Destino ou não - Brittana
20 Harmonia?
Notas iniciais
Comer é um dos maiores prazeres da humanidade, e como tudo no mundo, essa ação possui alguns níveis facilmente classificáveis a olho nu. Há quem coma rápido, há quem coma intermediariamente, e há aqueles que comem “devagar” demais para os padrões humanos modernos.
Lamentável, não?
Pois, esse último grupo raro de pessoas são nada mais, nada menos que, os responsáveis por saborear o que existe de mais fenomenal nos alimentos, sejam eles processados ou não. Sabendo-se disso, cada porção é degustada como se elas se tratassem de verdadeiras riquezas, em contato com boca, dentes e língua desses seres.
É um conjunto de sentidos.
Por mais que Brittany Susan Pierce já tivesse feito parte dos outros grupos de provadores alimentícios, atualmente ela encaixava-se no grupo dos “degustadores lerdos”, como Santana Lopez batizou em seus pensamentos, enquanto observava a loira mastigar, desde que elas deixaram aquele Food Truck para trás, e agora se localizavam no estacionamento do McKinley, sentadas lado a lado, numas escadinhas de concreto, que separava o espaço de carros de um dos edifícios do colégio.
Resumidamente, as líderes de torcida resolveram almoçar de lanches rápidos, minutos atrás, vendidos em um mini-caminhão vermelho de comida que, diariamente, ficava estacionado próximo à instituição de jovens famintos.
Se aquela comida era confiável ou não, ninguém sabia.
Porém, como existiam clientes fixos ali, era melhor confiar. Certo? Bom... A verdade é que, ambas as garotas, até pensaram em ir a outro lugar ao botarem os pés na frente do comércio, contudo, talvez perdessem o horário de voltar e ir para o clube Glee, então resolveram não se arriscar tanto, já que comparecer ao “encontro de artistas” era uma obrigação.
O sol amarelado ao céu mostrava para as líderes de torcida, novamente, como o Outono gostava de deixar seu rastro por onde passava, o espaço do estacionamento possuía um número relativamente grande de árvores ao entorno, era difícil não notar as folhas passeando pelo concreto, espalhadas pelo chão.
Apesar de tudo, Rosefield era uma cidade bonita...
E Santana pegou-se rindo mais uma vez naquele dia, que facilmente poderia chamar-se “montanha-russa”, devido aos últimos acontecimentos, tudo resultado, é claro, de morar na cidadezinha. Brittany afastou o pequeno pedaço de lanche dos lábios rosados e arqueou uma sobrancelha, sinalizando dúvida em relação aos risos abafados da morena, encarou-a e suspirou.
— Que foi Santana? Eu...
— Você come devagar demais, sabia? Tipo em slow motion.
Sobrancelhas loiras levantaram-se, surpresas, e a garota assentiu para a sua grande amiga, vagamente.
— Ah sim, eu sei... E daí? É por isso que tá rindo?
A latina balançou a cabeça em negação, e permaneceu rindo. Chatice e provocações eram com ela mesma, não tinha o porquê de Brittany estranhar. Ora, uma coisa a Pierce não conseguia admitir a si mesma, além de todo o resto, Santana possuía a risada mais gostosa de ouvir do mundo, independentemente de suas implicações. Ou seja...
Risos contagiantes, como melodias, para ouvidos exaustos de mesmice.
Mas, essas risadas que a latina expressava ao exterior nem eram as suas mais íntimas manifestações de alegria, longe disso, ainda existia algo muito mais oculto e profundo, que talvez a mesma desconhecesse e, em breve, estaria bem próxima de desenterrar tal “tesourinho” da própria alma. A vida gira em torno de suposições, nunca se sabe.
— Não, eu não estou rindo porque você é uma degustadora lerda, Brittany. Quer dizer, não é diretamente isso, tem outra coisa... Agora, termina o sanduiche logo, vai! Você não está degustando vinhos caros, joia rara. Pensei que você soubesse!
— Hum... É, mas eu podia estar.
A Pierce ficou um momento perdida em suas ponderações, sanduíche entre os dedos, era engraçado, porque ela evitava qualquer tipo de álcool desde o esquecido do farol. Não que tivesse parado de beber, mas, no máximo dois goles? Quando tudo em sua vida passou a girar em torno da morena mesmo? Droga. Não sabia dizer, e tal fato poderia significar diversas coisas, dentre elas: dilemas a caminho.
— Eu também poderia, mas, a realidade é outra, sem vinho! E estamos aqui atrasadas para um clube idiota, por sua culpa.
— Não é idiota, Santana, você sabe. E nem é minha culpa...
— Engole o lanche, Brittany! Não temos o dia todo.
