Destino ou não - Brittana

28 Hesito, negação e confusão


Notas iniciais
When I have nothing to say, my lips are sealed...

“Tum-tum... Tum-tum...”

Dois corações batiam em ritmos mansos naquela noite estrelada de quinta-feira. Brittany S. Pierce encontrava-se deitada na superfície de madeira que compunha o interior da torre do farol esquecido de Rosefield. E Santana Lopez era sua única visão que, mantinha-se sustentada pelas mãos no chão, nas laterais do corpo da outra líder de torcida, acima dela, assemelhando-se muito a um felino faminto.

Tum-tum... Tum-tum...

Isso, os batimentos do peito, eram as únicas melodias importantes no instante em todo o ambiente. À medida que olhos castanho-escuros trocavam olhares com azuis, como se dialogassem mutualidade, as pupilas dilatadas, foi difícil saber qual das garotas entretidas tinha, realmente, aproximado mais o rosto da outra, como puro-magnetismo. O calor emanado dos corpos vestidos era notável para ambas, e arrastavam-nas sem dó para onde queriam ir.

Elas estavam tão próximas que, o ar respirado por uma, era o mesmo que pela outra.

Só não era novidade alguma que, isso tudo, teve inicio após a atleta mais alta ter passado a mão carinhosamente por fios negros ao ar, a fim de prendê-los na retaguarda da orelha esquerda da morena, e assim poder enxergar melhor as feições dela. Bom, a questão é que, quando menos percebeu, a latina já havia apoiado um dos joelhos, firmemente, no chão e passado a outra perna em volta das coxas da loira abaixo.

E então, lábios carnudos colidiram com finos, de novo...

Olhos fechados. Corpos colados. Dessa vez, as adolescentes não sentiam gosto de álcool algum presente nas bocas, quando suas línguas fizeram um contato deleitável entre si. Ao invés disso, saborearam algo mais natural, embora Santana tivesse constatado um gosto doce quase idêntico a milkshake de chocolate nos lábios rosados.

Era gostoso, parecia ainda melhor que a primeira vez...

Os batimentos cardíacos, da Pierce, passaram a acelerar, quando a mesma se deu conta do que estava ocorrendo ali, e o cheiro da outra era delicioso e estimulante, não havia espaço para pensamentos bloqueadores, Santana estava montada nas suas coxas. Sua mão esquerda alcançou a face da Lopez depressa, dedos na base do pescoço, passou o polegar com ternura na bochecha suave da outra, e seu cotovelo direito apoiou-se no chão a auxiliando com o trabalho de erguer o tronco dali, para ficar ainda mais perto da latina. Sem parar o beijo, sentou devagar.

Respirações começaram a aumentar o volume e ecoar no espaço...

Entretanto, agora que Santana possuía os braços livres, pois não precisava apoiar-se mais no chão, ela sentiu necessidade de dominar os movimentos do beijo, tomou o rosto da loira com ambas às mãos e Brittany afastou a sua, da face dela, levando os dedos finos do rosto e chão, imediatamente, para a cintura da morena que se acomodava sobre suas pernas, apertando as mãos ali nas curvas, impulsionando e trazendo o físico da outra líder para mais perto do próprio. Santana deixou escapar um baixo gemido, afastando os lábios dos da outra que, logo os trouxeram de volta usando de aliada uma leve mordida no lábio carnudo inferior. Tão libidinoso de sua parte.

Os dedos finos adentraram sutilmente sob a camiseta da outra, na base das costas, tocando a pele morena.

A Lopez presenciava diversas sensações novas em meio aquela loucura. Incríveis, indescritíveis, totalmente desconhecidas ao seu ser. Sua língua e a de Brittany ocupavam-se apenas de “brincar”, urgentemente, tocando-se com exatidão e vivacidade, os lábios atritando-se alucinados de apetite, suavidade e agitação misturados na proporção perfeita. Mas, como o fôlego humano é limitado, a existência dele foi o causador para aquilo suspender-se.

Olá, realidade!

As testas das estudantes estavam agora unidas, os olhos ainda fechados, e as respirações ofegantes. Brittany soltou a cintura da outra, afastou o rosto e levantou as pálpebras serenamente, apoiando as mãos no chão atrás de si, estava desorientada. Santana e seus olhos castanhos fitavam a loira, suas mãos localizavam-se pousadas no pescoço dela, começou a distanciá-las, em silêncio total.

Ahn...

Aparentemente, a morena iria dizer algo, mas desistiu em meio a sua confusão quanto ao que acabara de acontecer, e desviou o olhar, endireitando a coluna. A Lopez então levantou, abruptamente, de cima das coxas da Pierce, virou-se e passou a andar, sem dizer uma palavra, em direção às escadas da torre. Por alguns segundos a loira ficou ali, parada, observando a parede, sozinha. Ela e Santana. Não acreditava que havia acontecido de novo.

