Destino ou não - Brittana
23 Lágrimas e chuva
Notas iniciais
“Plic... Plic... Plic...” Foi o som manso que as últimas gotas de água fizeram, ao chocar-se contra o resto do líquido despejado no copo de vidro que, a pirata-sem-bandana segurava, fortemente, com a mão direita, abaixo daquela torneira de metal, no escuro e silêncio da cozinha, daquela casa que não era a sua, em uma madrugada de Halloween, de domingo para segunda-feira.
Ok, tudo certo.
Sua tarefa, agora, se tratava de ir auxiliar outra pessoa que passava mal, notoriamente, por causa de álcool em excesso no estômago. O que era engraçado, desesperador e tantas outras coisas, ao mesmo tempo. O corpo humano possui formas, digamos que, peculiares, de expulsar o que não é bem-vindo por lá... Enfim, a missão da Pierce até que estava no nível fácil, consistia basicamente em: ir para o local do “acidente” e entregar o copo de água para a pessoa, para que assim, talvez, o estômago rebelde dela parasse de revirar... Ora, tão fácil assim? Afirmativo, na teoria.
Plic... Plic...
E continuava pingando água da torneira fechada, uma droga. Precisavam trocar o feixe daquilo urgentemente, a mãe natureza agradeceria de coração. Quantos litros de água não eram desperdiçados com isso? E francamente, aquele som não era manso, nem agradável, nem nada! Não mesmo. Não para ela. Não para Brittany Susan Pierce. Quem ela queria enganar? A si própria? Não iria rolar.
Respire normalmente, Brittany! Normalmente...
O som da água escorrendo, assemelhava-se mais com uma ampulheta que, jogava-a na cara, a cada gota, um limite curtíssimo, para que ela pudesse pensar, de forma brusca, em tudo que havia acontecido nos últimos minutos vividos. Quanto tempo, a garota estava parada ali? Muito? Pouco? Talvez, nem tanto tempo assim. Ou talvez, tempo demais. Ora, que confusão. Estaria ela adiando sua volta ao banheiro, ou o que? Que estúpida. Ser responsável em estado inquieto era deveras complicado. Sempre foi... Desde os primórdios do universo. Onde estava a luz no fim do túnel mesmo? Ah, a luz e a saída também, logicamente. O mapa, com o caminho para tal, poderia estar perdido, como muitas outras coisas, pelo mundo afora, bastava concentrar-se para encontrá-lo, pois era metafórico.
Ah, quem precisava de um mapa? Que idiota.
Bom, a questão era que...
“Trommm!”
Os trovões insistiam em manifestarem-se, tão pacificamente exóticos, como só eles tinham o privilégio de ser, em meio a outras coisitas lindas da natureza, assustando os meros humanoides da terra, da forma mais bela e irônica possível.
Santana era o ser que, localizava-se passando mal há poucos metros de distância, debaixo do teto da mesma residência, em que a loira se encontrava pirando. Brittany percebeu suas mãos tremerem, uma delas com o copo d’água cheio até as bordas, e a outra, segurando o feixe da torneira, e perguntou-se naquele instante, os olhos fixos em algum lugar da pia: quem estaria passando mais mal, ela ou a Lopez? Não fazia ideia. E nem queria saber a verdade, porque poderia ser ela a pior, que idiota. Um, dois, três... Quem precisava da água primeiro de fato? E pensar sobre isso não era meio egoísta de sua parte? Talvez sim, talvez não. Pensamentos são labirintos perigosos, a todo o tempo.
Brittany havia beijado Santana há menos de dez minutos... Quer dizer, elas tinham se beijado! Foi explicitamente um trabalho em equipe. Quão bom e ruim aquilo soava simultaneamente? Brittany mal conseguia acreditar no próprio impulso e coragem momentâneos. Mal conseguia descrever a ansiedade que sentiu quando aconteceu. Mal conseguia respirar direito depois, ou raciocinar... Como raciocinava sem pirar? Desaprendeu. Seu estômago estava revirando agora.
Se acalme, se acalme.