— Tá!
A loira deu uma mordida no sanduiche e percebeu pelo canto dos olhos azuis que a morena ainda estava dando risadas dela, olhou para a líder ao lado, novamente.
— O que foi? Fala logo! Tem alguma coisa errada?
— Que falta de educação, você sempre fala de boca cheia, coração?
— Sempre falo, sim! Eu até me desculparia, mas é mais forte que eu! Entende? – Brittany disse ironicamente, e sorriu quando a outra riu dela. – Você vai me falar ou não? Que difícil você, viu.
— Ok, já que insiste, como eu posso te dizer? Bom, é que você parece uma criança comendo... Desculpa.
— Hã? Como assim?
A Lopez mordeu o lábio inferior empolgada ao ver a confusão nos olhos azuis, sorriu outra vez.
— Você é muito boba, Pierce! Não sei explicar... – Santana virou o rosto em direção aos carros estacionados e suspirou forçadamente, encontrando palavras. – Você come com gosto as coisas, é tão bonitinho e estranho... Eu notei no dia em que a gente se conheceu...
A garota sarcástica começou a sorrir com as lembranças, os olhos castanhos perdidos nos diferentes tons de cores de alguns veículos estacionados no ambiente, e ao mesmo tempo, a loira enfim terminava o seu saboroso lanche.
— Você e aquele sorvete de chocolate, e depois de novo a mesma expressão boba no Breadsticks quando te apresentei o melhor prato da sua vida. E agora tem você e esse x-salada...
— Terminei!
— Que? – Santana mirou os olhos ao lado e não encontrou Brittany, pois a garota havia dado um salto e ido parar perto de uma lixeira à frente, onde se livrava do guardanapo de papel que utilizava para segurar o sanduiche consumido. – Aleluia! Quer um parabéns? Talvez, palmas? Francamente, achei que o mundo ia acabar antes de você terminar.
Santana riu e ergueu-se das escadas, esperando a Pierce subi-las para assim elas irem para dentro da escola.
— Eu adoraria palmas, senhorita. – Brittany respondeu e fez uma reverência. – Cadê? Não estou ouvindo.
— É porque eu mudei de ideia, sem palmas.
— Tá bom. – A loira subiu as escadas encarando olhos castanhos. – Nós estamos quites mesmo, não tem problema nenhum...
— Por que você tá achando isso agora, Britt-Britt? Deve estar delirando. Tomou café, foi? Ou pior?
— Ah, desculpa, eu não mencionei Sant? Enquanto você estava me zoando, eu descobri quão trouxa você estava sendo, porque está com um pedaço de alface enorme, bem verde, parecendo uma horta inteira, preso no meio dos dentes e nem percebeu.
— Mentira... – Santana pronunciou levando as mãos a boca, cobrindo-a, e passou a língua pelos dentes. – Eu sabia!
A loira riu diabolicamente.
— Ah, você foi checar, o que quer dizer que, talvez, não tenha feito isso antes, certo? O que nos leva a minha insinuação Santana, que a propósito, tinha grande probabilidade de ser verdade. Não é?
— Ora, ora, ora, você é super-boa em captar detalhes, hein Sherlock Holmes.
— Você também... Ah, falando nisso, obrigada pelo elogio.
— Que elogio?
— De que eu sou bonitinha comendo e não sei o que...
— Tá bom, Piercezinha, disponha! – A Lopez riu de forma debochada. – Precisamos ir pro clube gay agora, já estamos convertidas demais, a Berry vai adorar.
Pelo caminho, Brittany ficou pensando seriamente sobre o que, de fato, Santana queria dizer com aquela última frase dita. Entretanto, era melhor a loira não pensar tanto sobre tal para não começar a imaginar coisas que não devia, de novo, em relação a uma garota supostamente hétero.
Que coisa!
Quando as duas líderes de torcida chegaram à sala do clube de coral, o professor William Schuester começou a fazer um discurso gigantesco sobre bullying, e só parou quando, a dupla de integrantes do dia, passou a cantar suas músicas escolhidas de Halloween.
(...)
Lucy Quinn Fabray pediu a atenção das outras líderes de torcida, logo quando a última aula iniciou-se, e parou ao centro do ginásio, coluna reta, ambas as mãos na cintura, os olhos verdes passando de garota em garota, de maneira firme e decidida, como uma verdadeira capitã.
— Meninas! Eu pensei nos pontos que a Santana levantou de modo torto semana passada, e...
— Por mais incrível que pareça, pessoal, ela resolveu pensar sobre. Parabéns Quinnie, primeiro passo contra a maré.
