Notas iniciais
Hello, hello, baby...

Ah, os sonhos...

Como passar, tranquilamente, de um dia para o outro, sem a nobre presença deles? São tão maravilhosos e relaxantes e talvez até esclarecedores para os seres humanos. Quer dizer, alguns deles... Bom, há quem diga que, todos os sonhos possuem significados ocultos por trás, como se fossem, digamos que, conexões fortíssimas com a realidade, como verdadeiros sinais ou explicações, sobre alguns problemas e eventos cotidianos a serem resolvidos. Mas não para por aí, há quem diga também que, as imagens vistas são apenas frutos fantasiosos e inconscientes da mente fértil das pessoas, ou seja, não significam nada além de coisas soltas.

“Zzz...”

E é claro, por último, porém não menos importante, há aqueles indivíduos que, não se importam nenhum pouco em pensar nesta enorme e gigantesca besteira de sonhos, pesadelos ou qualquer coisa relacionada. Em outras palavras, o caso atual da jovem Santana Lopez. Sonhos, geralmente, vêm como resultado de sonos mais profundos (os com mais de seis horas de duração, especificamente) e a garota não estava habituada com isso...

Exceto, quando se embriagava.

Sem sonhos, era a triste realidade dela. Entretanto, independente de qual grupo, lá em cima, de ponderadores, estivesse milimetricamente correto, Santana estava dentro de um sonho agora. Só precisava entendê-lo...

Por que ela estava correndo tanto? E por que mal conseguia respirar direito no processo? Obviamente, ela conseguia correr mais que isso, não era uma fraca. Não era mesmo! Devia continuar forçando os músculos das coxas, mesmo sem encontrar fôlego nos pulmões, pois só assim, dessa maneira, talvez ela chegasse a algum lugar em meio ao ambiente confuso. Não é? Provavelmente sim.

Então, corra Santana!

A cada pequeno som, exalado dos galhos quebrando-se pela floresta repleta de rosas, seu coração acelerava mais e mais, como um carro que intensifica a viagem, sem rodeios, em estradas mal movimentadas, mesmo com o combustível limitado, e agora ela conseguia até ouvi-lo, junto à respiração. Não parecia tão ruim. E, enquanto pisava velozmente na grama verde abaixo de seus pés, as árvores, ao entorno, fechavam o seu caminho, como se a bela e delicada natureza, fosse esmagá-la, em seus galhos secos e vívidos, a qualquer momento.

Ok. Começou a parecer ruim...

Mas, do que ela estava fugindo mesmo? Ah é, ela não tinha ideia. De fato, só fugia e fugia, desde o inicio do espetáculo. Incrível, o que poderia dá-la tanto medo assim? Santana queria compreender. Todavia, se parasse de correr e espiasse, talvez morresse ou coisa pior e isso não era algo muito atrativo para a morena, nem mesmo em meros sonhos bobos.

Concentre-se!

A Lopez não sabia o que estava seguindo-a, claramente, muito menos o que o futuro guardava-a com tanto “carinho” escoltando a linha de suas ações. Contudo, a latina conseguia sentir a presença de outro ser, tão perto, agindo como um perseguidor profissional, e isso a trazia tamanha agonia.

Draga, droga, droga.

E permaneceu correndo em sua rota, cada vez mais estreita, até notar que, uma parede de vidro, bloqueava-a a passagem. Parou, tentando procurar outras saídas. Merda! Sem chance. Então... Este era o momento dela, finalmente, encarar o monstro? Ok, tudo bem por ela, essa parecia sua única opção no instante, fazer o que. Não existia nenhum espaço para reclamações. Suspirou e virou-se, aflita, percebendo então que, aquilo que a perseguia era...

O seu reflexo. Espera ai, não podia ser. Como assim? Por que diabos ela estava fugindo de si mesma? A sua imagem enviou-a um sorriso irônico em seguida, deliciando-se de sua face surpresa.

— Está tudo bem, não vou te machucar... – A Santana “falsa” esclareceu, esticando a mão até ela. – Apenas, pegue a minha mão, agora. E venha comigo...