Se ela estava assim, como Santana estaria? Deus. Quais seriam as consequências daquele beijo inesperado de Halloween? E se ela fosse classificá-lo, tematicamente falando, ele ficaria com a posição de linha tênue entre doce e travessura da noite? Tantas perguntas ridículas surgindo, com respostas mais ridículas ainda, isso quando não fossem, elas, fugitivas e/ou inexistentes.
Inferno!
Quando a Pierce deixou Santana para trás, para buscá-la água, ela não tinha pensado sobre nada do que havia acontecido entre ambas, porque a latina as parou de modo abrupto, empurrando-a, sem aviso, para longe, um genuíno susto. Demorou, para elas tomarem consciência disso. Entretanto, bastou à líder de torcida mais alta botar os pés no solo da cozinha, para ela lembrar-se de tudo, pescar um copo, no primeiro armário que encontrou, às pressas, e seguidamente, abrir a torneira de maneira lenta, observando a água cair serenamente por entre olhos azuis concentrados, enquanto a chuva era a única melodia ecoando ao fundo de suas sensações e ponderações, como uma perfeita/maldita trilha sonora.
O pranto da tempestade embaçava os vidros das janelas, cada vez mais vigorosamente.
Por um lado positivo: Santana já estava em casa, aparentemente sã e salva, apesar do enjoo. Esse era um problema a menos, mas, o que aconteceria, a partir do minuto em que a Pierce resolvesse sair da cozinha, tratava-se ainda de uma incógnita azucrinante e temida. Quais as reações da química existente entre elas? Pacífica, explosiva, neutra? De carga positiva ou negativa? Um estudo aprofundado poderia explicá-las? Nada parecia ter domínio das soluções, a não ser: as condições climáticas e atmosféricas Rosefieldianas.
Brittany não tinha certeza alguma se conseguiria olhar para os olhos castanhos novamente, com tantos sentimentos impetuosos e confusos que, expandiam-se dentro do seu ser, sem permissão. E foi aí que, coisas como coragem e medo tocaram-se vividamente em ardência, em meio às vibrações do físico.
Silêncio.
A loira respirou fundo, e pousou o copo d’água na pia. Juntou uma mão à outra, seguidamente, e estalou os seus dedos, suspirando, ela iria voltar ao banheiro e deixar de ser uma covarde, infantil, estúpida e egoísta, como seus pensamentos irritantes queriam induzi-la a tornar-se. E ela não era assim. Não queria ser assim, nunca. E não começaria por lá.
Afinal, não era com o ato de procrastinar sobre algo que, a garota fantasiada de pirata, iria chegar a algum lugar de terra firme, navegando no mar de sentimentos perigosos, tentando matar os próprios monstros em busca de ilhas seguras. Muito menos ajudar alguém, e Santana precisava dela.
A morena era o tesouro de Rosefield.
Bom, talvez, sua loucura atual fosse efeito do álcool duvidoso ingerido na festa. Por sorte, e controle, Brittany não havia passado dos limites como a outra, pois, recordava-se do que embriagar-se seriamente a levou, há certos meses. Como acordar seminua ao lado de uma garota que mexia com ela, ter amnésia alcoólica, impedindo-a de recordar-se do que ocorreu veridicamente em determinado período, e para somar a tudo, e fechar com chave-de-ouro a decorrência das ações: os castigos chatíssimos, porém curtos, que recebeu por mentir para o pai, é claro.
Mas, agora estava na hora dela voltar para a Lopez, e não de pensar nisso. Sobre nada disso, aliás. Precisava viver o agora, e o agora era: levar a água para a garota-policial. Recuperou o copo da pia e voltou em passos cuidadosos e leves, por entre a sala, ouvindo o som da respiração de Alma Lopez do outro cômodo mesclado ao barulho de chuva externo, até o quarto da latina, e depois, direcionou-se para o banheiro, adentrando-o.
— Voltei Santana... – A loira alertou, chegando perto da garota sentada no chão, esticou o braço. – Toma.
A morena olhou para cima, os olhos vermelhos, não parecia nada bem. Ela encarou o copo e coçou os olhos castanhos, em estado sonolento e grogue, começou a falar:
— O que... – A voz dela saiu meio falhada e baixa, parou e engoliu a seco. – O que é isso?