As demais adolescentes uniformizadas passaram a rir, Roz as assistia da arquibancada, pacientemente, de boca fechada a pedido de Fabray, que já havia conversado a sós com a mesma. De qualquer forma, a treinadora balançou a cabeça de modo reprovador para as provocações da latina, porém, a Lopez nem se importou em notar.
— Posso terminar de falar ou tá difícil, Lopez? Fecha a boca.
— Hum, parece que voltamos à estaca zero, Barbie. – A morena disse de modo sarcástico e gargalhou. – Uma pena, eu tava começando a gostar um pouco de você... Só um pouco.
Santana sentiu um toque em sua mão, repentinamente, envolvendo-a em um suave aperto, ela o conhecia.
— Vamos ouvir a Quinn, tá? – Brittany pediu e sorriu, sem soltar a mão morena da sua. – Chega de brigar...
— Mas, eu não estava brigando, Pierce, deus!
— Sei...
— Bom, como eu estava dizendo, andei pensando no que a Lopez falou, e comecei a elaborar outros passos de dança sozinha, para usarmos em nossas futuras competições, e até para os jogos dos Titans, portanto, sexta-feira será a última vez que nós vamos dançar aquela coreografia. Ok?
— Amém!
Olhos verdes agora fuzilavam castanhos, Brittany percebeu a tensão no ar e resolveu perguntar a Santana o que havia acontecido, em sussurros.
— Não aconteceu nada. Vai cuidar da sua vida, hipócrita...
— Sejamos sinceras, todo mundo é meio hipócrita, San. Mas, sério, vocês não estavam assim no clube. O que houve?
— Ok suprema-curiosa, é que a gente, como dupla, não concordou com a resposta uma da outra na prova de Literatura.
— Tá, e aí?
— E aí que eu entreguei as minhas respostas, porque obviamente eram as corretas, se ela não gostou paciência.
— A Quinn é muito boa em Literatura, é compreensível que ela tenha se irritado. Vocês duas podiam ter conversado melhor, né? Antes de você simplesmente agir assim.
— Não é fácil conversar com ela, Pierce!
— E nem com você, Lopez.
— É... Você tem toda razão. – Santana disse com a voz carregada de ironia, soltou a mão de Brittany, e caminhou até Fabray. – Hey, capitã! Mostre-nos as “gloriosas” novas coreografias, rápido! Não vamos perder tempo, flor. Varemos se elas são tão boas assim, como você parece dizer.
— Ah, claro. Mas, quem é que vai julgar isso mesmo? Você Satã... Santana?
— Pode ser Quinn... Quem sabe. O que é bom é simplesmente bom, não é necessário tanto julgamento. Entende o que eu quero dizer?
— Você não sabe o quanto, querida. Segura essa!
A loira começou a demonstrar seu novo repertório de danças para as Cheerios, e realmente, as coreografias eram muito boas, a treinadora Washington estava animada de presenciar aquela imagem, Quinn tinha talento, ainda mais quando desafiada por alguém, algo raro de ocorrer em sua rotina, até a chegada de certa latina a Rosefield.
Há pessoas que só acordam para a vida assim, desafiadas e cutucadas por terceiros... Amém a Santana Lopez! Sim?
Aquela latina despertava diversas sensações divergentes nas pessoas que tinham o privilégio de conhecê-la superficialmente ou não, através de sua personalidade petulante e forte. Ela não despertava apenas irritação, como habitualmente, parecia despertar. Diga-se de passagem, era um mar extenso de sentimentos peculiares.
(...)
Ao final da aula de educação física, as Cheerios encontravam-se todas dentro do vestiário feminino mudando suas roupas para irem embora do McKinley, ao pôr do sol. Brittany olhou para Santana e ignorou as coisas que Quinn estava lhe dizendo, naquele lugar, naquele minuto. Os cabelos negros eram divinamente lindos soltos daquela forma, como também quando presos em rabo de cavalo. Ah, o que não era lindo naquela mulher mesmo? Difícil saber.
— Britt, você tá escutando o que eu tô falando? – Fabray indagou em tom de protesto, voz levemente mais elevada que antes, terminou de amarrar os cadarços de seu tênis, e enxergou a outra loira negando, ao seu lado do banco, exatamente como ela imaginou. – Eu, você e os meninos no Breadsticks as oito em ponto, hoje? Sim ou não?
— Ah, claro Quinnie. Mas, você não vai me largar lá com o Sam de novo, né? Por favor.
— Eu nunca fiz isso, Britt.
Brittany encarou Fabray de forma debochada e voltou a olhar para Santana, que se encontrava em frente a elas, trocada, guardando seus pertences no armário.
— Santana, você quer ir com a gente no Breadsticks? – Brittany perguntou, com calma. – Hey...
