Destino ou não - Brittana

27 Universo e suas ironias


Notas iniciais
Oh, life is bigger...

“Você acabou de ouvir Scar Tissue de Red Hot Chili Peppers aqui na rádio...”

Blá-blá-blá. Ora, e quem se importava com isso? O rádio do automóvel continuava o seu trabalho normal. E as líderes de torcida? Localizavam-se lado a lado nos bancos confortáveis do conversível prata de capota levantada que, cobria a escuridão e as estrelas da noite céu acima. Ambas as estudantes, mal haviam notado a melodia transmutar de uma hora para outra naquela rádio-qualquer, pois estavam caladas simultaneamente desde a última frase emitida por Santana. “Eu lembrei o que aconteceu entre a gente” foi o que a latina acabara de declarar.

Então... Ela se lembrou, não é? Foi do nada? Quer dizer, significava que ela se lembrava de tudo, agora? Ou quase? Ela... Ela lembrou-se, enfim, daquilo?

Mas, de tudo o que? E daquilo o que? Perguntas, perguntas e mais perguntas. A loira precisava era de ar puro. Aliás, super-puro. Sede de ar, não água. Que inferno! Os vidros das janelas estavam fechados por acaso? Ela olhou e, aparentemente, não. Estava bem ventilado por ali até. E as janelas totalmente abertas.

Não faltava oxigênio, faltava alguma outra coisa.

O que a oração dita pela outra adolescente queria dizer de fato? Lembrar-se de algo. Poderia ser qualquer coisa do mundo. Brittany não sabia se tais palavras referiam-se exatamente ao beijo de Halloween delas, ou se era sobre qualquer questão alheia que viajava pela cabeça da morena na ocasião, porque claramente, era difícil entender o tom de voz misterioso da Lopez, e mais ainda, imaginar o que ela poderia estar pensando sobre. Não é? Perguntas demais surgiam para respostas de menos. Uma porcaria.

Quer dizer, vamos lá, Santana devia estar pensando em várias e várias coisas assim como Brittany, ela não estava sozinha nessa, só podia ser isso.

Por mais que, já tivesse assumido a verdade para a outra garota, Santana Lopez ainda encontrava-se resgatando imagens e sensações do subconsciente-quieto, sobre a madrugada de 31 de Outubro... E bom, ela estava conseguindo com sucesso. Coisas foram chegando e chegando, em flashs mais rápidos que os de Brittany.

Vejamos o que a Lopez passou a evocar da mente...

Britt-Britt, a pirata que, ela roubara da sua rival capitã Barbie-Fabray, havia levado ela até o seu quarto na casa de Alma Lopez, após saírem da badalada festa de Kitty Wilde. Depois, disse coisas sem relevância alguma (segundo, é claro, o desinteresse nítido do cérebro-bêbado de Santana), seguidamente a loira sentou em sua cama, frente a ela, continuou falando sabe-se-lá-o-que com a sua voz graciosa e a policial-Lopez com seus olhos castanhos que, junto a sua “total” atenção, naquele momento, estavam direcionados e ocupadíssimos com a bandana vermelha envolvida em fios louros, avante.

Fazer o que, aquele pano com bolinhas era um dos melhores acessórios na fantasia, obviamente.

A morena levou as mãos ao rosto da outra, subiu-as até a raiz da bandana, puxando-a para trás da cabeça de Brittany, livrando os cabelos loiros dela, e então algo interessante havia acontecido, nesse processo, que foi nada mais, nada menos que, a reação da Pierce. Ah, como aquela bandana poderia ser mais envolvente que o rosto bobo com que a outra ficou, depois da ação instantânea da morena? Nunca poderia. Nunca. O foco mudara, e agora o pano não era mais ouro.

Portanto, a latina deixou a bandana de lado na cama, e logo se concentrou em deslizar os dedos carinhosamente por uma franjinha loura que, a cada dia estava maior e ela amava, levou alguns fios de lá para trás da orelha da garota e fitou olhos azuis surpresos.

Brittany iria perguntar algo, por conta de tudo isso, “Por que você...” ela tinha começado a falar, e parou subitamente ao ouvir o que lábios carnudos deixaram escapar, ou seja: que a loira era fofa. Tão fofa. E assim, Santana despediu-se. Como se já não fosse o suficiente, curvou-se na cama, em direção a Pierce e uniu a boca às bochechas quentes e rosadas da “amiga”.