— Água... Eu avisei que ia pegar. – A líder lembrou-se de sua enrolação na cozinha, repentinamente, e desviou os olhos azuis, ruborizando. – Ah, e me desculpa por... Demorar.
— Você não demorou. – Santana notificou, pegando o copo de vidro e tomando a água do recipiente, rapidamente, aos olhos da loira. – É... Parece água mesmo, não tem gosto de nada.
— Mas, é água... E água tem gosto de água. – Ela riu da morena, que permaneceu em silêncio. – Bom... Você tá melhor? – Brittany perguntou, recebendo o copo de volta. – San...
Antes de poder responder, a latina voltou à cabeça para frente do vaso sanitário. É... Ela não estava melhor. Dois estômagos reviravam-se aquela noite. Então, a Pierce notou a outra tremer instantaneamente, e preocupou-se. O chão do banheiro, sem dúvidas, era gelado, ainda mais com o frio que estava fazendo no ar, e Santana com aqueles shorts de fantasia policial, sentada sobre as pernas, nos pisos de azulejos brancos.
— Então, eu vou ir buscar mais água, acho que você tá precisando. Eu já volto...
— Para de me zoar... – A garota no chão choramingou, subitamente. – Que droga, Brittany.
— Eu não estava te zoando, San. – Brittany avisou surpresa, com o humor da outra, estava ela chorando de novo? Não podia ser. – É sério... Só vou lá buscar mais água pra você. Ok? Fica calma.
Santana olhou para frente, onde a caixa acoplada da privada achava-se, e encarou a branquitude do objeto, fixamente.
— Tá.
A pirata deu às costas, e passou pelo mesmo caminho de antes, quarto, sala, cozinha, e quando enchia o copo, novamente, de frente para a pia, na escuridão da cozinha, um grito a deu um enorme susto, abrupto e infeliz.
— Brittany! – Ouviu Santana espernear, e continuou. – Aah, Brittany! Brittany! Brittany?!
Caramba, o que estava acontecendo? A garota iria acordar a avó dela daquele jeito. Ou melhor, não, não só a avó dela, porventura a vizinhança inteira, se quisesse. E talvez não fosse uma ideia genial e brilhante a velha encontrá-la daquela forma, bêbada chorosa-irritada-dramática-bipolar, tudo num ser só, ou Brittany perambulando por lá em plena madrugada, que nem uma fantasma-pirata, em estado nítido de pânico. Santana só podia estar louca, queria matá-la do coração? A Pierce cessou tudo que estava fazendo para ir “socorrer” ou sei lá, a doida no banheiro, velozmente.
Vidro na pia de metal, mais uma vez.
A loira correu contra o vento até Santana, surpresa por não se espatifar pelo caminho escuro da cozinha e sala, e feliz por chegar ao ambiente e a latina calar a boca escandalosa, juntamente. Ok, meio caminho estava andado. Agora, só precisava entender a cena.
— O que... O que... Espera ai... – Brittany levou a mão ao peito, ofegante, suspirou, que agitação. – O que aconteceu, afinal?
Os olhos azuis encararam, curiosamente, a morena encolhida no canto do cômodo, de pé. Nada parecia errado ao entorno, exceto essa ação repentina e esquisitíssima que, ela presenciava de camarote. Santana olhou para a porta, arregalou os olhos, e estremeceu.
— Bri-tta-ny...
— O que aconteceu? Fala comigo, por que estava gritando? Tá tud...
— Ela... Aah, cuidado, Britt-Britt!
— Mas, o que foi? Cuidado com o que? Me diz! – A estudante começou a adentrar o banheiro, confusa. – Santana...
— Tem uma barata-desgraçada... Do seu lado, na parede!
— Uma o que?! Uma... Barata? – A loira olhou para o lado, viu o bicho e deu um pulinho medroso. – Aah, tem mesmo!
Brittany correu para perto da morena. As duas estavam tendo ataques de nervosismo, era hilário. Quem as salvaria daquilo? Que situação ruim, mas, a resposta era evidente: Ninguém as salvaria disso, a não serem elas mesmas, aparentemente. Eram grandes pirata e policial mesmo, só que não.