— Não obrigada. – Ela trancou o armário. – Eu tenho um compromisso... Tchau!
A Lopez deixou o vestiário as pressas, e Brittany correu para trancar o cadeado do armário pessoal, para poder seguir a outra garota, antes que ela sumisse de vista. E isso, com certeza, poderia acontecer.
— Espera!
Santana olhou para trás no corredor, ao ouvir a voz de certa loira e suspirou.
— Você anda rápido demais, hein. Tem poderes ou o que?
Elas riram, e a loira aproximou-se, até elas ficarem há uma distância amigável.
— Já disse que eu gosto Brittany, simples assim.
— É verdade... Bom, érr... Você quer uma carona pra casa? Eu sei que você já melhorou, mas...
— Não vou pra casa da minha avó hoje. Meu pai quer conversar comigo, então preciso ir pra casa dos meus pais.
A Pierce assentiu.
— Entendi... Eu te levo lá.
— Não precisa... Eu quero um tempo pra esfriar a cabeça, são muitas coisas acontecendo. Sabe? E eu sei que eu vou ouvir um monte de chatice quando eu botar os pés em casa, mesmo que a Shelby e o Figgins tenham voltado atrás em relação à suspensão.
— Tudo bem Sant, eu sei enrolar bastante, você sabe, posso dar a volta na cidade inteira se quiser.
A Lopez sorriu quando enxergou certo brilho familiar nos olhos da loira, era o mesmo brilho na profundidade azul que a morena enxergou no dia em que salvou o anjo... Quer dizer, a Pierce no penhasco, e a garota quis levá-la, inesperadamente, para tomar sorvete, a fim de se redimir por cair em cima de Santana, e consequentemente machucar as costas morenas. Pessoas assim eram raridade na nação, mesmo. Elas, as garotas, estavam tão nostálgicas, era o destino fazendo graça de novo ao toque de Outono? Quem sabe... Novembro podia ser pior que o presente Outubro, por causa das chuvas, as lágrimas do céu, o frio das manhãs, ou não.
— Não creio em tanta gentileza... Isso é possível cientificamente falando?
Elas começaram a gargalhar.
— Claro que sim, sou uma joia rara endividada com você. Esqueceu? Ai, ai.
— Tá bom, eu vou com você. Carona é sempre bem-vinda... Ah, antes que eu me esqueça, não venha me dizer depois que eu que começo com as palhaçadas de divida. Viu? Porque você adorou repetir isso o dia inteiro.
— Ok, ok.
Lábios finos abriram um sorriso enorme.
— Brittany! – Quinn chamou/gritou do final do corredor. – Você vai ou não hoje no restaurante?! Preciso de uma confirmação decente!
A Pierce virou para trás e levantou o polegar direito em sinal positivo para a capitã das Cheerios, que assentiu satisfeita e voltou ao vestiário, em seguida. Olhos azuis voltaram nos castanhos.
— Vamos?
— Sim.
(...)
Brittany estacionou o conversível prata à beira da calçada do endereço que Santana havia lhe passado, o caminho era totalmente inverso da casa de Alma Lopez. A loira tirou o cinto de segurança e começou a fitar a morena no banco do passageiro, mas ela não se mexeu para a surpresa de Brittany, também não falou, apenas permaneceu respirando pesadamente com olhos castanhos fixos no porta-luvas em sua frente.
— Chegamos San...
— Você disse que ia enrolar. – A morena falou interrompendo a outra garota. – Eu acreditei em você.
— Era pra dirigir mais devagar que isso? Olha, é meio complicado...
Santana sorriu e encarou olhos azuis ao seu lado.
— Você devia ter feito igual quando come Piercezinha... Slow motion.
— Tá, da próxima vez eu vou mais devagar que isso então. Feliz, senhorita chata?
— Ah, sim... Será que você não foi coagida pelo pop que tava tocando naquela estação de rádio? Você tava dançando e tudo.
— Não estava não. – A loira sentiu as bochechas queimarem, provavelmente já se encontravam explicitamente rosadas e em chamas. – Você não vai entrar?
— Você gosta mesmo de Britney Spears né? Impressionante.
— Eu gosto, inclusive, meu nome é Britney Spears, Santana.
A Lopez gargalhou com o que acabara de ouvir.
— O que? Você tá doida menina?
— Não Santana, é sério!
— “Sério” claro! Me diz o que usou, acho que estou precisando também... Você é tão engraçada.
A loira negou, freneticamente, com a cabeça, as alegações da latina.
— Não, não. Olha, vou explicar, meu nome é Brittany Susan Pierce, e eu normalmente abrevio o “Susan”, o que nos leva a Brittany S. Pierce.
