Destino ou não - Brittana
19 Grande amiga
Notas iniciais
— Espera aí, Santana, só tem uma coisa que eu não entendi. – Rachel notificou enquanto passava uma esponja amarela numa das mesas da sala de Química, com a outra morena ao lado dela. – A vice-diretora disse que o Spencer vai ficar dois dias da semana que vem sem vir, para não prejudicar o torneio de natação na sexta-feira, quanto a você, para não faltar à animação das Cheerios no jogo dos Titans, também na sexta. Certo?
A Lopez revirou os olhos, e fechou a torneira da pia prata que usava para lavar os utensílios usados no experimento do dia. Em silêncio, passou a guardá-los nos pequenos armários presentes no pé da mesa, sendo observada por Rachel.
— Sim, GnoBerry! – Afirmou Santana, erguendo-se do chão e tirando os seus óculos de proteção. – E qual é a parte que você não entendeu mesmo?
— Como é que o Spencer vai nadar de nariz quebrado?! Jesus, não faz sentido!
Rachel caminhou até a pia ao lado e enxaguou a esponja que tinha posse, antes de finalizar a limpeza da mesa da dupla, concentradamente, enquanto Santana despia-se do próprio jaleco.
— Sei lá como o idiota vai nadar! Aquela mulher não fala nada com nada. Por mim, o Spencer pode se afogar à vontade, não me importa nem um pouco... E devia te importar menos ainda, já que como você sabe: vocês tem uma “linda história de amor”, Berry.
— Mas, eu não me importo! Só acho estranho... – A baixinha tirou os óculos também, e passou a se livrar do jaleco branco. – Ninguém questionou isso lá? Você não acha que talvez, o nariz dele possa não estar quebrado? E tudo isso é apenas encenação para que a culpa maior fosse derrubada sobre você? Porque o time de natação é mais cobiçado, repeitado e etc e tal, que as líderes de torcida aqui.
Santana ficou pensativa com as palavras de Rachel, à medida em que, ela e a outra garota deixavam a sala, após, apossarem-se dos cadernos, óculos de proteção e jalecos, tudo em mãos, prontos, para serem guardados nos armários vizinhos.
— É... Você pode ter razão. – A líder disse para a Berry, ao seu lado em frente aos armários recém-abertos. – Talvez, alguém devesse quebrar o nariz dele de verdade. Você não acha?
— O que?! Não, Santana, você não tá pensando em socar ele de novo está? Calma...
— Não Berry, foi apenas um pensamento alto. Acalma-se você.
— Você está me assustando...
— Hey Lopez! – Puckerman chamou ao aproximar-se das garotas, interrompendo-as. – O Porter já recebeu o nosso presentinho, só faltava chorar no vestiário por causa da zona que a gente fez no armário dele! Você tinha que ver...
— Bom saber, mas, o meu divertimento foi embora a cavalo desde que eu coloquei os pés aqui nesse lugar logo pela manhã, Puck. – Santana avisou, e fechou o armário. – E que manhãzinha desgraçada...
— Não se preocupa, o filho da puta vai ter uma pequena dificuldade, digamos assim, pra ir embora com seu carro de playboy hoje. Então, diga pro seu divertimento voltar.
A Lopez virou-se para encarar Noah, cruzou os braços.
— E por que ele vai ter essa dificuldade?
— Porque eu e o Sebastian furamos todos os pneus do carro... Foi rápido e fácil. Missão dada é missão cumprida, capitã.
Santana não pode evitar a risada que saiu de sua garganta, era ótimo saber que o nadador ia pagar de alguma forma por seus atos odiáveis, e se não fosse justiça feita pela própria instituição, que fosse então por seus alunos mais rebeldes. Rachel começou a fechar a porta do próprio armário lerdamente, e passou a se distanciar utilizando as pontas do pé, até sentir Santana a segurar.
— Onde é que você vai desse jeito, menina?
— Eu só vou almoçar Santana. A gente se vê no coral daqui a pouco... Tchau Puck!
A baixinha assemelhava-se a uma boneca em pane acenando para o jogador de futebol da forma que fazia, parecendo temê-lo e ao mesmo tempo não. Na verdade, era difícil entender aquela reação esquisita que a mesma estava tendo. Talvez um dia, alguém descobrisse.
— Ah, sim. – A latina soltou o braço da morena. – Até Berry.
Santana observou a garota se distanciar no corredor, depois voltou os olhos castanhos em Noah, e no fim, bufou pensando na vida, perdendo-se nos próprios pensamentos novamente.