— Mata isso, Brittany!
— Hã? E-eu? Santana...
— Sim. Vai, mata ela! Deve ser aquelas porras voadoras...
— É sério?!
— É, faz alguma coisa! – Santana cobriu o rosto em desespero. – Ela tá descendo!
— Mas, da onde ela surgiu?
— Do ralo, eu acho, sei lá... Brittany!
A Pierce olhou para trás e encarou o maldito inseto descer, um pouco mais, a parede fria. Sentiu arrepios ruins pelo corpo, seus pelos subiram. Que bela droga, um inseto nojento participando da “festa”. Como se não bastasse os outros problemas. O que mais faltava acontecer na noite de dia das bruxaspara torná-la realmente tenebrosa? Era melhor ela nem permitir-se pensar, senão os riscos de acontecer pior poderiam ser graves... Superstições são fortes demais, Brittany sabia que não devia ter assistido, tanto tempo, o gatinho preto a fitar, pela manhã. Sinceramente, era tudo culpa dele e do universo. Quer dizer, quem saberia dizer. Ela estava sendo apenas paranoica.
— Mas, como eu mato isso, Sant?! Eu não sei! – A loira perguntou, por um segundo, e trocou olhares ligeiros de Santana para o inseto das trevas, tinha sua resposta, antes mesmo de a Lopez abrir a boca. – Não, eu não... Não dá não... Sério, me desculpa.
Santana começou a chorar e Brittany desesperou-se com o barulho que elas estavam fazendo com o eco do espaço, o qual, obviamente, despertaria a atenção indesejada de quem quisesse escutar, o que não era, claramente, bom para ambas.
— Shh... Shh... Eu vou matar o bicho! Eu vou... – Brittany disse, finalmente, em tom decisivo porque, antes de qualquer coisa, ela precisava convencer-se a si mesma disso, então, abaixou e começou a desamarrar uma das botas marrons que utilizava no figurino, tudo ao som da respiração acelerada de Santana, e com cuidado aproximou-se da barata, como uma caçadora nata, acertou-a um golpe, mal acreditando em sua mira certeira e frenética de principiante, ainda mais estando meio tonta, e no fim, correu para a privada, onde limpou a sola do calçado, e deu descarga no inseto, em seguida, desnorteada com o nervosismo. – Ok... Ok... Acho que, agora, tá tudo bem... Feliz?
— Não.
A Pierce colocou uma das mãos na cintura e riu, soltando a bota no chão, distraidamente.
— Bom, eu vou ir buscar a água que ficou na cozinha. – Ela começou a sair do banheiro, e ouviu Santana a chamar. – O que foi?
— Você vai ficar com um pé descalço, pirata? E falando nisso... Por que só o bocão dos marujos estava de tapa-olho, coração?
— Ah... – A loira voltou e enfiou o pé direito, coberto por uma meia de cor branca, na bota esquecida, sem amarrar os cadarços. – Então... É que o tapa-olho era tão feio, e eu gosto de ver as coisas. Só o Sam gostou de usar.
— Hum... Eu não queria dizer nada, mas achei que a sua fantasia ficou incompleta, apesar de muito legal... – A voz da morena estava saindo de maneira cantada e engraçada de ouvir, amém álcool. – Nota nove, porque deixou a desejar.
— A minha fantasia tá incompleta, Sant? Nota nove, sério? Onde tá o seu chapéu de policial mesmo? Acho que te dou um sete, por ai...
Santana arregalou os olhos e levou as mãos na cabeça, onde existiam cabelos negros presos em um coque, e só isso. Nem sinal do seu chapéu de oficial, tão legal, que comprara, e espera... Onde ela havia deixado seus óculos escuros? Que triste. Brittany estava gargalhando, mal notando a tristeza repentina da latina, e sorriu ao abrir olhos azuis.
— Eu deixei na festa! – Olhos castanhos ficaram puxadinhos e marejados. – Eu gostava daquele chapéu idiota... E os meus óculos...