— Susan é? Interessante, dessa parte eu não sabia. – Ela riu de forma maldosa. – Você tem mais um nome pra gente aproveitar, ótimo, Susan...
— Não! Não me chame por esse nome, ok?
— Ué, por quê? O que...
— Porque não, Santana! – Brittany olhou para frente e colocou o cinto de volta. – Boa sorte com o seu pai, até amanhã.
A morena estudou as feições da loira, ela não parecia mais feliz como se encontrava há segundos, agora estava um tanto quanto irritada. O que relacionado ao tal nome teria desencadeado isso? Era melhor deixá-la em paz no momento.
— Até... – Santana despediu-se, deixando o carro.
A adolescente só dirigiu-se para dentro de sua residência quando viu o conversível prata atingir certa distância dali.
(...)
— Hum... – Cesar pronunciou ao passar pela porta da casa e encontrar Santana sentada no sofá, mexendo no celular, ele deixou algumas coisas na mesa de madeira do canto da sala e aproximou-se. – Você veio. Ótimo...
— Claro que eu vim. – Ela rebateu, sem tirar os olhos do aparelho. – Você me “convocou”. Então, sobre o que é a nobre reunião de hoje, Doutor Lopez?
— Antes de começar, eu quero que guarde esse celular. – O homem ordenou sentando-se na poltrona existente ao lado do sofá. – E pare de me chamar de “Doutor Lopez”, Santana. Não seja infantil.
— Ah, vai dizer que você não gosta Cesar? É sua melhor qualidade, não é?
— Guarde essa porcaria de celular, agora!
Santana bufou e levou o aparelho ao bolso de sua calça, encarando o pai em seguida.
— Você já falou com a sua mãe hoje? Ou ficou se escondendo na sala até agora?
— Falei... Ela tá dormindo no momento, se te interessa saber.
— Espero que não tenha a irritado.
— Não irritei, pode ter certeza, eu mal abri a boca, pra felicidade da sua família.
— Não sei o que quis dizer com isso, mas, você também é a minha família.
— Sei...
O homem passou a estalar o pescoço e as mãos, ele estava extremamente cansado fisicamente, até mais que psicologicamente.
— Eu fui avisado que sua suspensão foi retirada... Bom saber que eles pensaram melhor, mas isso não apaga o fato de que você vive causando problemas, Santana. Eu tava conversando com a minha mãe esses dias sobre o que deveríamos fazer com você, pra entender de uma vez, que a vida não é brincadeira...
— Claro que você estava. – Santana debochou e recebeu um olhar reprovador do pai. – Pode continuar.
— Você precisa aprender a crescer e dar valor às coisas! Sua avó conversou com os colegas de trabalho e nós conseguimos que você trabalhe meio período lá no Breadsticks. Você começa o teste de garçonete semana que vem...
— Não obrigada, já acabou?
Cesar limpou a garganta.
— Vou explicar melhor: Isso não é uma escolha garota, é uma obrigação! Entendeu? Você vai sim! Sabia que eu tinha dois empregos quando fazia ensino médio? Pra ir atrás de uma vida melhor fora de Rosefield e para ajudar os meus pais?! Bem diferente de você! Acha que eu teria conseguido sair daqui se ficasse vagabundeando com sabe-se lá quem pela cidade de madrugada ou causando problemas na escola? Isso se você já não fez pior!
— Ah, sim, com certeza já fiz! Posso fazer uma pergunta? Do que adiantou tudo isso? Você voltou pra cá, Cesar. Essa é a realidade.
— Silêncio Santana, por Deus! Você sabe porquê estamos morando aqui...
A garota levantou uma das sobrancelhas, incrédula com as palavras ouvidas, e instantaneamente cruzou os braços.
— Na verdade, eu não sei não. Ninguém parou pra me explicar! Engraçado né?
Cesar assentiu lentamente e juntou às mãos uma na outra, os cotovelos apoiados nos joelhos.
— A cidade está crescendo, e as oportunidades de emprego, cada vez melhores, o que significa que o salário é ótimo. Ainda mais no ramo medicinal, porque aqui na cidade, a qualidade da faculdade de medicina é degradante, sem estrutura alguma desde muito tempo, é triste de ver. Então, a maioria dos médicos prefere se formar em outros estados e nunca mais voltam, e os que sobram aqui são profissionais incapazes, ruins, péssimos... Se... S-Se eles tivessem descoberto o problema do seu avô antes, talvez... Talvez ele... Ele... – Cesar balançou a cabeça como se negasse algo a si mesmo, violentamente, e levantou da poltrona, limpando a garganta novamente. – Bom... Você vai trabalhar no Breadsticks após as aulas, entendido Santana? É só o que eu tinha pra dizer. Se informe melhor com a sua avó. Boa noite.