A Lopez encarou a mão oferecida e deu um passo para trás, encostou-se ao vidro bloqueador, desconfiada, e arqueou uma sobrancelha. Não iria pegar a mão de sua cópia demoníaca assim tão fácil, o que ela estava pensando? Que insana! A outra se encontrava perseguindo-a até então, como uma assassina. Até parece que, a morena confiaria nela numa boa depois disso. Não tinha como. Não tinha.

— O que foi? Não confia em mim? Eu sou você, Santana! Acorda. Não seja idiota...

Ela não respondeu para sua imagem, aquilo parecia duvidoso demais, não iria fazer nada do que a outra pedisse, e tinha plena consciência disso. Ficou em total silêncio. Foi quando percebeu, repentinamente, o cenário desfazer-se, bruscamente, em volta de si. Tudo pareceu derreter, e a beleza não existia mais na natureza morta, um caos. O solo passou a afundar depois, e a cada segundo passado, a terra descia um centímetro. Estava presa em um verdadeiro pesadelo. Era difícil manter-se de olhos abertos com tanto barulho e movimentação rolando no ambiente, um inferno que só.

Tsc, tsc, tsc... Você que fez isso. Sabia? – O reflexo disse balançando a cabeça em desaprovação, aparentando pura decepção em suas feições, enquanto dava-a as costas e andava para longe. – Mas, vai se arrepender.

Santana tentou se mover, no entanto, não obteve resposta de seu corpo, estava presa na superfície plana, desesperou-se e enxergou sua imagem desaparecendo ao horizonte, esticou a mão no vácuo.

— O que?! Espera!

Tudo se apagou, severamente. E o que ela viu, antes de acordar, foram olhos azuis repletos de lágrimas em uma fração de segundo, piscou.

Fim do sonho.

O som que vinha do mundo real parecia bem pior. Péssimo, na verdade. Numa escala de zero a dez, o estrondo encontrava-se no número onze, ou talvez na posição doze, em relação, é claro, ao que vinha do pesadelo, de tão alto e importuno. Estaria até mais elevado que isso? Porque parecia só aumentar, à medida que, Santana tomava consciência de seu corpo, abaixo do abafado cobertor xadrez, mas ora, não era hora de pensar sobre tal.

Onde o aparelho estava, enfim?

Antes de despertar de vez, abrindo os olhos castanho-escuros, a Lopez desejou, com vigor, voltar ao caos de sua mente dormente. Honestamente, aquela canção exalada de seu celular tinha interesse, prazer e satisfação, em explodir a sua cabeça, e de quebra a sua pobre-alma junto. Ela tinha certeza disso. Tateou o colchão, o objeto não estava lá. Então, ela gemeu, manifestando a sua preguiça eminente, afundou o rosto no travesseiro, e fechou as pálpebras, novamente.

Que o sono voltasse!

Afinal, alguma hora o barulho pararia de ecoar. Mais cedo ou mais tarde, ele seria vencido pelo cansaço, ninguém era tão chato a ponto de insistir tanto numa ligação, não é? Quando raciocinou sobre isso, Santana desistiu de procurar o celular, logicamente. Ainda mais, quando a sua cama era tão gostosa como jamais fora antes... Ora, quem poderia culpá-la? Já que não estava ali por debaixo da coberta que a cobria, para que perder tempo e levantar atrás do eletrônico? Nem devia ser importante.

É. Só que, o inferno, continuou tocando no espaço, antes tranquilo, mesmo com a desistência da garota...

Sua audição estava pregando-a peças ou o que? Que vadia! Aquela merda estava perto, sim? Estava tão absurdamente irritante o som! Por que não se localizava na cama? Seria tão mais fácil o seu dificultoso trabalho de atender a simples chamada.

A líder de torcida levantou o tronco sobre o colchão, empurrou o cobertor xadrez com chutes ligeiros para longe e virou-se, sentada, levando os pés calçados por meias ao chão, fazendo caretas faciais no processo. Apoiou as mãos nos lençóis, após alongar a coluna, bocejar e passar a mão pelos longos fios negros de seu cabelo solto, alisando-os.