A coragem palpitou o coração da loira, e venceu a batalha. Pelo menos, naquele determinado segundo.
— Não chora... – Brittany pediu e aproximou-se, colocando suas mãos no rosto da morena, para limpar as lágrimas escapadas, sorriu de novo, ao passar os polegares, gentilmente, pelas maçãs da face morena. – Hey... Você acha que vai vomitar ainda? Sinceramente.
A Lopez fungou e negou.
— Ótimo, vamos fazer um acordo então. Enquanto eu vou buscar a água que estou devendo, você escova os seus dentes. Ok?
— Só isso?
— É. – A loira sorriu e deu um passo para trás, afastando as mãos da outra. – Por enquanto... Consegue fazer, né?
— Lógico que sim.
— Então tá valendo! Eu já volto.
(...)
Brittany cobriu Santana com o cobertor xadrez existente no quarto, após esperar a outra garota, no banheiro, trocar de roupa, livrando-se da fantasia policial e vestindo o pijama folgado e confortável. Agachou ao lado da cama, ao pousar a coberta na morena, e apagar a luz, com olhos castanhos encarando-a, a todo o momento.
— Eu vou embora. Tá tarde...
— Obrigada, Brittany.
— De nada... – Ela levantou depressa, bochechas rosadas, e caminhou até a janela, olhando atrás da cortina. – Meu deus, a chuva aumentou.
— Hum? – A morena abriu os olhos novamente, e enxergou a chuva cair do outro lado dos vidros. – Ah, você não tem que ir agora, sabia menina? Senta aqui. – Santana convidou dando tapinhas no colchão ao lado de si, após jogar o corpo para um lado da cama, os olhos entreabertos e sonolentos, depois gemeu e apertou o travesseiro sobre a outra mão. – Vem logo, Piercezinha.
— Mas... Érr... – A loira respirou profundamente, nervosa, Santana estava a enlouquecendo da cabeça, que absurdo. – Acho melhor não, sabe... Pelo que aconteceu... Né... Você... Quer dizer, eu...
— Shh... Eu quero dormir, e não conversar... Senta logo aqui, em silêncio. Vem!
— Ok... – Brittany rendeu-se e se acomodou no espaço vazio da cama. – Eu... Posso te perguntar uma coisa?
— Não coração, tô cansada. Quietinha...
— Tá bom.
Olhos castanhos fecharam-se completamente, corpo, alma e mente todos exaustos.
(...)
Ao passar alguns minutos em um total silêncio, extraordinariamente agradável, com as costas apoiadas a cabeceira da cama de Santana, Brittany acabou cochilando, pés no chão, chuva forte e respirações suaves compunham o quarto, até ela ser tirada de seu pequeno sono, pelo celular insistente no bolso de sua fantasia de pirata, alcançou o aparelho para entender o que se passava.
[Quinn]: Britt! [3:01 a.m]
[Quinn]: Tem como você voltar pra festa? [3:02 a.m]
[Quinn]: É muito importante! [3:02 a.m]
[Brittany]: O que aconteceu? [3:02 a.m]
[Quinn]: O Finn sumiu! [3:03 a.m]
[Quinn]: E o carro dele também! Ele estava bebendo, você sabe. E o celular dele ficou comigo pra piorar. [3:03 a.m]
[Quinn]: Estou muito preocupada. [3:03 a.m]
[Quinn]: Por favor! O Sam não tá ajudando em nada, ele tá caindo mais que tudo, como todo mundo desse lugar. [3:04 a.m]
Brittany deixou de olhar para a tela quando sentiu Santana tremer ao seu lado, preocupou-se, mas voltou a olhar para o celular, a fim de responder a Fabray rapidamente.
[Brittany]: Estou indo, mas posso demorar um pouco, ok? Fica calma. [3:04 a.m]
[Quinn]: Ok, obrigada ♥ [3:05 a.m]
A Pierce levantou da cama e observou que a Lopez não parava de tremer, teve uma ideia, abriu as gavetas do armário da latina, no escuro, caçando o lugar onde a outra estudante guardava suas meias, e encontrou, era a última, logo apossou-se de um par. Voltou até a cama e levantou o cobertor calçando os pés da Lopez com o tecido.