Esse foi o estopim. Santana se distanciou bem devagar, os olhos azuis olhavam para ela, para sua face, alternando entre a altura dos seus olhos e sua boca, e Brittany passou a parecer agitada enquanto fazia isso. A latina aparentava não entender nada do que estava acontecendo ali. Mas, ela sabia. Ela sentia. Isto é, ela soube mais ainda quando assistiu a outra fechar os olhos após acabar com as distância entre elas, novamente. Santana esperou, sim, como no dia do farol, quando estava hipnotizada por certa dança, entretanto, diferente de lá, desta vez não fugiu, não recoou. E por quê? Era o álcool no sangue? Só podia ser o álcool.

Culpa do álcool!

Recordou-se então, de cada sensação. Cada uma delas. Sensação por sensação detalhadamente, como se estivesse acontecendo pela primeira vez, agora. Sentido por sentido. Tudo de novo:

Viu olhos azuis fechados. Sentiu os lábios, levemente abertos, serem tocados por outros suaves e macios, selando os seus com intensidade. Inalou o perfume gostoso da outra, que adentrava os pulmões, sossegado. Constatou uma necessidade de apagar as luzes irritantes do quarto, as pálpebras desceram e tempo e espaço não importavam mais, tudo escuro. Ouviu um pequeno estalo ecoar no ambiente. Notou a respiração nervosa da outra cessar aos poucos...

Sentiu os lábios finos, apenas eles, roçarem docemente nos seus, após o selinho primordial. Sentiu, progressivamente, o corpo de Brittany deitar-se contra o seu. Apreciou o contato das costas com o colchão. Sentiu outra língua tocar a sua, acariciando-a, quando ela permitiu, e movimentos apurados iniciaram-se disso...

Experimentou o gosto do álcool presente em ambas às bocas mesclarem-se, deliciosamente, com auxilio das línguas unidas. A velocidade aumentou gradualmente. Descobriu que, talvez, nada pudesse acabar com a fome gerada de mais e mais daqueles lábios suaves, certeiros e novos a seu conhecimento. Reconheceu uma mão delicada acariciar seu rosto, no lugar ideal...

E por fim, ela tateou a cintura da pirata-sem-bandana e puxou-a para mais perto do próprio físico, apertando-a em si. No entanto, tudo foi interrompido à medida que o álcool em excesso decidiu mandar um “olá” do estômago latino, a partir de um enjoo imediato. Droga! Foi quando, sem pestanejar, Santana deixou a escuridão e Brittany irem embora, soltou-a e subiu as mãos bruscamente, empurrando os ombros da Pierce para longe de si, e sem olhar para trás, correu para o banheiro.

E o consciente de Santana arrastou-a de volta ao presente, quando seus ouvidos ouviram a voz de Brittany...

Sant... – A Pierce chamou, e limpou a garganta com dificuldade, meio inquieta no assento ao lado. – Santana, você... Você falou que se lembrou do que aconteceu entre a gente... Certo? Do que é que você tá falando?

“Is this love that I'm feeling...”

Quê? O que? Por que Whitesnake estava tocando? E justo com aquela letra maldita? Não, não era isso não senhor vocalista-iludido. Amor não existe. Nem o gostar devia existir. Nada é real, tudo não passa de uma ilusão. Humanos são carentes idiotas. Santana tinha certeza disso, a culpa de tudo o que havia acontecido era da bebedeira e sua personalidade adquirida, em consequência, de imbecil, chorona e carente.

“This must be love...”

— Brittany, você pode desligar essa coisa?! Por favor.

— Claro... Tudo bem.

A loira esticou a mão rapidamente em direção ao rádio e apertou sem querer o botão errado, mudando de estação, ao invés de desligá-lo.

“I kissed a girl and I liked it...”

Ha, ha. Muito engraçado. Só podia ser brincadeira do universo, filho da p... Katy Perry deveria calar-se com aquela canção, ela era doida, nada a ver. O que estava acontecendo? Coisa. Que coisa.

“The taste of her cherry chapstick...”

— D-desculpa... – Brittany disse, conseguindo, finalmente, desligar o aparelho do conversível tampado, atrapalhada. – Pronto... Pronto.

A morena apertou a bandana nas mãos, ainda olhava para o acessório, passou a língua no lábio inferior o umedecendo.

— Madrugada de Halloween. Você sabe muito bem do que eu estou falando, corac... Pierce.