Que grande comecinho de dia, não é mesmo?

Santana piscou com força e viu as coisas, ao entorno, girarem um pouco, buscando focá-las, devidamente, o máximo que conseguia. Seu cérebro estava tão lixoso para raciocinar. E o enjoo evidente disse um olá. Maldita ressaca! A estudante constatou uma dorzinha em seus joelhos, e no resto de seu corpo, consequentemente. Odiava mais que tudo aquele tipo de fraqueza física... Nada que se comparasse a sua dor de cabeça. Mas, enfim, o que havia provocado aquilo? Ela tinha caído, escorregado, até se espatifado, ou sei lá, no chão rígido durante a festa de Halloween da senhorita Kitty Wilde na noite anterior? Ou, posteriormente a isso?

Pense, pense, pense Santana.

Nada veio, apenas uma dor aguda no interior de sua testa. Eram tantos quebra-cabeças no ar, com peças tão minúsculas e difíceis de serem encaixadas. Um estilo de labirinto. Santana não se recordava, mas, os seus joelhos doíam como resultado de sua, nada divertida, sessão de vômitos de madrugada, que começou após ela empurrar Brittany para longe dela, cortando o beijo travesso que rolava, e correu, atirando-se violentamente, com os joelhos, no chão do banheiro.

Bom, não devia ter sido nada de grave, ela deduziu, já que se encontrava sã e salva em sua cama...

“I'm a Barbie girl in a Barbie-World, life in plastic, it's fantastic...”

E o seu celular voltou a gritar para ela. Espera um pouco... Que porra era essa tocando?! Ela nem tinha percebido do que se tratava a música até aquilo. Que lerdeza sem igual. Desde quando o toque de seu celular era aquele? Por Deus. Ou melhor, pelos Deuses! Só podia ser zoeira de alguém, ela nem tinha aquela música em seu telefone. Nunca teve e nem teria. Agora ela tinha que descobrir o que...

“Come on Barbie, let's GO party!”

Como um clarão repentino, gerado pelo trecho cantado, a Lopez lembrou-se de como aquilo havia virado o toque oficial de seu aparelho pessoal, e sentiu vergonha alheia de si mesma. Quer dizer, nem tanto assim... Porque, no fim das contas, a situação passada era engraçada para ela.

Alguma hora, do dia anterior, na festa do dia das bruxas de Kitty Wilde...

Santana parou de pular quando percebeu sua companheira de dança distraída com algo ao redor, como por exemplo: a movimentação slow-motion que as pessoas passaram a ter, tudo fruto das luzes piscantes. Tão psicodélico, chegava a importunar.

— Tá cansada, é Britt-Britt? Que engraçado...

— Não! – Brittany negou e sorriu encontrando a morena por olhos azuis. – Por quê? Você tá por acaso?

— Você tem que pular! Sabia garota?

— Eu estou pulando, Sant! Daqui a pouco saio voando aqui!

— Mas é isso mesmo que eu quero ver, coração!

— Cha-ta! – A Pierce disse de forma alta e pausada, depois cruzou os braços. – Já te disse hoje?

A Lopez gargalhou e deu um empurrãozinho na loira. Alcançou, depois, um copo de plástico perto da estante da televisão da sala de estar e tomou a bebida. A música que ecoava no ambiente lotado mudou, e a garota devolveu o recipiente para o lugar anterior.

“Hi, Barbie!... Hi, Ken!”

— Nossa, eu adoro essa música!

— Você? É sério? Mas... – Brittany sentiu alguém segurar sua mão atrás de si, antes dela conseguir terminar de falar, e Fabray surgiu ao seu lado sorrindo. – Oi Quinn!

— Minha vez de dançar com ela, Lopez! Acabou seu tempo, tchau.

Santana segurou o braço da capitã.

Barbie, você chegou na hora da sua música. Incrível, é o destino! Vamos lá...