Quantas vezes já havia feito isso mesmo?
Pensamentos, pensamentos, pensamentos... Como, por exemplo, aquele que ela se lembrou, inúmeras vezes, pelas aulas que teve até encontrar-se no corredor: teria que aparecer em sua residência e conversar seriamente com seu pai mais tarde. Ou naquela outra reflexão, de relacionamento bem próximo ao citado antes: ela ficaria suspensa uma semana inteira do maldito colégio McKinley, e em cinco dias, acontecem muitas coisas. Cinco dias são capazes de mudar a vida de alguém. Eram cento e vinte horas de puro nada e incompetência, vindo a caminho, via correio para a jovem Santana Lopez, nada feliz, com os “resultados” da preocupação de Brittany e Rachel.
— Sabe, se você já não tivesse quebrado o nariz do Porter... – Puck começou a falar, distanciando a líder de torcida de suas ponderações. – Eu quebraria pra você.
Santana balançou a cabeça pra frente e para trás, com calma, compreendendo o que ele falara, mesmo com sua distração momentânea. Tentando juntar as sílabas, soltas no ar, para elaborar uma resposta.
— Obrigada, Puckerman. Mas, acho melhor você parar por aqui, senão quem vai se ferrar é você, colega.
— É ótimo saber que você se preocupa com isso. Eu diria até que é mais que ótimo...
O garoto passou a mão na crista que eram seus cabelos rebeldes, sem tirar os olhos da Lopez, tentando seduzi-la mostrando-a como ele era atraente fazendo tais gestos. Bom, a verdade era que ele só faltava contar a ela que, acabara de tomar banho em um dos boxes do vestiário masculino, que cheirava a chulé e sabe-se-lá-o-que-mais, e depois de notificá-la, perguntar se a Cheerio havia notado como seu novo desodorante másculo era de uma fragrância selvagemente gostosa, e talvez, somado a isso tudo, ela finalmente admitisse que a própria, adorava ele, naquela camiseta cinza com qualquer coisa escrito na estampa, e que o amava do fundo do coração, que ela dizia não ter. Noah apoiou uma das mãos no armário inclinando-se em frente de sua paixão.
Mas, diferentemente de suas imaginações, Santana apenas cruzou os braços, e o fitou debochadamente. Explicitamente, ela estava segurando poços de risada que sempre chegavam a sua boca, enquanto o observava.
— Quem disse que eu me importo? Eu só avisei, por avisar. Se quiser ser expulso, foda-se.
— Ah, Santana, por favor...
Antes que a garota pudesse dizer qualquer coisa ao insistente jogador de futebol, o barulho dos corredores e de todo o ambiente no geral, foi abafado pela voz carregada de sotaque indiano de Figgins, nos microfones ligados a boa parte da instituição de ensino, o som era estrondoso.
“Senhorita Santana Lopez, por favor, caso encontrar-se no colégio ainda, dirija-se até a diretoria, agora.”
Aquilo se repetiu umas cinco vezes. Puck e Santana ficaram por um instante em silêncio, olhando em direção as caixas de sons, e depois trocaram olhares espreitados, como se desconfiassem de algo. Seriam mais problemas a ela? Eles esperavam que não, afinal, Spencer merecia as pegadinhas contra ele.
— O que será que é dessa vez?
— Não sei, mas acho melhor você ir. – Puck respondeu, e depois, segurou um dos ombros da morena. – Já sabe, se precisar é só ligar.
— Tá, Puckerman, tchau.
Os dois tomaram seus caminhos, totalmente opostos. Santana andou um pouco mais rápido que o habitual, por conta de sua curiosidade, até chegar à sala do diretor Figgins e ficar confusa com a presença de Brittany, da treinadora Washington, e de um homem grisalho alto, bem vestido de olhos verdes, junto ao diretor mudo e Shelby, a manipuladora.
— Obrigado senhores. Agora, nós iremos nos retirar. – Robert avisou, sendo seguido por Brittany. – Com licença, tenham um ótimo dia.
A latina perseguiu a loira com os olhos insistentes, esperando que ela dissesse o que havia acontecido e o que estava acontecendo, porém, não recebeu nenhuma informação até a outra sair de dentro do espaço, parando junto ao homem no corredor, onde agora, ambos pareciam conversar.
— Bom... Senhorita Lopez, nós pensamos melhor sobre o ocorrido e retiramos a sua suspensão, tudo bem? – A vice-diretora informou, parecendo estar preocupada com algo. – Em breve, entraremos em contato com seu pai para avisá-lo.