— Pronto. – Disse satisfeita, cobrindo-a novamente, e caminhando em direção à imagem da outra mulher dormindo de forma graciosa como só ela sabia fazer, sobre o travesseiro branco afundado, a loira sorriu. Essa era a segunda vez que via Santana dormir de verdade, depois do farol. – Boa noite, San.
Quando passou a andar, tropeçou e olhou para o chão, percebendo que sua bandana vermelha estava perdida ali, agachou e recuperou-a, passando a direcionar-se à porta ao se colocar de pé, com calma, deixando o quarto enfim. No momento em que chegou a saída da residência, Brittany lembrou que as donas da casa estavam dormindo, e por isso ninguém iria trancar a porta atrás dela, não seria honesto ela sair e deixar a casa toda propensa a assaltos ou sei-lá-o-que, Rosefield não era um poço de paz, nenhum lugar no mundo era. Pegou as chaves da Lopez e saiu, trancando a porta, em seguida. Devolveria o objeto no dia seguinte, sem falta. Guardou-o em seus bolsos.
O guarda-chuva negro que usou para guiar Santana junto de si até o teto seguro da residência, esperava-a aberto abaixo do pouco de teto coberto da entrada do lugar, pegou o pertence e a cobriu. A chuva não era tão potente mais, como antes. Saiu em direção ao conversível prata, o ar insanamente puro, com o vento frio que chegava a doer.
(...)
Pelo caminho de volta a casa de Kitty, Brittany recordou-se da festa e das músicas que havia dançado com Santana, a morena estava bem animada antes de chorar naquele sofá, a mil por hora. Dançaram tantas coisas clichês de Halloween, como Thriller, Everybody, etc, etc... E outras nem tanto assim, como aquela música irritante da Barbie Girl que passou a tocar, do nada, nas caixas de som estrondeantes, e que Santana cantou para Fabray a fim de tirá-la do sério, sem pensar duas vezes.
A única coisa que estragou tudo foi às luzes enjoativas.
E a “grande” revelação do sofá... Enfim. Apesar de brava, por saber que Santana mentiu ao que tudo indicava, pelo discurso ouvido, certas poucas horas atrás, e não ter recebido explicação alguma ainda, a Pierce não conseguia saber o que fazer agora, em relação as duas, era difícil imaginar o que aconteceria quando ambas acordassem no dia seguinte, tantas coisas aconteceram... Tipo o beijo... Deus. Por que sempre que se encontrava sozinha se afogava nos pensamentos? Era torturante. Ora bolas, festas eram traiçoeiras, ao estilo: docinhos inofensivos para crianças. Ou seja, tudo é ótimo no começo, e exagera-se no consumo por isso, mas, é neste ponto que, o fulano se esquece do incrível poder da glicose no sangue... Que é bem perigoso e venenoso, na maioria dos casos.
Fabray e Evans estavam debaixo de um mesmo guarda-chuva quando o conversível prata estacionou em frente da residência, onde a festa ainda rolava solta, sem ter hora para acabar, supostamente.
— Entrem! – Brittany disse e os outros adolescentes loiros fizeram o que ela pediu. – Ok, alguma ideia de onde ele pode ter ido Quinn?
— Não, vamos dar uma olhada pelo bairro antes...
— Não é melhor a gente chamar a polícia? Não sei.
— Não, Britt! Ele pode ser preso... – Quinn começou a chorar e se livrou do chapéu de capitã. – Meu Deus.
— Fica calma. Nós vamos achar ele, confia em mim... Já faz muito tempo que ele saiu?
— Eu acho que não. – Sam informou. – Ele estava bravo com alguma coisa...
— "Alguma coisa" o que? – Brittany perguntou, dando partida no veículo. – Sam?!
— Não sei.
— Ah, eu sei... – Quinn suspirou. – Ele deve ter me visto falando com o Puck.
— Por que você estava falando com ele? – A outra loira perguntou surpresa. – Quinn?