— Eu sei...?

A forma com quem Brittany falara “Eu sei” não parecia muito com uma afirmação, na realidade, assemelhava-se a uma pergunta confusa. A latina não queria a outra se fazendo de desentendida. Ninguém merecia.

— Sabe... – Ela expressou, firmemente. – Muito. Bem. Brittany.

— Ah... – A loira pronunciou, ela teria que falar sobre aquilo do qual decidira fugir agora, sentiu o coração mudar a frequência de batimentos, em seguida. – Então...

— Você estava mentindo sobre a história da barata no meu banheiro, para fugir do assunto, ou o que?

— Hã? Não. Isso é verdade...

— Sei. – Santana sibilou. – Mas, não era por isso que você tava estranha ontem.

— É... Não era.

Um silêncio instalou-se. Um silêncio onde existiam as respirações das garotas. Um, dois, três... Nunca acabava aquilo. Era tão apavorante. Era uma tortura.

— Vamos falar sobre isso. – A Lopez avisou. – Você começa.

— E-eu? – Indagou a garota, pasma. – O que você quer que eu diga?!

— Não sei... Aconteceu por causa do álcool, não é? Nós bebemos muito.

“Nós?” Ela que tinha bebido muito, a outra não chegara a seu nível de embriaguez. Bom, talvez Santana estivesse mais confusa que Brittany sobre as ocorrências do dia das bruxas. Sendo assim, a mais alta iria concordar com tudo o que a morena pretendia falar, afinal, estava recordando-se de Karofsky e companhia no minuto, e isso era ruim demais, ela queria que acabasse logo. Rápido! E os seus sentimentos por Santana? Seriam trancafiados nas profundezas do jovem coração. Como devia ter sido desde o começo. Ela sabia que era uma armadilha.

— É, foi. – Brittany mentiu, assentindo. – Foi sim... Totalmente o álcool.

— Eu sou outra pessoa bêbada.

— É... Eu também.

Brittany pensou em como havia feito o tal strip-tease no farol, concordou. Bebidas eram sacanas.

— Eu sou muito... Muito, diferente.

— Eu sei Santana... – Ela disse rindo, genuinamente. – Descobri que você chora bastante. Principalmente por causa de baratas...

Hum, até nessas horas você faz piada comigo agora, Pierce? – A latina questionou ironicamente, sorriu e olhou para o lado. – Tsc, tsc, tsc, sua alma está perdida, coração. Quem fez isso com você, hein?

— Ah... Ela tá é?

— Absolutamente! Sejamos sinceras. Você é a verdadeira mentirosa por aqui. Hipócrita...

Brittany suspirou de forma sutil e inspirou pacientemente.

— Olha Santana...

Shh, eu não ligo. – A estudante exclamou cortando a outra, antes de ela resolver falar seja lá o que fosse. – Eu entendo o porquê fez isso... Mentir, eu quero dizer.

Sobrancelhas loiras arquearam-se e olhos azuis encontraram castanhos ao lado direito.

— Entende?

— Sim. É pelo mesmo motivo que eu demorei pra falar sobre o farol. Álcool enlouquece as pessoas, apesar de ser maravilhoso. – A morena disse como verdade absoluta, e voltou a olhar para frente, alcançando o apoio da porta do veículo. – Enfim, tudo tem seus pontos positivos e os negativos, como a GayBerry disse antes de cantar que nem uma gralha hoje... Agora, eu tenho que ir.

— Ok... – Brittany falou, fitando a outra descer do carro e virar-se para ele novamente, acenou. – Tchau.

Ahn... Toma. – Ela devolveu a bandana por entre a janela para mãos finas, quase sequestrou o tecido sem querer, desta vez. – Antes de ir... Eu quero te pedir uma coisa Britt-Britt: não conte sobre isso pra ninguém, ok?

— Com certeza.

— Não vamos mais falar sobre isso, também. É passado. Essas coisas acontecem, é só a gente esquecer. Vida que segue. Não vai acontecer mais. Você sabe, eu sou het...

Esquecer, esquecer, esquecer. Se fosse tão fácil assim ela faria. Certo, Santana? Certo, Brittany? Aquela palavra não estava agradando-a ao sair dos lábios da latina, quis acabar com aquela tortura, de forma frenética, antes de a outra pronunciar aquela determinada palavra seguinte que, talvez fosse pior do que esta.