— O que?!

“You can brush my hair, undress me everywhere, imagination life is your creation”...

— É melhor a gente sair daqui, Britt. – Quinn comentou observando com desdém Santana cantar a música estrondeante animada, Brittany deu de ombros sorridente e a capitã a arrastou com ela para longe, quase que correndo, porém a Lopez seguiu-as pela sala, ferozmente, arrancando risos da loira mais alta. – Chega! Me deixa em paz, Santana!

— Eu sei que você gosta! É a sua cara. Vou até te homenagear, Quinnie... – Santana afirmou rindo, e deus alguns passos para trás, sumindo na multidão, ela gritou quando chegou ao centro do pessoal. – Hey povo! Quem aí tem essa música pra passar pra mim?! Venham!

Alguns adolescentes se aproximaram dela e ela escolheu qualquer um, que nem mesmo do rosto recorda-se em pensamento, para que ele pudesse passar a melodia via Bluetooth para o aparelho dela. Sorriu satisfeita, após a ação, e se afastou do garoto, cruzando com Puckerman (sem camisa) no meio do caminho.

— Tana, me empresta os seus óculos? – Ele pediu, olhando diretamente para o decote da morena. – Eu perdi o meu. Longa história...

Santana segurou o queixo do garoto e fez com que ele a olhasse nos olhos.

— E o que eu ganho com isso, Dino?

— Eu já sou o seu escravo por inteiro oficial-Lopez, você sabe...

— Mas é sempre bom confirmar, tenente-inútil. – A garota sorriu e afastou a mão do rosto do colega, buscando os óculos preso em seu decote e entregando para Noah. – Cuida bem dele! Se você quebrar, eu te mato...

— Tranquilo, captei a mensagem. Obrigado!

Ela voltou ao seu caminho, empurrando pessoas até chegar às loiras-piratas paradas na ponta da escada de carpete escuro da residência. Começou a rir descontroladamente, e Quinn revirou os olhos quando a Lopez levantou o celular e mostrou a nova música para ela, vitoriosa.

— Eu consegui...

Logo, a morena mexeu nas configurações de contato, concentrada.

— Pronto Fabray! Agora, o seu toque no meu celular, está digno da sua pessoa, personalizado de forma linda. De nada!

Aff Lopez, vai ver se eu tô na esquina, vai! Você tá pior que o normal...

Shh, fica quietinha capitã, e devolve a minha refém. Nós temos que dançar!

— Eu não! Sua grossa, ela vai ficar aq...

— Tudo bem, Quinn. – Brittany disse rindo, e limpando às gotas de lágrimas, geradas pela risada, dos olhos azuis, porque né: era hilário assistir aquilo, parecia um circo. – Eu vou...

A loira mais baixa abriu a boca chocada com a outra, ela realmente estava sendo trocada pela Lopez? Não podia acreditar nisso. A Pierce caminhou em direção a Santana, feliz.

— A gente dança daqui a pouco, ok Quinnie? Eu prometo, é que agora... – Os olhos azuis correram para a latina rapidamente, como se eles fossem setas e apontassem para a garota, dando sinais à Fabray. – Você tá vendo né...

— Como você quiser Britt. – Quinn compreendeu, cruzando os braços emburrada mesmo assim. – Eu vou procurar o Sam...

— A Barbie-original com o Ken-beiçudo, essa ideia é genial. Por que vocês ainda não se pegaram mesmo?

— Que?! Eu tenho namorado Santana!

— Ah é? Hum... – A morena pegou a mão de Brittany, fazendo uma voz irônica, e começou a se distanciar, como se não estivesse falando com a Quinn, e sim com a multidão. – Mas, sabe... Certas pessoas não combinam não. Nem um pouco, aliás... E “tipo assim”, é tão deprimente ver aquele Finnbaleia e...

— O que você disse?!

— Eu disse... – Santana olhou para a loira, e sentiu um aperto em seu braço em seguida, parou de falar no instante, encontrando olhos azuis do outro lado. – Que foi, Brittany?