O homem deixou a sala rapidamente e foi até o banheiro, e quando menos percebeu, seus olhos estavam lotados de lágrimas, porta trancada, ele apoiou-se sobre a pia branca e sentiu gotas rápidas escorrerem pelo rosto, Cesar não sabia o que sentia, provavelmente, algo relacionado a estresse, luto, insatisfação e derivados, além de raiva, muita raiva.
(...)
No dia seguinte, Santana acordou de seu sono, em seu quarto na casa de sua avó, ou seja, sua verdadeira casa para qual voltou quando terminou de “conversar” com o pai, novamente, com o toque de seu celular. Ora, quem seria a alma audaciosa que estaria ligando para a garota às seis da manhã? Uma falta de consideração e do que fazer, só podia ser.
A pessoa conheceria a Snixx de Lima Heights Adjacent, a pior versão de Santana Lopez. Ela iria pagar!
A morena alcançou o celular sem vontade alguma e encarou o nome no visor: Brittany. Ok, ela podia ignorar um pouco sua falta de vontade de atender a ligação e sua irritação de despertar, por enquanto, apenas porque inexplicavelmente gostava da presença da loira desde o primeiro dia em que a conheceu.
— Bom dia, Santana!
A Lopez fechou os olhos e suspirou, estava muito cedo, quem era feliz assim antes das sete da manhã? Ou melhor, quem era feliz assim antes das oito, nove, ou dez da manhã? Bizarro. Uma coisa era Brittany ligar no dia anterior perguntando sobre o seu olho, outra coisa era ela ligar mais cedo ainda, para falar sabe-se lá o que, tão animada como parecia estar, o que não era de todo ruim, já que significava que aquela irritação abrupta por causa do nome “Susan” havia sido de curta duração. Estava tudo bem, em partes.
— Posso te fazer uma perguntinha, coração? Antes de qualquer coisa. – Ela ouviu Brittany confirmar do outro lado da linha, continuamente. – Que horas você acorda?
— Cinco e dez, por ai... Eu durmo cedo. Pelo menos, nos últimos dias.
— Tem gente que não dorme. Enfim... Bom dia Britt-Britt, o que você quer?
— Como foi a conversa com o seu pai?
— Ah, melhor do que eu imaginava. Aparentemente, agora, eu tenho um emprego.
— Ah é? Legal, do que?
— Eu falo depois. Mais alguma coisa ou eu posso voltar a dormir? Você atrapalhou meus sonhos, eu só acordo as sete.
— Voltar a dormir? Nem pensar! Me desculpa pelos sonhos interrompidos, mas, você tá me devendo companhia naquele café da manhã, que ia te convidar na manhã passada, e que só aumentou os créditos pelo fato de você não ter ido ao Breadsticks comigo e com o pessoal na noite de ontem...
— O que? – A latina sorriu. – Pra que eu tinha que sair com seus amigos e você? Pra te ajudar a fugir do boca-de-peixe de novo? Eu passo! A propósito, você nem me contou a resolução dessa história, você deu um fora nele, ou o que?
— Eu falei que só quero amizade na terça-feira, antes de você ser acertada pela raspadinha, ou durante, sei lá.
— E ele?
— Ah, não sei direito, mas quando a gente jantou ontem tava tudo normal, eu acho. Mas, voltando ao assunto, você não tem nada te impedindo de aceitar a minha proposta agora, então, vamos lá. Antes que...
— Wow, wow, muita informação pro meu cérebro em estado sonâmbulo! Já olhou pro relógio? – Santana avisou e riu com o silêncio. – Eu aceito sim, porém, tem uma condição.
— Que bom! Diga.
— Quando eu vou poder voltar a dirigir seu conversível de burguesa? Saudades! – Elas riram juntas na ligação. – Só aceito, se eu tiver a garantia que isso voltará a ocorrer, e que não seja por você estar passando mal...
— Que interesseira! Eu sempre soube. – A loira falou em meio a risadas. – Quando você quiser Sant-Sant. Bom, estou saindo de casa agora, me encontre no estacionamento do Breadsticks, vou te esperar lá. Até!
— Combinado.
(...)
— Tudo bem, o que você vai pedir?
Brittany e Santana encontravam-se frente a frente, numa das mesas do Breadsticks, em roupas casuais há alguns minutos. De vez em quando, elas se trajavam com os uniformes das Cheerios, durante alguma troca de aula, sempre antes do intervalo para o almoço, no caso, fariam isso naquela quinta-feira, mas, normalmente, iam para o McKinley direto de vermelho.
— Ué, pra que você quer saber agora? Espera eu pedir e veja.