Mas, no momento, a outra estava indo embora quieta e isso não parecia bom.

Brittany levantou do chão e correu até as escadas, descendo-as rapidamente, passou pela porta escancarada do farol e os olhos azuis encontraram a outra líder de torcida se distanciando em passos ligeiros pela grama, foi atrás da rota.

— Santana! – Ela chamou, e permaneceu caminhando. – Santana, espera!

A latina parou de andar, no inicio da trilha que a levaria para fora dali e suspirou, achando a outra atrás em seguida, cruzou os braços e olhou para o chão.

— O que você quer hein, Brittany?

— O que foi... Isso? Eu não... Entendi nada.

— Esquece isso! Tá? Só esquece. – Ela voltou a encarar a trilha de terra. – Estou indo embora, até amanhã.

— Pensei que isso nunca mais fosse acontecer... Eu só quero entender...

— Hum... – A Lopez riu debochadamente, encontrou Brittany e subiu os olhos castanhos até os azuis. – Não tem nada pra entender. Você não vê?! A não ser é claro o fato de que, você não levou a sério a história de “grandes amigas” de terça-feira. Sua mentirosa...

A garota mais alta arregalou os olhos, indignada com a frase.

— Eu, Santana? Eu não levei a sério? Eu sou a mentirosa? Ah, claro... Como assim? Foi você que me beijou agora!

— Quê?! Não, foi claramente você, Pierce... E eu não quero mais falar sobre isso. Então, o assunto está encerrado. Tchau...

— Por que você...

— Para de falar, Brittany! É sério... – Brittany abriu a boca para falar e Santana a cortou novamente. – Shh! Eu... Eu não quero ouvir!

— Você só sabe culpar as coisas Santana, é incrível...

— Oi?! Eu o que? – Santana se aproximou descruzando os braços. – O que você quer dizer com isso, garota?

— Primeiro você culpou o álcool e agora me culpou, sendo que nada disso teria acontecido se você não quisesse também, eu não te beijei sozinha nem no Halloween nem agora, vamos ser sinceras aqui...

— Você... Você... Olha, Pierce, eu não quero mais ser a sua “amiguinha”, entendeu? – A latina disse, dando às costas e ouvindo a outra a seguir. – Para de me seguir, caramba! Eu quero que você fique longe de mim.

O coração da loira apertou na hora, e ela petrificou, assistindo Santana ir embora.

Droga, droga, droga.

(...)

Depois de uma longa caminhada de volta à cidade, a morena chegou à casa de Alma Lopez e destrancou a porta do lugar com suas chaves, girando a maçaneta pensativa, entrando e deparando-se com a avó sentada no sofá da sala, com as feições nada amigáveis. Fechou a porta, esperando o pior.

— Santana, nós precisamos conversar sobre o que aconteceu mais cedo no restaurante.

— Ah, sim... – A garota não olhou para Alma, e andou pela sala em linha reta, até a porta de seu quarto. – Desculpa, mas eu não quero falar sobre nada agora. Eu vou ir dormir. Ok?

— Eu já avisei seu pai sobre a ocorrência de hoje...

— O que? – Ela finalmente encarou a mulher mais velha. – Por que você fez isso, abuela? O Cesar vai ficar enchendo o meu saco por isso agora, como sempre.

— Não fale assim do seu pai, niña. Ele faz de tudo por você, tudo. Senta aqui... – Alma pediu, indicando o lugar vazio no acolchoado. – Me diga o que está acontecendo com você.

— Comigo? Claro... – Santana riu ironicamente. – Não está acontecendo nada comigo. – A adolescente afirmou, cruzando os braços. – Só estou... Cansada de tudo, principalmente dessa porcaria de cidade.

— Sua vida só está no começo menina. Você não pode achar que as coisas possam ser resolvidas dessa forma, aos gritos e barrancos, use a mente, isso não é coisa de moça... – Ela apontou para o lugar no sofá, novamente, persistindo. – Agora sente Santana, e me conte a sua versão da história, por ter jogado comida em um cliente. Estou aberta para ouvir.

— Que bom...

A Lopez mais nova revirou os olhos, bufou e se rendeu, caminhando até o assento, onde se aconchegou ao lado da outra.

— Eu joguei comida no cara, porque ele é um hijo de puta da escola, abuela. Simples, ele estava fazendo graça, aquele imbecil...

— Entendi. Bom, você vai ter que se desculpar com os outros funcionários por isso, de qualquer maneira. Tudo bem?

Olhos castanhos ficaram surpresos, ela achou a face da avó.

— Eu não vou me desculpar por nada, o Spencer mereceu aquilo! E eu ainda acho que fiz pouco...

— Pode até ter merecido, mas você perdeu a razão ao jogar a comida nele, entende? E fez o Marcos e os outros terem que resolver o seu problema, niña. Agora, você terá sua ficha marcada por isso, e talvez...