— Ele disse que isso era da Santana. – Fabray mostrou um óculos-escuros, que segurava em mãos. – Perguntou se eu sabia onde ela estava. Ai, falei que ela tinha ido embora com você segundo o Sam, então ele me entregou. Onde eu deixo? Você que vai devolver isso...
— Pode deixar no porta-luvas.
A loira fez o que Brittany indicou. E Sam se manifestou depois, no banco de trás:
— Falando na Santana, esse chapéu aqui também é dela, né? Achei próximo do sofá.
Os olhos azuis olharam para o retrovisor interno do carro em movimento e enxergaram o pertence da morena.
— Nossa, que bom que achou, ela estava chorando por causa disso.
— De nada, Brittany.
— Sério? – Quinn perguntou e riu. – Ela estava bem bêbada quando foi te procurar pela casa... Pensei que fosse cair no chão pelo caminho.
— É... Por isso mesmo levei ela pra casa dela.
— Você é maravilhosa, Britt, até mesmo com gente como aquela...
— Não fala mal dela, Quinn. – Brittany cortou-a. – Tá?
Fabray assentiu desconfiada.
— Ela estava tão triste. Nunca vi a Santana daquele jeito antes... – Sam disse e depois, percebeu olhos azuis, o encararem fixamente, pelo retrovisor. – Mas, que bom que você foi cuidar dela né...
Ele sorriu sem graça.
— Concordo, Sam.
(...)
A última parada foi na casa de Finn, e lá estava seu carro estacionado, Quinn foi até a porta do local, dando-se conta disso e molhou-se pelo caminho com a chuva fraca, batendo na porta, sendo atendida pelo namorado. Sam e Brittany estavam em silêncio dentro do conversível, enquanto os namorados conversavam do lado de fora. O garoto loiro suspirou, no vidro, ao ver os amigos abraçando-se, resolvidos.
— Ainda bem que tá tudo bem, né? O relacionamento deles é muito bonito.
— Aham... – A estudante concordou. – Eu sabia que ia ficar tudo bem no final, o Finn não parece ser o tipo de cara que sofre acidentes. Eu acho...
— Sempre fica tudo bem no final, é a vida.
Brittany relaxou no banco, não tirando as mãos do volante e os olhos da janela, recém-embaçada.
— Você acha?
— Claro que sim...
— Espero que você esteja certo.
— O que aconteceu Brittany?
Ela olhou para trás e sorriu simpaticamente.
— Nada.
O celular da garota começou a disparar contra seu corpo, ela o pegou e atendeu a ligação, sem nem mesmo olhar de quem se tratava, estava tão distraída com tudo que nem havia notado genuinamente o horário, estava super-tarde.
— Alô?
— Brittany, por que não chegou em casa ainda? Tá tudo bem?
— Ah, pai! Sim, tá sim, desculpa... E você?
— Cheguei faz algumas horas. Então, acordei agora e você ainda não retornou, não estou nada feliz com isso. Portanto, não fuja da pergunta, por que não chegou ainda?
— É que eu perdi a hora, estava me divertindo com a Quinn, a Santana, o Sam... Perdão.
— Ok, mas venha para casa, imediatamente. Tá tarde.
— Tá. Até...
Brittany guardou o aparelho.
— Vai embora agora, Brittany? – Sam indagou, após ouvir a chamada. – Você...
— Sim... Você quer uma carona, Sam?
— Claro. Obrigado!
Quinn voltou ao conversível de Brittany e sentou ao banco de passageiro.
— E aí, tudo bem com vocês dois?
— Sim! – A capitã exclamou animada e abraçou a loira. – Obrigada.
— De nada... – Ela sorriu e se afastou da amiga. – Bom, agora eu vou levar vocês pra casa. Meu pai quer que eu voe pra minha...
E começou a dirigir, após ligar o rádio e envolver-se no cinto.
— Acho que você... – Quinn pescou seu chapéu de capitã no chão e encaixou na cabeça da outra. – Se mostrou bem mais capitã que eu hoje, Britt. Passo o cargo pra você, nesse nosso lindo Halloween...
— Own, obrigada Quinnie... Vamos navegar marujos!
Todos eles riram, foi quando a chuva cessou, completamente, de cair em Rosefield... Por ora.
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