pôde colocar seu próprio braço no meio do lixo químico?” O grego se censurava, abrindo caminho até a pia. Pôs-se a lavar freneticamente o braço ferido pelas seringas e cacos de vidro, quando uma de suas colegas de pesquisa notou a incomum agitação do loiro.

— O que houve com seu braço? Por acaso quer doar sangue para o projeto? – Perguntou a moça, pensando ser tratar de algo não muito sério. – Está todo machucado...

A dor de Milo piorava a cada segundo, seu braço latejava a cada toque e movimento. Sentia sua pele ferver e suas veias dilatarem enquanto seus músculos se contraíam em agonia e sangue escorria ininterruptamente dos cortes.

— Me arranhei por aí. Está tudo bem, Shina – Respondeu com dificuldade, na tentativa de convencê-la a não se preocupar. Porém, mal terminara de dizer estas palavras quando sentiu um frio percorrer-lhe a espinha e a visão escurecer. Tentou manter-se de pé, apoiado na pia, mas logo seus sentidos falharam e o grego foi ao chão, completamente desmaiado.

* * *

Quando acordou, Milo não reconheceu o local onde estava. Era um recinto muito branco e amplo, com muitas lâmpadas para compensar a falta de luz natural no ambiente, provavelmente uma enfermaria. Reparou que estava deitado em uma maca e tentou levantar-se, porém uma forte dor em todo o lado direito de seu corpo recordou-lhe do acidente no laboratório, deixando escapar um uivo de dor e chamando a atenção de duas pessoas, cujas presenças ele ainda não havia notado.

— Não faça esforço, imbecil! – Shina se aproximou, acompanhada de um homem de jaleco, enquanto batia na cabeça de Milo com um jornal enrolado, obrigando-o a deitar-se novamente – Vai atrasar todo o projeto pela sua falta de cuidado!

A moça temperamental fazia parte do grupo de pesquisa e, Milo tinha de admitir, era um dos membros mais dedicados da equipe. Tratava-se de uma caloura italiana de cabelos pretos tão curtos quanto seu pavio. Às vezes o rapaz se perguntava se ela nutria algum parentesco com seu vizinho arruaceiro, apesar de nunca tê-lo visto pessoalmente.

— Senhorita! – O senhor que a acompanhava interveio, ríspido. — Não bata no paciente, isso pode atrasar a recuperação!

— Caloura idiota... – Resmungou Milo enquanto tentava erguer-se novamente. Dessa vez foi censurado pelo enfermeiro.

— Por favor, não se levante. Eu sou professor de enfermagem. Espere pelo menos algum tempo antes de deixar a enfermaria, você deixou-se tomar pelo desespero e acabou desmaiando em choque... Sem contar que ainda não sabemos que tipo de substância entrou em contato com seu sangue. Você precisará de bastante repouso, é certo. É provável que a dor de cabeça e a febre persistam por algum tempo, é uma reação natural de seu organismo. Também é possível que surja alguma espécie de alergia, portanto, fique alerto a qualquer sintoma incomum. Mas fique tranquilo, grande parte das substâncias que entraram em contato com seu sangue já foi eliminada, graças à hemorragia. Inclusive, já estancamos o sangramento e avisamos seus parentes...

Com sua consciência há pouco recobrada e bastante desorientado, Milo não pôde compreender muito bem toda a enxurrada de informações que o professor lhe transmitia. Até porque sua atenção dirigia-se não ao discurso do enfermeiro, mas ao jornal que Shina trazia consigo. Logo na manchete principal, podia-se ler em letras garrafais “Guerra no Oriente: Pequim ocupada pelo Japão”. Distraído pela notícia, o jovem entendeu apenas aquelas últimas palavras sobre estancar o sangramento e avisar parentes.

— Ah, eu não tenho parentes aqui... – Respondeu o rapaz, ainda um pouco desorientado.

— Pare de se fazer de sonso! – Exclamou Shina. Como sempre, tirando conclusões precipitadas. — Chamei aquele seu primo ruivo. Aquele que vive do teu lado! Ele estava no meio de uma reunião, não sabe como foi difícil falar com ele...

“Pft. Primo ruivo.” Pensou o ferido, “Mal ela sabe que Camus, na verdade, é...”

— Milo, meu amigo! – Seus pensamentos foram interrompidos pela mesma figura ruiva da qual falavam há pouco.

Camus entrou esbaforido na enfermaria, como se tivesse atravessado a universidade correndo. Estava tão diferente do habitual, com expressão preocupada e seus cabelos desgrenhados e suados por conta da corrida, que, por um instante, Milo pensou que talvez aquele não fosse o Camus que conhecia.

— Que susto você me deu! – O francês aproximou-se, ainda ofegante. – Está melhor?

— Sim, obrigado! – Milo sorriu, mentindo. — Inclusive acho que já posso ir embora, não?

— A situação não é muito grave... Ele apenas desmaiou por conta do choque emocional e da perda de sangue – Disse o professor enfermeiro, coçando o bigode. – Mas sugiro que alguém o acompanhe, apesar de seu quadro ser estável, nunca sabemos que tipos de reações seu organismo pode apresentar.

— Eu fico com ele — Disse Camus, envolvendo a mão livre de Milo. Notou, então que as mãos do amigo estavam geladas e molhadas de suor. – Você está suando frio... Tem certeza de que não quer ficar aqui por mais um tempo?

— Não, Camus. Esse lugar me sufoca – O loiro recusou. – E ainda terei de aturar essa garota me batendo com o jornal, como se eu fosse um cachorro¹...