— Grandes amigas, Sant. Nós somos grandes amigas. Está tudo bem!

— Isso. Amigas. É por isso que eu gosto de você, Pierce.

Santana sorriu e Brittany retribuiu, enquanto pensava se para Sam, quando ela pediu que eles fossem só amigos, havia sido como uma adaga sendo encravada no peito dele, como estava parecendo no dela agora. Aliás, se ela gostasse do menino sua vida estaria bem mais tranquila. Se não fossem os olhos castanhos viciantes de uma morena, ela teria um pouco mais de paz... Bom, quem sabe? Ela não tinha como ter certeza no fim, sua vida era uma bosta em Rosefield antes.

— Boa noite Brittany, até amanhã. E... Obrigada de novo, pelos bolos.

— De nada. Boa noite Santana, até!

A Lopez se distanciou do carro, caminhando em direção a sua casa. E Brittany deu partida, era melhor a menina adormecer, quando chegasse ao condomínio de residências. A única coisa boa de seu dia havia sido a visita a bolaria, realmente.

(...)

E tudo no dia seguinte estava normal. Resolvido. Amém, sono, cama, tempo e derivados. Quarta-feira, 3º dia da primeira semana de Novembro, e o céu Rosefieldiano mostrava-se um pouco mais ensolarado do que no dia anterior. Ah, sim. Era um sinal. Depois das conversas, o clima entre Santana e a Pierce estava normal durante o período escolar. Renderam-se e se “esqueceram” daquilo, mais conhecido como beijo-travesso-doce, era o combinado. O dia estava comum desse ponto de vista. E então, chegou o fim da aula de espanhol, todos os alunos, do horário, estavam deixando a classe.

— Brittany, não vá embora ainda. – Pediu o senhor Schuester, apontando em direção a adolescente, fazendo um sinal para ela ir até ele, chamando-a. – Preciso conversar com você.

— Ok... – A loira disse aproximando-se do homem. – O que foi?

— Só espere os outros deixarem a sala... É sobre suas notas.

Santana observou os dois, intrigada, e pegou seu material, caminhando em direção à saída. A sala esvaziou-se, mas a latina permaneceu os assistindo do outro lado do corredor, a porta permaneceu aberta. William se curvou frente à mesa de educador, e folheou sua pasta preta, tirando uma folha de lá.

— Sua redação sobre o livro está excelente. – Ele confessou, com um sorriso. – Excelente mesmo, você teve ajuda?

Ela olhou para o papel e voltou aos olhos verdes do professor de cabelo encaracolado.

— Sim, eu tive.

— Estou impressionado. Quem foi? Quer dizer, se for do McKinley...

— Foi a Santana que me ajudou. Ela leu o livro inteiro pra mim e depois explicou. Então, foi mais fácil.

Schuester arregalou os olhos.

— Sério?

Ela confirmou e ele sorriu.

— Bom... – William entregou a redação de volta a ela. – Você tirou a nota máxima. Mas, infelizmente você vai ficar de recuperação esse bimestre... Uma redação não é o bastante, Brittany, sinto muito. Seu pai será avisado em breve.

— Ok...

E por um instante ela teve esperanças, e todos elas desapareceram depois disso. Pela primeira vez na história de sua vida, ela ficaria de recuperação em uma matéria. Que “grande” estudante. Onde estava a sua cabeça? O pesadelo começaria de novo.

— Não desanime por isso, tudo bem? Depois de ler a sua redação, eu tenho certeza que você conseguirá aprender a língua espanhola até o final do ano letivo. Faço questão de me empenhar para isso.

Brittany não disse nada, apenas assentiu, e saiu da sala. Quando botou os pés no corredor, passou a amassar a redação escrita, não havia adiantado de nada. De nada. Ficaria de recuperação. Isso estava acontecendo mesmo? Seu pai, o que ele iria pensar disso? Ela merecia todas as broncas que pudessem vir, deixou chegar a esse ponto, sabendo lucidamente das circunstâncias.

— Hey, o que é isso? – Santana interrogou, chamando a atenção de Brittany, que logo percebeu que o papel amassado sumira de sua mão e foi parar nas mãos da outra líder, que o desamassava. – Ah, essa é a redação do livro que você se esqueceu de me mandar, Britt-Britt?

— É. Agora, me devolve!

— Calma, eu ainda não li. – A Lopez começou a andar, correndo os olhos pelas linhas. – O que aconteceu lá dentro?