A Pierce aproximou-se da latina quando ela voltou a encarar Fabray, com sangue nos olhos, castanhos versus verdes.

— Santana deixa a Quinn em paz... – Brittany enfim pediu em sussurros, na orelha morena. – Por favor, vamos logo dançar. Você não quer mais?

— Tá, vamos.

Voltando ao agora...

Então, tinha sido assim que aquela música havia ido parar em seu celular infernal? Tudo culpa dela mesma, interessante. A vida era tão comediante. Bom, a pergunta que não queria se calar no instante era: Por que Fabray estava ligando para ela em plena segunda-feira? Acordando-a dessa forma cruel. Que maldade.

Uma grande mal-amada de uma figa aquela loira!

A hora exata do agora era uma incógnita ainda, pois Santana só conseguia ver a claridade do dia vindo da frestinha de sua porta, meio aberta, o que já era o suficientemente doloroso a sua visão cansada. Jogou o pescoço para trás e levantou da cama ao ajeitar-se novamente. O barulho continuava.

“You can touch, you can play...”

Não estava longe, não estava. Ela agachou ao lado da cama, e encontrou o aparelho embaixo da mesma. Bingo, maravilha, finalmente! O pescou sem mais delongas e atendeu a chamada.

— Alô?

— Espero que você tenha um ótimo motivo pra ter me acordado... – Santana notificou, enquanto voltava a acomodar-se na cama. – Tipo caso de vida ou morte, ok Fabray? Pode falar.

— Você só acordou agora?! – A loira dos olhos verdes indagou e passou a rir, felizmente maligna. – É segunda-feira e já passou do meio dia, tá sabendo, Santana? Que desastre.

— Ah, você tá cuidando do limite do meu sono, agora Quinn? Não me lembro de ter contratado ninguém que fizesse isso por mim, estranho né? A propósito, não vou te pagar.

— Super “engraçada” como sempre! Ha, ha!

A morena afastou o celular do ouvido por um segundo.

Argh... Fala baixo, porra! Pelo amor, ninguém merece acordar assim não, queridinha.

— Ninguém, exceto você... – Quinn segurou as risadas, e respirou fundo. – Mas, eu entendi. Ressaca, certo? Você não pode reclamar de mim Lopez, você cravou a própria cova ontem! Merece estar assim, sejamos sinceras. Encheu a cara que é uma beleza, nem te conto o que fez...

— Hum, era isso que você queria tanto me dizer, Barbie-insuportável? Olha só, eu vou desligar, que perda de tempo. Ah, e mais uma coisa, para de me ligar...

— Não! Não era isso, espera!

— Então o que é? Vamos direto ao ponto Fabray, sei que você é dessas.

— A Britt tá ai?

A morena arqueou uma sobrancelha, e passou a língua nos lábios secos, antes de voltar à conversa.

— Ué... Não. – Santana respondeu, depressa, como se fosse óbvio. – Por que ela estaria?

— Não sei, talvez seja porque vocês vivem grudadas agora... E ela faltou na escola. Sem dizer que, ela não está atendendo as minhas ligações. E isso é estranho demais para a índole dela. Não concorda?

Santana começou a rir, encarando o teto de seu quarto escuro, balançou a cabeça sobre o travesseiro, acomodando-se de lado.

— Que foi, hein Lopez?

— Ah querida Quinnie, nada não, é só que eu parei pra pensar: que tipo de doença rara você tem, pra ir pro McKinley pós-festa?

— O mundo não para pra mim por causa de uma festa! Diferente de certas pessoas por aí, se é que você me entende... Agora, tem como você responder a minha pergunta ou tá difícil demais pra sua capacidade mental?!

— Cala a boca, por favor? Que escandalosa.

Grr... Vamos Santana, você sabe da Brittany ou não?