Após a provocação de Milo, Shina bateu mais uma vez com o jornal em sua cabeça, deixando Camus e o professor pasmos.

— Pelo visto já está bastante recuperado, doutor! – A morena levantou-se, dirigindo-se à saída da enfermaria. – Se me der licença.

Após a saída da italiana, Milo gargalhou. Shina era realmente uma pessoa com bastante presença de espírito. Em certos aspectos, ela lembrava muito seu primo Aiolia, o qual não via desde que deixara a Grécia.

Depois de algumas semanas inconsciente, o irmão mais velho de Aiolia, Aiolos, morrera em decorrência de ferimentos causados pela briga com a pequena gangue de Julian Solo. Após esse acidente, pelas poucas vezes que encontrara o primo, desde então, pôde constatar que Aiolia continuava bastante vívido como antes. Porém, andava mais cauteloso, com a tez sempre franzida e uma insuperável mania de perseguição.

A perda de tanta gente próxima num curto período de tempo abalou profundamente o primo, muito mais que a ele mesmo. Ainda porque Aiolia carregava dentro de si todo o peso da culpa pela morte de seu irmão, incapaz de esquecer os acontecimentos que o levaram àquela tenda amaldiçoada.

— Essas mulheres de hoje em dia... – Disse o professor, despertando Milo de suas lembranças. – Agem como homens e vivem em busca de privilégios.

— O que você quer dizer com isso? – Perguntou Camus, perplexo.

— Ora! Existem limitações para o que uma mulher pode fazer. No meu tempo, uma mulher entrar na universidade seria um escândalo! Ainda mais uma garota vulgar como esta.

Os estudantes estavam chocados. Nunca imaginariam que um professor pudesse se sentir tão à vontade para difamar um aluno na frente de outros. Permaneceram calados por alguns instantes, sem saber como reagir, quando Milo quebrou o silêncio.

— Vulgar, para mim, é uma pessoa com ideias tão podres como a sua dar aula em uma faculdade – Respondeu em defesa da amiga.

— O que disse?!

— Talvez, na sua época, homens e mulheres tinham papéis bastante específicos na sociedade. Mas os tempos são outros, professor – Disse Camus, um tanto irritado. — Depois da guerra² as mulheres têm exercido um papel muito importante para a economia e para a ciência. Você pode até ignorar isso, mas não pode tratar seus alunos com diferença por não aceitar mulheres nas universidades. Ainda por cima exercendo uma profissão cuja maioria devastadora é composta por mulheres.

— Vocês são jovens demais para entender... Há diferenças claras entre as pessoas que jamais poderão ser superadas. Uma mulher nunca poderá ocupar o lugar de um homem, bem como um homem nunca deve ocupar o lugar de uma mulher. Inclusive recomendo a vocês, rapazes, a cortar esse cabelo. Usar o cabelo longo demais é coisa de mulher! Se andarem por aí assim, podem confundir vocês com mulheres ou afeminados. Cada qual no seu lugar. E essa regra se aplica a tudo! Veja, durante a guerra os alemães tentaram ocupar nosso lugar, invadiram a França. O que aconteceu com eles? Foram derrotados e humilhados vergonhosamente. Que isso sirva de lição para todos os estrangeiros que pensam poder ocupar o lugar de direito de nós, cidadãos da França. Porque uma coisa é...

— Camus, se eu ficar mais um segundo aqui, eu morro – Disse Milo, exagerado. Aquele inconveniente professor de enfermagem o insultara de todas as maneiras possíveis. Se não estivesse debilitado pelo envenenamento e pela perda de sangue, o grego já teria dado uma lição naquele senhor há muito tempo.

— Certo, eu te levo pra casa – Suspirou Camus, apoiando Milo em seu ombro. Antes de sair da enfermaria, no entanto, o ruivo virou-se para o professor uma última vez.

— Por acaso o senhor lê os jornais? – Perguntou Camus, de soslaio.

— Mas é claro! – Respondeu o professor enfermeiro.

— Pois deveria saber que há alguém bastante conhecido, cuja linha de pensamento se aproxima muito da sua. Tanto, que fico impressionado por conhecer alguém que pense assim como ele e nem tenha pudores em admiti-lo.

— Verdade? – O senhor empolgou-se. – Devo admitir que eu mesmo não fazia ideia de que isso era alguma coisa, para mim não passava de senso comum! Permita-me perguntar, é um filósofo novo ou cientista?

— Pelo contrário. Creio que o senhor o conheça muito bem, afinal, ele governa a Alemanha há quase três anos – Disse Camus, retirando-se do recinto junto do amigo e deixando o professor de enfermagem imerso em seus pensamentos.

Notas finais
Camus 1 x Profs 0 Espero que tenham gostado do capítulo e perdoem minha demora. Mas é aquele ditado: "O apressado come cru e quente". Antes criar um conteúdo de qualidade, mesmo que demore, que escrever um capítulo meia-boca só para cumprir prazo, não? Aliás, estive sem internet por esses tempos e pude trabalhar com mais afinco nessa fic. ¹ "ratos de experimento" e "bater como se fosse um cachorro" = Apenas esclarecendo que sou terminantemente contra qualquer tipo de abuso animal. ² "depois da guerra" = Primeira Guerra Mundial (1914 - 1918) Nota de esclarecimento: As opiniões aqui apresentadas não necessariamente refletem os princípios da autora. Até a próxima!