Santana ainda estava totalmente desconfiada do que se passava.
— Ok... Mas, o que é que aconteceu? Não tô entendendo.
— Não ocorreu nada. Como eu disse senhorita, apenas pensamos melhor. Você pode voltar para o intervalo, é só isso.
— É, volte para o intervalo. – Figgins repetiu, parecendo menos mudo dessa vez. – E desculpe.
Eles estavam em um universo paralelo e Santana não havia sido informada? Só podia ser. O que estava se passando, genuinamente? Quem tinha as respostas para tal? Que confusão.
— Venha garota. – Roz disse descruzando os braços e direcionando-se para a saída, Santana apenas a seguiu até o corredor, onde elas pararam uma de frente para a outra. – Olha Santana, eu sei que você não é uma má pessoa, menina. Você me lembra, muito, eu na minha época de colégio. Impulsiva, linguaruda e por ai vai. E por isso vou te dar uma dicazinha fracote, pare de arrumar encrencas, sério...
— Tá, tá. Mas, por que é que eles voltaram atrás, treinadora? A Shelby parecia decidida de manhã, e agora isso?
— Eu podia te explicar, mas ainda não tive a oportunidade de encontrar com o Spencer. Então estou indo fazer isso agora, ele precisa escutar umas poucas e boas por voltar a importunar os outros. E o pior é que eu já tive uma discussão feia com o treinador de natação, hoje cedo... As coisas estão desmoronando com esses imprestáveis! – A mulher balançou a cabeça irritada. – Enfim, pergunte o que aconteceu pra Brittany. Ok? E pare com as novelas mexicanas!
A mulher saiu andando a deixando, sem mais delongas. Santana olhou para Brittany conversando com o homem de terno, ambos um pouco mais afastados do que se localizavam antes, não dava para ouvir uma palavra que trocavam, portanto, ela, a líder de torcida morena, resolveu aproximar-se para perguntar a Pierce o que estava acontecendo, e como ela queria respostas rápidas, aproximou-se sem se importar em interrompê-los.
— Brittany, eu posso...
A loira a fitou ligeiramente, e puxou-a pela mão para seu lado, apresentando os dois em sua companhia, um ao outro.
— Santana, esse aqui é o meu pai, Robert Pierce. Pai essa é a Santana, a minha grande amiga.
Santana observou a Pierce pelo canto dos olhos, a loira tocava-a levemente nas costas, ao dizer tais palavras. É, claro, elas eram “grandes” amigas mesmo, tipo: melhores amigas para sempre desde sempre, só que não, embora algumas pessoas achassem, por exemplo, no caso de um garoto chamado Sam Evans. A cada minuto daquele diazinho de quarta-feira, a latina se perguntava, violentamente, se não estava dormindo e tendo uma série de sonhos bizarros, não era possível tanto circo em uma única cidade.
— Olá Santana, é um prazer saber quem é você. A Brittany me contou como vocês se conheceram e como se tornaram amigas.
A adolescente acenou para o homem.
— Oi, senhor Pierce... Ah, ela contou é?
— Sim, demorou, mas ela contou. Muito obrigado por salvá-la, minha jovem. Eu serei eternamente grato. – Robert abriu um sorriso de gratidão com um pequeno balanço na cabeça, antes de buscar o celular em estado de vibração, no bolso de sua calça social e encarar o vidro, freneticamente. – Espero ter notícias suas em breve Santana, mas, preciso voltar ao trabalho agora. Tenham ótimas aulas, meninas. E fiquem longe de confusões.
— Ok, pai.
Robert deu as costas para as garotas e passou a caminhar pelo restinho de corredor que existia até a saída, para deixar o colégio. O que ninguém havia notado, quer dizer, Brittany e Santana, era que alguns adolescentes tiraram fotos e mais fotos do empresário passeando pelo McKinley, talvez, fossem todas para o jornal local, afinal, em Rosefield, eles não tinham nada mais importante para fazer, do que cuidar da vida alheia e fazer disso o próprio entretenimento, como a maioria das mídias ama fazer.
E o intervalo rolava solto, todavia, tratava-se apenas do começo.
— Então... Brittany, eu ainda tô confusa, me esclareça o que aconteceu nesses últimos instantes malucos do meu dia. Porque, parece que só você pode me falar.