— Eu não tô com a Pierce, ok? E ela também nem deu sinal de vida por aqui, já que, como eu já havia dito pra você: Eu. Acabei. De. Acordar, Fabray! Mas, levando em conta toda a sua personalidade “incrível” colega, eu suponho que, ela talvez, deva estar fugindo de você, pra variar... Ou sei lá, só dormindo mesmo! Como eu deveria estar fazendo agora! Já pensou nisso? Apenas, deixe de ser uma inconveniente-mesquinha Lucy, isso pode ajudar na sua busca.

— Impressionante a sua falta de empatia, Lopez. Eu juro que não sei o porquê a Britt gosta tanto de você, sério.

— Pois é. Nem eu... Já sei, pergunte diretamente pra Pierce e não pra mim! Espero ter ajudado, eu vou desligar e voltar a dormir. Até mais!

— Não ajudou em nada!

A Lopez riu, e Quinn apertou o celular em sua mão, no meio daquele refeitório do McKinley, irritada com a garota do outro lado da linha. Que chata.

— Ótimo. Essa era a intenção! – Quinn bufou com a fala da morena, e Santana sorriu, suspirando posteriormente. – Bom, apesar de tudo, qualquer coisa eu te aviso, caso, a senhorita Britt-Britt aparecer ou der um sinal do além pra mim. Combinado, capitã?

— Ah, obrigada! Viu? – Quinn falou em tom irônico. – Muito gentil da sua parte.

— Disponha.

— Tchau, Lopez.

Tchauzinho, Fabray!

A morena desligou a ligação e esticou o braço, com o aparelho entre os dedos, para fora da cama, respirou fundo e expirou de forma lenta. Ela não ia conseguir dormir de novo. Ainda mais com aquela dor de cabeça. Estava na hora de sair do conforto perdido.

Santana levantou e deixou o celular sobre seu criado-mudo, em seguida direcionou-se ao banheiro, onde fez sua higiene matinal, e prendeu o cabelo em um alto rabo de cavalo. De rosto lavado, caminhou pela sala de estar, usando seu pijama, e nos pés apenas meias, até a cozinha onde abriu os armários e largou-os com as portas escancaradas, apossando-se logo de uma embalagem de torradas, uma caixinha de chá e outros objetos utilizáveis no lugar, naquele determinado momento.

(...)

A adolescente encontrava-se há alguns minutos com aquela xícara, estampada à-la-emoji-feliz, parada em sua frente, exalando fumaça acima, tão ridícula que doía. E uma torrada tostada e mordida em mãos, difícil de ser consumida por inteira, e que Santana fez questão de soltar em cima da mesinha de centro da sala que, apoiava uma bandeja servida de um prato de outras torradas e uma chaleira, além da xícara-feliz obviamente, quando outro barulho do universo martelou sua mente irritadiça, naquela linda tarde de segunda-feira.

“Din-don... Din-don!”

A campainha era uma desgraça. Santana localizava-se sentada no chão, com as costas no pé do sofá, de frente para a mesinha com os alimentos, e sua energia vital era quase zero. A líder de torcida revirou os olhos, massageou as têmporas com os dedos e se colocou de pé, caminhando até o olho-mágico da porta de entrada, como um zumbi que parecia ser, e sorriu.

— Você já pode parar de tocar! Estou te vendo, Brittany. – Informou a latina, com a porta fechada entre elas, a loira acenou e Santana passou a procurar as suas chaves nos ganchinhos do chaveiro que existia próximo ali, mas ele estava vazio, estranhou. – Calma aí, eu posso ter pedido as chaves em algum lugar da casa...

— Hey, Sant-Sant! Olha aqui.

Brittany levantou uma mão, através do olho-mágico, e nela encontravam-se as chaves da morena. Bingo.

— Não acredito que você tá tocando a campainha mesmo estando com a chave da casa... – Santana deu alguns passos para trás, rindo. – Só entra logo, sem cerimônia!

A loira fez o que a outra pediu e destrancou a residência, sendo recebida por uma morena de braços cruzados, pijamas e um torto rabo de cavalo.

— Oi!

— Oi... Você é uma figura, Britt-Britt. – Santana comentou, andando até o sofá e jogando-se nele. – Ai, ai...