— Nada.

— Aham. – Ela parou no lugar e percebeu como estava bom o texto da outra, virou-se. – Por que estava amassando isso?

— Porque foi uma perda de tempo fazer. Eu estou oficialmente de recuperação.

— Sério? Como assim? Tá ótimo!

— Mas, não o suficiente.

— Hum... – A garota devolveu a folha à outra, e pôs as mãos na cintura. – Temos que ter uma conversinha com o senhor-gel.

— Não, Sant. Eu vou aceitar. Não é dele a culpa. É minha. Afinal, eu sou horrível em espanhol, e sou aluna... Ou deveria ser uma.

A Lopez revirou os olhos.

Pff, ele também é péssimo, coração.

— Isso não vem ao caso, eu... Já me conformei. Ok? Obrigada.

— Tá, como quiser. Se amassar folhas é se conformar, tudo certo. Pelo menos hoje foi o nosso último dia naquele clube...

— Garotas! Achei vocês. – Roz, a treinadora das Cheerios, pronunciou em bom tom, atrapalhando a conversa das líderes. – Tenho um recado, que eu já informei para a capitã-branquela. Bom, como a desenvoltura de vocês só vem melhorando, desde que entraram temporariamente no clube Glee, eu e o Schuester decidimos que vocês vão ficar mais um tempo por lá. Sem prazos dessa vez. Entendidas? Tchau.

A morena franziu a testa.

— Vocês o que?! – Santana questionou impaciente. – Como assim? A Fabray não disse nada sobre isso, não?! Pensei que ela queria voltar a rezar no clube de puritanas. Porque eu quero fazer qualquer outra coisa que não seja ouvir a Rachel cantar!

— Lopez, Lopez, você não aprende nunca. Não é garota? – Washington perguntou, parecendo julgá-la. – Esse seu jeitinho doce tira as pessoas do sério, não faça isso.

Santana a olhou debochadamente. A mulher mais velha logo apontou para a outra co-capitã estalando os dedos, para ela ser seu foco.

— Franguinha, repete pra ela, estou sem tempo. Vejo vocês no treino!

Roz sumiu.

— Essa cidade é uma palhaçada. – A latina deixou escapar, cruzou os braços e resmungou. – Não estamos livres de nada... Nunca.

— É. Melhor então não comemorarmos nada, Sant. — Brittany riu. – Por mim tudo bem, em relação ao Glee, sabe... Ele é bem mais legal de frequentar que o clube de celibato. – Santana pareceu feliz de escutar tal fato dos lábios finos, e a loira não demorou a sacar, o brilho demoníaco, nos olhos castanhos. – Não diga a Quinnie que eu te contei! Tá?

— Disso eu não tenho duvidas, anjo. Não tenho mesmo. Artistas versus freiras? Os artistas vencem... Só não posso te prometer que não contarei a Barbie. Essa pode ser a única coisa divertida no meu dia inteiro, tem noção? Eu estou péssima. Alguém tem que me acompanhar.

— Santana, por favor...

— Olha só, tá parecendo que o limite no corredor vai acabar e eu tenho aula com a Fabray agora mesmo. Coincidências? – A latina começou a correr, a voz irritamente provocante. – Tchauzinho, Brittany!

(...)

Quinta-feira chegou. E até ali, o trabalho de Santana Lopez no Breadsticks estava tranquilo. Afinal, tratava-se apenas do seu terceiro dia nas redondezas. Mas, é claro que, pessoas mal amadas do McKinley tinham que descobrir. Como sempre, cidades daquele tamanhozinho são sinônimos de: notícia rápida.

Ninguém merecia! Muito menos ela.

A adolescente parou em frente a aquela mesa, cheia de jovens de rostos familiares, entediada.

— E aí, o que vocês vão querer?

— Ah, eu não sei ainda... – Spencer Porter, o nadador, "lamentou" e apontou para os amigos que o acompanhavam, silenciosos. – Nem os meus amigos. Se você dissesse o que tem por aqui.

— Lê o menu, querido.

— Ah, claro! – Exclamou, pegando o cardápio da superfície e folheando-o. – Hum... Hum...

— Vai demorar muito, falso-Eminem? Anda.

— Nossa. Alguém já disse que você é muito grossa com os clientes, garçonete?

Santana segurou-se para não xingá-lo, resolveu então sorrir falsamente, quieta, como ele.