— Só que eu não quero esperar, Santana. Fala logo!
A morena tirou os olhos do cardápio e o pousou na mesa, cruzando os dedos em sua frente, depois. Passou a enxergar olhos azuis sem paciência, era tão divertido vê-los daquela maneira, sorriu.
— E o que você vai pedir, coração? Vou deixar que fale primeiro.
Brittany revirou os olhos, e riu.
— Então, estou em dúvida hoje. Eu acho que já provei todos os pratos da Alma... Por isso queria saber o que você vai pedir.
— Sério? – A latina perguntou sorrindo, recebendo uma confirmação da loira, de imediato. – Nesse caso, eu tenho uma ideia. Já que eu posso estar em dúvida sobre isso também...
— Ah, você “pode” estar?
— Sim. – Santana confirmou e riu, buscando o cardápio de volta. – O jogo funciona assim, você escolhe o que eu vou comer, e eu escolho o que você vai comer. Ok?
— Parece perigoso...
— Parece? E por quê?
Olhos azuis encararam aquele menu que tampava o rosto da Lopez, era engraçado e estranho conversar assim. Olá imagem de macarrão ao molho e almôndegas! Tu és bela. A loira sentia que estava dialogando com os alimentos photoshopados da capa, ela queria rir por isso. Será que se aquele macarrão pudesse falar, em um universo paralelo onde os Unicórnios existem, ele teria a voz de Santana? A garota, infelizmente, nunca saberia.
— Perigoso, porque você pode ser alérgica a alguma coisa, Santana.
— Ah, simples de resolver. Não sou alérgica a nada. Você é?
A Pierce negou.
— Perfeito, você não pode barrar a brincadeira.
— Bom... – A loira alcançou o outro cardápio. – Você come os pratos de outros cozinheiros que não sejam sua avó aqui? Ou não?
— Claro que como! Mas, a gente sabe que ela é a melhor.
— Com certeza.
— Porém, cuidado... – Santana disse abaixando o cardápio. – Com o que você vai escolher pra mim.
— Está me ameaçando?
— Não... Imagina.
Brittany abaixou o cardápio também, e sorriu.
— Já fiz a minha escolha, Sant.
— Eu também Britt-Britt, que os jogos comecem.
(...)
Spencer Porter deixava o corredor, com seus amigos ao lado de si, quando enxergou certa garota entrando na instituição de ensino, acompanhada de uma loira, encarou-as com olhos de fúria, seus lábios em um bico nervoso, e o nariz coberto por curativos.
— Não pense que eu não sei o que você fez. – O garoto disse quase apontando o dedo na cara da latina.
— Vai chorar? – Santana indagou de maneira irônica. – Ah, “perdão”.
— O que você quer? – A Pierce perguntou à Spencer.
O loiro, rapidamente, sentiu a colega nadadora, ao seu lado direito, lhe apertar o seu braço, para eles saírem, o Porter mudou seu foco antes de partir, e sorriu de forma cínica, trocando olhares entre ambas, a cada segundo.
— Parece que é só ligar para o papai que tudo fica bem. Certo?
Ele saiu. Brittany arqueou as sobrancelhas e parou em frente ao armário de Santana, com ela, em seguida.
— Lopez! – Puck chamou. – Você quer me passar as suas respostas de história? Oi Pierce!
A garota mais alta não respondeu, pois encontrava-se incomodada demais com os olhares que recebia dos outros adolescestes que, aparentemente, intercalavam os olhares entre ela e o celular, e sorriam maldosamente. De novo não. Ela respirou fundo.
— Não sei se estou a fim de te emprestar alguma coisa, Puck. Arrume outra “fonte de conhecimento”.
Eles riram juntos.
— Ah, qual é, Santana! Eu esqueci!
— Como sempre.
— Britt! Achei você. – Quinn esperneou agarrando o braço da loira/estátua e a afastando de Santana e Noah, que se despediram com acenos. – Seu pai está nas “noticias” da internet, de novo.
— É sério?
— Sim! Postaram no fórum dos estudantes do McKinley, fotos e vídeos do seu pai com você e a Santana aqui ontem. Olha só!
Fabray entregou o celular branco nas mãos da Pierce.
“E é assim que a riquinha Pierce resolve o problema dos amigos (A), chamando o paizinho dela na escola, estilo ensino fundamental. Segue o anexo (clique aqui para baixar) O que mais ela pode comprar da cidade? Cuidem de suas almas, pessoal!”
— Quem postou isso, Quinn?
— Não sei, está em anônimo. E as fofocas correm soltas, você sabe.