— Por que eu sou uma figura? É por que eu toquei a campainha de uma casa que não é minha, Sant? — Santana assentiu para ela. – Eu só não queria chegar invadindo.

— Olha, tecnicamente não é invasão se você tem a chave, coração. Pense nisso.

— Então tá... Vou me lembrar. – Brittany fechou a porta, riu, e andou até a latina, em passos lentos, entregando uma sacola de papel preto a ela. – Eu consegui recuperar suas coisas ontem, graças a Quinn e o Sam.

— Recuperar o que? – Santana perguntou confusa e abriu à sacola, se deparando com seu chapéu de policial e seus óculos-escuros que compunham parte da fantasia de Halloween que usara. Ela havia perdido essas coisas? Engraçado. Quantas surpresas. – Ah, isso? Obrigada... Falando na Barbie, ela está te procurando que nem uma louca, pra você ter noção veio até dar piti via celular pra mim. Aconteceu alguma coisa?

— Ah! – Brittany exclamou, tirando o celular do bolso e checando as notificações. – É que eu acordei tarde hoje e depois deixei o celular no silencioso...

— Bem compreensível, quando aquela pessoa adorável vive te chamando. Eu faria o mesmo...

Olhos azuis encararam a morena sentada, enquanto uma das sobrancelhas loiras arqueou-se, de forma inconsciente.

— Hey! Não é por causa da Quinn que eu deixei no silencioso.

— Sei.

— É sério, Santana.

— Tá, eu não quero saber. Você quer torrada, ou chá? Pode se servir. Se quiser... – A garota enterrou o rosto nas mãos e o apertou, produzindo um gemido de reclamação. – Duvido que eu volte a comer.

Brittany sentou ao lado da Lopez, com cuidado, e observou-a.

— Você tá melhor de ontem?

— Você pode ser mais específica, Brittany? Não quero ter que adivinhar sobre o que nós estamos conversando, ok?

— Melhor dos vômitos, eu quero dizer.

— Ah... – Santana afastou as mãos da face e fitou olhos azuis. – Então, quer dizer que eu vomitei ontem? Parece ter sido muito “divertido”...

A loira arregalou os olhos ao ouvir a ironia explícita da última frase.

— Você não se lembra disso, Santana?

— Eu não... Enfim, eu tô morrendo de dor de cabeça agora, se isso te serve de resposta.

A Pierce desviou o olhar e passou a encarar a parede do outro lado da sala, respirou com força.

— E o que você se lembra de ontem?

— Hum... – A garota fechou os olhos castanhos e se espreguiçou no sofá. – Eu me lembro de dançar com você, de irritar a Quinn, de dançar com o Puck, de beber e de quando você sumiu da pista de dança também... É, acho que só isso, não é muita coisa. Mas, deve ter sido super-legal o restante da noite, devido ao meu estado podre de agora.

— Ah... – Brittany parecia pasma, seu coração disparou e ela começou a disfarçar suas expressões, Santana não se lembrava do beijo, com certeza. – Ok.

A Lopez abriu os olhos e alcançou a xícara de chá que a esperava na mesinha, tomando a bebida morna com calma, enquanto passeava com os olhos pelo ambiente, tentando recordar-se de algo a mais, e Brittany em total silêncio durante a ação.

— Eu nem sei como eu vim parar em casa. Mas deduzo que foi você, já que estava com as minhas chaves. Né?

— É, foi sim.

— Outro favor adicionado com sucesso a nossa lista... – A morena disse em meio a risadas. – Obrigada.

Silêncio total.

Um carro passou pela rua, trazendo algum som ao cômodo, Brittany suspirou. Suas mãos em cima das coxas, ela olhou para a morena ao lado dela finalmente, após turbilhões de pensamentos.

— Santana... Ontem você me disse que se lembrava do que aconteceu naquele dia do farol e eu quero saber.