— Você viu que eu tirei o curativo do meu nariz? – Ele sorriu apontando para a face. – Até ganhei uma competição aí de nado livre, você deve ter ouvido. Assim como eu ouvi também que, está presa ao Gleexo. É... A Roz deve te odiar. Desculpe, sabe, por achar que você estava defendendo a nanica por simpatia.

— Aham, o que você vai pedir?

Spencer começou a fazer o seu pedido, e consequentemente Mason, Madison e Sugar fizeram seus pedidos. Foi quando se iniciou a palhaçada de vez. “Garçonete, garçonete, garçonete” os chatíssimos nadadores não paravam de chamar. Santana manteve a calma até o segundo prato trocado. Era um jogo.

— Hey, garçonete! – O Porter estralou os dedos, observando ela se aproximar. – Então, essa comida estava muito ruim. A pior de todas. Se bobear até um rato eu devo ter encontrado dentro...

Todos na mesa riram. Santana revirou os olhos.

— E daí? O que eu tenho a ver com isso?

— Leva de volta, não foi isso que eu pedi. – Ele empurrou o prato para o lado. – Ai, ai, esses funcionários gente, perdão.

Santana inspirou e sorriu, com força. O que estava fazendo com a sua vida? Aquele imbecil a sua frente, aquele estabelecimento, aquele emprego indesejável.

— Não. – Ela disse. – Não vou levar porra nenhuma, seu idiota.

— Oi? O que você disse? – Spencer se fez de desentendido, e esbarrou de propósito no copo de sua mesa, fazendo com que o refrigerante caísse no chão. – Opa! Vai com calma aí garçonete... Parece que você tem mais coisas pra limpar agora.

— Spencer... – Madison chamou do outro lado da mesa. – Vamos?

— Não, a garçonete ainda precisa limpar essa bagunça aqui.

— Ah, sim! Sem problemas. – Santana falou ironicamente, e pegou o prato, com os restos de comida, virando-o em cima do colo do loiro. – Assim tá bom pra você?

— Hey! – Ele gritou chamando atenção de todo o restaurante, ficou de pé. – Que absurdo esse lugar, olhe só a minha roupa! Cadê o gerente?

Alma Lopez, junto a outros funcionários, brotou no perímetro, para entender a confusão.

— Santana o que houve?

— Os funcionários jogam comida nos outros, aparentemente. – Spencer disse, parecendo incrédulo. – Eu exijo reembolso...

— Não se preocupa coleguinha, eu não trabalho aqui. – A morena arrancou o boton que carregava seu nome no uniforme, o jogou no chão e deu as costas ignorando as vozes que a chamavam atrás, saindo do Breadsticks. – Porcaria.

(...)

— Ainda bem que a Lopez trabalha agora, só assim pra você aceitar a sair comigo... – Quinn disse à Brittany, enquanto elas caminhavam pela rua em que, a capitã das Cheerios morava. – Porque né.

— Você pode parar Quinnie? Isso não é verdade.

— É sim, até me surpreendi de você não ter ficado lá, assistindo ela trabalhar no restaurante, que nem ontem. Aliás, o que tem de tão interessante em assistir alguém trabalhar, hein Britt?

— Eu não fiquei hoje porque você me chamou pra tomar milkshake... – A loira mais alta disse rindo e alcançando o canudinho do copo que segurava. – E sobre assistir a Santana trabalhar, bom... Ela fica bem de uniforme. Só isso.

— Uhum... Sei. – Fabray ficou pensativa por segundos e franziu as sobrancelhas. – Espera aí, você disse que só veio porque eu te chamei para tomar milkshake? Uau, Britt, obrigada.

— Não Quinn... Você entendeu errado. – Brittany notou o sorvete acabar. – É porque foi uma proposta irresistível. Entendeu?

— Não tente se livrar da culpa, amiga. Não vou te perdoar, por enquanto. Falando nisso, a Santana me disse que você não gostava do clube de celibato...

— Mentira! É mentira dela.

Olhos verdes espiaram de canto a reação de olhos azuis.

— É... Eu imaginei.

Elas riram e quando se livraram dos copos plásticos vazios de milkshake, em uma lixeira qualquer próximo à calçada, a Pierce sentiu o seu celular notificar algo.