A loira riu de modo irônico, e cruzou os braços analisando a morena, sem abrir a boca para dizer nada, parecendo uma estátua humana, que não se mexeria tão cedo. E então, Santana se incomodou com o vazio, com a ausência da voz da outra garota, e com a demora de alguma expressão também.
— Você não vai falar nada, não Pierce?! Puta que pariu... Tá surda?
— Ah, eu? Bom, eu tava esperando você me pedir desculpas antes, Lopez.
Santana arregalou os olhos e deu uma risadinha, enquanto fitava fixamente olhos azuis mais sérios que o normal, ela não gostava disso.
— “Desculpas” Pff, mas, pelo o que, coração? Não fiz nada, eu hein. Você é doidinha...
— Desculpas, por ser uma enorme chata, e nem perceber. Acho que eu mereço.
Lábios carnudos abriram aquele conhecido sorriso sarcástico maior, com covinhas nas bochechas, que tirava Brittany de seus eixos. A loira tentava arduamente, sem sucesso, não olhá-las e não pensar nelas durante seus dias, ou nos lábios, ou nos olhos castanhos, ou no conjunto da obra que ela nem conhecia inteiramente. Aquilo era uma armadilha, e das boas! Conhecer a obra num todo podia acarretar em severos problemas.
Entretanto, cada um dos detalhes que a loira notava na morena, e descobria, exatamente, cada um deles, uma vez vistos, nada na face do planeta, nem a mais bela imagem natural, nem as sete maravilhas do mundo, nem a visão incrível do farol de Rosefield, podiam superar a visão real do paraíso que Santana era, com tantos detalhes fantásticos em si. Quer dizer, o que? Era apenas preciso respirar normalmente que ninguém perceberia sua imaginação fértil. Era só ignorar. Onde se encontrava o foco mesmo? Foco.
— É, né, você merece desculpas mesmo. Só que ai, você também vai ter que pedir pra mim, sabe... Pra ficarmos quites em, pelo menos, alguma coisa, minha querida “grande amiguinha”.
Elas começaram a rir e a Pierce não conseguiu permanecer com a pose que se esforçava a fazer, pois estava feliz de seu plano ter dado certo, e também por Santana não estar sendo grossa novamente, só fazendo graça.
— Afinal, o que foi que você contou pro seu pai? Ele parecia bem feliz que a gente se conheceu.
— Nada de mais, só misturei fatos reais a uns não tão reais assim.
— Ah, sim. Tipo a parte da nossa suposta grande amizade?
— Se você quiser ver assim. – Brittany deu de ombros e olhou para qualquer coisa do corredor, mirando então os olhos azuis, no armário em que se encostava, para fugir de olhos castanhos desconcertantes. – A gente tem que ir almoçar né? Antes de ir pro clube.
— Sim, Brittany! Só que você não me contou ainda o que aconteceu. Por isso, é melhor você começar nesse instante, enquanto ainda estou sã. Eu tenho que saber...
— Eu disse que alguém tinha que fazer alguma coisa. Lembra? Então eu fiz, e meu pai me ajudou. Quer dizer, te ajudou. Fim da história.
— Mas, o que ele fez?
— Ah, isso é segredo, desculpa. Sigilo total, Santana.
— Você é mesmo uma mimada, né? – Santana riu enquanto passava o dedo na franja loirinha que adorava, em sua frente, e notou, consequentemente, as bochechas de Brittany rosarem de nervoso, e seus olhos fixos no armário ao lado. – Obrigada de novo, Britt-Britt. E mais uma vez você honra suas dívidas, gosto de pessoas assim. É difícil de encontrar... São que nem tesourinhos enterrados no odiável mundo em que vivemos.
Os olhos azuis encontram castanhos maravilhosos a sua frente, e os lábios finos abriram um sorriso com o agradecimento da latina e as frases “poéticas”.
— Só que assim, Piercezinha, ainda falta muito pra você se livrar de mim. – Santana brincou. – Não fique achando que eu me contento com favores minúsculos que nem esse. Faltam muitos pela frente!
— Eu não vejo a hora de tudo acabar, Sant-Sant! Sério, vou correr pra pagar todas as minhas dívidas. O quanto antes melhor...
— Sei... Vem! – A morena apossou-se de uma das mãos da loira, e em seguida, elas passaram a caminhar para longe dali. – Vamos ir almoçar rápido antes que o nosso tempo acabe. Ainda temos um clube pra ir, não é?
— É. – Brittany assentiu. – E aonde você quer ir?
— Você pode escolher, estou de bom humor.
Fale com o autor