— Eu o que?! – A latina afastou a xícara dos lábios mais uma vez, quase engasgando e gargalhou. – Nunca te disseram para não escutar pessoas bêbadas, Pierce? Eu não sei, desculpa. Eu devia estar muito brisada quando disse que sabia...

O que? Mas, o que Santana estava dizendo para Brittany? Afinal, ela tinha ou não lembranças, sobre o maldito período em que ambas ficaram bêbadas no farol abandonado de Rosefield? Era difícil saber com os sorrisinhos que ela insistia em expressar para a outra. Que coisa! Santana era uma coisa.

— Mas você disse que lembrava! Você vai mentir de novo, Santana?! Por quê?

Shh, fala baixo Brittany! Meu deus, a minha cabeça... O que te leva a achar que eu estou mentindo?

— Você disse que não se lembrava de nada e depois, ontem, disse que “era lógico que lembrava”. E aí, vai me contar ou não?

— Errado, Brittany. Eu disse que não tinha certeza da primeira vez...

— E eu quero saber a verdade!

Santana devolveu a xícara para a mesa de centro, franziu a testa e negou.

— Não tenho absolutamente nada pra te contar, como eu já havia dito...

— Que?! De novo Santana, é sério? – Brittany levantou do sofá. – Você realmente esqueceu o que aconteceu ontem ou você está mentindo que nem fez com essa história do farol?! Seja sincera.

— O que você quer dizer com isso, Brittany?

— Nada...

— Por que é que você tá agindo estranho desse jeito, hein? – A morena levantou do acolchoado também. – Você tá escandalosa que nem a Fabray, o que será que vocês andaram tomando naquela festa?

— Você... Você... – Brittany desviou os olhos azuis dos castanhos e virou-se em direção a porta, jogou todo ar para fora dos pulmões, estava difícil respirar. – Eu vou embora.

— Ótimo. Vai mesmo, pra bem longe de mim de preferência! E aí, quando você parar de ser doida Pierce, você me manda uma mensagem, ok? Até.

Brittany olhou para Santana, freneticamente.

— Você é uma insuportável mesmo! Não sei o que eu estava pensando... Quando... Você... Meu deus, você voltou a me chamar de Pierce... Argh, eu sabia que você não ia aguentar ou se importar. Você é assim. Eu tinha esquecido...

— Oh meu deus! Que crime absurdo te chamar de “Pierce” Brittany, nossa! – Santana balançou as mãos no vento, o tom de voz debochado. – Você é uma hipócrita de merda, sabia?! Quer que eu te conte sobre o que aconteceu no farol, né?! E até hoje não me disse o porquê você odeia o seu sobrenome ou o porquê de ter fingido não me conhecer lá no primeiro dia de aula. Vamos Brittany, você consegue me dizer? Talvez, a sua amnésia não te permita responder... Mas é tão simples, por que não tenta? E aí nós podemos conversar.

— Porque... Porque... – A loira suspirou, ela não sabia explicar nem para si mesma, era perda de tempo tentar fazer isso para a chata da Santana, então abriu a porta, saindo da residência com pisadas iradas pelo concreto. – Tchau, Santana.

— Eu sabia. Você não consegue!

Brittany adentrou seu conversível e apertou o volante, com força, entre os dedos finos. Não iria chorar na frente da outra garota. Você é uma completa idiota, Pierce! Fraca e dramática... É sim, de todas as formas possíveis. Ela sentiu seus olhos arderem, ao dar partida no veículo, sem demora, eles passaram a exalar gotas de nervoso que, escorriam face abaixo.

Entretanto, nisso, o carro prata já havia sumido aos olhos castanhos da morena que o assistia da porta da casa de Alma Lopez, de braços cruzados, totalmente confusa com a discussão repentina que acabara de ocorrer e a cabeça pesada como um enorme elefante...

De duas uma: “havia acontecido algo bem 'impactante' na noite anterior ou Brittany simplesmente era louca por agir daquela maneira, do nada” foi o que Santana ponderou. Logo, voltou para dentro de sua casa, ligando para Fabray.

— Ela acabou de sair daqui.

Notas finais
Até ♥