[Santana]: Tá fazendo o que? [7:37 p.m]

[Brittany]: Andando pela rua. Como tá o trabalho aí hoje? [7:37 p.m]

[Santana]: Eu não trabalho mais. Enfim, você pode me encontrar? [7:38 p.m]

[Brittany]: Como assim não trabalha mais? [7:38 p.m]

[Santana]: Complicado. Se você vier eu te conto, simples. [7:38 p.m]

[Brittany]: Não sei se eu posso. Eu tô com a Quinn. Onde você tá? [7:39 p.m]

[Santana]: A caminho do farol. [7:39 p.m]

[Brittany]: Por quê? [7:39 p.m]

[Brittany]: Hey? [7:42 p.m]

[Brittany]: Você tá bem? [7:50 p.m]

A loira não tirou os olhos do celular, nenhuma mensagem nova chegou, ela ficou preocupada. O que tinha acontecido? Brittany desejava que nada de grave. Fabray olhou para a garota ao lado.

— Com quem você tava falando?

— Com a... Santana... Quinn, eu preciso ir, desculpa.

— O que houve?

— Nada. – Ela abraçou rapidamente a outra loira, tirou as chaves do carro do bolso e começou a se distanciar. – Até amanhã! Dorme bem. Outro dia eu durmo na sua casa, eu juro. Tá?

— Ok... – A capitã assentiu confusa. – Britt se cuida!

(...)

A Pierce nunca pensou que um dia botaria seus pés de volta ao penhasco do farol, e lá estava ela. Fitou o ambiente, apreensiva. Era difícil saber se aquele lugar continuava “abandonado”. Entretanto, a olho nu, a Lopez não se localizava ao redor.

Onde ela havia ido então?

Quer dizer, ainda tinha um lugar em meio à noite e as árvores e os grilos cantantes. Olhos azuis encontraram a torre do farol, quando ela se lembrou de Santana dizer que elas haviam invadido-a. Que coisa feia.

É... Parece que ela tinha que verificar.

Caminhou em direção à porta e percebeu que ela estava entreaberta. Que fosse Santana o ser que se encontrava do outro lado. A estudante passou a subir as escadas presentes no lugar, até o topo. Quando chegou, assistiu Santana deitada no chão de madeira, olhando para o teto, sã e salva, e suspirou.

— Então você veio. – A latina disse, sem tirar os olhos do perdido vazio do teto. – Pensei que ia ficar com a Barbie.

— Não. – Brittany falou, dando alguns passos até onde a outra estava deitada. – Fiquei preocupada com você.

— Ué e por que, coração?

— Não sei. – A loira sentou ao lado da Lopez. – Você é a ira, lembra?

Elas riram.

— É mesmo, gula? Fica calminha. Eu não vou me jogar do precipício.

— Fico feliz de saber... – Brittany deitou ao lado da latina. – Então, o que aconteceu?

Santana passou a contar sua recente confusão com o nadador-imbecil.

(...)

— O Spencer é muito chato, eu hein... – A Pierce fitou fixamente o teto escuro sobre elas. – Eu tenho certeza que você não perdeu o emprego, Sant.

— Que se foda esse emprego! Eu nem queria ele. Ultimamente tudo ao meu redor tem sido forçado. Eu odeio Rosefield...

— Eu entendo.

Elas calaram-se por uns minutos, até Brittany começar a cantarolar uma música. Ela era uma canção familiar. Santana tentou adivinhar mentalmente.

— Isso é Britney Spears mesmo, Britt-Britt? Seja mais original. Cantarola outra, pra eu adivinhar...

— Eu não.

A morena riu.

— Você sim, vai.

— Ok.

Brittany começou a cantarolar Ironic da Alanis Morissette. A outra líder de torcida avistou seu lado, rindo.

— Super-irônico, mesmo. – Santana comunicou levantando o tronco e apoiando os braços, um de cada lado do físico de Brittany, mãos no chão, prendendo a outra abaixo. – Eu amo Alanis Morissette.

— S-sério?

— Sim. E você cantarolando foi muito bonitinho, Pierce.

— Ah...

Teoricamente, Santana já deveria ter saído daquela posição depois de perceber bochechas brancas rosarem, todavia continuou ali. Olhos azuis e castanhos fitavam uns aos outros, curiosos, entretidos. Os cabelos negros da latina estavam quase tampando seu rosto, caídos sobre o ar, foi quando os dedos finos de Brittany alcançaram-nos e os prenderam atrás da orelha da Lopez.

E a distância? Estava diminuindo, sumindo e correndo para longe...

Notas finais
Até ♥