— Eu não vou mais trabalhar no Breadsticks! Eu não me importo... – Santana esclareceu, levantou e caminhou até o quarto, sem olhar para Alma. – Quando o Doutor Cesar brotar aos gritos aqui, você pode me chamar.

— Santana!

Ela se trancou no cômodo.

(...)

E sexta-feira alcançou a primeira semana de Novembro. O fim da semana. Antes de adormecer, Santana havia discutido com seu pai, quando ele apareceu para lhe dar lição de moral, como ela sabia que ele faria, e ainda anunciar que ela iria sim, continuar trabalhando no restaurante. Coisa que obviamente, ela não faria, e estava pouco se lixando se Cesar se incomodaria com isso. Daria um jeito de fugir. Todavia, no momento, a líder de torcida estava mais preocupada com o que havia acontecido entre ela e Brittany.

O beijo... O segundo beijo, especificamente... Aquele que elas deram totalmente sóbrias.

Talvez ela tivesse sido grossa demais com a outra na noite anterior, com sua reação rude. Talvez a “culpa” do beijo fosse sua mesmo. Talvez fosse de ambas. Talvez ela quisesse certificar-se que os lábios rosados eram macios como se recordava em pensamento. Talvez quisesse explodir em mil pedaços por sentir que esse beijo conseguia superar o outro.

Talvez pensar nisso não fosse bom.

A morena terminou de se arrumar, uniforme das Cheerios no corpo, rabo de cavalo, tomou um rápido café da manhã que ela mesma preparou na casa vazia de manhã, e caminhou concentrada pela rua, quando saiu. Rosefield estava a dando dores de cabeça intensas, vai ver Brittany sentia algo assim quando elas se conheceram, e por isso escondia-se no penhasco. Bom, quem se importava? Era tudo culpa da Pierce, sua franjinha e seu jeitinho fofo, com certeza.

A Lopez tinha que resolver isso. Mas, não queria deixar de falar com a loira. Ela gostava da amizade dela. Ela gostava de ficar perto dela. Ela gostava das brincadeiras que elas tinham quando estavam juntas. Então, iria ir atrás de Brittany quando chegasse aos solos do colégio McKinley.

É... Tudo ficaria normal, de novo.

Porém, antes de tal ação, Santana precisava arrumar um jeito de se convencer de que, o que ela estava sentindo em relação ao beijo não passava de uma bobeira de sua cabeça. Afinal, ela era hétero, sim? Nunca havia pensado em ficar com uma garota, ou efetivamente ficado antes de Brittany, e agora estava em confronto com seu interior.

Como ela faria isso? Como provar a si mesma de algo?

Ela adentrou os corredores da escola, e chegou ao seu armário. Aula de história, ótimo. História poderia distraí-la. Entretanto, ela não apossou-se do material, ao ouvir a voz de Noah Puckerman.

Claro, era isso! Só tinha um jeito de saber.

— E aí Lopez? Fiquei sabendo do que aconteceu ontem com o Spencer. – Ele levantou o celular e mostrou-a um vídeo, onde a líder encontrava-se jogando comida no colo do loiro-babaca no Breadsticks, Puck riu. – Muito bom! Eu te amo muito, gata. Você é demais...

— Ah, ama é? – A estudante repetiu pensativa, ignorando completamente o vídeo mostrado. – Puck...

— Claro que eu amo. Você sabe, meu amor! O único problema é que...

Ela puxou o rosto dele, ficando na ponta dos pés e o beijou repentinamente, surpreendendo-o. No entanto, Santana não sentiu nada... Nada. Como ela não sentiu nada? Seu plano havia ido por água abaixo. A verdade era que, ela queria que acabasse rápido aquele beijo.

O mais rápido possível!

E quando Brittany passou pela entrada do McKinley e chegou aos corredores, foi aquela cena que ela presenciou. E agora sim, seu coração estava sendo apunhalado com várias e várias adagas afiadas. Ao que tudo indicava, a morena beijava qualquer um, ela, a loira, havia sido apenas mais uma. Santana empurrou Noah, impaciente, ele não havia prestado para nada.

— Wow, wow, problema nenhum. O que foi isso hein, Santana? Adorei.

— Isso não vai mais acontecer. Então, abaixa essa sua crina.

— Pensei que já não fosse mais. – Ele passou a mão nos lábios, satisfeito, sorrindo maliciosamente. – Se você quiser...

— Cala a boca, Puckssauro. Já falei que não vai mais acontecer. Estava testando uma coisa e você não serviu de nada, inútil. – Ela olhou para um lado do corredor e seus olhos encontraram azuis, chocados. – Droga...

— Que foi? Olha, você pode fazer quantos testes quiser em mim.

Santana desprezou Puck com os olhos castanhos e não disse nada, começou a andar em direção a outra líder de torcida, mas antes que ela pudesse chegar perto da mesma, Brittany virou-se, voltando para trás...

Estava de coração partido, não queria falar com a latina.

Notas finais
Até mais ♥