— Hey Brittany Pierce, vamos ser amigos? – David Karofsky perguntou, ao perambular pelo corredor com outros jogadores de futebol, todos eles riram em coro. – Tô querendo me livrar de uns problemas também! Cadê a propina?
— Sai fora, Karofsky! – Quinn disse, franzindo as sobrancelhas. – Jesus... Sai do passado cara!
Brittany sentiu-se um pouco perturbada de ouvir o ex-namorado direcionar a palavra a ela, pois, desde que David e Puck brigaram, no dia do esquecido do farol, a loira evitava o garoto por todos os lugares aonde ia. Eles não haviam conversado sobre um real término desde antes das férias, porque, era claro que aquilo não era um namoro de verdade e estava terminado desde o instante em que se iniciou.
O grande motivo para Brittany deixar o Francês por Espanhol, a propósito, era o garoto, ela não suportava a presença dele, os olhares dele, a voz dele, nada. Aquele relacionamento lembrava-a de momentos ruins e confusos em Rosefield. Então, fez questão de montar um horário que não esbarrasse de forma alguma com o infeliz pela escola, e agora ele teve a ousadia de falar com ela.
— Daqui a pouco eles param, os professores vão abrir o fórum alguma hora e apagar. Não se preocupa.
— É... Mas até lá, como você disse Quinn, as fofocas correm soltas.
— Sinto muito... – Ela passou a mão no ombro da amiga. – Vamos pra aula, Britt?
A outra loira assentiu chateadamente.
(...)
Mais tarde aquele dia, Santana, Brittany, Sam, Quinn e Finn, chegaram ao clube do coral, para o terceiro dia deles ali. Tal fato, não poderia ser considerado “rotina” ainda, na vida dos mesmos, devido ao pouquíssimo tempo passado com aquelas outras pessoas do clube, entretanto, havia algo que eles não podiam negar a si mesmos, estar fazendo parte daquilo, do clube em si, trazia certo grau de paz de espírito, eram momentos legais e divertidos trocados por aquelas diversas pessoas, que muitas vezes, eram excluídas e “bulinadas” de alguma forma, mesmo que oculta, pelos atletas.
Sim, momentos divertidos, por mais que o tema da semana tratasse-se de Halloween. Santana inclinou-se para cochichar algo à Brittany, quando as mesmas, achavam-se sentadas nas cadeiras de plástico da sala musical.
— Pierce, o que você achou da Mercedes e da apresentação dela?
— Achei a Mercedes incrível. Como todos aqui, fantásticos...
— Ela é de longe a melhor de todo o clube gay! Mas, se eu falar isso é capaz da Berry ficar triste, ela se acha uma estrela, você tinha quer ver quando ela não cala a boca sobre a Broadway, enfim... Ah, dane-se ela. – Santana ameaçou de levantar-se da cadeira, mas, a loira segurou sua mão. – O que...
— Santana, posso te pedir uma coisa?
— Depende... Que foi?
— Não me chame por Pierce mais.
— De novo Brittany? O que tá...
— Por favor, só... Não me chame de Pierce. Tá bom?
— Tá bom. – A Lopez confirmou desconfiada e sentiu a mão fina soltar a sua, assim, ela resolveu ir falar com a melhor cantora do clube, que se localizava em uma rodinha de pessoas junto ao orientador Will, conversando no canto frontal da sala. – Com licença.
Os outros adolescentes deram passagem à líder de torcida.
— Bom, eu não tenho o costume ridículo de sair elogiando ninguém por ai, nem nada... Mas, tenho que dizer que você é maravilhosa, garota! A melhor de todas.
— Santana, não existe esse tipo de classificações aqui. – O senhor Schuester corrigiu-a. – Todos são iguais, com talentos diferentes.
— Eu achei que eu fosse a melhor. – A Berry murmurou descontente com a conversa. – Senhor Schue...
Mercedes esticou o braço no ar, mandando Rachel calar-se, com o gesto.
— Calma gente, me deixa ouvir o que a Santana está querendo dizer.
A morena observou os outros ao entorno, e percebeu a atenção que recebia.
— Ah, eu já disse tudo que eu queria dizer, ou seja, sua voz é maravilhosa. A melhor, aliás.
A garota mais nova sorriu.
— Obrigada, é ótimo saber que alguém valoriza a minha voz, assim.
— E como valorizo!
Elas riram simpaticamente.
— Mercedes Jones, né?
— Sim, isso mesmo. E você Santana Lopez, certo?
— Afirmativo! – O sinal tocou, interrompendo-as. – Enfim, boa sorte, menina.
Rachel Berry, claramente, não apreciou muito assistir sua parceira de Química declarar tal coisa a sua mais forte oponente de canto do clube de coral.
E Outubro se aproximava do fim.
Fale com o autor